Independência ou morte

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“Até no inferno!”

Contribuição de leitora do Blog da KikaCastro

O texto abaixo foi enviado pela leitora Sue Amado, professora de inglês de 49 anos de idade. Ela é nascida na Guiné-Bissau, país da África Ocidental, e hoje mora em Tomar, cidade do distrito de Santarém, em Portugal (Fiquei muito feliz ao saber que este blog é lido de tão longe!). Ela já tem quatro livros publicados e, neste ano, vai publicar mais um, já em fase de revisão. Quem gostar de seu estilo pode ler outros contos dela em seu blog.

Você também quer enviar um texto para o blog? CLIQUE AQUI e compartilhe comigo! Pode ser conto, crônica, poema, reportagem, resenha (de filme, livro, CD, show, restaurante…), artigo de opinião, divagações etc. Vou avaliar e, a menos que não tenha nada a ver com a proposta do blog (seja um conto erótico, por exemplo), seu trabalho será publicado aqui nesta categoria dos textos enviados por leitores.

Agora, vamos ao conto da Sue:

Quadro “Der Kuss” (O Beijo), de Gustav Klimt, feito entre 1907-1908.

Quadro “Der Kuss” (O Beijo), de Gustav Klimt, feito entre 1907-1908.

“Sempre disse que daria tudo para ter quem me seguisse, quem não soubesse viver se eu não estivesse por perto, alguém que sentisse as minhas palavras, tão fundo, que todas as outras fossem apenas o que se precisa de usar para nos juntarmos ao resto do mundo. Daria tudo para saber de quem pousasse um olhar fixo em mim, e que conseguisse auscultar-me por dentro. Um corpo no qual me encostasse para que todas as dores do mundo se subtraíssem, ter quem planeasse ver-me, nos mesmos lugares, até que os nossos corpos se recusassem obedecer-nos, mas que deixasse de importar, porque estaríamos a envelhecer juntos.

Gostava de poder mostrar, sentir e viver, um amor que me fizesse mergulhar nos mesmos mares dos quais tenho medo de morte, talvez por já ter morrido em algum, um amor que me levasse a perdoar cada falha, com receio de falhar também eu, e a ponto de perder quem realmente importasse.

Gostava de te poder dizer, todos os dias, tal como o sinto agora, que por ti me superaria, iria até onde fosse preciso para ser a pessoa que visualizasses em cada pedaço do teu futuro. Eu sei que da forma como te amo me faria ser amada de volta, e que se te perdesse procurar-te-ia, iria até no inferno, ao lugar de onde dizem nenhuma alma ter jamais saído, e te traria de volta, para que estivesses do lado de quem te respira e sabe como se te entrar dentro.

Nada, nem ninguém, nos roubaria um segundo que fosse, a mais do que aqueles que já teriam que nos arrastar para longe um do outro, porque viver tem, infelizmente, outras nuances e estar contigo e em ti, nunca poderá ser sempre e para sempre, mas seria intenso, sentido e desejado, tanto que não precisaria de te dizer o que escrevo agora, porque já o saberias, já me teria encarregado eu de te o provar.

Vou aprendendo a tranquilizar-me, a saber esperar, porque agora, mais do que ontem, sei que te terei outra vez, que te reconhecerei em qualquer outra vida, mesmo que o duvides, mas acredita que se te tiraria até do inferno, então também te conseguiria encontrar, em qualquer rua de um novo destino, na hora certa, naquela em que passarias tu para que te visse realmente!”

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O Natal de Belo Horizonte na poesia de Cristina Moreno de Castro

A jornalista Cristina Moreno de Castro escreveu na sua página no Facebook:

“Eu amo Natal!!!!!
Já organizei todas as gavetas e armários da casa, já separei dois sacões imensos de roupas e sapatos para doar e já comprei todas as lembrancinhas que adoro distribuir! Que venha o Papai Noel.

 

cris2

Tuuuuudo arrumadim! Só no Natal mesmo! Até os sapatos”.

Este amor está nos versos da poetisa Cristina Moreno de Castro.

 

Cristina

Rituais

Chuvisca de leve em princípio.
Às vezes, chega a parar:
é indiferente.
Fortalece vez por outra,
tempo carregado
ar úmido
clima sempre úmido
mas às vezes fecha demais;
é tempestade.
Enchentes, dilúvio, granizo.
Vontade de parar essa chuva de vez.
E, do nada, ela volta a serenar.
Não se sabe quanto tempo: é garoa.
As plantas agradecem
as nuvens deixam um clima natalino
o coração está leve.
Água e brisa
me embalam carinhosamente
e geram frutos.

