Urariano Mota: “O crime contra Soledad é o caso mais eloqüente da guerra suja da ditadura no Brasil”

Soledad, beleza e sangue

“A morte de Soledad deu-se em razão de sua ternura”

por Conceição Lemes

Soledad Barret Viedma. Eu a ‘conheci’ ao ler uma coluna do jornalista e escritor pernambucano Urariano Mota, em Direto da Redação. Fascinou-me na hora. Uma jovem idealista, corajosa e linda, muito linda. Foi torturada e morta no Recife em 1973, grávida, depois de ser entregue ao delegado Sílvio Paranhos Fleury, traída pelo cabo Anselmo, de quem trazia um filho na barriga. O texto era tão terno, carinhoso, delicado. Confesso que me passou pela cabeça os dois terem sido namorados.

Emocionou-me tanto a história, que, imediatamente, quis saber mais de Soledad. Daí nasceu esta conversa com Urariano, que lança, em julho, o livro Soledad no Recife pela editora Boitempo. Ele é autor do romance Os Corações Futuristas, cuja paisagem é a ditadura Médici.

Soledad

Por que Soledad? Na sua coluna, você diz que só agora teve condições de mergulhar nas entranhas daquele momento. Por quê?

Urariano Mota – Há temas que nos perseguem, embora nem sempre a gente perceba. No meu primeiro livro, o romance Os corações futuristas, houve Cíntia, uma brava socialista. Já no destino trágico de Cíntia havia um destino de Soledad. A ‘diferença’ é que Cíntia se apoiava em outra pessoa, em outra militante. Enquanto Soledad, pelo menos quero crer e me empenhei muito por isso, Soledad é a pessoa. É a própria pessoa, pelo menos desejo ter realizado isso.

Por que só agora, 36 anos depois? De um ponto de vista pessoal, estou mais apto e cônscio de minhas fronteiras. De um ponto de vista mais geral, digamos, objetivo, o crime contra Soledad é o caso mais eloqüente da guerra suja da ditadura no Brasil. A traição que ela sofreu expressa, com vigor, a traição contra jovens do sentimento mais generoso, que é o sentimento de humanidade, do mundo.

Era tua amiga? Como ela era?

U.M. – Eu sou fundamentalmente um escritor. Isso quer dizer, expresso minha experiência vivida, sempre. Ou em fatos biográficos, testemunhados e sofridos, ou em fatos imaginados, recompostos, ressurgidos, que são também, para a literatura, para o artista, fatos testemunhados e sofridos. Soledad não era, ela é minha amiga. Mas não trocamos palavras em sua curta vida. Este livro diz a ela, fala as palavras que não podemos trocar, no Recife da ditadura Médici.

Mais de uma pessoa, para não dizer quase todas as pessoas, pensam que Soledad foi minha namorada, que eu a conheci pessoalmente. Isso vem da narração e da forma apaixonada do relato. Essa impressão surge, veio e vem do livro. Mais de um leitor já recebeu essa impressão. Isso se deve à mistura, em um só corpo, de pessoas e fatos absolutamente reais, documentados, sabidos, ao sentimento que tenho daqueles dias. O documento vivido pela segunda vez. Então, é claro, o elemento ‘ficcional’ virou factual. Como ela era, como ela é, o livro dirá.

É citado o massacre da chácara São Bento. Que lembrança isso traz?

U.M. – As notícias, publicadas em todo o Brasil em janeiro de 1973, dos seis ‘terroristas’ mortos no aparelho da São Bento, são absolutamente falsas. As ‘notícias’ de terroristas mortos, naquele tempo, eram reproduzidas com a mesma redação e teor em toda a imprensa brasileira. Vinham da agência de segurança nacional. Jamais houve o ‘massacre da chácara São Bento’. Houve a execução fria, planejada, de seis bravos militantes. A chácara foi o teatrinho criado para a execução de seis bravos.

Soledad Barret Viedma e Pauline Reichstul – há testemunho público disso – foram assaltadas em uma butique no Recife, de surpresa espancadas sob pistolas e seqüestradas. Em uma mangueira, por trás da butique, a proprietária notou depois sangue, vômito e urina. Isso de modo público, à vista de todos. Jarbas Pereira Marques, outro militante, que aparece entre os terroristas da chácara, foi retirado da livraria onde trabalhava, à luz do dia. Digo isso no livro, e repito aqui: em uma ditadura, até as datas dos jornais são falsas.

Soledad foi traída pelo cabo Anselmo, que a delatou ao delegado Fleury. Você conheceu o cabo Anselmo? O que sente por ele?

U.M. – Eu estudo o seu caráter há muitos e muitos anos. Ele é objeto de minha permanente observação e pesquisa. No entanto, jamais vi na rua o cabo Anselmo. Eu o conheço por seus cadáveres, que ele arrasta como uma cauda. Fui, sou amigo de quem ele perseguiu, traiu e matou.

Ninguém podia imaginar que ele fosse uma infiltração. Anselmo pertence à família dos agentes duplos, dos instrumentos de política que se chamam espiões. Isso quer dizer: ele é um mundo de mentiras. Ele era e é um sistema em que mentiras armam mentiras, que constroem mentiras, sempre. Isso quer dizer, enfim, que tudo quanto esse instrumento dizia e disser, falar, deve ser posto sob absoluta desconfiança, porque ele mente por sistema, por hábito, por defesa, por ataque e natureza. Não se pode acreditar em uma só das suas palavras. Quando ele diz eu amo, eu respeito, o bom senso deve traduzir de imediato, ele odeia e despreza.

Sou de opinião que não importa o seu último nome. Porque ele não tem outro nome nem outra face. Jonas, Daniel, José, com barba, sem barba, magro, gordo, com novos olhos, novas orelhas, novo nariz, nova boca, não importa. Ele será sempre, para onde for, cabo Anselmo, aquele que gerou a morte da sua companheira, que trazia um filho no ventre.

Soledad morreu jovem, linda. Se ela vivesse no Brasil de hoje, o que estaria fazendo Soledad, em quem votaria, o que a preocuparia?

U.M. – É a pergunta mais difícil. Mas sei, ou posso ter a esperança de que ela estaria no movimento socialista, com um apoio crítico ao governo Lula. Continuaria linda, pelo fogo que tomava o seu corpo e sua vida, que não se apaga, não arrefece, apenas fica mais maturado. Como um vinho decantado que embriaga melhor.

Para ela, viva neste 2009, digo o que escrevi no livro:

Soledad não é só a mulher bonita, de um ponto de vista físico, cuja fotografia revela apenas uma estação do seu ser. Uma estação imóvel do seu peito dinâmico, e de tal modo que dará ao fotógrafo o que se diz de um mau desenhista, ‘isto não se parece com ela, não saiu parecido’. E se pedirá então ao fotógrafo o absurdo, a saber, que a máquina, a mecânica, reproduza um ser, a textura, cor e delicadeza da orquídea, da pessoa mesma. Como se fosse possível da flor um close que a isolasse do ar que ela respira, do campo em torno, do cheiro que exala, em resumo, como se fosse possível reproduzir o complexo, a conspiração de sentidos que se dirigem para um único fim, a pessoa, o ser vivo, poderoso em nos despertar amor, afeição, paixão, tar a e paz, que buscamos como a uma miragem. Ainda assim, se sabemos que na flor há um ser inalcançado na fotografia, se comparamos, se transpomos mal, imagine-se então Soledad no lugar dessa flor do campo. Imaginamos mal e mau, já vêem. Flor não se rebela nem canta. Flor nos desperta canção e rebeldia, quando machucada. Mas a pessoa de Soledad, ainda que lembre essa flor – e é irrecusável não lhe ver a pele como o tecido de uma pétala –, e assim a lembraremos pelo vento forte e traiçoeiro que se prepara para a muchucar e destruir, ainda assim, como a superar tal associação, ainda que nos persiga como só uma idéia é capaz de perseguir, hoje, neste dia do seu aniversário, ela está mais bela que antes. ¡Arriba, Sol!

