DA ARTE DE ESCREVER

SIMPLICIDADE COM SOFISTICAÇÃO

No meu livro “A Preparação do Escritor” defendo a ideia de que é preciso escrever com sofisticação – recorrendo a variadas técnicas- mas o texto precisa chegar ao leitor com o máximo de simplicidade.Ou seja, o máximo de sofisticação para o máximo de simplicidade. Tudo parece simples e fácil, mas não é. Encontro agora em Nabokov um texto que examina a questão e que justifca-a:” Simplicidade é pura conversa fiada.Nenhum grande escritor é simples. A linguagem jornalística é simples. Mamãe é simples.Condensações são simples. Mas autores da estirpe de Tolstói e Melville nunca são simples.” Raimundo Carrero

A VAIDADE DO ÓBVIO

Impressionante a vaidade de quem diz o óbvio e é celebrado em sua mesmice. Ou você dá um passo à frente no que te ocorre no bate pronto, ou fica esse círculo pesado de falsa produção de pensamento. O que vemos é a defasagem das análises em relação à riqueza dos acontecimentos e criações. É frustrante, para quem ousa fazer algo contundente e importante, receber em troca o silêncio ou então a mesmice. Ou assistir ao impávido espetáculo do já sabido, embalado como grande coisa.

Noto o esgar pomposo de quem diz coisas, normalmente num tom cool, descontraído, falsamente gaguejante para atrair simpatia, como se fôssemos uma humanidade de prejudicados. Diga a que veio de maneira direta, clara e precisa, ou invente sua linguagem apostando na própria radicalidade. Senão seremos todos reféns de ídolos de barro, comerciantes da vilania com fama de grande arte. Nei Duclós

ESCREVER COM ALEGRIA

O escritor deve escrever, sempre, com alegria. Isso não quer dizer que tudo o quanto escreva deva ser róseo, “feliz” (não daquela felicidade genuína e concreta, mas da adocicada e enjoativa, que costumamos chamar de “água com açúcar”). Esta, artificial e falsa, não existe. É logo desmascarada face à realidade. Aliás, essa opinião, que obviamente compartilho, nem mesmo é minha. Tomei-a emprestada de Jorge Luís Borges, cuja literatura influenciou o meu modo de encarar essa atividade que tanto amo e que, por amar tanto, não raro lhe devoto ódio mortal (à atividade e não ao meu “guru”).

Sinto-me escritor o tempo todo, em casa, quando resolvo os problemas domésticos da família, no trabalho na redação do jornal, nas reuniões sociais, nos momentos de lazer, quando estou no estádio da Ponte Preta torcendo pelo meu time de coração. Sem exagero, vivo, o tempo todo, como escritor. Se bom ou ruim, não me compete julgar. Até porque, eu não teria a isenção necessária para isso. Ou seria complacente em demasia com minhas falhas e contradições. Ora seria sumamente rigoroso a ponto de destruir toda a minha produção. Deixo, pois, o julgamento a esse juiz implacável (que às vezes considero injusto) dos meus textos: o leitorPedro J. Bondaczuk

UMA ESPÉCIE DE DANAÇÃO

Essa questão de “para quem” a gente escreve – frequentemente colocada, nos últimos anos – para mim é uma falsa questão, porque eu sou daqueles que acreditam no ato de escrever (ou de pintar, de esculpir, compor etc.) como resposta a uma pulsão profunda. Na verdade, uma espécie de “danação” que impele os espíritos mais atormentados pelos caminhos da arte, em busca de resposta a perguntas – que (eu concordo) estão sendo pouco a pouco “abolidas” – tipo “quem somos?, para onde vamos?” etc. Fernando Monteiro

Anúncios

Momentos mágicos de Pedro J. Bondaczuk

Pedro J. Bondaczuk3

A vida é toda ela feita de mistérios, pelo menos para nós, humanos, que somos tão arrogantes e presunçosos de uma sabedoria que sequer possuímos. Desde a sua origem, que ninguém sabe com certeza qual e quando foi, até o seu desfecho (a morte), valemo-nos de complicadas teorias e fantasiosas hipóteses para tentar explicar aquilo que sequer entendemos (e que talvez jamais venhamos a entender).