 

Sobre tombos e joelhos

Hoje levei um tombo
Um tombo no meio da rua
Caí meu corpo no meu joelho
Que, quando velha, terá quebrado.

Não quebrei nada, nem a cabeça.
Mas o tombo me fez pensar na vida.
Repensar o joelho.
Que deixei lá, no meio da rua.

Carro não me pegou desta vez
Quem sabe um dia.
Então pensei em repensar na vida
E ver se estou vivendo bem vivida.

(Meu joelho fez que não)

O barulhinho da chuva e o natal que me espia
Me fazem sempre lembrar da criança
Que não me deixa nas horas difíceis.
O tombo me deu um susto:

Andei criança, tombei mulher
Hoje sou velha e sem joelho
Vendo a vida passar de fininho
E, entre tombos, trancos e barrancos,
Exigir de mim uma atitude.

Apesar do joelho cansado,
Quero levar mais tombos
Se repensar na vida.
Afinal, é a saúde que mais sofre quando se quer ser feliz.

(Ouço atentamente: o primeiro passarinho do dia já começou a pia-cantar)

 

Cartas

Caligrafias diversas
Erros de Português inocentes
Corrigidos pela criança.
Parentes de longe
Ainda amigos
dizem que nos amam
em inglês.
Professoras exageram no talento
responsáveis que são do ideal.
Convites de aniversários
prometem balões e bombons
Não dizem o aniversariante.
Irmã-madrinha diz a frase
Filosofia de vida aos onze.
Papai-mamãe ressalta virtude,
Me amam até hoje.
Irmão, sempre longe,
Faz piadas e sorri palavras gentis.
Irmã não gosta de escrever
Mas escreve muito seu manifesto.
Feliz Natal! Feliz Aniversário!
Editoras mandam cartas
que enchiam de esperança.
Amigos – os primeiros –
clamam passagem do tempo
Registram carinhos
Que não mais são.
O grande, maior de todos
Coloca defeito na capa
Mas comove elogios nos versos.
Boa sorte! Apareça!
Cartãozinho de natal anunciaria
Concurso de cartas de amigas.
Cafonas, forçadas ou sinceras.
De qualquer forma, amigas.
Viagem traz tecnologias
com abreviaturas e cortes rápidos.
Traz sumiço (amigos?).
Na volta, cartazes lindos
Esbarram fronteira da língua
Latidos que dizem mais que memória.
De lá, longe, não mais parentes.
Amigas que sumiram cedo demais.
Carta com fita engraçada bordando
Carta feliz-vitória.
Carta de despedida que não durou.
Pessoas especiais, lembranças, sentidas.
Cartas com vozes, sons, imagens.
Lembranças de raiva e alegria
Passado
Passado a limpo;
ou rascunhos.
Detalhes que reavivam saudades
há muito acomodadas
Flashes de notícias que, juntas,
compuseram o jornal da minha vida.
Pessoas marcadas pela letra
Numa memória insaciável.
Preciso cartas de consolo
Ou melhor, recordação.
Reafirmando que também sou lembrada.
Por letras ou células
Em outros jornais.

 

Olhar de fotógrafo

Andando rápido. Caminho longo.
Trinta minutos em quatro quilômetros.
Cidade no centro é pura fotografia.
Mulher ranzinza com bebê ao colo.
Nenhum sentimento, bela foto.
Prédios correndo rápido, carros lentos.
Na linda avenida com postes altos.
Sol de rachar, camelôs, vinis, barato.
Chego ao destino, mil vidas depois.
Puro pensamento.
Mais tarde, caminho de volta é sem compromisso.
Livros e teatros, bares e livros.
Maletta cheio de boemia precoce.
Ainda é cedo e hoje é terça-feira.
Mas todos querem festa, querem descansar.
A hora mágica surge, espontaneamente
– como sempre.
E contrasta luzes da Praça
da Liberdade.
Estou livre, e feliz e cheia de vida.
Correria o triplo, se preciso fosse
e se não me privassem do meu pensamento.
Natal, tão longe, baixou seu clima no meu peito.
Misto de saudade e fé, desejo e necessidade.
Quero presentear a todos.
E viver natal como se fosse sempre.
Enquanto isso, três crianças devoram um cachorro-quente
um para cada.
E isso é felicidade.
– Que prédio alto! E acenam para o porteiro-pai.
E isso é minha felicidade.
Livre, estourando toda em mim.
Como as praças, e as casas velhas e os rostos enrugados
felizes de minhas fotografias.