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Trechos

Eu a vi primeiro numa noite de sexta-feira de carnaval. Fossem outras circunstâncias, diria que a visão de Soledad, naquela sexta-feira de 1972, dava na gente a vontade de cantar. Mas eu a vi, como se fosse a primeira vez, quando saíamos do Coliseu, o cinema de arte daqueles tempos no Recife. Vi-a, olhei-a e voltei a olhá-la por impulso, porque a sua pessoa assim exigia, mas logo depois tornei a mim mesmo, tonto que eu estava ainda com as imagens do filme. Num lago que já não estava tranquilo, perturbado a sua visão me deixou. Assim como muitos anos depois, quando saí de uma exposição de gravuras de Goya, quando saí daqueles desenhos, daquele homem metade tronco de árvore, metade gente, eu me encontrava com dificuldade de voltar ao cotidiano, ao mundo normal, ‘alienado’, como dizíamos então. Saíamos do cinema eu e Ivan, ao fim do mal digerido O anjo exterminador. Imagens estranhas e invasoras assaltavam a gente.

A vontade que dava de cantar retornou adiante, naquela mesma noite. No Bar de Aroeira, no pátio de São Pedro, naquela sexta-feira gorda. Como são pequenas as cidades para os que têm convicções semelhantes! Estávamos eu e Ivan sentados em bancos rústicos de madeira, na segunda batida de limão, quando irromperam Júlio, ela e um terceiro, que eu não conhecia. Ela veio, Júlio veio, o terceiro veio, mas foi como se ela se distanciasse à frente – diria mesmo, como se existisse só ela, e de tal modo que eu baixei os olhos. ‘Como é bela’, eu me disse, quando na verdade eu traduzi para beleza o que era graça, graça e terna feminilidade.

A morte de Soledad

Chegamos agora mais perto de Soledad Barret Viedma. Excluo-me, na medida do possível, da qualidade daquele que a amou em silêncio.

Há quem considere que a morte de Soledad, nas circunstâncias que conhecemos mais tarde, deu-se em razão de sua ternura. Isso é mais que um namoro, um interlúdio, para dizer que ela esculpiu a própria sorte, porque, diabo, era terna e verdadeira. Com a evidência de um escândalo. Prenhe de ternura até as raias do suicídio. Esse elogio torto, digno da reencarnação e pele de um Anselmo 2, é como um açúcar no sal de sua execução. Um doce, um mel, a lhe correr sobre os lábios entre coices, descargas elétricas e afogamentos. Conviria melhor ser dito que ela, por suas qualidades raras de pessoa, estava condenada.

Carol, o preço do sal ou da doçura de um amor lésbico

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kinopoisk.ru

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A lista dos melhores filmes lésbicos para este ano de 2015, começa com o premiado Carol, adaptado do romance The Price of Salt, escrito por Patricia Highsmith, e dirigido por Todd Haynes.

A jovem Therese Belivet (Rooney Mara) tem um emprego entediante na seção de brinquedos de uma loja de departamentos. Um dia, ela conhece a elegante Carol Aird (Cate Blanchett), uma cliente que busca um presente de Natal para a sua filha.

Carol, recém-divorciada, também não está contente com a sua vida. As duas percebem que têm muito em comum e um romance se desenvolve.

Escrevendo inicialmente sob o pseudônimo de Claire Morgan, Patricia Highsmith criou um romance que aborda uma relação amorosa entre mulheres que, pela primeira vez na literatura, teve um final feliz. Recusado pelo editor norte-americano da escritora, o livro acabou sendo publicado por outra editora com o título de, (só depois ele passaria a ser Carol) e logo se tornou um grande sucesso.

O livro conta a história de Therese Belivet, aspirante a cenógrafa que trabalha como vendedora na seção de bonecas de uma loja de departamentos, e de Carol, uma bela e elegante mulher recém separada e mãe de uma filha que, na época do Natal, em meio à loja lotada, chama atenção de Therese. A vendedora fica hipnotizada por ela: “Alta e clara, com um longo corpo elegante dentro de um casaco de pele folgado (…), seus olhos eram cinzentos, claros e, no entanto, dominadores, como luz ou fogo”.

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Assim começa o romance entre a jovem Therese e Carol. Mas não pense que esta é uma simples história de amor. Patricia Highsmith criou uma trama cheia de aventura, suspense e contornos noir.

Patricia Highsmith teve a ideia de escrever Carol baseada em uma experiência própria: ela se tornou obcecada por uma mulher que viu em uma loja. Leia mais em L&PM Editores

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VIOLETTE. El eslabón perdido

¿Por qué una escritora tan fascinante y revolucionaria como Violette Leduc (1907-1972) se ha vuelto una completa desconocida? Pionera en escribir sobre el aborto, la bisexualidad y otros tabúes en primera persona, sus novelas se adelantaron a lo que hoy es leído como literatura queer y se siguen resistiendo a toda clasificación. La semana próxima se estrena Violette, que reconstruye su relación apasionada con Simone de Beauvoir. Aunque el film no transmite la locura, el encanto de su voz ni su inclasificable sexualidad, impone volver a pensar en ella.

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por Liliana Viola/ Página 12

Hasta hace unas pocas décadas, la consigna “tenés que leer a Violette Leduc” funcionó como telegrama de aviso entre lesbianas y futuras lesbianas. Hoy, sus títulos –que no se han vuelto a editar desde los años ’60– esperan en librerías de usados o en la vidriera de MercadoLibre convertirse en unos pesitos extra para alguien que no la leyó. Los vendedores profesionales o “con buena reputación” en el sitio advierten al comprador que en La bastarda (1964) hay un capítulo que no está bien, “mire que hay unas páginas muy subrayadas, pero igual se lee”. Es siempre el Capítulo 3. Lo hemos comprobado luego de una compra compulsiva promovida por dicha advertencia: en ese capítulo, Leduc narra por tercera o cuarta vez en toda su obra el encuentro físico de las dos jovencitas en el internado. Se lo habían amputado de su novela Ravages (1955) no los malditos censores de siempre sino sus progresistas editores de Gallimard por “escandaloso e innecesariamente lésbico”. A partir de entonces la historia regresa con más detalles cada vez que puede.

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Esas 140 páginas prohibidas aparecieron también como Teresa e Isabel quedando en la historia como la novela explícita y sáfica de Leduc cuando en realidad había nacido como un episodio. También circuló un manuscrito pirata que a modo de premio consuelo le pagó su amigo perfumista Jacques Guérin para que cirulara entre coleccionistas de lo degenerado. Era un auto robo, una estafa a sí misma, algo así como hacerle perder a la editorial y al amigo el dinero equivalente a la cordura que iba perdiendo ella. La escritura para Leduc siempre es revancha. Si ya era una mujer notoriamente extraña, que abusaba de ese pase libre para el escandalete que antes se le otorgaba a la hija única sobre todo si además tenían madre soltera, la censura de sus primeros amores la hundió en una paranoia que se le hizo estilo: cree que la espía Sartre desde la terraza de su departamento, que Simone se puede morir si se va de viaje, consulta a una vecina astróloga diariamente para cada decisión doméstica y espera señales claves de objetos que ve en la calle para saber si hoy va a morir, si llegará su amante o lo que sea. No llegaron a ponerla en caja, afortunadamente para los lectores, ni las internaciones y ayudas psiquiátricas a las que la sometió Simone de Beauvoir, ni el éxito que –también con ayuda y látigo de Simone– llegó más tarde. Con el título La locura ante todo, el último tomo de su serie autobiográfica, Leduc sintetiza lo que puede leerse como toda una declaración identitaria. La L de loca y no de lesbiana debería estar para ella en la sigla que no existía todavía en sus tiempos: un modo de ver y estar en el mundo que arrasa con toda norma (lidad). Leduc se ve a si misma como un monstruo y es esa monstruosidad ejercida en cada párrafo lo que hace de su literatura un arma subversiva.

