Visões d’amor (frases, poesia e música) 1

O espelho, por Fairfield Porter

O espelho, por Fairfield Porter

 

Só depois que a tecnologia inventou o telefone, o telégrafo, a televisão, a internet, foi que se descobriu que o problema de comunicação mais sério era o de perto.
Millôr Fernandes

Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento.
Clarice Lispector

Temos a mania de achar que amor é algo que se busca. Buscamos o amor nos bares, na internet, nas paradas de ônibus. Como num jogo de esconde-esconde, procuramos pelo amor que está oculto dentro das boates, nas salas de aula, nas platéias dos teatros. Ele certamente está por ali, você quase pode sentir seu cheiro, precisa apenas descobri-lo e agarrá-lo o mais rápido possível, pois só o amor constrói, só o amor salva, só o amor traz felicidade.
Martha Medeiros

Equação do amor

Fico pensando o que é amor.
Como se fosse algo definível.
Façamos uma equação, uma fórmula:
amor é isso mais isso mais isso.
E, provavelmente, menos um milhão de aquilos.
Amor é mensurável em quilos.
Amor é bebido em litros.
Amor é vendido em liras.
É cantado em versos líricos.
Mas eu queria despi-lo de todo o idealismo
de toda a magia que os poetas
– sempre culpados! – construíram.
Queria ser capaz de pensá-lo
e senti-lo
com a praticidade e a realidade
dos velhos ou de novelas tolstoianas.
Negando o poema, eu queria amar.
Render-me à escravidão dos meus medos
(ou meus medos da escravidão)
e sentir por um instante a certeza
(absoluta, plena, sublime)
de que todo o meu organismo
a corrente sangüínea, as trocas de gases,
os ácidos gástricos, as sínteses protéicas
formando memórias
alimenta-se de um combustível
quase sobrenatural
e inegavelmente perene
que pode ter muitos nomes
fundidos em si, despersonalizando-o,
mas que nomeia-se, respeitosamente,
Amor.
Eu queria ter essa certeza
(suspendam-se as certezas!),
para ter a tranqüilidade
acima de todos os tempos verbais.
No entanto (é bom dizer),
talvez a dúvida seja
mais próxima do que seria o amor
se ele existisse.
Porque enche-o de vida.
Porque dizer eu-te-amo é banal,
é vazio – é o que todos fazem
Poetas ou não.
Amar com a sinceridade da dúvida
com a dor da incompreensão
e com a ambigüidade do ceticismo
é muito mais real.
Mais próximo de todos os deuses.
Cristina Moreno de Castro

O vermelho é a cor mais encarnada

Pode tirar meus sapatos, amor:
o frio já vem em vindo.
Nina Rizzi

saudade

MINHA ALEGRIA É TUA PELE LISA

Minha alegria é tua pele lisa
deslizar nela arranca gritos
de um prazer que estava ao desabrigo

Tropecei em muita carne morta e triste
antes de pôr a mão no teu seio
e minha doce água envolver-te

Um poema, por mais belo, não chega
onde aportamos, nus em pelo
com fogo nos olhos e línguas livres
a sentir o gosto salgado do amor

Por isso calo num gemido
e te derrubo com meus braços finos
Nei Duclós

O PACTO SAGRADO

Nem sob tortura
ou em juízo
podes violar
o sagrado pacto
do silêncio

Rasga o diário
mesmo que escrevas
em linguagem cifrada
coisas sem importância
como fez Beatrix Potter
por hábito e exercício

Nenhum lugar
é propício
para manifestar
uma jura de amor
Não esqueças
o divã dos psicanalistas
o confessionário
o auto-de-fé
convincentes armadilhas
dos atiradores de pedras

Certos segredos
incertos desejos
devem permanecer
bem trancados
a sete chaves
as chaves jogadas
no rio Jordão
Talis Andrade

THAÍS

Thaís, eu fiz tudo pra você gostar de mim
Ô, meu bem, não faz assim comigo não
Você tem, você tem que me dar seu coração

Meu amor, não posso esquecer
Se dá alegria faz também sofrer
A minha vida foi sempre assim
Só chorando as mágoas que não têm fim

Essa história de gostar de alguém
Já é mania que as pessoas têm
Se me ajudasse Nosso Senhor
Eu não pensaria mais no amor
Joubert de Carvalho