Como é morrer, por exemplo? A consciência se perde com a decomposição do corpo ou fica em algum lugar? Se a resposta for positiva (e a verdade é que ninguém a tem de fato), onde ela permanece? Muitos juram que alguma parte de nós sobrevive, passa para outras dimensões e é eterna. Outros tantos, torcem o nariz a essa possibilidade, e ridicularizam os que crêem nela. Mas saber, com certeza, o que ocorre durante e após esse dramático desfecho, sem hora e lugar marcados, ninguém sabe.

Machado de Assis levanta uma interessante possibilidade, que permanece no terreno da especulação, mas que nem por isso deixa de ser válida. Escreve, em uma das suas crônicas: “Cada criatura traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro”.

Será? Há momentos “mágicos” em nossa vida, cuja magia não conseguimos definir e muito menos explicar, mas que sabemos que está ali, presente, viva e atuante. É alguma coisa que se passa fora do plano físico, em nosso íntimo, talvez no interior das nossas células, em algum ponto do cérebro, aguçando a sensibilidade ao extremo.

Aparentemente, esses instantes são como outros quaisquer, sem nada de especial. Independem dos acontecimentos. Não avisam quando vão ocorrer, simplesmente ocorrem. Sequer os delimitamos, em termos da data da ocorrência, já que somos tomados de surpresa. Mas são inesquecíveis.

Por que? É um mistério! Passados muitos anos, quando nos recordamos de tudo o que nos ocorreu (de bom ou de mau), são eles que nos vêm de imediato à memória, como uma luz, como uma inspiração, como um referencial ou como consolo nas horas de maior aflição.

Recordo-me, especificamente, de pelo menos cinco desses momentos “mágicos”, nitidamente, como se houvessem ocorrido hoje, a meros segundos, mas que aconteceram há várias décadas, há mais de meio século, tão ontem como se fora na própria infância do mundo.

O primeiro ocorreu quando eu tinha apenas cinco anos de idade. Foi em Horizontina, no Rio Grande do Sul, na casa do meu avô paterno, o saudoso Hilarion. Numa determinada manhã de início de verão de 1948, sentado na varanda do casarão, que dava para uma escada de madeira, tendo ao lado pés de mexerica (“bergamota”, para os gaúchos), de frente para um jardim florido que tinha, ainda mais adiante, a uns trinta metros, um vasto parreiral, senti uma espécie de “transfiguração”. Nunca soube explicar não somente a natureza, mas a morfologia desse fenômeno. Só sei que ele existiu e me deixou profundas marcas (positivas, é óbvio!).

O dia estava parcialmente nublado, mas não cinzento, com tímidos raios de sol filtrando por entre nuvens. A temperatura era bastante agradável, pois não fazia nem frio e nem calor. Eu estava sozinho, já que todos da casa cumpriam os seus afazeres normais.

Um cheiro adocicado de flor de laranjeira embalsamava o ar e o aroma era tão intenso, que causava uma espécie de embriaguez. Pássaros faziam uma algazarra enorme no meio das plantas, disputando sementes ou vermes para alimentar os filhotes, mas não se ouvia voz humana alguma quebrando a harmonia. Uma paz intensa desceu sobre mim.

Tive uma premonição de que, em breve, não veria mais esse lugar que tanto amava. Minha mente como que “fotografava” cada detalhe, cada nuance, cada objeto e cada pássaro e inseto ali presentes, que eu vira tantas vezes antes e nunca prestara atenção, mas que naquele instante pareciam importantes, transcendentais e únicos. De fato, poucos meses depois deixei minha terra natal para sempre, vindo para São Paulo, em busca do meu destino. Mas aquele momento “mágico”… jamais saiu-me da memória. Por que? Nunca saberei explicar!