 

Violette Leduc

Violette Leduc

¡No era lesbiana! Es invisible…

Sin haberse propuesto escribir una sola historia catalogable dentro de la temática, Leduc fue original y pionera al exponer el placer físico y la pasión que una mujer puede sentir con otra. También en pasarle por encima al circuito obligatorio que va desde el amor imposible hasta el porno para caballeros. Su personaje más recurrente es ella misma, y quien siempre regresa a provocarla se llama Isabelle. Son dos niñas de 12 o 14 años, según la versión, que se encuentran en la cama del internado. La cama cruje, hay que contener la respiración, amarrar las sábanas, puede venir la gobernanta. “El amor es una invención agotadora. Isabelle y Violette me repetía yo para habituarme a la mágica simplicidad de los dos nombres.” Las relaciones entre mujeres en versión Leduc tienen un plus respecto del relato lésbico estándar. Violette se vuelve otra (incluso otro) según su partenaire. Las chicas del internado combinan sesiones de violencia, capricho, exploración sin el menor respeto por ninguna jerarquía de zonas eróticas. La piel se vuelve musa, los roles se erosionan y adentro de esa cama avanzan en un candor que llega hasta la obscenidad cuando la autora se propone serle fiel a lo que sucedió. Otra seña particular: no es reivindicativa, ni espera comprensión como Marguerite Radcliffe Hall en El pozo de la soledad (1928), no interpone la distancia socarrona de Colette con su Claudine, ni conoce la maquiavélica erótica de Natalie Barney y sus señoritas de salón. Tampoco tuvo la celebridad de ninguna de ellas, en gran medida porque, como decía su benefactora y dómina Simone de Beauvoir, “Leduc no quiere gustar, no gusta y hasta aterroriza”. Reconcentrada en su experiencia y confesional hasta la autoadjudicación de crímenes –fue la primera en narrar un aborto clandestino en tiempos en que la ley francesa condenaba a prisión a la mujer que fuera descubierta– se ganó el ninguneo de la crítica académica y de la sexualmente interesada: una no le dejó pasar lo autodidacta y desbocada, la encontró demasiado torta para escritora; y la otra, demasiado exploradora para festejarla como “auténticamente de ambiente”. Años después, las feministas retomaron su gesta solitaria con el masivo “Yo aborté” y si bien participó allí con su firma de prócer, no se puede decir que haya conformado un programa orgánico feminista ni de ningún orden político. Hablaba de los nazis como “los malos” cuenta Simone en el prólogo de La bastarda. Era una outsider y su estilo inasible tal vez pueda ser comparable con el esilo delincuente de Jean Genet. Si éste había sido la descarriada criatura elegida por Sartre, Leduc ha sido la versión femenina para la cartera de Simone de Beauvoir. “Si no hubiera abortado nunca habría podido dedicarme a escribir” dice en su relato como quien con un movimiento de hombros se libera de una posible palmada en la espalda. Y como si faltara una broma pesada a cualquier intento de justificación moral, agrega: “Escribir nunca fue mi vocación ni tampoco mi oficio”.

Simone de Beauvoir

Simone de Beauvoir

Reality YO

En la Argentina fue contraseña de culto o de cultores de lo raro, aunque no circularon sus textos más escandalosos como, por ejemplo, Taxi, que es el viaje de cuatro horas de dos hermanos incestuosos, o la censurada Ravage, sus novelas estaban presentes en las bibliotecas argentinas de los ’70, apretando el lomo contra los de otros divos degenerados como Jean Genet (quien le dedicó Las criadas y la admiró hasta la envidia), Jacques Cocteau (su amigo que se burlaba de ella a sus espaldas: “Si yo tuviera esa nariz me suicidaría” dijo una vez sin saber que la dueña de la nariz estaba sentada en una mesa contigua), Albert Camus (quien le publicó su primera novela La asfixia, de 1946, en Gallimard).

Esa zaparrastrosa que había nacido en 1907 en Arras, al norte de Francia, hija de una sirvienta a la y de un niño bien que nunca la reconoció, a la que la agarró la Primera Guerra Mundial cuando tenía que terminar sus estudios, y la sorprendió la Ocupación cuando ya tenía agallas para meterse en el mercado negro a vender manteca a los hambrientos, llegó finalmente a París. Instalada en una pieza módica que la cortesía burguesa de Simone describió como “sitio ideal para escribir y sólo escribir”, penetró en el círculo de los intelectuales de moda empujando con lo que no tenía: ni una cara pasable que le sirviera como credencial VIP en alguna reunión, ni buenos modales. Se las rebuscó para ir seduciendo y hastiando a uno por uno, y mientras –gracias a tanto espaldarazo existencialista, fue incluida en sus catálogos– los escrachó a todos en ficciones autobiográficas como una adelantada vengadora de reality. Se podría hacer una gramática de la pose del “intelectual francés de los ’60”, o de la feminista en ciernes, o de los aspirantes a lo que sea, siguiendo la lengua afilada de Leduc, que va traduciendo lo que le dicen los zapatos gastados, los tapados de noche, los puños doblados, el modo de sentarse en la punta de una silla o en el fondo, o de levantar el mentón.

No se nace heterosexual, se deshace

Más que invertida, el personaje construido por Leduc es descentrada. ¿Tiene hambre? Roba para comer. Y no come. ¿Está desolada? Aprieta fuerte su bolso. Tiene un deseo poderoso que le durará hasta el último día y lo va fijando en objetos móviles: Maurice Sachs (homosexual), Isabelle (la adolescente con la que descubre su sexualidad y luego pierde la tensión al reencontrarla fuera del internado), Hermine (su profesora lesbiana, con quien se encierra en una pareja peligrosamente tradicional), Gabriel (gay con quien llega a casarse, hacerse un aborto y divorciarse), Simone de Beauvoir (su obsesión no correspondida), René de Bagnolet (el chongo que la muele a palos, albañil y heterosexual que la apasiona en su vejez), y muchxs personajes más que a veces duran en sus relatos menos de un día.

El erotismo de Leduc es capaz de armar una hoguera con lo que para otros es decorado o gesto mecánico: la mano de la estudiante que hurga en el bolso de la profesora mientras ésta no lo sabe ni sabe lo que le espera, el roce del camisón, “a veces el camisón me rozaba cuando nos abrazábamos y nos mecíamos, si dejamos de acariciarnos,recobramos la memoria y el dormitorio”); los tabiques entre las piezas de los hoteles alojamiento, esa “comunidad de alvéolos, contagio de la riña, del celo y del drama, empecemos de nuevo a hacer el amor con nuestros vecinos, los amantes”. Así como la Blanche Dubois de Un tranvía llamado Deseo siempre dependió “de la amabilidad de los extraños”, el placer de Leduc siempre dependerá de la respuesta de los objetos. Y si suena como insatisfacción asegurada, deberá leerse también como su genialidad, porque a esta escritora los objetos le responden más que a Proust: las frutas la señalan, los libros la miran llorar, un habano o una gorra la liberan de su feminidad cuando quiere volverse chongo para seducir a su amante gay, y unos zapatos tres números más chicos la ponen en caja cuando pretende hacerse más femenina para agradar a su novia.

En el fragmento que sigue la encontramos en La bastarda robando lencería para lucir bombachas y corpiños frente a Hermine, la profesora y torta casadera que quiere domesticarla: “Puse, como si siempre lo hubiera hecho, la negra, la azul, la anaranjada y la salmón en mi portafolios. La magnificencia de mi pequeño robo provenía de la rapidez con que el objeto se convertía en un objeto vendido sin pagar. Juntaba bombachas. Robaba para quitar a las mujeres lo que las feminiza”. Las bombachas robadas la vengan de las imposiciones de su novia que la quiere ver linda y femenina, y de la admonición de su madre: “Tenés que hacerte mujer de una vez para no quedarte sola”. Los objetos son los otros, podría haber dicho Leduc parafraseando a Sartre, uno de sus tantos contemporáneos que le brindaron las dos cosas que más se le dieron en la vida: ayuda y mortificación.

Rescatate, Violette

Violette film

“No había leído nada de Violette Leduc”, reiteró en varias entrevistas Martin Provost, 40 años, francés, en su visita a Buenos Aires cuando vino a presentar su película Violette, que se estrena la semana próxima. Provost ya empieza a figurar como el “director de las mujeres olvidadas” desde que comenzó su trilogía en 2008 con Séraphine Louis, una pintora que trabajó toda su vida como sirvienta hasta que fue descubierta por un coleccionista. Un colaborador le señaló que su segunda rescatada debía ser Leduc y aquí es cuando Provost, que jamás había oído de ella, se encuentra con que la autora está descatalogada en Francia y el resto del mundo. Claramente seducido por este objeto vintage, reconstruye al pie de la letra episodios de su vida, tal vez confiando demasiado en lo que ella escribe. Comienza su historia en los años de la Segunda Guerra con esta joven acosando a Maurice Sachs, que se la saca de encima enseñándole a contrabandear comida y mandándole a escribir sus obsesiones. El resto es un buceo en la relación equívoca de Violette con una Simone de Beauvoir particularmente frágil y sugerente. Una vez más, su destino de segundona: el director apuesta a la fama y al morbo que puede generar la segunda para interesarnos en la vida de la primera, que queda encapsulada en una serie de capítulos organizados según el personaje famoso con el que se cruza. Una aproximación más familiar al registro Wikipedia de las biografías que al torbellino delirante de Violette.

