Os carnavais da Jardineira

Foi a música de todos os meus carnavais

Vem jardineira
Vem meu amor
Não fique triste
Que este mundo é todo teu

Escreve o poeta Nei Duclós: A Jardineira é música popular, de autoria anônima, recolhida no interior da Bahia por Humberto Porto, que a adaptou junto com o flautista, saxofonista e compositor Benedito Lacerda, para ser lançada em 1938 por Orlando Silva.

Porto morreu com 35 anos e Lacerda com 55.

Benedito Lacerda, como Luis Antonio, é um dos grandes compositores brasileiros saído das Forças Armadas. Na banda da corporação começou tocando bumbo porque não sabia música. Mas estudou e virou parceiro de Pixinguinha. Coisas do Brasil soberano da era Vargas, quando éramos um país. Hoje parece que colocam trocentos alto falantes tocando funk nas praças. Bleargh

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DA ARTE DE ESCREVER

SIMPLICIDADE COM SOFISTICAÇÃO

No meu livro “A Preparação do Escritor” defendo a ideia de que é preciso escrever com sofisticação – recorrendo a variadas técnicas- mas o texto precisa chegar ao leitor com o máximo de simplicidade.Ou seja, o máximo de sofisticação para o máximo de simplicidade. Tudo parece simples e fácil, mas não é. Encontro agora em Nabokov um texto que examina a questão e que justifca-a:” Simplicidade é pura conversa fiada.Nenhum grande escritor é simples. A linguagem jornalística é simples. Mamãe é simples.Condensações são simples. Mas autores da estirpe de Tolstói e Melville nunca são simples.” Raimundo Carrero

A VAIDADE DO ÓBVIO

Impressionante a vaidade de quem diz o óbvio e é celebrado em sua mesmice. Ou você dá um passo à frente no que te ocorre no bate pronto, ou fica esse círculo pesado de falsa produção de pensamento. O que vemos é a defasagem das análises em relação à riqueza dos acontecimentos e criações. É frustrante, para quem ousa fazer algo contundente e importante, receber em troca o silêncio ou então a mesmice. Ou assistir ao impávido espetáculo do já sabido, embalado como grande coisa.

Noto o esgar pomposo de quem diz coisas, normalmente num tom cool, descontraído, falsamente gaguejante para atrair simpatia, como se fôssemos uma humanidade de prejudicados. Diga a que veio de maneira direta, clara e precisa, ou invente sua linguagem apostando na própria radicalidade. Senão seremos todos reféns de ídolos de barro, comerciantes da vilania com fama de grande arte. Nei Duclós

ESCREVER COM ALEGRIA

O escritor deve escrever, sempre, com alegria. Isso não quer dizer que tudo o quanto escreva deva ser róseo, “feliz” (não daquela felicidade genuína e concreta, mas da adocicada e enjoativa, que costumamos chamar de “água com açúcar”). Esta, artificial e falsa, não existe. É logo desmascarada face à realidade. Aliás, essa opinião, que obviamente compartilho, nem mesmo é minha. Tomei-a emprestada de Jorge Luís Borges, cuja literatura influenciou o meu modo de encarar essa atividade que tanto amo e que, por amar tanto, não raro lhe devoto ódio mortal (à atividade e não ao meu “guru”).

Sinto-me escritor o tempo todo, em casa, quando resolvo os problemas domésticos da família, no trabalho na redação do jornal, nas reuniões sociais, nos momentos de lazer, quando estou no estádio da Ponte Preta torcendo pelo meu time de coração. Sem exagero, vivo, o tempo todo, como escritor. Se bom ou ruim, não me compete julgar. Até porque, eu não teria a isenção necessária para isso. Ou seria complacente em demasia com minhas falhas e contradições. Ora seria sumamente rigoroso a ponto de destruir toda a minha produção. Deixo, pois, o julgamento a esse juiz implacável (que às vezes considero injusto) dos meus textos: o leitorPedro J. Bondaczuk