O segundo desses instantes misteriosos viria a ocorrer seis anos depois, quando eu estava internado no Lar Escola São Francisco. Era, novamente, final de primavera, véspera do verão. Nesse dia, teríamos o exame de final de ano (estávamos em 1955), que me aprovaria para a quarta série ou me manteria na terceira.

Eu não havia estudado nada. Por causa de seguidas cirurgias, para corrigir seqüelas de uma poliomielite que me acometera, eu havia perdido pelo menos três anos de escola. Estava relativamente atrasado em relação aos companheiros. Ademais, começara a freqüentar aulas apenas em agosto.

Estávamos no pátio, esperando o início da prova, atrasado, já que, por alguma razão, o inspetor que iria supervisionar o exame não tinha chegado. Meus colegas brincavam… com bolinhas de gude, de pique, esconde-esconde ou amarelinha, lembro-me bem. Alguns, mais preocupados, cientes de que não estavam devidamente preparados, davam uma última olhadinha no caderno, na ilusão de reter, em cima da hora, o que não haviam aprendido em meses. Eu, simplesmente, apreciava meus companheiros.

Subitamente, a mesma “transfiguração”, ocorrida há seis anos, em Horizontina, se repetiu. Uma paz imensa desceu sobre mim. Os sentidos ficaram estranhamente aguçados, com sua capacidade bastante multiplicada. Via muito longe, para além do pátio, iluminado por um sol brilhante, em um céu de azul total.

Apesar da tensão, uma paz absoluta tomou conta de mim. Sentia que nada no mundo poderia me ameaçar e não havia o que temer. Ouvia risos distantes, a cinqüenta metros ou mais de distância e gritos e murmúrios de vozes. O aroma das flores, dos canteiros do pátio, embriagava-me.

Era um momento para reter na memória. E o retive. Mais do que isso… Como havia dito, não estava preparado para o exame e tinha convicção de que seria reprovado. Nem minha professora, dona Ester, acreditava que eu pudesse me dar bem. Não sei explicar o que aconteceu depois da tal “transfiguração”. Só sei que a minha prova foi a melhor da classe.

Tirei nota dez, com louvor, e de quebra ganhei uma medalha, que era como a escola estimulava a competição entre os alunos, os motivando a estudar. Como? Jamais saberei explicar. Será que alguém tem uma explicação plausível para isso? Duvido.

Recordo-me de pelo menos mais três desses instantes mágicos, misteriosos, inexplicáveis e maravilhosos. Certamente, minhas “duas almas” estavam alertas nesses momentos, mostrando-me o verdadeiro sentido da vida. Ou pelo menos revelando que o meu destino era ser “garimpeiro da beleza…”

.

Tema assustador… que não deve ser tabu

por Pedro J. Bondaczuk

morte3

A morte é um dos assuntos que mais me incomodam e que procuro, sempre que possível, evitar. Sou comprometido com a vida e seus mistérios, dissabores, tristezas, alegrias e satisfações. Tenho medo de morrer? Muito! Essa perspectiva apavora-me, embora esteja consciente que é algo de que nem eu e nem ninguém conseguiremos escapar. Todavia, enquanto escritor – dos menores e mais obscuros, admito – não fujo de tema algum. Nem mesmo deste, que me é tão desagradável e penoso, literalmente “mórbido”. Volta e meia sou “provocado” por leitores, para escrever a respeito e, embora a contragosto, não fujo da raia. É o que acontecerá, por exemplo, hoje. Pediram-me para abordar o assunto “morte” com “objetividade”. Tentarei, pois, fazê-lo, posto que com os parcos conhecimentos que tenho a propósito. Espero, apenas, que minha abordagem seja útil a alguém, em algum momento.