Bastarda con gloria

Leduc es demasiado narigona, demasiado pobre, demasiado fea y demasiado alta. Eso es un buen comienzo. Tiene todo para ejercer esa monstruosidad que la agiganta y que la hace disfrutar de estar siempre fuera de lugar. Nunca agradar, nunca encajar del todo. Tampco quedarse en el lamento. Leduc cuenta en sus novelas cómo dedica horas frente al espejo para exagerar sus rastros y volverlos más agresivos. Su figura desgarbada llega a llamar la atención de los mejores modistos. La fea llega a modelar para Paco Rabanne entre otros que la eligen justamente por su ejemplar imperfección, rara forma de la elegancia.

 

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Pero por sobre cualquier desperfecto del que ella hará virtud, hay uno que es el padre de todas sus desgracias y narrativas. Violette carga desde su infancia con una injuria: ¡Bastarda! Ha escuchado ese grito de sus compañeros y de sus vecinos de Arrás. Su nacimiento no la ha designado tanto a ella como a su madre; llegó al mundo para poner en dos patas y un vestidito exageradamente almidonado la humillación de su mamá. Y en cada acto de cuidado o de descuido de ella, Violette va a leer el estigma en el que se convirió al nacer. El insulto que hoy se ha convertido en arcaísmo tiene una relación de equivalencia con esa injuria considerada fundante de de la cuestión homosexual. Bastardo (¿acaso no es un modo elegante de decir “hijo de puta”?) ejerce la misma erosión que el grito de “puto” del que habla Didier Eribon como constitutivo de la homosexualidad. O el grito de “queer” que los activistas convirtieron en boomerang en los años ’90. En tiempos de ADN, de patria potestad compartida, padres biologicos y reclamos legales, el concepto de bastardía se ha diluido pero el efecto que provocó en la escritura de Violette, sigue con toda su potencia, interpelando a la diferencia.

Aun en tiempos de gloria, Leduc fue vista como unfenómeno de circo. En los seis o siete años que tuvo de exposicion mediática antes de morir, las revistas, las caricaturas y la televisión francesa le sacaron todo el jugo que podía dar una vieja excéntrica, paranoica, rodeada de juguetes, y además obsesionada con esa mujer a la que en sus novelas nombra como “Ella” o “La Señora”. Hoy se la puede ver en entrevistas tomadas pocos meses antes de su muerte declarando para el gusto chismoso de otra epoca: “Cada vez que yo estuve gravemente enferma, cada vez que golpeé a su puerta, cada vez que le rogué que me atendiera, jamás me abrió. Aun así, no pude haber escrito nada sin su ayuda. Nos veíamos cada quince días y ella me animaba a escribir. No habría escrito nada si ella no me lo hubiera pedido. Me decía que mis cuadernos eran muy largos,. También me alentaba a que contara más. Si pienso en las personas que son mi familia, mis amigos, siempre pienso en Simone de Beauvoir”, dice sin pestañear en una de sus últimas entrevistas, que puede visitarse en YouTube.

Leduc se murió el 2 de julio de 1972 y asistieron tres vecinas a su entierro. No se encontraban papeles sobre testamento, ni tampoco requerimientos funerarios. Fue enterrada en el jardín de su casa de campo en la Costa Azul, cuyos vecinos y animales aparecen retratados en su libro póstumo: La cacería del amor. La enterraron entre sus flores. “En cada poro una flor”, dice Violette cuando no encuentra palabras para describir las manos de Isabelle.

¿Qué interés puede tener exhumar hoy a Violette Leduc? Podría ser ella el eslabón perdido entre las narrativas más clásicas del erotismo sobre “amores que se califican de anormales” y una narrativa queer.

 

 

 

O romance oculto [“Os Corações Furistas” no porão da ditadura]

O romance oculto bate na cela

 

Urariano Mota

Urariano Mota

 

por Nei Duclós

A literatura é uma luz sobre os próprios limites. Não os limites do escritor, mas a da arte que não faz concessões, que não se dá ao luxo das aparências, e é trabalhada longe do que sustenta uma criatura, os sentimentos, especialmente a piedade. É a única forma de não trair sua matéria-prima, o humano em queda, a maldição do existir que leva sempre a um único desenlace. Produzir literatura é assumir a consciência de que a humanidade, à qual se dedica, não é um jogo de armar que pode ser recomposto pela palavra. É o que nos diz Urariano Mota em Os Corações Futuristas, um romance lançado em 1999 no Recife pela Editora Bagaço e que obteve pouca repercussão.

 

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Como a crítica ainda não se manifestou, deixando assim espaço livre para uma análise que, por força das circunstâncias, não possui ainda espaço de interlocução com seus pares, arrisco dizer que este é o mais importante romance dos últimos vinte anos. O período não é escolhido para fazer sombra a autores consagrados, com obras igualmente significativas, mas para caracterizar o confronto desta obra com as artimanhas do sistema que hoje nos rege (com reflexos pesados na exclusão de autores). Pois os princípios instaurados pelo regime de 1964 (endividamento externo crescente, alinhamento total aos EUA, concentração de renda, manipulação da opinião pública e aumento explosivo da miséria e da violência) foram vitoriosos pelas armas entre 1969 e 1973 (período a que se refere a maior parte do romance) e estabeleceram-se, a partir de 1985, como instituição, legitimada por todas as correntes políticas.

 

O romance de Urariano, com uma trama que se estende até o final do século passado, é um dos livros que nos lembram o quanto ainda vivemos sob o tacão do autoritarismo, disfarçado agora numa representação, a democracia, que foi exigida nas ruas, mas serviu apenas de pretexto para o continuísmo. Diante de tão completa derrota, a literatura volta-se para a porta da caverna o-nde reside. Lá, procura vislumbrar o clarão filtrado pelo tempo, que poderá dar alguma pista sobre o que realmente acontece no Brasil agora destruído na armadilha o-nde foi apanhado. Estamos presos, mas algo raspa a parede da cela pelo lado de fora. Antes de nos dar esperança, esse ruído nos avisa o-nde estamos e nos pergunta por que continuamos confinados.

 

Por que Os Corações Futuristas é importante?

Longe das comparações entre talentos ou protagonistas literários, Urariano Mota assume seu posto de autor pelo mergulho (por ter escolhido o mais alto penhasco de o-nde se atira), pelo vôo (porque instaura a morada completa, ética e filosófica, de personalidades condenadas ao esquecimento) e pelo fôlego (por encontrar oxigênio no sufoco que permanece). Faz isso sem jamais pagar o tributo ao anedótico, ou ao regional ou mesmo à nacionalidade (porque é de outra têmpera o fogo de que se alimenta), tentações a que os escritores brasileiros costumam deixar-se levar para romper o cerco da condenação do ofício. Urariano não se deixa enlear pela História (esse fragmento nobre da Memória), nem pelo espetáculo (as baladas do leitor em busca de enredos fáceis), nem pelo circo de vaidades (o autor sendo festejado pelo que aparenta). Ele procura outro caminho, mais árduo, ao resgatar a missão fundadora da literatura. Não é outro o motivo de se apontar o narrador do livro como o personagem mais poderoso, já que tem a exata noção de que não pode servir-se dos seres criados (Samuel, João, Carlos, Canhoto, Vevê) como se fossem uma pizza. Esse fundamento não se entrega à mediunidade, o deixar-se levar pelas caricaturas e pelas cenas que saltam aos olhos de um escriba quando ele se mete a estocar as feridas do tempo.