 

Bocejo

Após longos sete meses
– chove.
E chove e chove e chove
Cheiro sonoro
Barulhinho molhado
Frescor prateado:
uma alegria me invade.
A chuva canta pra mim,
me descansa, me nina
nananeném.
A chuva é um blues delicado
ilustrado nas sombras de vela
e na paz brilhante do mundo.
Os trovões, imponentes,
calam a rua.
E as gotas nos embalam
Triquiquiando nos vidros.
O céu laranja desaba
curtocircuitando em raios
Enquanto a lua boceja
a preguiça dos homens.

E eu me delicio
Me alivio de uma alma seca
e petrificada de sete meses
que desabrocha para a sina
do amanhã natalino ainda.

 

Belo Horizonte na poesia e fotografia de Cristina Moreno de Castro

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Mineirices

Hoje neguei minha condição de estranha
Recolhi-me no estereótipo do Estado:
Um cheiro de pão de queijo me perseguia
Meu pensamento era só massa polvilhada.
Além disso, tranquei os dentes (raiva?)
Emudecida, desconfiada, cismada.
Típica Belôrizonte do tempo da tuberculose.
Parei de falar para refletir na vida.
Filosófica, depressiva, romântica.
Típica Lagoa idealizada.
Matutei, como diz o outro.
Cabocla, negra, cafuza.
Confusamente outra.
Ou acordo amanhã estranha
(inquieta, feliz, tagarela)
e volto a fazê-los rir
– escondendo tristeza de nascimento.
Ou estou transmutada mineira
Até que me agüentem e eu sustente.
Por quanto tempo, não sei.

 

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Olhar de fotógrafo

Andando rápido. Caminho longo.
Trinta minutos em quatro quilômetros.
Cidade no centro é pura fotografia.
Mulher ranzinza com bebê ao colo.
Nenhum sentimento, bela foto.
Prédios correndo rápido, carros lentos.
Na linda avenida com postes altos.
Sol de rachar, camelôs, vinis, barato.
Chego ao destino, mil vidas depois.
Puro pensamento.
Mais tarde, caminho de volta é sem compromisso.
Livros e teatros, bares e livros.
Maletta cheio de boemia precoce.
Ainda é cedo e hoje é terça-feira.
Mas todos querem festa, querem descansar.
A hora mágica surge, espontaneamente
– como sempre.
E contrasta luzes da Praça
da Liberdade.
Estou livre, e feliz e cheia de vida.
Correria o triplo, se preciso fosse
e se não me privassem do meu pensamento.
Natal, tão longe, baixou seu clima no meu peito.
Misto de saudade e fé, desejo e necessidade.
Quero presentear a todos.
E viver natal como se fosse sempre.
Enquanto isso, três crianças devoram um cachorro-quente
um para cada.
E isso é felicidade.
– Que prédio alto! E acenam para o porteiro-pai.
E isso é minha felicidade.
Livre, estourando toda em mim.
Como as praças, e as casas velhas e os rostos enrugados
felizes de minhas fotografias.

 

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Hipocrisia Religiosa

Ó deus, perdoai os meus Pecados,
Prometo que farei o sacrifício
De não comer bife com fritas hoje:
Comerei bacalhau com batata assada
– ou, talvez, atum.
Livrai-me do pecado da Gula e
celebrarei com muito gosto sua
Ressurreição
deliciando-me com os simbólicos ovos
de chocolate.
Prometo acender velas nas procissões
e não ir a festas hoje,
mas amanhã levantarei uma taça de vinho
na zona boêmia da cidade.
Este sacrifício, ó senhor,
farei de bom grado em um dia por ano.
Se, é claro, me concederes a graça
de ir ao Céu quando chegar meu dia.
Após teres perdoado meus raros pecados.
(amém)

 

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Flashes da minha memória

“Fui ali. Volto já”.
Era o que me ordenava o poema.
No entanto, fui apenas “caminhar”.
Gorro na cabeça, máquina em punho.
Percorri lembranças várias, da infância,
dos choros juvenis e ombro amigo,
das festanças universitárias,
dos carros bem estacionados.
Comecei pela rua que é toda brilhante no pôr-do-sol
cheguei à rua que sempre tem o céu azul.
Capturei um ipê-amarelo, majestoso e prisioneiro.
Cheguei ao topo dos carros.
Muitas fotos sem flash.
Uma rua me deu pânico.
Casa pobre, tosca.
Penafiel.
Soluços rebentaram, acumulados que estavam há
oito anos
Ou oito horas.
No clímax, o clímax de Beagá
e o Sol mais laranja e redondo e baixo
que já vi se pôr