UMA ESPÉCIE DE DANAÇÃO

Essa questão de “para quem” a gente escreve – frequentemente colocada, nos últimos anos – para mim é uma falsa questão, porque eu sou daqueles que acreditam no ato de escrever (ou de pintar, de esculpir, compor etc.) como resposta a uma pulsão profunda. Na verdade, uma espécie de “danação” que impele os espíritos mais atormentados pelos caminhos da arte, em busca de resposta a perguntas – que (eu concordo) estão sendo pouco a pouco “abolidas” – tipo “quem somos?, para onde vamos?” etc. Fernando Monteiro

O romance oculto [“Os Corações Furistas” no porão da ditadura]

O romance oculto bate na cela

 

Urariano Mota

Urariano Mota

 

por Nei Duclós

A literatura é uma luz sobre os próprios limites. Não os limites do escritor, mas a da arte que não faz concessões, que não se dá ao luxo das aparências, e é trabalhada longe do que sustenta uma criatura, os sentimentos, especialmente a piedade. É a única forma de não trair sua matéria-prima, o humano em queda, a maldição do existir que leva sempre a um único desenlace. Produzir literatura é assumir a consciência de que a humanidade, à qual se dedica, não é um jogo de armar que pode ser recomposto pela palavra. É o que nos diz Urariano Mota em Os Corações Futuristas, um romance lançado em 1999 no Recife pela Editora Bagaço e que obteve pouca repercussão.

 

corações

 

Como a crítica ainda não se manifestou, deixando assim espaço livre para uma análise que, por força das circunstâncias, não possui ainda espaço de interlocução com seus pares, arrisco dizer que este é o mais importante romance dos últimos vinte anos. O período não é escolhido para fazer sombra a autores consagrados, com obras igualmente significativas, mas para caracterizar o confronto desta obra com as artimanhas do sistema que hoje nos rege (com reflexos pesados na exclusão de autores). Pois os princípios instaurados pelo regime de 1964 (endividamento externo crescente, alinhamento total aos EUA, concentração de renda, manipulação da opinião pública e aumento explosivo da miséria e da violência) foram vitoriosos pelas armas entre 1969 e 1973 (período a que se refere a maior parte do romance) e estabeleceram-se, a partir de 1985, como instituição, legitimada por todas as correntes políticas.

 

O romance de Urariano, com uma trama que se estende até o final do século passado, é um dos livros que nos lembram o quanto ainda vivemos sob o tacão do autoritarismo, disfarçado agora numa representação, a democracia, que foi exigida nas ruas, mas serviu apenas de pretexto para o continuísmo. Diante de tão completa derrota, a literatura volta-se para a porta da caverna o-nde reside. Lá, procura vislumbrar o clarão filtrado pelo tempo, que poderá dar alguma pista sobre o que realmente acontece no Brasil agora destruído na armadilha o-nde foi apanhado. Estamos presos, mas algo raspa a parede da cela pelo lado de fora. Antes de nos dar esperança, esse ruído nos avisa o-nde estamos e nos pergunta por que continuamos confinados.

 

Por que Os Corações Futuristas é importante?

Longe das comparações entre talentos ou protagonistas literários, Urariano Mota assume seu posto de autor pelo mergulho (por ter escolhido o mais alto penhasco de o-nde se atira), pelo vôo (porque instaura a morada completa, ética e filosófica, de personalidades condenadas ao esquecimento) e pelo fôlego (por encontrar oxigênio no sufoco que permanece). Faz isso sem jamais pagar o tributo ao anedótico, ou ao regional ou mesmo à nacionalidade (porque é de outra têmpera o fogo de que se alimenta), tentações a que os escritores brasileiros costumam deixar-se levar para romper o cerco da condenação do ofício. Urariano não se deixa enlear pela História (esse fragmento nobre da Memória), nem pelo espetáculo (as baladas do leitor em busca de enredos fáceis), nem pelo circo de vaidades (o autor sendo festejado pelo que aparenta). Ele procura outro caminho, mais árduo, ao resgatar a missão fundadora da literatura. Não é outro o motivo de se apontar o narrador do livro como o personagem mais poderoso, já que tem a exata noção de que não pode servir-se dos seres criados (Samuel, João, Carlos, Canhoto, Vevê) como se fossem uma pizza. Esse fundamento não se entrega à mediunidade, o deixar-se levar pelas caricaturas e pelas cenas que saltam aos olhos de um escriba quando ele se mete a estocar as feridas do tempo.