 

Urariano não finge que não é um criador, que está apenas contando uma história. Ele posta-se no lugar sagrado a que aspirou, o de reger (para demonstrar que não existe partitura ignóbil quando escolhemos o humano, seja ele de o-nde for), o de construir (porque a arquitetura não é uma força da natureza, mas uma racionalidade) e o de desvelar (com o olhar cru do gado morto que, depois de perder a carcaça, mantém-se aceso como um fogo fátuo). Ele sabia o-nde estava se metendo, mas não tinha outra escolha. A ética é a pior das condenações. A ela o escritor de verdade submete-se e em seus braços frios entrega a sua vida.

 

AÇÃO – Vamos pegar a mais doce das armadilhas da literatura, a ação. O que chamam de ação é uma fuga pela porta dos fundos (e talvez seja por isso que há sempre tiroteio nas cozinhas nos filmes descartáveis). No lugar de ação, Urariano prefere relatar a condenação. Os jovens na faixa dos vinte anos na ditadura Médici estão condenados pelo que são (pobres, mulatos, negros), vivem (desemprego, exclusão social e econômica), mas não pela sua essência. O tutano de cada personagem, entretanto, não são suas leituras ou músicas favoritas. Mas sim a interação que fazem entre si, apesar das conversas datadas. Importa o que eles realmente sugerem ao narrador, que tateia o tempo todo (e que nessa pesquisa deixa um lastro luminoso para o leitor). A reflexão dos personagens em seus debates obedece à ética do autor: não podem deixar de ser superficiais num primeiro momento, mas tornam-se instrumentos para o que vai sendo aos poucos dilacerado no decorrer do livro. Quando já não existe mais perspectiva de refresco para a roda-viva o-nde estão todos metidos, o romance chega ao núcleo do drama. No pipocar das primeiras execuções, estampadas nos jornais, a segunda parte do livro insurge-se contra o canto de sereia da primeira parte.

 

ORIGEM – A execução da menina que se declarava subversiva e do garoto que fazia o V da vitória para sentinelas armados, são a pólvora por o-nde se incendeia a obra. Não é ação, é impacto de bala. Não existe movimento quando já houve o desfecho. Não existe fuga se você perdeu a guerra dentro do seu coração. Não há saída quando a luz da entrada da caverna é puro veneno. A ação não se impõe pelo evento, mas pela constatação. Somos então responsáveis pela morte desses meninos, nós, os que não lutamos o suficiente e que continuamos de mãos amarradas? Construíram em nome deles toda uma gigantesca mentira feita de indenizações e palavras ocas como liberdade. Não há liberdade se você foi à luta mas voltou para jantar. Nem se você foi para o exílio e foi anistiado para apertar a mão dos tiranos. Ainda pulsa a vida que poderia ter sido e ela está em nós, como um cão feroz de olho na presa. Ao escritor cabe abraçar o que foi jogado fora, recuperar pela linguagem o que os tiros aniquilaram. Urariano foi tão fundo que não por acaso reencontra o fundador da língua na sua busca. Não que preste homenagem a Camões, mas traz dele os poemas que instauram esse clima de perdição e luta diante do mesmo destino que afoga os meninos torturados e mortos.

 

Mais uma vez, Urariano se mantém no fio afiado da ética. É com essa língua herdada, que traz na origem o peso da maldição de estar vivo, que ele fala de Brasil e de Pernambuco. Mas nem por isso pode ser considerado um escritor confinado às fronteiras da nação, nem identificado de maneira ortodoxa com sua Recife, que neste romance salta aos olhos como um dragão vomitado pelas águas do rio. O escritor pertence a outro território. Nele, extrai o que nos incomoda, mas ao mesmo tempo pode nos salvar, desde que não viremos as costas para ele, nem o tratemos com o desdém dos fracos, os que não se entregam aos contemporâneos por preguiça ou vaidade. Ler Os Corações Futuristas é entender o que a literatura é capaz de fazer, neste tempo em que ela parecia perdida, como alguém muito querido que sai de nossas mãos e é levado pela correnteza.

 

 

Neste sábado Olinda festeja Vindos do Mar

Joseany Oliveira

Joseany Oliveira

Performances, recitais e cânticos marcarão o lançamento do livro Vindos do Mar, de Joseany de Oliveira, neste sábado 31 de maio, às 19 horas, na Biblioteca Pública de Olinda, na casa de número 100 da Avenida da Liberdade, no bairro do Carmo.

É um romance que tem como cenário as praias e ruas antigas de Olinda. E como personagem principal uma sereia, um ser mitológico, parte mulher e parte peixe (ou pássaro, segundo vários escritores e poetas antigos).

As sereias eram tão lindas e cantavam com tanta doçura que atraíam os tripulantes dos navios e jangadas que passavam por Olinda para os barcos colidirem com os arrecifes e afundarem.

 

capa livro vindos do mar

No romance de Joseany – que será filmado -, a sereia se apaixona por um pescador.

 

 

A olindense Joseany de Oliveira Ferreira gosta de ler e escrever  desde criança. Aos 11 anos de idade escreveu o seu primeiro livro de contos, “Uma grande aventura”. Desde então não parou mais de escrever. Em 2009, formou-se em Letras pela FUNESO e, no ano seguinte, iniciou a pós-graduação em Práticas Pedagógicas Aplicadas à Língua Portuguesa.

Possui 38 trabalhos escritos, inclusive um livro de poemas.

Joseany, pela beleza e talento, nasceu iluminada pelas musas e graças. Além da literatura, vem obtendo sucesso nas artes cênicas e na música.

Em diferentes desenhos e anotações, Joseany foi imaginando e criando sua personagem, que tem muito dela no amor ao mar e cantares.

sereia desenho 1

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Trecho do romance: “Na verdade, a minha vida inteira foi repleta de acontecimentos estranhos… E durante esse período, eu pude descobrir que eu não estava sozinha. Nunca estive.”
Diz Joseany: “Esta é uma obra fictícia, mas qualquer semelhança com a vida real, NÃO é mera coincidência”.

vindos do mar propaganda

vindos do mar penúltima foto

 

autógrafo

O lançamento de Vindos do Mar acontecerá no salão nobre da Biblioteca Municipal de Olinda. Vá pegar seu autógrafo.

 

 

Sábado em Olinda você tem um encontro com Joseany de Oliveira

Joseany de Oliveira

Joseany de Oliveira

Joseany de Oliveira no próximo dia 31, domingo, às 19 horas, na Biblioteca Pública de Olinda, autografará o romance Vindos do Mar.

capa vindos do mar 2

Trecho do romance: “Na verdade, a minha vida inteira foi repleta de acontecimentos estranhos… E durante esse período, eu pude descobrir que eu não estava sozinha. Nunca estive.”

Diz Joseany: “Esta é uma obra fictícia, mas qualquer semelhança com a vida real, NÃO é mera coincidência”.

Teaser do livro:

Joseany, por Douglas Alcantara

Joseany, por Douglas Alcantara

texto página

Quando a lua beija o mar
vejo tudo tão irreal
fecho os olhos, mas posso crer
que eu já estive aqui

Lembro de um amor
de uma canção
que ficou marcada em mim,
no coração

Será que é um sonho
ou será real
será que eu sou,
deste mar

Será que um luar
tão lindo assim
me diz que as ondas,
fazem parte de mim

Tudo que eu sonhei pra mim
estava aqui
e sempre ouvi o mar a me chamar

Apaixonada pelo mar e por Olinda, Joseany de Oliveira fez questão de lançar seu livro na biblioteca da cidade Patrimônio da Humanidade.

 

trailer

A Biblioteca Pública de Olinda, localizada na casa de número 100 da Avenida da Liberdade, no bairro do Carmo, tem 179 anos.

Foi em 1830 que o então imperador Dom Pedro I publicou o decreto que estabelece uma biblioteca pública na cidade. Foi a primeira biblioteca do Estado e a quinta a ser estabelecida no Brasil.

biblioteca olinda

 

O lançamento de Vindos do Mar acontecerá no salão nobre.

O livro será transformado em filme, com lançamento previsto para este ano. Não é comum um autor pernambucano ter sua obra levada ao cinema.