A Medicina tem, atualmente, visão clara e definida do que vem a ser a morte. Está bem longe o tempo em que este colapso total do organismo era associado com a parada das pulsações de um determinado órgão, no caso, o coração. Com o advento das operações a peito aberto desta “máquina” natural de bombear sangue, em que ela é paralisada por completo para passar por cirurgia, sem que, por isso, o paciente morra, mas recupere todas suas funções vitais, tão logo finde o ato cirúrgico, não tem mais sentido situar exclusivamente nesse órgão a sede da vida. De acordo com os médicos, a essência da morte está na ativação de um produto químico orgânico (pois contém carbono), da família das aminas, chamado Catepsina, deflagrada pela anoxia, ou seja, pela ausência de renovação de oxigênio no organismo.

Essa substância é uma enzima proteolítica que durante toda a vida permanece em atividade no interior das células. Portanto, quando se diz que já no momento em que nascemos trazemos em nós a semente da extinção, não se está incorrendo em nenhum exagero e nem somente se está utilizando figura de linguagem. Isso é rigorosamente literal. Mesmo após o cérebro ficar sem suas funções e o coração parar de pulsar, o ser humano continua “morrendo” por mais algumas horas. Inicialmente, é uma célula que morre. A seguir, são outras tantas; são os tecidos, os órgãos, os sistemas e… todo o organismo enfim. Com as mudanças de conceitos sobre as características da morte, mudou-se, no correr do tempo, a maneira dela ser diagnosticada. Antigamente, o médico, para saber se determinado paciente moribundo já havia morrido, colocava um espelho à frente da sua boca. Queria constatar se ele ainda respirava. Era, portanto, a parada dos pulmões que lhe dava a certeza de que o desenlace havia ocorrido.

Depois, evoluiu-se (e não faz muito) para a utilização do estetoscópio, para a agulha intracardíaca, para o bisturi na carótida, para a tríplice reação de Lewis (injeção e resposta tecidual), para o eletrocardiógrafo e, finalmente, para o eletroencefalógrafo. Essa explicação foi dada, há alguns anos, pelo doutor Irany Novah Moraes, perante o Conselho Técnico de Economia, Sociologia e Política da Fiesp, reproduzida no excelente livro “O médico perante a morte”. Um resumo, muito bem elaborado, do teor dessa conferência, foi publicado na edição de outubro/novembro de 1985 da revista “Problemas Brasileiros”.

Há que se distinguir três formas de morte para efeitos da Medicina: a cerebral, a encefálica e a biológica. Recorro aos ensinamentos do doutor Irany para tentar explicar, de forma minimamente didática, cada um desses casos. O primeiro deles ocorre “em conseqüência de um curto período de anoxia (falta de renovação de oxigênio) que provoca o amolecimento cortical difuso. Bastam três minutos de falta de ventilação para decortificar (deixá-lo sem o córtex cerebral) um paciente, que terá, daí em diante, apenas vida vegetativa. Seus órgãos continuarão funcionando, mas estará desligado da vida exterior”.

A morte encefálica “ocorre quando os comandos da vida se interrompem. Não emana impulso de nenhum centro encefálico. Pergunto: não seria este o momento da saída da alma? Este é o diagnóstico científico da morte. O corpo não se relaciona mais com o mundo”. Finalmente, a morte biológica “ocorre ao término da rigidez cadavérica em que toda a Catepsina ativada pela anoxia determina a autólise. O processo de falência termina, para todo o organismo, 24 horas após a morte cardíaca, quando termina a rigidez cadavérica”. Levamos, portanto, um dia inteiro para “morrermos” por completo.

A Medicina desenvolveu estratégias, ou seja, processos para reter por mais tempo esse misterioso sopro de vida quando ele ameaça escapar. No caso da parada cardíaca, desde que se aja com rapidez, é possível, em alguns casos, reanimar o paciente e lhe dar ainda alguma possibilidade de sobrevivência. É claro que se trata de superar o tempo e depende do motivo que causou a cessação das pulsações do coração. Quanto à extinção da função cerebral, pode ser feita uma oxigenação sanguínea, mas esse artifício de pouco (na verdade de nada) adiantará para a pessoa. Seu cérebro – sede de suas reações, emoções, pensamentos e lembranças – estará irreversivelmente morto. Mesmo que o processo de morte biológica não vier a ocorrer, esse indivíduo jamais voltará a ver, conscientemente, a luz do mundo.

