TROCA DE LIVROS

por Rafael Gonzalez/ A Tribuna

LIVROS CRUZADOS

livro

“Se você ama seus livros, deixe-os ir” – The New York Times

Um projeto que parece mesmo uma experiência social ou uma brincadeira de criança, o Bookcrossing faz as pessoas praticarem o desapego promovendo a troca de livros, entre desconhecidos, dessa forma, compartilham histórias e escrevem no mundo encontros improváveis.

Criado em 2001, pelo programador Ron Hornbaker, o projeto está presente em 132 países com mais de 11 milhões de livros compartilhados e mais de 2,5 milhões de membros. O Bookcrossing proporciona a criação de uma rede de livros etiquetados que rodam pelo mundo de forma livre à espera de um leitor.

Qualquer pessoa pode se cadastrar no site, etiquetar um livro com o BCID, que é um código único criado pelo projeto, para que os livros possam ser identificados e assim liberá-lo para que viaje o mundo. Se você quer liberar um livro pode emprestá-lo para alguém, deixar em um “Ponto de bookcrossing” ou simplesmente largar em algum lugar público. Na etiqueta deve conter o código de identificação do livro a algumas instruções ao leitor, existem alguns modelos prontos disponibilizados pelo site.

etiquetas_bookcrossing

Existem algumas estatísticas no site como, por exemplo, os países com maior número de livros libertados nos últimos 30 dias: A Alemanha lidera com 8.647 livros, seguidos EUA com 6.250 e França com 3.028. No Brasil, atualmente são 1.655 livros caminhando soltos por aí. Existe também o ranking dos membros que mais registraram livros, o primeiro colocado já registrou mais de 80 mil livros. Tem rankings sobre os livros que mostram os liberados recentemente, capturados recentemente, mais registrados, mais viajados e outras curiosidades.

O desenvolvedor de software Luís Fernando Tremonti, criou o projeto “Leitura no Vagão” que segue o mesmo conceito do Bookcrossing e ajuda a disseminar a leitura no metrô de São Paulo onde passam milhares de pessoas por dia.

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Ler é ganhar asas para o mundo (autor desconhecido)

[Que outros metrôs realizem projeto idêntico. Em Porto Alegre, a poetisa e artista plástica Sandra Santos vem promovendo criativos projetos de divulgação e doação de livros, para criar o hábito da leitura]

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Um país sem bibliotecas e livrarias

por Gloria Kirinus

Livraria

Uma acolhedora e pequena livraria, em Curitiba, fechará sua portas, neste maio. Pra nós autores, isto significa um des-maio.

Na livraria Poetria Clf estavam todos nossos livros, dispostos e disponíveis, com direito a vitrine, para os leitores.

No meu caso, ainda conto com a livraria Paulus e Paulinas onde também tenho livros publicados. Ainda conto com o excelente trabalho de divulgação da Cortez, em Curitiba. Em outras livrarias da cidade meus livros “estão no sistema”. Ahhh… assim não vale, o leitor quer tocar o livro na hora. Isso de “volte daqui a quinze dias” não tem graça nenhuma.

Deveria existir um apoio especial do governo para quem abre uma pequena, acolhedora, intensa livraria, na sua cidade. Algo assim como liberação do aluguel, em espaços previamente selecionados para funcionarem para tal fim. Ou, quem sabe, os próprios autores poderiam formar cooperativas para criar suas livrarias. O que acham desta idéia, AEILIJ/PR e AEILIJ nacional?

Eu sei, os livros podem ser comprados pela internet, mas essa é a dimensão imediata e prática. Falo, aqui, da troca, da conversa, do encontro, com outros leitores, uma livraria quase casa da gente.

Falo da voz do livreiro: – “chegou um livro que é tua cara” ! Falo da livraria com sua poética fundamental para oxigenar e desintoxicar nossa alma.

Obrigada, livraria Poetria Livros e Arte por acolher todos meus livros ( e meus delírios) no espaço mais cálido e acolhedor de Curitiba.

Max

Max

Concordo com Gloria Kirinus, o Brasil precisa de uma grande campanha para abrir livrarias. No Recife todo, existem livrarias apenas no shopping. E são, realmente, lojas de objetos eletrônicos e/ou papelaria. Possuem o nome de livraria para receber isenções de impostos.