 

“Os mortos voltam”

Urariano Mota

Urariano Mota

Urariano Mota, o renegado

 

por Gabriela Almeida

 

Quando alguém escreve, esse alguém imprime marcas suas que vão além do estilo. Parte dos personagens e das histórias é o autor. Acredito que no livro O filho renegado de Deus, romance do escritor pernambucano Urariano Mota, essas marcas sejam ainda maiores e doloridas, se assim podemos chamar.
O livro tem atraído atenção por imprimir uma imagem das mulheres pobres – ou não – de uma Recife passada, nos idos anos de 1950. Mas gostaria de ter uma nova perspectiva da história e acreditar que, na verdade, ela trata muito mais das transformações de um menino pobre, a construção e visão de mundo de um rapaz que descobre a política e se insere na classe média intelectualizada e a análise de uma vida por um homem feito. É um desabafo.

Com uma prosa poética muito cortante, a narrativa desse livro arquiteta um tipo de construção entre personagem, autor e narrador que chamei de trindade. Inicialmente, tomamos conhecimento da história por meio de um narrador onipresente que fala na terceira pessoa. Mas, em determinados momentos, quem conta a história é o personagem Jimeralto. Outra hora, aparece um terceiro narrador que não se apresenta, surgindo como uma quebra na história. Esses são os momentos em que o autor fala na primeira pessoa.

A história gira em torno de Jimeralto (que também é o nome de Urariano), um menino do subúrbio do Recife em 1950, que tem um apego especial pela mãe. Um amor dependente de filho e de homem. Ele se descobre na vida quando vai para a cidade grande, São Paulo, e toma na política e na própria solidão rumos para se formar. Apesar de fazer a apresentação de várias Marias (nome que é também o de sua mãe), a visão do livro é patriarcal. Tanto que quem renega é Deus, o pai. Se o elo do amor materno e carnal pelas mulheres é o lado bom da força, os conflitos e maiores perturbações vêm da imagem masculina. Um pai seco, distante, e um tio homossexual.

O filho renegado de Deus é um livro visceral, uma ferida aberta do autor e que também se abre para o leitor. Se se diz que a primeira impressão é a que fica, cito trecho da primeira cena do livro:

– Senta, filho, que os mortos voltam.

O que faz um homem quando reencontra a sua mãe falecida? Obedece-lhe, contrito, grato, louco doido de amor, de carinho e saudade.

Essa é a porta de entrada de um história que fala sobre classes sociais, gênero, família e amor.
Talvez, também quando se escreve um romance o objetivo maior seja separar essas marcas pessoais e demonstrá-las possa ser sinônimo de falha. Mas nessa ficção em particular, essa brecha proporciona ao leitor duas chaves que são primordiais em uma leitura: curiosidade e confiança.
renegado

Um novo tipo de agente literário

Alfredo Martirena

Alfredo Martirena

Sobre o texto publicado na Folha pela Luciana Villas-Boas, condenando a política de tradução do autor brasileiro, achei grosseiro inclusive no modo como se dirige aos escritores. O que é até certo ponto explicável pelo fato de ter sido empregada durante tanto tempo de casa ligada ao comércio editorial, quem sabe os patrões falavam assim com ela o tempo todo.
Estamos precisando no Brasil de um novo tipo de agente, sem subserviência mercantilista às empresas e com um desenho literário sustentado em qualidade estética e identidade singular.
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A submissão operosa desse tipo de agentes às editoras não adianta de nada porque afinal terminam levando o mesmo pontapé (veja-se a mais recente das ex-Record) e o que os escritores desejam na verdade é serem respeitados e levados mais em conta no sentido que a Villas-Boas e suas colegas fossem mais altivas e ao menos desenhassem um perfil de qualidade literária em suas gestões profissionais.
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Outro dia mesmo fiquei pasma ao saber que uma outra ex- empregada de editora deu um estranho mini-curso no Rio pretendendo ensinar aos escritores os passos necessários como agradar a esses estabelecimentos comerciais para ter seus livros aceitos à publicação: o nome disso é mediocridade capitalista mesmo. É banalização vazia da arte e nada tem a ver com a verdadeira literatura.
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“Não há como escapar da dolorosa contradição que impõe o convívio entre a dor e a beleza o tempo todo”

por Nei Duclós
Jornal Opção

Nei Duclós

Nei Duclós

A invenção da leitura

Longe do panfletismo, o rigor de Alberto Moravia joga pesado na confluência de intenções contraditórias, nas vontades que se anulam, nas decisões erradas, no imaginário promovido pela iminência da guerra. “1934” é o romance que Moravia preparou para nos assustar

Moravia

Personagem de um romance é o seu primeiro leitor. O protagonista narra sua leitura para quem o acom­panha. Temos assim acesso a uma representação do romance que o autor compõe ao voltar-se para sua própria arte. É o princípio da es­piral que gera o tornado, fruto do confronto entre a massa de ar quente da imaginação com o gelo da palavra. O único cuidado, para artistas do verbo como o italiano Alberto Moravia (1907-1990), mo­nu­mento literário do século 20 com uma obra fluvial que muitas vezes de­saguou no cinema, é não transformar esse movimento ascendente de ro­tação num espetáculo virtual. É preciso que o evento destrua o ambiente para nele sobreviver a história sem concessões. É só literatura, mas não pode deixar de ser mortal.

“1934” é um romance de Mo­ravia que trata de um leitor compulsivo, escritor obcecado em alguns grandes autores que busca uma saída para o inevitável suicídio. “É possível viver no desespero sem desejar a morte?” é a primeira frase que nos leva para o abismo. Inspira­do na obra radical das gravuras e qua­dros de Albrecht Dürer e no Niet­zsche de Zaratustra, ele se divide entre a dor e o prazer, trafegando num fio de navalha a partir de uma ilusão: o namoro com uma be­la turista alemã casada. Ele procura do­minar o desespero para equilibrar-se na difícil Europa de domínio fascista. Revela a intelectualidade de mãos amarradas e de raciocínio podre, a serviço do imobilismo do gesto e do marca passo das ideias.

O jovem Lucio, o escritor que viaja a Capri para produzir algo que resolva seu paradoxo, entra no jogo de sedução cedendo a um impulso, mas sua intervenção obedece a um intuitivo planejamento. No fundo ele quer amarrar a súbita paixão ao confortável desfecho de sua aventura. Mas é traído pela complexidade da trama. A mulher do seu desejo tem uma outra, idêntica, irmã gêmea que se confunde com ela, apesar das personalidades opostas (o convívio com uma o liberta das amarras com a outra e vice-versa). Isso faz com que o jogo de cabra cega com o gênero oposto vire uma armadilha, intensificada pela presença do marido, um alemão nazista que o obriga a fazer a saudação maldita de braço estendido.

Submeter-se às conveniências para sobreviver é a fonte do desespero, fruto da escravidão. O escritor não pode se manifestar porque a situação política que ultrapassa fronteiras não permite. Em 1934 o ambiente já estava definido a partir da morte e sua celebração, consolidada no Viva La Muerte da futura guerra espanhola naquela década. A criação estava confinada ao oposto de sua natureza. Moravia escreveu sobre esse pesadelo de 1934 só muito mais tarde, na década de 1980. O romance tem tudo de um resgate a partir das ruínas. Criaturas demolidas pela situação insuportável imaginam amar, pensar, gerar um destino diverso do que está sendo imposto. “Acredito que a criação humana é universal”, disse ele numa entrevista. “Qualquer homem possui uma capacidade criadora, nunca desprezível e incessante. A todo o instante se pode encontrar no interior de qualquer homem, por mais insignificante que seja, a sua força criadora. E isso é que é belo.” Mas neste romance a beleza fica sufocada, apesar da mestria do texto, sempre encantadora.

Longe do panfletismo, o rigor de Moravia joga pesado na confluência de intenções contraditórias, nas vontades que se anulam, nas decisões erradas, no imaginário promovido pela iminência da guerra. Tudo é delicado nos detalhes dessas rotinas vulneráveis, em que os bilhetes podem levar a um assassinato, uma leitura consegue destruir carreiras, uma paixão de verão acaba virando um caso sinistro. Em que sombras definem a vontade de sumir e todo esforço bate na barreira de uma realidade intransponível. Estávamos estrepados em 1934 e parece que saímos daquela gruta. Mas ele prepara uma surpresa.