Viram, desafiadores leitores, como não temo abordar temas que me desagradem e apavorem? E nenhum, absolutamente nenhum me é mais desagradável e me aterroriza mais do que a morte. Ao escritor, porém, não há (e nem deve haver) assunto interdito, considerado tabu, desde que tratado, notem bem, com responsabilidade, com habilidade, com clareza, com verdade e… com bom gosto, para conseguir e conservar o “prêmio” maior que um comunicador pode aspirar: o da credibilidade.


Hieronymus Bosch (c.1450 – 1516). A Morte e o Avarento
(c. 1490). Óleo na madeira (93 x 31 cm) – National Gallery of Art, Washington

Estamos submetidos a fatores aleatórios que, em fração de segundos, podem destruir, sem deixar o menor vestígio, tudo o que somos e construímos.

Donos? Do que?

 

Ares homem mulher

 

por Pedro J. Bondaczuk

“O homem concebera-se, por muitos séculos, no centro de um universo limitado no espaço e no tempo e criado em seu benefício. Imaginara-se habitante, desde a Criação, de uma Terra imutável no tempo. Construíra-se uma história de poucos milhares de anos que identificava a humanidade e a civilização às nações do Oriente Próximo e, depois, à Grécia e Roma. Pensara-se diferente, em essência, dos animais; senhor do mundo e dono de seus próprios pensamentos. Em breve, no novo século, ele terá de defrontar-se com a destruição de todas essas certezas, com uma diversa, menos narcisista mas decerto mais dramática, imagem do homem”. Esta afirmação não é minha (embora concorde, em termos, com ela). É do italiano Paolo Rossi.

Antes que alguém me questione, ou que algum desavisado confunda, aviso que a personalidade citada não é o centroavante da seleção da Itália, carrasco da equipe de Telê Santana na Copa do Mundo de 1982 na Espanha. Não é, pois, o autor dos três gols da “Azurra”, naqueles fatídicos 3 a 2, episódio futebolístico que ficou conhecido como “Desastre do Sarriá” (desastroso para nós, brasileiros, obviamente). Esse Paolo Rossi não tem nada a ver com futebol. É um filósofo italiano, e dos mais respeitados, que faleceu recentemente, em 14 de janeiro de 2012.

A citação foi “pinçada” de seu livro “Os sinais do Tempo”. A obra em questão foi lançada no Brasil pela Companhia das Letras e pode ser facilmente encontrada em qualquer boa livraria. Sua abordagem é não apenas pertinente, mas fascinante. Centra-se, principalmente, em três eixos temáticos: nas histórias da Terra e das nações e nas teses sobre a origem da linguagem e do pensamento abstrato. Trata-se, como se vê, de um livro precioso, diria imperdível, que lhe recomendo sem pestanejar, curioso leitor.

Porventura, o pensamento do homem contemporâneo mudou, a esse propósito? Entendo que não. Pelo menos não o da maioria, que ainda pensa que é o “centro do universo”, que acha que já entende essa misteriosa e monstruosa grandiosidade, convicto que esta seria restrita, ou seja, limitada no tempo e no espaço. Estaria certo nesta convicção (ou presunção, como queiram)? Obviamente que não! Em relação ao universo, somos menos, até, que o menor dos infinitamente pequenos microorganismos. Estamos limitados em um planeta de dimensões tão ínfimas, que a certa distância (para nós incomensurável, mas que em termos universais é pequeníssima), é impossível de ser localizado. É como se sequer existisse.

Estamos submetidos a fatores aleatórios que, em fração de segundos, podem destruir, sem deixar o menor vestígio, tudo o que somos e construímos. No entanto… quem pensa nisso? Quem cogita da própria efemeridade? Quem está consciente, mas consciente de fato, de que no minuto seguinte pode estar morto? Agimos como se dotados de vida eterna. Somos arrogantes ao ponto de “achar” que compreendemos este mistério que se refere à nossa existência, ou seja, ao o que somos, por que vivemos e onde, de fato, estamos, entre tantos outros questionamentos.