 

Lua cheia

Hoje todos os casais da cidade
saíram às ruas.
E me espiavam, de mãos dadas.
Abraçavam apertado e cochichavam,
olhando para mim.
Todos os olhares eram para mim.
Todos estavam apaixonados
– e me olhavam.
E eu fui encolhendo e apequenando
e tornei-me miúda com tantos olhares
de tantos casais de mãos dadas e abraço apertado.
E tornei-me sozinha.
E o único olhar que eu queria olhava pra lua.
Por sinal, cheia – belíssima.

 

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cris jornalista

Cristina Moreno de Castro fotógrafa, poeta e jornalista, brindando os prêmios de hoje e do futuro

Cristina Moreno de Castro fotógrafa, poeta e jornalista, brindando os prêmios de hoje e do futuro

Curra da polícia militar do RN e outras malvadezas

A ERA DA HOMOFOBIA E DO MACHISMO INCONTESTADOS

 

por Cristina Moreno de Castro

Por favor, seja valente

Por favor, seja valente

Não, não estamos no século 21. Achava que era 2014? Nahhh… acho que não. Ou me recuso a pensar que, já tão avançados no tempo, ainda sigamos presenciando coisas do século 19.

Pois bem, a verdade é que as duas cenas abaixo foram presenciadas no espaço de dois dias. Ou seja, devem ocorrer aos montes todas as horas. E nos fazem pensar que, depois da era do racismo incontestado, em que um branco se levantava de um banco de ônibus quando o negro se sentava ao lado, hoje vivemos a era da homofobia — e do velho machismo — incontestados. Tão incontestados que as próprias vítimas ou dão de ombros ou reforçam o problema.

Vejam só:

CENA DE HOMOFOBIA

Eu estava no cinema, no último domingo. Fazia muito tempo que não ia ao cinema. Por isso, animada, cheguei antes de todos e fiquei comendo minha pipoquinha, e observando as pessoas que se sentavam depois.

A umas cinco fileiras de mim, à minha frente, havia um casal heterossexual. Uma mulher, mais perto do canto da fileira, e o homem, mais centralizado. Eis que surge outro casal, agora homossexual. Eles param pouco antes da mulher para conferir os números de suas cadeiras. Descobrem que são aquelas ao lado do homem, e dirigem-se para lá.

Passados menos de dois segundos de os dois terem se acomodado, o homem do casal hétero pede para trocar com sua mulher de lugar. Como se tivesse levado um choque: um gay se senta ao seu lado e ele já salta imediatamente do lugar. Pior: sua namorada concorda sem contestar. Os dois trocam de posições, sob os olhares constrangidos de quem assistia à cena — no caso, eu. Os gays, provavelmente calejados com esse tipo de sinal de desprezo, dão de ombros.

CENA DE MACHISMO – esta foi presenciada pela socióloga Neuza Lima, que escreveu o surpreendente relato abaixo:

“Eu estava num bar e, numa mesa próxima à minha, um grupo de amigos estavam bebericando. Na mesa, algumas mulheres e apenas dois homens. Um deles, totalmente alterado pelo álcool, começou a querer beijar todas as mulheres na boca. Uma delas se recusa, e ele a chama de vagabunda. Ela retruca: ‘Vagabunda é sua mãe!’

Ao ouvir isso, ele a agride fisicamente, dando-lhe um tapão nas costas com as duas mãos. Tão forte, que ela caiu na mesa.

E ele sai correndo, ileso.

Ela, aos prantos, começa a se culpar (!). Diz: ‘Isto aconteceu porque eu sou uma mulher sem homem, mulher sem homem não pode sair de casa, pois é vista como mulher de todo mundo, todos podem tirar uma casquinha, independente de sua vontade!’”

Levamos anos para que o racismo começasse a ser contestado. Hoje, qualquer cena de racismo explícita é brutalmente criticada, existem campanhas, processos judiciais etc. E, mesmo assim, o problema ainda está longe de ser eliminado, infelizmente. No caso da homofobia e do machismo, em que a contestação ainda é muito pequena e que as próprias mulheres contribuem para reforçar e retransmitir a parte que as afeta, quanto tempo será que levaremos para nos ver livres desses problemas? Um chute: nunca.