O País possui mais de cinco mil secretarias de cultura municipais e estaduais, e a maioria dessas secretarias jamais inaugurou uma biblioteca, patrocinou a abertura de uma livraria, ou editou um livro, quando os governadores e prefeitos gastam fortunas nas instalações de oficinas e montadoras de indústria estrangeiras no Brasil do Proer dos bancos.

Essas secretarias de cultura, entupidas de funcionários públicos parasitas, são excelentes na arte de não fazer nada, além dos super faturados grandes eventos.

Os secretários de cultura adoram patrocinar o que custa muito caro e/ou o que rende muito dinheiro.

Existe, sim, uma política de degradação da cultura brasileira.

ensino escola biblioteca banco indignados

O Febeapá é um projeto cultural de sabotagem da Cultura brasileira

arquivo biblioteca barata livro

 

 

Um brasileiro para se tornar conhecido nacionalmente na literatura, primeiro precisa ser conhecido lá fora. Você pode não gostar dos romances dele, mas foi assim que aconteceu com Paulo Coelho. Ou um Jorge Amado, pela propaganda realizada pelo Partido Comunista Internacional.

A CIA fez sua parte como sabotagem. Degradou nossa música, acabou com o cinema nacional e patrocinou um padrão TV Globo de qualidade, que lembra as famosas novelas mexicanas.

A imprensa vendida acabou com os suplementos literários, e não  existem mais ensaio, crítica nem resenha.

As teses acadêmicas seguem um modelo rígido e único de dissertação. Um processamento inimigo da criatividade. Um convite a não leitura.

Não preciso lembrar os 21 anos de chumbo da ditadura militar de caça as bruxas, mas que fique registrado que, em 1964,  Fernando Henrique captava cérebros para a CIA. Eleito presidente duas vezes, criou a Lei Rouanet, que lava notas fiscais de um mecenato maníaco por mega eventos (o quanto mais caro melhor), festivais e espetáculos artísticos, os shows comícios, os embalos de sábado dos prefeitos com a contratação de cantores super faturados.

Quantas bibliotecas públicas, teatros, arquivos, editoras marcam o governo de FHC? As TVs Cultura estão sucateadas. Não criou nenhuma universidade, nenhum museu, e não realizou nenhuma campanha nacional em defesa da nossa Cultura ou de promoção no exterior com repercussão internacional.

Ninguém publica livro de contos, poesia, novela, teatro. Raros romancistas conseguem lançar algum livro novo. Os jovens autores vão envelhecer inéditos, quando o Brasil possui ociosas impressoras para editar os diários oficiais da União, dos Estados, e  no Congresso e universidades.

As livrarias foram monopolizadas pela Saraiva, pela Cultura, pela Siciliano, que apenas vendem autores estrangeiros, e que viraram papelarias e lojas cibernéticas.

Pagas com o dinheiro do povo sobram autoridades culturais: ministro, secretários estaduais e municipais de Cultura, cada um com uma legião de funcionários trabalhando que nem os funcionários dos tribunais eleitorais. O Itamarati mantém em cada país um adido cultural que cuida do nada.

Reverbera o grito franquista do general Millán-Astray: “Muera la intelectualidad traidora! Viva la muerte!”.

O Brasil continua o país do Febeapá. 

 

 

 

polícia ensino estudante repressão indgnados

 

 

 

 

 

 

 

É HORA DO POVO PENSAR

por Talis Andrade

livro pássaro

Ora poesia lírica
ora poesia épica
do Grande Rio
do Sul

Ora um canto suave
ora um canto áspero
– flor e espinho

Que lhe fere o coração
ver os filhos da rua
saber que existem meninas
que ficam nuas por um pedaço de pão

Ora Sandra ora
aos Santos ora
doutro poeta a oração

Oh! bendito o que semeia
livros à mão cheia
e manda o povo pensar

e manda o povo pensar

A literatura como feudo de celebridades

por Alexandre Cosle

 

livro na cara

 

A literatura, tal qual a lendária cidade de Troia, foi um dos últimos bastiões que cedeu ao avanço das barbáries da globalização. Resistiu com bravura à vilipendiação dos valores e à corrupção da alma. No entanto, resistir é inútil, já pressagiavam os borgs de Star Trek. A arte literária também está sendo assimilada pelo consumismo hedonista para se enquadrar às normas da indústria cultural do século 21, que é avessa a mergulhos profundos e impõe que as nossas preferências se limitem à epiderme das coisas.

