Falta ar sobre esta terra

FALTA AR SOBRE ESTA TERRA
por Marisa Cerqueira Pinto

 

Falta ar sobre esta terra
Falta o sopro de Deus
Que do barro modela

O sonho fecunda o sonho
A terra apenas enterra

 

 

Marisa Cerqueira

Marisa Cerqueira

 

RÉQUIEM PARA MARISA
por Talis Andrade
 

Fizemos amor envolvidos por um canto fúnebre
Fizemos amor envolvidos pelos mistérios das vozes búlgaras
As vozes búlgaras nosso canto de incelência
que todo amor tem uma música
As vozes búlgaras embalam o nosso sono
As vozes búlgaras velam nossos cadáveres

 

CANÇÃO
de Cecília Meireles

Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
– depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar

Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.

O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio…

Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.

Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas

 

Cecília

 

 

A CECÍLIA MEIRELES
por Fabio Rocha

Cantos serenados
cruzam etéreos crepúsculos.

Nuvens douradas
pastam perfumes seculares
em seus altos caminhos.

Sonhos naufragados
atravessam espelhos, horizontes,
borbulham baixinho:

A poesia da rosa
é seu espinho.

 

 

 

O sol na poesia de Nei Duclós

Nei Duclós

AS VEIAS DO CANTO

Creio na morte
não na sua vitória
a poesia está à prova, como o homem
o canto não acaba, se renova
no coração de quem escolhe
a própria fome

Nada muda no sol que o meu corpo não receba
Aberto como um poço para a sede
escrevo duros poemas
na terra que treme
e sacode a caneta

Só o canto fala por si mesmo
escutem seu bater de veias
ele vingará, como as colheitas
cercadas de amor e de firmeza

 

VIAGEM

Perdidos
pegamos as mochilas
e a vida se fez visita

Batemos no ombro da madrugada
e ela espreguiçou-se pelo mundo
com um brilho pequeno
de quem se acaba
Nos lançou beijos cor de barro
e morreu depois de puxar o sol pelos cabelos

Chegamos nos caminhões de estrada
com apertos de mão e palavras
À procura de um vôo
suado e sem retorno

Chegamos sempre ao anoitecer
quando as cidades se armam
com feras de aço e chapas brancas
com chaves que fecham portas de ferro

O futuro nos saudou
mas o passado
sujou nossos abraços

Voltamos sepultados
Estávamos a um passo
da liberdade

 

CARTA AO COMPANHEIRO EXILADO

Aqui, o sol obstinado
ainda banha a folhagem
a chuva nos visita
e deixa o arco-íris quando parte

As cores da saudade
abriram a palma
de nossa mão pálida
e a vontade de buscar-te
soltou-se como um raio

Descobrimos que era muito tarde

Agora, que a madrugada se caba
e o sol nos dá na cara
não sabemos o que fazer
com esta ressaca

Batem nas portas e revistam roupas e pacotes
Estamos na praia do naufrágio

Do mar vieram boiando coisas mortas
entre elas
nossos sonhos e emboscadas

 

O DESESPERO É UMA FLOR

O desespero é uma flor
que come carne
e arde no meu peito de pastor

Levei uma surra de navalhas
preso num eterno elevador

Num sanatório de sonho
tenho a mão sangrada
Quero o silêncio
de uma estrada nova e calada

Quero a luz do sol e o fim do nojo
quero maio o ano todo
e a dor como um papel em branco

 

DIGO PARA MIM

Digo para mim: fica tranqüilo
as coisas não são tão terríveis
és um anjo de asas brancas
o sol dessa manhã cinza

Digo para mim: não tema
há muito que te prenderam
estás acostumado ao calabouço
ver o mundo será tão pouco
comparado À solidão que aceitas

Sossega, tudo vem, uma larva no pescoço
um acidente, o amor de quando em pouco

Por isso bebe a água, come a carne
a falta de um almoço não te mata
deixa o tempo engatilhar sua arma

Nasceste para durar pouco
ou não durar nada
mas durar é secundário

Antes de partir
deixarás pegadas na areia
para a memória do vento

 

 

Franz Kafka e os roteiros da panóptica espionagem global

DEMOCRACIA ROTEIRIZADA

 

tv manipulação pensamento globo

 

 

por Luís Eustáquio Soares

 

Um dos aspectos mais interessantes da literatura do escritor checo Franz Kafka (1883-1924) está relacionado com a sua potência para mostrar como as relações de poder se inscrevem em todos os lugares, porque tudo está absolutamente misturado. É assim, por exemplo, que no romance O processo (1925), o ateliê do personagem Titorelli, pintor de juízes, é também o seu quarto de dormir, que é também um cubículo de um imenso cortiço popular, que é também o próprio tribunal de justiça, onde K, o protagonista da narrativa, é processado sem ter feito mal algum.