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Continuamos lá, nos prova o ogro da palavra. Ainda estamos engessados em nossas limitações econômicas, políticas, comportamentais, apesar de falarmos tanto mal daquela época. Não saí­mos do horror, como imaginávamos. O desespero continua martelando a existência e empurrando-a para o final. A arte tem o poder de nos salvar, mas em qual livro a salvação se esconde, qual o trecho definitivo, o que a arte pode reverter em nosso benefício? No momento em que pensamos estar no caminho da redenção, acabamos girando em torno do caos.

Não é, como nos diz a literatura de autoajuda, uma situação que encerre lições de vida. Mas é uma obra que encarna as hostilidades espirituais inerentes às criaturas, envolvidas em suas criações diárias. A complexidade humana, em Moravia, é pintada com sua estupenda capacidade estética, em que tudo ganha vida nas descrições de paisagens, tanto as urbanas quanto as da natureza. O velho balneário de uma aristocracia já morta (tema recorrente em sua literatura) agoniza à beira das cores míticas do mar Tirreno, na ilha de Capri. O veraneio faustoso en­cerra uma sucessão de conflitos internalizados, dolorosos, de onde é difícil sair ileso.

A solução, provisória diante da precariedade humana, mas decisiva como exercício do talento, é um romance assustador, com a narrativa diante do espelho, voltada para si mesma e que encontra nessa reprodução o avesso de sua essência. Não se trata apenas de arte, mas das ameaças à sua existência. Isso combina com o sofisticado pessimismo do autor: “As artes poderão morrer por uma razão simples: a arte não é mais do que uma alta, muito alta, forma de artesanato”, disse ele. “No mundo inteiro, assistimos ao fim do artesanato. Ora, o homem reflete-se naquilo que produz: pois que, si se fabrica para tudo objetos em série, não se poderá também impedir de criar homens em série — e o homem em série é o contrário do artista.”

Essas declarações fazem parte também do enfoque que dá ao seu trabalho: “Não procuro mostrar o bom humor. Os heróis de romance não têm de ser felizes. Devem, pelo contrário, ser durante todo o tempo aquilo que as pessoas são num instante no auge dos seus conflitos”.

Moravia tem gana da aristocracia e dos conservadores em geral. Em seus romances, como a sua estreia “Os Indiferentes”, ele retrata o ambiente de sua infância e adolescência, de família abastada onde encontrou a desgraça de ficar imobilizado devido a uma tuberculose óssea. Transformou-se num observador atento e um narrador detalhista. E nos seus contos surrealistas e satíricos, ele pega cada personagem desses castelos carcomidos, mansões obsoletas, profissões inúteis num mural humano degradado. É um clima de Fellini sem a vantagem onírica, já que é “realista” demais para se deixar levar pelo delírio.

“Tive dois obstáculos para superar”, disse. “Primeiro, foi a minha doença — tuberculose óssea. De cinco em cinco anos ia à cama, o que me deprimiu bastante. E depois, claro, houve o fascismo. No entanto, não acredito muito nos obstáculos exteriores. O olhar do homem moderno é demasiado forte para tudo conseguir anular, mesmo a doença. Há somente para ele alguns obstáculos interiores.”

Num dos seus contos, alguém visita o ateliê de um amigo e lá dorme e sonha com o cenário que se descortina da janela. Quando o personagem acorda, a mesma paisagem é descrita de modo inteiramente diverso. É a mágica de Moravia, um mestre da percepção pictórica, que nos devolve em quadros o que enxerga em três dimensões. Em “O Desprezo”, filme de Jean-Luc Godard baseado em outro livro seu, ele serve uma paisagem clássica como moldura de uma covardia: “Em ‘O Desprezo’ procurei mostrar como o dinheiro, num mundo capitalista, determina não apenas as relações de negócios, mas também as relações afetivas. Está igualmente fixado sobre a dúvida: a mulher começa a desprezar o seu marido porque desconfia que ele a quer colocar nos braços do realizador, do qual depende o seu futuro como cineasta. O livro decorre em Roma e em Capri, no mundo do cinema. onde o dinheiro tudo corrompe”.

Não há como escapar da dolorosa contradição que impõe o convívio entre a dor e a beleza o tempo todo. “Um artista é um belo ser independente”, dizia ele, “mas quando se trata de assuntos para uma sociedade restrita como a de Luís XIV, ou vasta como a atual sociedade francesa, põem-se problemas diferentes. Há sempre uma pressão”. Mo­ra­via não se iludia com seu ofício, que dominava como poucos: “Não quero ser diferente, mas por outro lado sei bem que o ar­tista é diferente, porque possui um poder de contemplação. Po­de­ria mesmo dizer-se que é uma tes­temunha, ‘a testemunha’ no ver­dadeiro sentido da palavra. Em certas circunstâncias, ele é a ú­nica pessoa que ‘viu’ o que se passou”.

Seu nome verdadeiro era Alberto Pincherle e há 23 anos, desde 25 de setembro de 1990, não temos mais o privilégio da presença física deste romano talentoso. Mas seus livros, vários, estão aí para nos alertar.

O presidente morto e o poeta quengo

[Posfácio do livro Concerto para paixão e desatino, de Moacir Japiassu]

 

por José Nêumanne Pinto

Quando deixou o leito seco do Vaza-Barris e as agruras do Raso da Catarina para trás, o oficial e engenheiro Euclides da Cunha havia visto e vivido o bastante para perceber que o habitante daqueles ermos bem que merecia ser chamado de forte. Quando se deparou com o verdadeiro protagonista de seu texto clássico, Os Sertões, o escritor não se deixou enganar pelo raquitismo crônico dele, por sua tez amarelada nem por sua humildade reforçada pela curva da espinha dorsal aproximando a cabeça disforme do solo seco que lhe negava o pão: a servidão à primeira vista se transfigurava em altivez à primeira provocação. O gênio literário se evidencia nessa capacidade de enxergar além do que a vista vê: captar a alma oculta no gesto exposto. Além da sentença-síntese – “o sertanejo é antes de tudo um forte” – do texto que elevou o militar e construtor de pontes ao panteão da glória nas letras pátrias e muito além da fama que este lhe deu, brota da paisagem bruta, seca e cinzenta o vivente – feito cacto selvagem, com espinhos hostis e frutos de sustança.

A força do sertanejo é feita de suas fraquezas e, por isso, ela é tão notável, apesar de pouco notória: nutre-se da escassez, ou melhor, da capacidade inata que ele desenvolve, com o lerdo passar do tempo, de sobreviver de praticamente nada. Sobreviver, antes de mais nada e acima de tudo. É importante ressaltar isso: há uma diferença, uma oposição até, entre as caveiras de açúcar chupadas no Día de Muertos no México e a cachaça ingerida nos velórios do sertão. O sincretismo místico asteca, maia e espanhol celebra a morte como porteira da eternidade, princípio do infinito. A fervorosa espera sebastianista pela volta do rei morto para “nos vingar” faz do rito da passagem definitiva nos ermos do Nordeste uma celebração da vida: o defunto é lembrado menos pelo que foi e mais pelo que representou na vida dos que ficaram vivos.

Importa mesmo é a sobrevida. O sertanejo – como assume um dos mais ilustres da raça de tabaréus, taumaturgos, violeiros, cangaceiros e escritores (apesar de ter vindo ao mundo num palácio litorâneo, dito da Redenção), Ariano Suassuna, primo de João Dantas, que matou João Pessoa, cujo nome foi dado à cidade da Paraíba onde o dramaturgo nasceu (e assim teimosamente ainda a chama, apesar da troca de nome) – não planeja (nem conta com) a própria morte. “O heroísmo do pobre”, diz ele, “é a esperteza” – a capacidade de se safar das vicissitudes geradas no ventre da miséria. A saga do “beradeiro” da caatinga não é a do herói que tomba, mas do “amarelo” que escapa: Cancão de Fogo, Bocage, Pedro Malasartes e a síntese de todos, João Grilo, protagonista do Auto da Compadecida. Lembremo-nos de que o caolho Luís de Camões, fundador do vernáculo, também é Camonge, um quengo, o espertalhão nos folhetos de cordel impressos nos prelos do sertão. Não nos esqueçamos disso, pois ele ainda voltará a este texto.

