“E Paris é outro dia” cantada por Leo Lobos e filmada por Woody Allen

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Uma visita ao zoológico fantasma

por Leo Lobos

Livre da enfermidade, embora em meio à enfermidade
Yagyu Munenori

Tenho visto tanta merda de cão
nas ruas de Paris que devo
caminhar com cuidado à noite
é quando me parece então
escutar meninos e meninas fantasmas
rirem na fila de entrada do
zoológico que para eles ali se levanta:
um desfile de elefantes brancos cruza
a praça do Louvre fazendo
malabarismos com obras de arte e restos
de arqueologias extraterrestres, girafas
correm pelos Campos Elíseos comendo
as luzes natalinas que crescem em
suas árvores, baleias, delfins,
patos selvagens nadam pelo Sena
tragando turistas desprevenidos
que acendem flashes em seus narizes
leões copulam famintos
sobre os telhados como relíquias
de cristal de uma cidade iminente…
Hipopótamos ébrios se encalham em suas
ruas serpenteantes, em seus arcos triunfais,
em sua torre famosa…
Galeristas confusos
correm atrás de cavalos livres de
carrossel que levam gravada uma estrela
de ouro em seu flanco…
Bandos de aves tropicais cobrem a lua
de plumas de plástico que
ursos vestidos à la mode sopram
com ventiladores nucleares de
globos que intermitentes sobem
e descem por escadas invisíveis
que águias cegas trazem
de Nôtre-Dame…
Sinosnuvens carregados de
perfumes humanos chovem
no final desta noite sobre
o zoológico de plasma e tudo
retorna nos olhos de um gato
sabiamente
a ser luz solar
e Paris
é outro dia

—-

Entre os consagrados fantasmas literários filmados em Meia-Noite em Paris: Leo Lobos.

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Críticos viram Leo e Rimbaud caminhando de mãos dadas. Outros afirmaram que não. E sim Leo e Pablo Neruda confidenciando cenas picantes de amor e sexo vividas por Carlos Drummond de Andrade e Greta Garbo.

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Este aparecer apenas em cenas subliminares foi exigência do poeta chileno, conforme contrato assinado com Woody Allen.

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https://www.youtube.com/watch?v=fnNl7rjSNO0

 

 

O ALVO NO ARAME, POR NEI DUCLÓS

São muitas as possíveis simbologias por trás da imagem do atirador de facas. Para nós, esse personagem-metáfora representa arte, risco, prazer, cumplicidade e outros elementos que você pode ver aqui. Mas, há sempre outras leituras. Confira abaixo texto do poeta e escritor Nei Duclós sobre esta personagem tão arquetípica da literatura (o texto original está no blog do autor, Outubro).

 

facas

 

O ALVO NO ARAME

 

Por Nei Duclós

– Voltaste ao circo, disse a equilibrista.
– Senti saudades, disse o atirador de facas.

– Pensei que tinhas te adaptado à cidade, disse a equilibrista.
– Estava tudo indo bem até que vi uma foto em que caías no abismo, disse o atirador de facas.
– Chegaste a tempo, disse ela.

– Minha coleção está incompleta, disse o atirador de facas.
– Eu sei, disse a equilibrista. Guardo uma peça para a próxima traição.

– Voltarás a ser meu alvo? disse o atirador de facas.
– Se prometer que desta vez acertarás, disse a equilibrista.

– Ganhas a vida errando o alvo, disse a equilibrista.
– É minha forma tosca de dizer que te amo, disse o atirador de facas.

– Bolei uma nova atração, disse o atirador de facas. Acerto o arame para te ver caindo.
– Bonito, disse a equilibrista. Mas tem uma condição. Se eu sobreviver, casamos.