 

Urariano não finge que não é um criador, que está apenas contando uma história. Ele posta-se no lugar sagrado a que aspirou, o de reger (para demonstrar que não existe partitura ignóbil quando escolhemos o humano, seja ele de o-nde for), o de construir (porque a arquitetura não é uma força da natureza, mas uma racionalidade) e o de desvelar (com o olhar cru do gado morto que, depois de perder a carcaça, mantém-se aceso como um fogo fátuo). Ele sabia o-nde estava se metendo, mas não tinha outra escolha. A ética é a pior das condenações. A ela o escritor de verdade submete-se e em seus braços frios entrega a sua vida.

 

AÇÃO – Vamos pegar a mais doce das armadilhas da literatura, a ação. O que chamam de ação é uma fuga pela porta dos fundos (e talvez seja por isso que há sempre tiroteio nas cozinhas nos filmes descartáveis). No lugar de ação, Urariano prefere relatar a condenação. Os jovens na faixa dos vinte anos na ditadura Médici estão condenados pelo que são (pobres, mulatos, negros), vivem (desemprego, exclusão social e econômica), mas não pela sua essência. O tutano de cada personagem, entretanto, não são suas leituras ou músicas favoritas. Mas sim a interação que fazem entre si, apesar das conversas datadas. Importa o que eles realmente sugerem ao narrador, que tateia o tempo todo (e que nessa pesquisa deixa um lastro luminoso para o leitor). A reflexão dos personagens em seus debates obedece à ética do autor: não podem deixar de ser superficiais num primeiro momento, mas tornam-se instrumentos para o que vai sendo aos poucos dilacerado no decorrer do livro. Quando já não existe mais perspectiva de refresco para a roda-viva o-nde estão todos metidos, o romance chega ao núcleo do drama. No pipocar das primeiras execuções, estampadas nos jornais, a segunda parte do livro insurge-se contra o canto de sereia da primeira parte.

 

ORIGEM – A execução da menina que se declarava subversiva e do garoto que fazia o V da vitória para sentinelas armados, são a pólvora por o-nde se incendeia a obra. Não é ação, é impacto de bala. Não existe movimento quando já houve o desfecho. Não existe fuga se você perdeu a guerra dentro do seu coração. Não há saída quando a luz da entrada da caverna é puro veneno. A ação não se impõe pelo evento, mas pela constatação. Somos então responsáveis pela morte desses meninos, nós, os que não lutamos o suficiente e que continuamos de mãos amarradas? Construíram em nome deles toda uma gigantesca mentira feita de indenizações e palavras ocas como liberdade. Não há liberdade se você foi à luta mas voltou para jantar. Nem se você foi para o exílio e foi anistiado para apertar a mão dos tiranos. Ainda pulsa a vida que poderia ter sido e ela está em nós, como um cão feroz de olho na presa. Ao escritor cabe abraçar o que foi jogado fora, recuperar pela linguagem o que os tiros aniquilaram. Urariano foi tão fundo que não por acaso reencontra o fundador da língua na sua busca. Não que preste homenagem a Camões, mas traz dele os poemas que instauram esse clima de perdição e luta diante do mesmo destino que afoga os meninos torturados e mortos.

 

Mais uma vez, Urariano se mantém no fio afiado da ética. É com essa língua herdada, que traz na origem o peso da maldição de estar vivo, que ele fala de Brasil e de Pernambuco. Mas nem por isso pode ser considerado um escritor confinado às fronteiras da nação, nem identificado de maneira ortodoxa com sua Recife, que neste romance salta aos olhos como um dragão vomitado pelas águas do rio. O escritor pertence a outro território. Nele, extrai o que nos incomoda, mas ao mesmo tempo pode nos salvar, desde que não viremos as costas para ele, nem o tratemos com o desdém dos fracos, os que não se entregam aos contemporâneos por preguiça ou vaidade. Ler Os Corações Futuristas é entender o que a literatura é capaz de fazer, neste tempo em que ela parecia perdida, como alguém muito querido que sai de nossas mãos e é levado pela correnteza.