Livros com capas coloridas, chamativas; autor com pose de pop star, patinando deslumbrado sob holofotes e flashes de câmeras digitais. A palavra que renuncia ao conteúdo para se transformar em imagem plástica, mais palpável, palatável e lucrativa. A palavra realocada num mundo onde prevalece o objeto comercial. Book trailers, palcos, escritores-celebridade, feiras literárias como grandes anfiteatros para uma gente bonita mostrar seu valor. É a literatura intimada a ser espetáculo.

O escritor recluso e tímido, que escolheu a solidão para fecundar o pensamento e a visão intimista sobre o mundo, esse está em desuso, perde lugar para o showman e para as faces conhecidas da TV (que também decidiram enveredar pelas letras). Há poucos dias ouvi uma definição bem humorada sobre isso, estamos na era dos globe trotters literários. Não, definitivamente não existe lugar ao sol para o misantropo. Ou ele se metamorfoseia em pavão ou que apodreça nos porões do anonimato.

Território devastado

O que se ganha com a literatura midiática? Sem dúvida, arrebanham-se mais leitores, fortalecem-se alguns grupos editoriais, aumentam as tiragens. E o que se perde? A qualidade endógena das obras entrou em decadência, a estética foi depreciada pelo objetivo de atingir leitores menos qualificados e leitores desqualificados geram escritores medíocres. O resultado que se observa é um vácuo na literatura brasileira que inunda as livrarias com títulos estrangeiros, traduções capengas e o cultivo de um gosto duvidoso. Estamos recolonizando a nossa literatura, esse é o preço do estrelato individual. Não é à toa que uma pesquisa recente, realizada em 2014 pelo jornal O Globo nas principais bibliotecas públicas cariocas, constatou que o interesse dos leitores pelos best-sellers internacionais supera com larga vantagem a consulta por autores nacionais, inclusive os clássicos.

Algumas poucas trincheiras tentam preservar a literatura como arte, editoras como a Patuá e Confraria do Vento semearam e colheram autores valorosos que emplacaram como finalistas do Prêmio Portugal Telecom 2014.

Infelizmente, o caráter desta literatura nacional recolonizada, feudo de celebridades, movida por nichos e modismos, não aparenta vontade de reverter seus passos em direção ao lucro e nem exibe remorso pela depredação estética que promove. Quando tentamos prever um cenário futuro, o panorama que se esboça é nebuloso, imprevisível. Quem sabe, lá na frente, deparemos somente com as ruínas de um território devastado e saqueado pela sanha dos ególatras. Uma Troia incendiada. Porém, mesmo diante do trágico desfecho da Ilíada, Aquiles e Heitor, os dois heróis épicos, ainda inspiram o que é eterno. Aos que amam literatura, resta a fé. Acreditar é sobreviver.

 

 

De Cristina Moreno de Castro

Quando rio sozinha

 

 

 

Cristina Moreno de Castro o2

 

Absorvo a praça

A cada passo

A cidade, com sua vida

– céu, mendigo, motos, beijos –

me inunda por inteiro

A cada passo.

 

O ar frio que me entra

me aquece

reviva cada órgão do meu corpo,

que estavam embalados

no tédio quente do fluxo sangüíneo.

O ar frio me preenche

e me salva.

 

Numa volta, olhando em frente

não se enxerga

O sol, laranja, que me cega

se recusa a partir

O pôr-do-sol demora mais que todo o dia

e só termina porque a hora mágica

sempre se faz necessária.

 

Ah, a hora mágica!

Destaca os cravos e gerânios

faz os postes pipocarem

e, num repente, liga-se a chuva artificial:

cheiro de dama-da-noite ou lírio.

 

Com todo esse anúncio perfumado

faz-se noite.

E a lua no céu é a deslumbrante

é aquele rosto branco e gordo que vigia

e inspira 17 beijos simultâneos ao redor.

 

17 casais, ou mais, todos de filme.

Que inspiram pensamentos bons e

sonhos românticos.

São nada menos que pequenos personagens

de uma praça que rende livro.

 

Em meio às maquinações deliciosas,

Não deixo de ouvir conversinhas e risadas.

Ou um que passa entoando um blues.

Ou o louco que anuncia as saudades

do Rio: não gosto de roça, eu gosto

é da praia!

 

Já eu, gosto dos dois, gosto de todos.

E a minha roça de rostos comuns

abriga uma linda criança que

sai correndo como se fosse desbravar

o mundo.

O pai fareja o perigo antes ainda –

corre atrás.

Duas crianças correndo, uma nove vezes

maior que a outra.

A anã se esparrama, mas não espatifa:

o herói a faz voar.