[Troquei o Ta-Hí da composição por Thaís
fica mais assim… Escute cantado por Nara Leão]

Pouca leitura

por Woden Madruga

Saiu uma pesquisa, “Retratos da Leitura no Brasil”, encomendada pelo Instituto Pró-Livro e realizada pelo Ibope Inteligência. Os números entristecem qualquer cristão, judeu ou muçulmano. A conclusão é de que o brasileiro lê apenas dois livros por ano. Lá se vão 365 dias: “A média de leitura do brasileiro é de apenas, 2,1 livros por ano. O estudo revela que, no total, a média de leitura do brasileiro é de 4 livros anuais, dos quais dois não são lidos até o final. O número é menor do que o registrado em 2007. Na época, a média de livros lidos por anos era de 4,7.

A pesquisa foi realizada entre junho e julho de 2011 com mais de 5 mil entrevistas em 315 municípios de todas as regiões do pais. A região que apresenta o melhor índice de livros lidos é o Centro-Oeste, seguido do Nordeste (viva!), Sudeste, Sul e Norte. As mulheres leem mais do que os homens. Entre elas, o índice de leitura é de 53%, enquanto nos homens, 43%. Outro dado que chama a atenção e que machuca, mesmo: 75% da população brasileira nunca frequentou uma biblioteca. Em tempo algum.

O livro mais lido pelo brasileiro – seja mulher, seja homem – é a Bíblia. Em seguida aparecem os livros didáticos, depois os romances, livros religiosos, contos e livros infantis.

A pesquisa traça o perfil da maioria dos que frequentam uma biblioteca: a maioria está na vida escolar. Depois abandonam o hábito ao longo da vida. Mais ou menos 64% dos entrevistados, nessa faixa, usam as bibliotecas das escolas ou das faculdades. Outra informação da pesquisa: Apenas 8% dos brasileiros vão à biblioteca frequentemente; 17% fazem de vez em quando.

A presidente do Instituto Pró-Leitura, Karina Pansa, disse que o maior desafio agora “é transformar as bibliotecas em locais agradáveis, onde as pessoas gostam de estar,com prazer, e não só para estudar”. A pesquisa revela 71% da universo pesquisado afirma saber da existência de uma biblioteca publica, em sua cidade. Li num desses blogues da vida:

– A preocupação de Karine faz sentido quando se joga uma luz sobre os dados. Ao serem questionados sobre o que a biblioteca representa, 71% dos participantes responderam que o local é “para estudar”. Em segundo lugar, “um lugar para pesquisa”, ou um “lugar para estudantes”. Só 16% disseram que a biblioteca existe “para emprestar livros de literatura”. Como um lugar de lazer, somente 12% respondeu.

E como são as bibliotecas natalenses?, pergunto eu. Qual o papel que elas cumprem? Fosse eu 50 anos mais moço sairia por aí para fazer essa reportagem. Em Natal e no interior do Estado. Bibliotecas públicas, estaduais e municipais. Bibliotecas das escolas públicas. Conversar com os professores, os alunos, os habitantes do lugar. Saber, por exemplo, em cada uma dessas bibliotecas, que livros de autores do Rio Grande do Norte existem em suas estantes.


Corrupção

Na charge de Loredano, no Estadão, de ontem, tem uma legenda: “Não se pode mais nem ser corrupto em paz”.

Parece coisa de Millôr. Será? Fui na sua “Bíblia do Caos”, e não vi lá a sentença. Tem outras tantas, genais. Como esta:

“Acabar com a corrupção é o objetivo supremo de quem ainda não chegou ao poder”. Ou esta outra: “O corrupto é um animal extremamente parecido com um não-corrupto. Mas esta espécie está quase extinta por ser fácil de capturar”. Mais esta: “Os corruptos são encontrados em várias partes do mundo, quase todas no Brasil”. E mais uma: “Uma característica curiosa do corrupto se observa em restaurantes. O corrupto está sempre nas outras mesas”.


Geraldo Edson

Amanhã, domingo, primeiro de Abril, o escritor Geraldo Edson de Andrade, chega aos 80 anos. Contista, cronista, um dos mais importantes críticos de arte do país, este natalense, menino da rua Santo Antônio, radicado há muitos anos no Rio de Janeiro. Aqui e acolá, a saudade aperta e eis, ele de volta à terrinha, flanando pelas calçadas da velha Ribeira, pelas ruas da Cidade Alta, pelas balaustradas de Petrópolis.