2.

Em consonância com a trama do romance O processo, é possível argumentar que todo e qualquer poder é tanto mais presente quanto mais onipresente; tanto mais potente quanto mais onipotente e tanto mais transcendente quanto imanente, quanto mais existe em qualquer um, de tal maneira que seu centro se confunde com sua periferia, tal como ocorre em outro romance de Franz Kafka, O castelo (1926), cuja trama apresenta um nevoado castelo no topo de uma montanha e uma vila cujos habitantes vivem em função de sua onipresença soberana, não obstante a impossibilidade de alcançá-lo, como se ele existisse de tanto não existir realmente: uma miragem que assombra os aldeões, contaminados que estão com a bruma misteriosa e indevassável que vem do castelo.

3.

A força imperial do castelo advém de sua distância e pelo efeito que esta causa na Vila, cuja vida real é sequestrada pelos próprios aldeões, que agem e vivem sob o julgo de uma tirânica e tragicômica hierarquia supostamente advinda de um castelo que ao fim e ao cabo não passa de um retrato na parede, para lembrar um verso de um poema de Drummond. Os miseráveis súditos da vila vivem como se estivessem condenados ao inferno de existir dentro do tempo histórico, mas sem poder modificá-lo, como se fossem mortos vivos, porque o castelo é o próprio tempo sem história, um tempo fora do tempo, dono de todos os tempos – tempo morto que mata o tempo dos vivos; tempo parasita que sanguessuga os aldeões hospedeiros, que são acometidos por delírios de um despótico castelo que só existe dentro deles, através deles, na desesperança deles, na rotina encastelada do trabalho aldeão deles, tal que, neles, o soberano se faz como onipresente bruma, abraço letal.

4.

América (1927), outro romance de Franz Kafka, pode ser lido como uma narrativa em que o poder ou os poderes, sempre em rede, cansado dos ares frios do castelo europeu e da burocracia que se espalha em seu cotidiano, transfere-se para os Estados Unidos, onde o alto da montanha de O castelo, representando o campo, o soberano e o camponês; e a planície urbana de O processo, representando a cidade e suas múltiplas instituições – como se fossem uma única –, são substituídos por um mundo de poderes em que a dicotomia campo versus cidade perde o sentido porque tudo se torna campo e cidade; tudo se torna, enfim, um imenso parque de diversões, tal que o alto é o baixo e o baixo é o alto, o soberano é o súdito e o súdito é o soberano, sempre, é claro, tendo em vista a ilusão despertada pelo efeito de parque ou efeito de teatro, cujo resultado mais evidente (claro como efeito de magia) é a eliminação do castelo, no campo, e da burocracia, no mundo urbano, porque os súditos se tornaram soberanos, sem deixarem de ser súditos.

5.

O poeta, dramaturgo e escritor brasileiro Oswald de Andrade (1890-1954) de alguma forma intuiu esse fenômeno América de parque de diversões em seu Manifesto Antropófago de 1928, no qual a certa altura diz “roteiro, roteiro, roteiro, o cinema americano explicará”. Com os Estados Unidos no comando do mundo, tudo se tornou roteiro, roteiro, roteiro, como efeito de parque de diversões, como Walt Disney, teatro de marionetes de súditos que são soberanos e de soberanos que são súditos, num contexto em que a bruma ameaçadora do castelo europeu, não deixando de existir, foi transferida para os serviços secretos, de polícias secretas, de administração secreta, de secretos poderes financeiros, comerciais, militares, os quais (através de paranoicos roteiros de terroristas, de comunistas, de narcotraficantes) eliminam sem dó nem piedade qualquer um que ouse questionar os roteiros de felicidade, de justiça, de liberdade, como efeito publicitário em relação à mercadoria-mor: os Estados Unidos mesmos, o único país do mundo que se tornaram efetivamente uma despótica mercadoria de democracia, razão pela qual se impõem ao mundo como roteiros publicitários sobre si mesmos.

6.