Ela não chora, nunca vai esquecer desses vôos

na Praça com nome bonito.

 

Enquanto ela voa, os pássaros bicam o chão.

O velho – um deles – lhes oferece

um banquete.

O velho e os pássaros dão uma foto

E eu rio sozinha.

 

Também dá uma foto (e faz pose)

A noiva de véu e grinalda

Ela pagou um fotógrafo pra sair

linda na Praça.

(Vai sair).

 

O cachorro enorme passa rasgando

O menino de bicicleta inventa

as regras do trânsito.

Eu rio sozinha e absorvo.

 

Enquanto isso, fora daquela praça

Pessoas cinzas estão preocupadas

Enrugam a testa, buzinam e

se espremem no ônibus.

 

Não repararam no lindo céu de outono.

Não repararam na cara brilhante da lua.

Sequer ouviram os berros do louco nostálgico

ou as doces melodias do flautista.

Não prestaram atenção em minhas risadas

e no turbilhão de pensamentos que lancei

ao meu redor.

Em seu mundo cinza, não viram o verde da

Praça, de cravos e gerânios.

Não sentiram a dama-da-noite ou manacá

ou o respingo d’água chovendo do chão.

 

A Praça é meu refúgio e minha Liberdade

que repõe a vida após o dia cinzento

E me inunda, e eu absorvo

– e rio sozinha.

 

 

 

 

 

 

 

O menino brasileiro que roubava livros

Não existe crime mais horrendo que a polícia levar os originais de um livro. Como acaba de acontecer em Minas Gerais com o jornalista Geraldo Elísio. Um crime que lembra a queima de livros promovida pela Gestapo de Hitler.

Outro flagrante deste Brasil nada cordial, o caso do jovem condenado porque roubou três livros para estudar.

menino que roubava livros

A GUERRA PELOS OLHOS GRANDES DE UMA CRIANÇA

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Para ver no cinema: A MENINA QUE ROUBAVA LIVROS (The Book Thief)

por Cristina Moreno de Castro

Li o best-seller “A Menina que Roubava Livros“, do australiano Markus Zusak, no verão de 2008. Lembro que achei ótimo, bem escrito e que ele me fez chorar em algumas partes. Mas não posso dizer que tenha sido um livro marcante, porque, passados exatos seis anos, já não me lembrava de praticamente nada além do fato de a história se passar durante a Segunda Guerra Mundial.

E foi com esse espírito esquecido, mas na expectativa do choro, que fui assistir ao filme que adaptou o livro.

A-menina-que-roubava-livros-filme

A primeira coisa que posso dizer é que o filme é bastante fiel ao romance. Foi me fazendo resgatar cada passagem e reviver cada sensação que eu tinha sentido em 2008. Até mesmo a narrativa de Zusak é preservada, por meio da narração bem-humorada da Morte, que parece deixar o drama da guerra quase suave e brincalhão. É como se eu estivesse lendo o livro de novo, na tela, mas o roteiro faz isso mantendo o ritmo, sem excesso de vagar ou de tédio, como às vezes acontece nesses casos.

O mérito é de um diretor de que nunca ouvi falar, Brian Percival, até então com experiência restrita aos filmes para televisão. Mas também é da jovem atriz canadense Sophie Nélisse, que dá vida à menina encantada com livros. Aqueles olhões expressivos dela conseguiram criar a imagem da menina que já tinha se acostumado a sofrer e que encarava aquela vida difícil com muita coragem. O elenco ainda conta com os experientes e maravilhosos Geoffrey Rush e Emily Watson. E com o ótimo novato Ben Schnetzer, no papel do judeu Max.

O filme só concorre ao Oscar pela trilha sonora original. Mas merecia entrar com o figurino — toda a caracterização dos anos 1940 é, aliás, impecável — e com o roteiro adaptado, pelo menos. Vai entender…

Não sei dizer se, daqui a seis anos, também terei me esquecido de quase tudo, ou se este filme será mais marcante do que foi o livro. Possivelmente não. É o mal dos filmes sobre a guerra: são sempre comoventes, a história sempre é boa (porque as guerras têm o único mérito de produzirem boas histórias), mas muitas vezes se perdem no novelo do gênero. De qualquer forma, aquelas duas horas foram uma experiência única de viagem pelo tempo até um dos períodos mais trágicos da nossa história, conduzida pelas mãos da Morte e de uma menina de olhos grandes que amava livros.

Trailer