Gente muito boa, como atesta o Mestre Gaspar fazendo coro com todos os amigos daqui e os de além-mar.

Adeus ao grande Millôr, um gênio absoluto da arte e do tempo

por Pedro do Coutto

Millôr Fernandes viajou esta semana para a eternidade, onde os esperam as obras que produziu, as peças que escreveu, as que brilhantemente traduziu, as frases que criou e cristalizou na memória de milhões e milhões de leitores desde a época da revista O Cruzeiro, projetando-se, como ele próprio se definiu, um escritor sem estilo.

Uma de suas frases foi manchete de primeira página da edição de ontem, quinta-feira, da Folha de São Paulo: ”A gente só morreu uma vez. Mas é para sempre.” Um rebelde também contra tudo de injusto e de farsa que aparecesse à sua frente. Mensagem assinada por ele na página que assinava na Veja: “Peço que deixem de falar comigo os artistas que fazem propaganda de empréstimo consignado aos aposentados.”

Tenho certeza que surtiu efeito concreto. Pelo menos na consciência dos que a compreenderam e, sobretudo, a interpretaram como mensagem de sua personalidade.

Um gênio, disse eu no título. Não só do humor escrito, mas do traço, incluindo a piada certeira como um provérbio. Lembro da seção PIF-PAF que tornou famosa em O Cruzeiro, que liderava a cadeia de publicações, rádios e emissoras de televisão de Assis Chateaubriand. Falo das décadas de 40 e 50. Já vão longe. Como ele ao passar e iluminar esta vida.

Eis mais uma frase, esta no PIF-PAF que recordo: “Enquanto os sábios discutem sem certeza, os idiotas atacam de surpresa”.

O grande Millor, irmão de Helio Fernandes, foi alguém que, através do riso, na face ou nos olhos, além de tudo também confrontou o poder. Aliás nunca levou o poder a sério. Atuação múltipla, desenvolta, criativa, brilhante, vibrante, veloz, amigo agradável, companhia saborosa nas caminhadas, manhãs de domingo, pela Vieira Souto, onde morava.

O percurso, ao lado dele e Gravatá, seu grande amigo, terminava num café, na Livraria Travessa ou no Garcia e Rodrigues. Neste, num domingo, a oferta de mais uma tradução. Não sei se chegou a aceitá-la ou concluí-la. Era para traduzir história semelhante a Romeu e Julieta, original espanhol.

Nesse dia, ele me disse que havia se deparado com alguns Romeus e Julietas, histórias iguais à de Shakespeare em outras línguas que não o inglês.

Ele morreu. Fiquei sem saber quais são elas. Shakespeare ele traduziu também, assim como Goldoni, Pirandelo e Ionesco. Imortal sua peça “Liberdade, Liberdade”, em parceria com Oduvaldo Viana Filho, com Paulo Autran e Teresa Raquel no teatro de Arena. Um hino à liberdade contra a ditadura militar. Ele, os atores, inclusive Vianinha que estava no elenco, por um triz não sofreram um atentado à bomba em noite de espetáculo. Com esta peça, Millôr cumpriu para consigo mesmo seu eterno compromisso de artista e cidadão.

Com “Liberdade, Liberdade” promoveu o encontro da arte com a condição humana. Com a cultura que é, em síntese, a passagem de todos pelo tempo, nosso eco, nosso rastro, nossa sombra. Firme personagem e co-proprietário do Pasquim, sufocado pelo arbítrio do ciclo dos generais do poder. Nunca buscou indenização do governo. Ao contrário de alguns colaboradores que nada – absolutamente nada – sofreram.

Sua viagem começou pelo O Cruzeiro, com escalas repetidas no Jornal do Brasil, na Veja, uma breve presença no Correio da Manhã. Breve como a de Nelson Rodrigues, a demissão de Cony e Carpeaux. O diretor do jornal era Osvaldo Peralva.

De escala em escala através da imprensa, Millôr chegou ao final da linha e da viagem. Agora, para ele, o tempo não conta mais neste adeus amigo. Porque é marcado apenas por um relógio sem ponteiros.