 

 

Visões d’amor (frases, poesia e música) 1

O espelho, por Fairfield Porter

O espelho, por Fairfield Porter

 

Só depois que a tecnologia inventou o telefone, o telégrafo, a televisão, a internet, foi que se descobriu que o problema de comunicação mais sério era o de perto.
Millôr Fernandes

Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento.
Clarice Lispector

Temos a mania de achar que amor é algo que se busca. Buscamos o amor nos bares, na internet, nas paradas de ônibus. Como num jogo de esconde-esconde, procuramos pelo amor que está oculto dentro das boates, nas salas de aula, nas platéias dos teatros. Ele certamente está por ali, você quase pode sentir seu cheiro, precisa apenas descobri-lo e agarrá-lo o mais rápido possível, pois só o amor constrói, só o amor salva, só o amor traz felicidade.
Martha Medeiros

Equação do amor

Fico pensando o que é amor.
Como se fosse algo definível.
Façamos uma equação, uma fórmula:
amor é isso mais isso mais isso.
E, provavelmente, menos um milhão de aquilos.
Amor é mensurável em quilos.
Amor é bebido em litros.
Amor é vendido em liras.
É cantado em versos líricos.
Mas eu queria despi-lo de todo o idealismo
de toda a magia que os poetas
– sempre culpados! – construíram.
Queria ser capaz de pensá-lo
e senti-lo
com a praticidade e a realidade
dos velhos ou de novelas tolstoianas.
Negando o poema, eu queria amar.
Render-me à escravidão dos meus medos
(ou meus medos da escravidão)
e sentir por um instante a certeza
(absoluta, plena, sublime)
de que todo o meu organismo
a corrente sangüínea, as trocas de gases,
os ácidos gástricos, as sínteses protéicas
formando memórias
alimenta-se de um combustível
quase sobrenatural
e inegavelmente perene
que pode ter muitos nomes
fundidos em si, despersonalizando-o,
mas que nomeia-se, respeitosamente,
Amor.
Eu queria ter essa certeza
(suspendam-se as certezas!),
para ter a tranqüilidade
acima de todos os tempos verbais.
No entanto (é bom dizer),
talvez a dúvida seja
mais próxima do que seria o amor
se ele existisse.
Porque enche-o de vida.
Porque dizer eu-te-amo é banal,
é vazio – é o que todos fazem
Poetas ou não.
Amar com a sinceridade da dúvida
com a dor da incompreensão
e com a ambigüidade do ceticismo
é muito mais real.
Mais próximo de todos os deuses.
Cristina Moreno de Castro

O vermelho é a cor mais encarnada

Pode tirar meus sapatos, amor:
o frio já vem em vindo.
Nina Rizzi

saudade

MINHA ALEGRIA É TUA PELE LISA

Minha alegria é tua pele lisa
deslizar nela arranca gritos
de um prazer que estava ao desabrigo

Tropecei em muita carne morta e triste
antes de pôr a mão no teu seio
e minha doce água envolver-te

Um poema, por mais belo, não chega
onde aportamos, nus em pelo
com fogo nos olhos e línguas livres
a sentir o gosto salgado do amor

Por isso calo num gemido
e te derrubo com meus braços finos
Nei Duclós

O PACTO SAGRADO

Nem sob tortura
ou em juízo
podes violar
o sagrado pacto
do silêncio

Rasga o diário
mesmo que escrevas
em linguagem cifrada
coisas sem importância
como fez Beatrix Potter
por hábito e exercício

Nenhum lugar
é propício
para manifestar
uma jura de amor
Não esqueças
o divã dos psicanalistas
o confessionário
o auto-de-fé
convincentes armadilhas
dos atiradores de pedras

Certos segredos
incertos desejos
devem permanecer
bem trancados
a sete chaves
as chaves jogadas
no rio Jordão
Talis Andrade

THAÍS

Thaís, eu fiz tudo pra você gostar de mim
Ô, meu bem, não faz assim comigo não
Você tem, você tem que me dar seu coração

Meu amor, não posso esquecer
Se dá alegria faz também sofrer
A minha vida foi sempre assim
Só chorando as mágoas que não têm fim

Essa história de gostar de alguém
Já é mania que as pessoas têm
Se me ajudasse Nosso Senhor
Eu não pensaria mais no amor
Joubert de Carvalho

[Troquei o Ta-Hí da composição por Thaís
fica mais assim… Escute cantado por Nara Leão]

Um poema de Cecília Meireles

Cecília Meireles

 

 

 

OU ISTO OU AQUILO

Ou se tem chuva e não se tem sol,
ou se tem sol e não se tem chuva!
Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!
Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.
É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo nos dois lugares!
Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.
Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo…
e vivo escolhendo o dia inteiro!
Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranqüilo.
Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.