Paolo Rossi, embora em princípio pareça pessimista aos desavisados, mostra um otimismo incomparável. Afinal, acredita que o homem (ou seja, cada um de nós) irá mudar seus paradigmas já neste século e cair na realidade. Não sou pessimista, mas não creio que isto virá a acontecer. E não só nesta geração, como em nenhuma outra. Isso se não nos destruirmos antes, ou se algo além da nossa capacidade de defesa não o fizer em um piscar de olhos. Rossi, no trecho que selecionei de seu livro, afirma que o homem “pensara-se diferente, em essência, dos animais, senhor do mundo e dono de seu próprio pensamento”. O notável filósofo fez essa constatação como se fosse coisa do passado. Mas é? Essa arrogante convicção foi alterada, posto que minimamente? Óbvio que não.

O homem contemporâneo, com todo o acervo de informações que conseguiu reunir, com as facilidades de transporte e de comunicação que a tecnologia colocou a seu dispor, continua tão arrogante e insensível como sempre foi. Aliás, é mais, muito mais do que os das gerações que o antecederam. Não dá a mínima para os animais. Age como se o mundo fosse só seu e que, por isso, pode fazer com ele o que quiser; comporta-se como se fosse viver para sempre, sem atentar para o fato de que é mortal e que no momento seguinte pode estar morto e que horas a seguir começará a se decompor. Não se preocupa, de fato, sequer com os semelhantes, quanto mais com outras espécies, com os outros seres vivos.

Pitigrilli traçou um perfil humano genérico, não de alguém específico, mas do tipo médio, no qual a maioria se enquadra. Escreveu, no livro “Lições de Amor”: “O homem não é nem anjo, nem fera, ou é ambas as coisas em proporções desiguais. A beneficência, a moral, a caridade não podem fabricar homens e mulheres ideais. Devem servir-se daqueles que encontram”. Caso o homem mude todas suas certezas atuais, substituindo-as por “uma diversa, menos narcisista, mas decerto mais dramática”, como prevê, com extremo otimismo, o filósofo Paolo Rossi, essa nova imagem será a real? Terá, pelo menos, a mais leve das proximidades com a verdade? Ou a subjetividade e o preconceito continuarão determinando seus (na verdade, nossos) julgamentos? Sabe-se lá!

Grandeza

por Pedro J. Bondaczuk

Pedro J. Bondaczuk2

Grandeza, aspiro à grandeza,
os sentimentos sem mácula,
a rosa mística dos ventos,
o norte sem vacilações.
Transcender a fragilidade da carne,
amar sem limites ou peias,
ser estrela da galáxia dos sonhos
sobreviver ao tempo e ao esquecimento.

Aspiro, dia a dia, passo a passo,
galgar os degraus da razão,
fazer da vida obra de arte,
inesgotável manancial de ternura;
ser pássaro-luz, ágil, versátil,
romper as barreiras do efêmero,
fiar na tosca roca do tempo
palavras, versos, a própria poesia.

“-Luz! Luz! Luz!” – clama a bronca alma,
a luz aguda do cabal esclarecimento,
da única ciência que de fato importa:
a da transcendência e da beleza
Luz, luz, luz, é do que careço,
límpida luz de encanto e de pureza,
porquanto, só acalento uma ambição:
aspiro transcendência e grandeza!

Violência contra a dignidade feminina

por Pedro J. Bondaczuk

Eray Özbek

Eray Özbek

 

Há formas bastante sutis de violências praticadas contra as mulheres, que não produzem ferimentos físicos, não deixam marcas no corpo, não são sequer visíveis, mas que acabam doendo, e muito, já que as vítimas ficam impotentes, sem qualquer possibilidade de reação diante delas, e não têm, por conseqüência, como e a quem recorrer ou reclamar. São os atos que ferem sua dignidade e sua honra.