 

Mas melhora…. certo?

Mas melhora…. certo?

CURRA MILITAR

Uma terceira cena acrescento à narrativa de Cristina Moreno de Castro.

É uma vergonha.É uma covardia.É desumano.É cruel.Quem tem uma polícia dessa não tem medo de cachorro louco. Pode acontecer com qualquer estudante potiguar. Essa curra policial tem que ser investigada. Os safados nus, num nojento troca-troca, abusaram da garota certos de que ficarão impunes. E estão prontos para um novo bacanal. Quem será a próxima vítima? O comandante da PM disse que não sabia de nada. Agora sabe.

Uma estudante de 18 anos registrou um Boletim de Ocorrência na Delegacia de Plantão da Zona Sul de Natal no qual acusa ter sido estuprada por três policiais militares dentro de um carro da própria corporação. O crime aconteceu em uma das ruas mais movimentadas de Ponta Negra, na Zona Sul da cidade, durante a madrugada do dia 25 de junho, momento em que ela comemorava, juntamente com um uruguaio, a vitória da seleção Celeste sobre a Itália por 1 a 0. A partida foi realizada na Arena das Dunas na tarde do dia anterior, válida ainda pela primeira fase da Copa do Mundo.

O comandante geral da Polícia Militar, coronel Francisco Araújo Silva, disse ao G1 que ainda não foi comunicado oficialmente sobre o caso. Porém, ele orienta que a jovem também registre a queixa na Corregedoria da Secretaria de Segurança Pública.

Consta no registro da ocorrência que a abordagem dos policiais aconteceu na Rua Dr. Manoel Augusto Bezerra de Araújo, mais conhecida como a Rua do Salsa, um dos redutos mais boêmios de Natal. Por estar localizado em uma região turística e concentrar dezenas de bares e restaurantes, o local virou um dos pontos de encontro preferidos pelos milhares de turistas que visitaram Natal durante o período em que a cidade recebeu jogos do Mundial.

No depoimento, a estudante conta que estava acompanhada de um amigo uruguaio quando o carro da polícia se aproximou. Ao serem abordados, os policiais revistaram o estrangeiro e depois o mandaram embora. Em seguida, a estudante foi obrigada a entrar no veículo, onde os policiais alegaram que ela havia feito uso de cocaína. A partir de então, a jovem foi forçada a fazer sexo com os três PMs.

Segundo a Polícia Civil, após registrar a ocorrência, a estudante foi levada ao Instituto Técnico-Científico de Polícia (Itep), onde foi submetida a um exame de conjunção carnal. O caso foi repassado para a Delegacia Especializada em Atendimento à Mulher (Deam), que aguarda o resultado do laudo pericial para a constatação do estupro.

Além do abuso sexual, a estudante também afirma que os policiais a teriam agredido fisicamente e roubado dela a quantia de R$ 30. Os policiais civis que atenderam a jovem na Delegacia de Plantão contam que ela, por estar em estado de choque e bastante nervosa, não conseguiu dar detalhes que pudessem identificar os policiais. Mas a PM deve saber que carro atuava na área. Esses três pervertidos sexuais e ladrões de 30 moedas devem ser punidos exemplarmente.

Visões d’amor (frases, poesia e música) 1

O espelho, por Fairfield Porter

O espelho, por Fairfield Porter

 

Só depois que a tecnologia inventou o telefone, o telégrafo, a televisão, a internet, foi que se descobriu que o problema de comunicação mais sério era o de perto.
Millôr Fernandes

Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento.
Clarice Lispector

Temos a mania de achar que amor é algo que se busca. Buscamos o amor nos bares, na internet, nas paradas de ônibus. Como num jogo de esconde-esconde, procuramos pelo amor que está oculto dentro das boates, nas salas de aula, nas platéias dos teatros. Ele certamente está por ali, você quase pode sentir seu cheiro, precisa apenas descobri-lo e agarrá-lo o mais rápido possível, pois só o amor constrói, só o amor salva, só o amor traz felicidade.
Martha Medeiros