 

—-

Seleta de Nei Duclós

Te pego na curva, com teu vestido. Toda de versos tecida

SIGA O VERSO

por Nei Duclós

nei

Siga o verso que te atinge. Nascido em qualquer fonte, em qualquer dia.
Não são versos nem frases. É só o amor aprendendo a falar.
Navego em teu arrepio a distância. É como se fôssemos grude num barco em movimento.
Olhando em torno, não vejo mais ninguém. A não ser o encontro que ainda não marcamos.
Venho a campo com bandeira. Nela escrevi teu poema.
Ponho na janela os versos que são para ti. Depois mostro a origem, teu rosto em meu espírito.
Me deixas só, depois da leitura. Volto à origem, minha fantasia
Te vejo no colo de alguém. Não consigo te perdoar, abraço de nenhum lugar.
Estavas de tocaia na paisagem deserta. Pisei na flor por acaso. Mas ela grudou na roupa com seu poder de perfume. Agora durmo ouvindo o arrulho que me sopras, ferida.
Toda essa boniteza mela o poema
Leitura muda que vibra. Mexes em redemoinho sobre o poema.
Cama dividida entre acordos precários. Gritas quando atinjo o alvo.
Teu perfil de horizonte exibe colinas de glória. Percorro cada milímetro do que teces no mistério.
Sentes que estamos no mesmo barco, algodão doce em mar sem memória. Juntos agora, na eternidade.
Nada faz sentido, mas que importa? Ouço teus guizos, por pura sorte.
Corpo é o que adivinhas quando me jogo nas nuvens. Sentes o impacto do granizo produzido pelo destino.
Nasci no fim do inverno, quando florescias a distância. Te encontrei tardia, estrela Dalva.
Nada importa, apenas nossa sintonia. O carinho e tua graça.Lindaça.

ESTUDEI VOCÊ

Extraí a crua beleza de grutas ocultas além das montanhas. Quis te mostrar, mas me vi em andrajos, com o corpo entregue entre espinhos. Me enviaste a chuva, flor inverossímel, porque me viste pelo espelho que tens entre as palavras.
Fiz canções desarrumadas, que canto nos intervalos do silêncio cultivado em jardins suspensos Seio que me escutas, fada.
Cruzei muitas vidas sem encontrar água. Me transformei nas pedras da paisagem. Mas vieste de trem, em plena alvorada.
Comecei uma nova série de trabalhos no ateliê de barro. Faltou alma para algumas esculturas, pássaros que te acompanham e ainda não abriram as asas. Mas teu rosto está pronto, marcado em meu coração de palha.
Estudei você. Mas não me sinto preparado. Acho que repito de ano, matéria de sonho.

ESTROFES

Não precisas de amor
porque tens de sobra
Mas assim mesmo te amo
porque esta é a obra

Pareces de trança, em foto antiga.
Mas são só sardas, em imagens vivas.
Te pego na curva, com teu vestido.
Toda de versos tecida

FRIEZA

Tua frieza não me incomoda mais. Estou livre desse compromisso. Que alívio.
Acumulei tempo, desperdicei vida. Deixei rastro, a poesia.
Digo o que os espíritos me sopram. Qualquer coisa, cobre deles.
Ser marginalizado é um status. É uma maneira cult de ser incluído. Mas ser marginalizado mesmo, sem essa pose, é não dispor de espaço nenhum
Ser ignorado é quando não te incluem nem entre os ignorados.
Impiedade é teu passatempo. Ignoras por esporte. Jogas pesado, sorrindo.

Poesia é liberdade. Inclui a liberdade de não ser poesia?

a amada

FOTOGRAFIAS:

Nei Duclós

+ imagem enviada por Marga Cendon