O não reconhecimento da importância do trabalho doméstico feminino, no cuidado da casa, na educação dos filhos e nas tarefas diárias de preservação e valorização do patrimônio comum da família é, por exemplo, uma dessas formas de violência, e a mais comum. Mais injustiçadas ainda se sentem as que trabalham fora e são forçadas a exercer dupla jornada, sem que o seu esforço seja recompensado ou sequer reconhecido.

As ofensas proferidas pelos companheiros masculinos, quando não há testemunhas, no auge de cenas banais (e comuns) de ciúme, atacando sua honra ou questionando a sua fidelidade, é outra forma corriqueira de violência. E a idéia (implícita) de que a mulher deve “irrestrita obediência” ao homem da casa, seja pai, irmão, marido ou mero companheiro, arraigada na sociedade, (basta viajar pelo interior do Brasil ou pela periferia das grandes cidades, por exemplo, para constatar o quanto esse comportamento é verdadeira regra de conduta não escrita) é mais uma, senão a pior, das formas de agressão à dignidade feminina.

Os agravos, aliás, não param por aí e não ocorrem somente no seio da família. Verificam-se no trabalho, na escola, no lazer, nas relações sociais e nos mais variados aspectos da vida em comunidade. São tantos, que sua simples enumeração consumiria páginas e mais páginas de textos, sem que se esgotassem.

Muitas dessas ofensas, frise-se, são tão sutis, que nem mesmo as próprias mulheres se dão conta de que estão sendo ofendidas e injuriadas. São as que questionam, por exemplo (posto que veladamente), desde a sua inteligência à sua competência, capacidade e senso de responsabilidade. Vários escritores e filósofos ficaram famosos, através da história, por sua misoginia, tendo deixado registradas para a posteridade inúmeras citações sarcásticas e desairosas sobre as mulheres, repetidas ainda hoje, em tom de chiste, amiúde, nas rodas masculinas.

E são considerados “normais”, e até “legais”, em muitas sociedades, pelo mundo afora — que contam com leis consuetudinárias, baseadas nos costumes, algumas milenares, tidas como “cláusulas pétreas”, imutáveis mesmo estando patentes as injustiças que amparam — as determinações de estrita submissão feminina, sem que haja a mínima justificativa (biológica, moral ou legal), para isso.

Há, no entanto, agressões à dignidade da mulher mais grosseiras, ostensivas e até perigosas. No Sudão, por exemplo, (e em vários outros países islâmicos onde prevalece a “sharia”), os juizes podem determinar chibatadas em praça pública, que variam de dez a cinqüenta, àquelas que não seguirem o “código de vestimentas”, independente da religião que professem. Em relação aos homens, no entanto, não existe a mínima restrição quanto àquilo que vistam ou deixem de vestir.

No Afeganistão, dos talibans, as mulheres foram expressamente proibidas de trabalhar e de estudar. E não podiam sair de casa para nada, se não estivessem cobertas, da cabeça aos pés, com a tradicional “burkha”. Trata-se de uma vestimenta que cobre a pessoa por completo, tendo, como única “concessão”, rala telinha, junto aos olhos, nariz e boca, para permitir que quem a use possa respirar e enxergar por onde anda. E ai daquela que desrespeitasse essa norma! Estaria sujeita, sem nenhuma possibilidade de defesa ou de apelação, à pena de morte, por apedrejamento!

E os fundamentalistas afegãos foram ao extremo de exigir até que as venezianas de todas as casas de suas cidades fossem pintadas de negro, para que as mulheres não pudessem ser sequer vislumbradas, mesmo que de perfil, à noite, à luz elétrica, pelas frestas das janelas, por eventuais transeuntes que trafegassem nas ruas.

Esse comportamento bárbaro pode parecer grosseira exceção à regra de comportamento vigente no mundo contemporâneo, caso extremo de fanatismo religioso. Mas, infelizmente, não é. Somente se tomou conhecimento desse tipo de atitude, agora, por causa da ofensiva norte-americana no Afeganistão.