Os Estados Unidos são O Castelo e O Processo como roteiros, roteiros, roteiros, como América, portanto, esse lugar onde o lugar do castelo é o do processo e o deste é o daquele, tendo em vista a indefinida plasticidade do roteiro, versão cinematográfica, cuja magia inventa a edição que quiser, confundindo a todo tempo a realidade com a ficção, embaralhando as cartas em conformidade com os secretos roteiros de poder que estão em jogo nessa ou naquela circunstância histórica. Sob esse ponto de vista, é possível afirmar que o modelo norte-americano de poder, ao mesmo tempo local e planetário, funciona como um sistema que joga sem cessar com a realidade e com a ficção, com o que é e o que não é, com o que ocorreu realmente e as suas indefinidas versões prováveis e improváveis.

7.

Para América atual, o roteiro de nossa circunstância histórica é O Castelo como panóptico estelar e O processo como o panóptico molecular. O primeiro panóptico, o estelar, produz seus indefinidos roteiros a partir do uso de tecnologias, via-satélites, que nos apanham por todos os lados, tal como no Castelo de Franz Kafka, com a diferença de que a névoa que toma toda a vila envenenando os aldeões agora vem do cosmos e toma todo o planeta, de modo que a Terra toda hoje é uma aldeia: a aldeia global, vista e revista de todos os lados, como vemos uma bola nas mãos.

8.

O panóptico estelar mapeia a tudo e a todos, produzindo seus próprios roteiros de intrigas, de táticas, de estratégias, de vigiados e punidos, num contexto em que a tendência é sermos vistos sem ver, sermos apanhados sem apanhar, sermos intrigados sem produzir nossas intrigas, ou as produzindo num cenário a partir do qual seremos, sempre, do alto, milimetricamente fotografados, editados e transformados – roteiros de roteiros – em personagens de uma telenovela cujas intrigas são escritas e reescritas em conformidade com a realidade dos secretos desafios de América, a única que importa, centro voluntarioso de todos os roteiros, independente do que ocorra, pois sabe que tudo é matéria de roteiro, de mais intriga, mais novela, mais efeito de cinema, no infinito jogo combinatório de nossas imagens em circulação cosmológica.

9.

O segundo panóptico, por sua vez, o molecular, constitui-se como um processo sem fim que, da gente para a gente, na imanência da vida, faz convergir todas as tecnologias de comunicação, transformando-nos a nós mesmos em convertidos usuários de secretos roteiros de América, tal que não é possível mais saber quando realmente estamos produzindo nossos próprios roteiros, quando estamos na verdade sendo roteirizados, pois tudo é in e é out, tudo é feed e é back: é feedback, sob o controle meticuloso de América: o humano e a máquina.

10.

No panóptico molecular, portanto, somos apanhados e processados a partir do roteiro das subjetividades individuais no real tempo em que usamos os artefatos eletrônicos, no celular, na internet, no controle remoto, em tudo quanto existe e existirá em termos de possibilidades comunicativas de roteiros a acessos a roteiros: o roteiro amoroso, o da amizade, o dos protestos, o da pornografia, da religião, dos estudos, da família. Com o panóptico molecular nos mergulhamos num mar sem fundo de partículas de informação e nele nadamos e somos nadados, como peixes que mais a si mesmos se processam quanto mais processam o movimento digital, sonoro, auditivo, visual e comportamental de suas nadadeiras, nessa imensa rede de comunicação que risca o planeta de sol a sol com as fibras ópticas dos pulsos de nossos impulsos.

11.

Como é facilmente dedutível, o panóptico estelar e o molecular de forma algum estão isolados um do outro. Eles, sem cessar, realizam ininterruptas conexões entre eles, in/out, feedback, vinte quatro horas por dia, em tempo real, quando usamos os artefatos de comunicação para acionar nossos roteiros e mesmo, é claro, independente da gente. Assim funciona o processo deles, conjuntamente, como relação indiscernível entre o castelo, a vila e a cidade, planetariamente. É essa conjunção entre o alto e o baixo, o estelar e o molecular, que é possível chamar de a nossa América mundial: uma rede de intrigas que produz sem cessar roteiros e mais roteiros, de tal maneira que todos tendemos a ser transformados em personagens de ficção, com seus gêneros de comédia, dramáticos, românticos, trágicos, tragicômicos, tendo em vista o cenário de um planeta mapeado em Ocidente, Oriente, Norte, Sul, aliados, suspeitos, terroristas: de um lado é o sorriso que surge na tela, e eis que a esse lado chamamos de democracia; de outro é o rosto duro, acusado de antemão de despótico, ditador, populista, como se acusava Joseph K, personagem do romance O processo, acusado de estar nas malhas do processo do capital, da modernidade, da civilização, assim como somos todos hoje processados por estarmos no roteiro e mais roteiro do poder que sabe que tudo é roteiro, como é o poder americano, razão por que domina as tecnologias de roteiro, para roteirizar-nos: aterrorizar-nos, alegremente.