João Pessoa

João Pessoa

É isso que explica a sutil diferença entre a vingança à moda sertaneja e a vendeta na Sicília ou mesmo a complexa codificação da lei do talião nas montanhas da Albânia, sóbria e competentemente relatada por Ismail Kadaré em Abril Despedaçado , que Walter Salles transportou no cinema para o começo do século 20 nos confins da Bahia. Ao contrário de seus pares estrangeiros, os vingadores do sertão nordestino são pragmáticos: por favor, não os chame de covardes! Não protagonizam duelos, como o do OK Corral, dos faroestes de nossa infância, mas tocaias: escondem-se, atiram pelas costas de preferência em alvos desarmados, o que possibilita a cômoda repetição do disparo após um erro provável, ainda que eventual. A tocaia, como a força, é mais um truque de longevidade dos protagonistas da saga euclidiana.

 

O paraibano Moacir Japiassu, que não é engenheiro nem militar, mas escriba e republicano, como o era Euclides, entendeu isso à perfeição ao descrever neste livro o fictício planejamento da execução à queima-roupa do presidente da Província da Paraíba do Norte, o ilustre jurisconsulto dr. João da estirpe Pessoa, pelo homônimo colega dr. João do clã Dantas. A cena é exemplar: o assassino estava armado de um revólver (calibre 32) e de surpresa, tendo ainda por cúmplice o anonimato. Impossível não identificar facilmente a vítima, político importante, cuja efígie correra o País em campanha eleitoral para a Vice-Presidência. Só a soberba de um poderoso como ele explicaria o fato de nunca ter tido a curiosidade de conhecer pessoalmente o homem espezinhado pela devassa de sua correspondência íntima e calorosa com uma professorinha morena, de origem humilde, belo físico e nome incomum, Anaíde Beiriz.Anaíde Beiriz

Anaíde Beiriz

O impávido e imprudente orgulho do sobrinho do ex-presidente Epitácio Pessoa, chefe inconteste do clã, lhe custou a aproximação da mão assassina e lhe valeu os tiros certeiros que lhe tiraram a vida. E isso lhe foi fatal, ironia da história, como a insensata imperícia do autor de Os Sertões, que tombou, ao atentar contra a vida do exímio atirador Dilermando de Assis, parceiro indesejável no próprio tálamo.

João Dantas

João Dantas

 

Se Euclides, o cego vingador da extinta honra conjugal, foi vítima da precariedade da própria pontaria, João Dantas, que empunhou o revólver assassino para lavar com o sangue do desafeto a vergonha que o afastou do convívio dos seus iguais, enfrentou o infortúnio causado pelo gesto definitivo com o fatalismo dos que, bem ou mal, sabem o que fazem. Quis a deusa desvairada da História, contudo, que a Euclides coubesse escrever a história dos desvalidos e esquecidos com a tinta do sangue deles, enquanto o causídico do valente clã dos grotões paraibanos fez a roda da política girar 180 graus com o fornecimento involuntário do combustível da mais importante guinada da crônica republicana nacional: o sangue do inimigo, que não o reconhecia.

Antes que algum leitor apressado me venha acusar de estar cometendo heresia ou sacrilégio por comparar um texto incomparável, como o de Os Sertões, com este, vou logo lembrando que naquele o gênio de Euclides, vítima da própria incúria de marido, resgatou uma raça inteira do desprezo, do preconceito e do esquecimento. Enquanto neste, o talento de Japiassu traz a lume pela narrativa de ficção trabalhada com maestria o aparentemente imperceptível instante mágico em que o ato individual engraxa, involuntariamente, as engrenagens da aventura coletiva. O assassínio de João Pessoa e a Revolução de 30, ao contrário do sangrento episódio de Canudos, tema pouco abordado antes de Os Sertões, já haviam sido dissecados e cantados em prosa e verso antes deste romance (escrito num sítio em Cunha, substantivo próprio que também é o sobrenome de Euclides), que, entretanto, ninguém vai negar, trouxe um foco novo de luz sobre episódios já muito abordados.

É oportuno também esclarecer que as figuras do João algoz que virou vítima, o Pessoa, e do João vítima que virou algoz, o Dantas, não foram arrancadas das páginas da História e transportadas para este entrecho. Ao contrário, assim como o personagem do político e escritor José Américo de Almeida, autor de A Bagaceira e comandante da polícia na guerra movida por João Porteira (como era João Pessoa chamado pelos inimigos) ao desafeto da princesa Isabel, coronel Zé Pereira, essas figuras nascem é do hábil manejo do romancista de recriar tipos já existentes. Assim como apareceram Vital Batalha, Lenildo Tabosa e outros entes (extintos ou viventes) no imaginário de A Santa do Cabaré, seu livro anterior, essas personae fazem o oposto do que proclamou Getúlio Vargas em sua carta-testamento: saíram da História para entrar na vida, não a vida real, mas a criada pela fantasia deste prosador de boa prosa.

José Américo de Almeida

José Américo de Almeida

Aqui elas têm as mesmas dimensões emprestadas pelo autor aos personagens completamente inventados (mas nem por isso inverossímeis). Isaías, o protagonista (se é que se pode falar em protagonista numa saga tão rica em personagens), é filho de padre (de nome Sabaó, misteriosa referência bíblica–- “Senhor Deus de Sabaó”). O romancista mostra-se um conhecedor de usos e costumes do sertão, não apenas por reconhecer a condição de reprodutores de fiéis nos pregadores da fé, como também ao atribuir a condição de guardião do saber a esta sua criatura, ao que parece a favorita. Uma nota pessoal: o autor destas linhas apaixonou-se pela inculta e bela flor de Bilac devassando a hagiografia das estantes da Casa Paroquial de Jesus, Maria e José, sob a guarda do cônego Antônio Anacleto, em Uiraúna, Paraíba, nos idos dos 50 do século passado.

Voltemos, contudo, a outro rato de biblioteca, o sedutor Isaías. Como sedutores também são a indefectível dona Montinha, os senhores-de-engenho Deba e Lola, o corrupto jornalista Sinvaldeão, o devoto do deus pagão Onan Libânio, esboço de retrato do dublê de romancista e político Ernâni Sátiro (de Patos de Espinharas) quando jovem, o conde italiano que pretendia plantar roletas no semi-árido e a cantora lírica Carina Malfitani, de cujos favores entre lençóis e fronhas teria gozado João Pessoa, não o mártir de 30, mas o herói de Japiassu. Que os outros perdoem a falta de espaço, justificativa da omissão de seus nomes neste texto.

Cabe ainda pôr aqui uma palavra que seja sobre a forma musical, concerto, e poética – a cadência da prosa lembra os martelos improvisados pelos bardos dos sertões nas funções de desafio – escolhida pelo romancista para registrar esse momento impreciso, vago e atemporal em que a ficção cruza o Rubicão da História e o pessoal interfere no geral. E é aqui que entra o caolho de Goa, o quengo imprevisto. Luís de Camões, não o venerado nas academias, não o citado nas antologias, nem mesmo o Camonge, espertalhão dos romances de feira, mas o ritmista do vernáculo, o cultivador de décimas e sextilhas, que Manuel Maria Barbosa Du Bocage também venerou, atravessa a prosa de Japiassu como uma lamparina de querosene alumia as noites escuras das casas sem forro das fazendas de muita terra e escassa safra onde foi criado o herói e anti-herói que fabricou o cadáver do também mocinho e também vilão que desencadeou a Revolução de 30.

Concerto para paixão e desatino – que belo título para um texto assim tão musical, não é mesmo?! – é a epopéia em prosa do heroísmo dos que sobrevivem sem medalhas e sem vergonha das tocaias em que garantem a vida eliminando quem a ameace. Não é este o verdadeiro espírito da remissão sebastianista? E é também a manifestação da permanência da língua que o caolho fundou nos cafundós onde Judas esqueceu as botas, mas os injuriados como João Dantas não perdem a vergonha na cara. Nesta saga, em que a fantasia verossímil não contraria, mas confirma, a história que ocorreu e não foi registrada – embora se perpetue pela lembrança –, os mistérios do acaso jamais mitigarão a força do destino, como no verso célebre de Estêvão Mal-Armado (o francês Stéphane Mallarmé) – aquele do lance de dados que não abolirá o acaso.