Não fossem as ações militares contra os talibans e os terroristas comandados por Osama Bin Laden, ninguém falaria a respeito. Ou se algum repórter mais ousado falasse, seria a título de registrar, meramente, um “costume exótico”, “curioso”, “pitoresco” até, e não para denunciar estúpida e indefensável forma de violência contra a vontade e a dignidade da mulher.

Ressalte-se que muitos outros povos adotam a mesma prática, e com o mesmo rigor dos fundamentalistas afegãos, sem que o Ocidente (ou seja lá quem for, alheio a essas comunidades), tome ciência, por não terem sobre si o foco das atenções internacionais. A apregoada globalização, como se vê, ainda não chegou à área do direito natural à igualdade, que as mulheres deveriam ter, mas ainda não têm.

Atos implícitos (e até explícitos) de coação, de sujeição feminina existem, em grande profusão, em todos os lugares, bastando apenas que se atente para eles. E isso ocorre quer nos países miseráveis e culturalmente atrasados do chamado Quarto Mundo (da África, Ásia ou América Latina), quer nos tidos e havidos como os mais civilizados, liberais e prósperos do Planeta, como Estados Unidos, Japão e os seletos integrantes da Europa Ocidental.

 

 


Do livro “Guerra dos Sexos”, Pedro J. Bondaczuk

Quando o “inimigo” está em casa

por Pedro J. Bondaczuk

 

mulher casa

A Polícia Federal dos Estados Unidos (FBI) constatou que, naquele país, a cada 18 segundos, uma mulher é espancada por um homem. A situação é tão grave, que levou o então presidente norte-americano, Bill Clinton, em 20 de janeiro de 1995, a citar esse escandaloso dado, e apelar, por conseqüência, à população, para que pusesse fim a esse tipo criminoso de conduta. Ressaltou que se tratava de uma vergonha nacional. E mencionou a questão não em algum pronunciamento informal qualquer, mas no discurso sobre o “Estado da União”.

Trata-se de um balanço anual, na abertura dos trabalhos do Congresso, em todos os anos, feito tradicionalmente pelos presidentes norte-americanos, abordando as conquistas e os problemas a resolver desse país. Mas os Estados Unidos não são os únicos a conviver com esse grave desrespeito aos direitos humanos.

Dados da União Européia, por exemplo, dão conta de que a violência doméstica afeta a pelo menos 4 milhões de mulheres na Europa Ocidental. E esses números podem ser, tranqüilamente, multiplicados por dez, já que, por medo ou por vergonha, apenas cerca de 10% das vítimas denunciam as agressões que sofrem.

No Leste europeu, a situação não é muito diferente. Pelo contrário, tende a ser até mais grave. Na Rússia, para se ter uma idéia, dados oficiais, divulgados pelo governo, registraram, apenas em 1994, 15 mil mortes de mulheres, vítimas de maus tratos dos maridos. Quantas foram as feridas? Nada foi divulgado a respeito. Quantas sofreram lesões leves, simples escoriações, que machucam mais a alma e o amor próprio do que o corpo? Podem ser calculados, sem muito esforço, aos milhões.

Países da África e da Ásia sequer admitem esse tipo de delito, de tão corriqueiros e “normais” (para eles) que são. Não há, por conseguinte, estatísticas a respeito, embora existam sucessivas denúncias de entidades de defesa dos direitos humanos, como a Anistia Internacional.

Na América Latina, são raros os países que têm estatísticas sobre casos de espancamentos de mulheres em suas casas. E as que existem não são confiáveis, por subestimarem a gravidade e a quantidade desses delitos. Ainda assim, todas as delegações, de todos os países latino-americanos, apresentaram, na IV Conferência Mundial sobre a Mulher em Pequim, a violência doméstica e a pobreza como os maiores problemas existentes na região, o que comprova que o problema é muito mais grave do que os seus respectivos governos ousam admitir.

(Do livro “Guerra dos Sexos – Pedro J. Bondaczuk)