Equação do amor

Fico pensando o que é amor.
Como se fosse algo definível.
Façamos uma equação, uma fórmula:
amor é isso mais isso mais isso.
E, provavelmente, menos um milhão de aquilos.
Amor é mensurável em quilos.
Amor é bebido em litros.
Amor é vendido em liras.
É cantado em versos líricos.
Mas eu queria despi-lo de todo o idealismo
de toda a magia que os poetas
– sempre culpados! – construíram.
Queria ser capaz de pensá-lo
e senti-lo
com a praticidade e a realidade
dos velhos ou de novelas tolstoianas.
Negando o poema, eu queria amar.
Render-me à escravidão dos meus medos
(ou meus medos da escravidão)
e sentir por um instante a certeza
(absoluta, plena, sublime)
de que todo o meu organismo
a corrente sangüínea, as trocas de gases,
os ácidos gástricos, as sínteses protéicas
formando memórias
alimenta-se de um combustível
quase sobrenatural
e inegavelmente perene
que pode ter muitos nomes
fundidos em si, despersonalizando-o,
mas que nomeia-se, respeitosamente,
Amor.
Eu queria ter essa certeza
(suspendam-se as certezas!),
para ter a tranqüilidade
acima de todos os tempos verbais.
No entanto (é bom dizer),
talvez a dúvida seja
mais próxima do que seria o amor
se ele existisse.
Porque enche-o de vida.
Porque dizer eu-te-amo é banal,
é vazio – é o que todos fazem
Poetas ou não.
Amar com a sinceridade da dúvida
com a dor da incompreensão
e com a ambigüidade do ceticismo
é muito mais real.
Mais próximo de todos os deuses.
Cristina Moreno de Castro

O vermelho é a cor mais encarnada

Pode tirar meus sapatos, amor:
o frio já vem em vindo.
Nina Rizzi

saudade

MINHA ALEGRIA É TUA PELE LISA

Minha alegria é tua pele lisa
deslizar nela arranca gritos
de um prazer que estava ao desabrigo

Tropecei em muita carne morta e triste
antes de pôr a mão no teu seio
e minha doce água envolver-te

Um poema, por mais belo, não chega
onde aportamos, nus em pelo
com fogo nos olhos e línguas livres
a sentir o gosto salgado do amor

Por isso calo num gemido
e te derrubo com meus braços finos
Nei Duclós

O PACTO SAGRADO

Nem sob tortura
ou em juízo
podes violar
o sagrado pacto
do silêncio

Rasga o diário
mesmo que escrevas
em linguagem cifrada
coisas sem importância
como fez Beatrix Potter
por hábito e exercício

Nenhum lugar
é propício
para manifestar
uma jura de amor
Não esqueças
o divã dos psicanalistas
o confessionário
o auto-de-fé
convincentes armadilhas
dos atiradores de pedras

Certos segredos
incertos desejos
devem permanecer
bem trancados
a sete chaves
as chaves jogadas
no rio Jordão
Talis Andrade

THAÍS

Thaís, eu fiz tudo pra você gostar de mim
Ô, meu bem, não faz assim comigo não
Você tem, você tem que me dar seu coração

Meu amor, não posso esquecer
Se dá alegria faz também sofrer
A minha vida foi sempre assim
Só chorando as mágoas que não têm fim

Essa história de gostar de alguém
Já é mania que as pessoas têm
Se me ajudasse Nosso Senhor
Eu não pensaria mais no amor
Joubert de Carvalho

[Troquei o Ta-Hí da composição por Thaís
fica mais assim… Escute cantado por Nara Leão]

Dueto de Cristina Moreno de Castro

 

Cristina1

Dorme, menina

 

Numa noite louca, onde tudo muda num segundo

Quando a meia-noite chega salvadora

Em que o amor é cínico e a música é baixa

e o álcool circula em copos de plástico

Volto pra casa como num sonho…

 

 

(What) a glorious feeling

 

Insônia de duas semanas

Sou quase ébria de sono e afeto.

 

Singing in the rain goteja em minha cabeça

Como trilha sonora dos meus sonhos.

 

Insônia boa de mensagens bonitas

De apaixonada, como nem lembrava.

 

 

I’m happy again…

Lembrando que o cafona faz palpitar mais rápido.

 

 

 

Sigo cantando, pulsos fortes sustentando meu sopro

ÁRVORE ALADA

 

por Cristina Moreno de Castro

El Maria 22

El Maria 5

Rhaiza 1

para El Maria

.

Livre das cordas que enforcam os preconceituosos
Vi-me tronco, galho, raiz e corpo.
Mas não me aceitam, como sou: desacordada
(desprendida, desgrilhada, desgrenhada).
Dou de ombros e sigo cantando,
pulsos fortes sustentando meu sopro,
como uma ave nadadora e uma árvore alada.

 

 

 

Performance (produção e criação): El Maria

Fotografia: Rhaiza Oliveira