12.

É assim, monopolizando o panóptico estelar e o molecular que os Estados Unidos invadiram todo o planeta, adaptando-o ao roteiro dos interesses de seus bancos, multinacionais, redes de intrigas e de segredos, kafkianamente. Existe, pois, fato de maior impacto que este: os Estados Unidos invadiram literalmente todo o mundo! Nada, sob hipótese alguma, é mais desalentador e perigoso que essa obviedade contemporânea, tendo em vista a gigantesca força bélica do Tio Sam e o efetivo uso genocida que tem feito de seu poder militar para dissuadir, submeter e impor o mais inominável inferno sobre populações inteiras, bastando que nos fixemos nos casos mais recentes: invasão do Iraque, do Afeganistão, do Congo, Somália, Líbia, do mundo todo afinal.

13.

E o que é invadir todo o mundo? Como ocorre? O lado mais óbvio dessa invasão planetária sem dúvida alguma está diretamente relacionado com as bases americanas, – mais de 800, pelo planeta afora –, ocupando territórios alheios, vigiando-os e punindo-os. O lado menos óbvio, por sua vez, e nem por isso menos efetivo sem dúvida alguma está relacionado com o domínio imperial das tecnologias do panóptico estelar e molecular, utilizando como suporte cada um de nós, através de nossos próprios roteiros subjetivos, razão por que nos tornamos o corpo vivo fundamental para acionar a rede mundial estabelecida pelo panóptico estelar e molecular, ao mesmo tempo em que nós mesmos estamos enredados.

14.

A América planetária constitui-se, pois, como efetivo roteiro de invasão bélica, financeira, econômica, tecnológica, informativa, cultural sobre os povos do mundo; invasão realizada no rés-do-chão, através de um processo kafkiano de panóptico molecular e também através das alturas celestiais, por meio de não menos kafkianos encastelados satélites usados e abusados como panóptico estelar. Seu objetivo é um só: apanhar as multidões e roubar os recursos que alimentam esse gigantesco sistema panóptico estelar-molecular, não sem o disfarce realizado pelos efeitos de close-up meticulosamente editados e reeditados pelas mercadorias ópticas moleculares de nossos rostos de admiração ao círculo périplo dos malabarismos mágicos de América.

15.

É por isso que, sem medo de errar, América, sua elite, bem entendido, constitui-se como um fabuloso poder latrocida ou mais especificamente latrogenocida, que roteiriza a tudo, o passado, o presente e o futuro, a humanidade toda, transformando-nos num filme ao vivo: o filme da humanidade roteirizada, com as suas fiéis filiais especialistas em roteiros, em roteirizar a tudo e a todos, como as corporações midiáticas, que funcionam como mais uma panóptica molecular-estelar forma de América ocupar os países do mundo, posto que geralmente recebem nomes nacionais (El País, Globovisión, TV Globo, BBC) constituindo-se efetivamente como uma espécie de quinta coluna de América nos países onde se localizam, razão pela qual são também especialistas em inventar roteiros e transformam, tal como América, em nome de América, tudo em roteiro, a serviço de América.

16.

No Brasil as Organizações Globo (especialmente sua roteirizada comissão de frente, a TV Globo) são a nossa América invadindo-nos através de pirotécnicas táticas e estratégias de roteiros de nós mesmos, em todos os âmbitos: no noticiário, roteiriza-nos; nas telenovelas, roteiriza-nos; nos programas de esporte, roteiriza-nos; nos programas de auditório, roteiriza-nos; nas “engraçadas” séries noturnas, roteiriza-nos, roteirizando também suas relações com os poderes legislativo, judiciário e executivo, geralmente manipulando o roteiro de sedução dos dois primeiros para colocá-los contra o executivo sob o comando das administrações petistas. Estas, especialmente as de Lula e agora a de Dilma, tem tido uma inacreditável capacidade masoquista de caírem nas malhas mágicas dos roteiros da família Marinho, que ora as acata, sem dó e nem piedade, com evidentes roteiros golpistas; ora, também como roteiro, finge que nada ocorreu, inclusive roteirizando, por exemplo, simpáticas entrevistas com integrantes do governo, em suas redes de roteiro O Globo, TV Globo, Globo News, Época, Globos locais. E tudo funciona de roteiro para roteiro, do roteiro golpista para o roteiro puxa-saco, tão simples como uma novela que sucede a outra.

17.

É, pois, como roteiro de roteiro, que é possível analisar o motivo pelo qual as Organizações Globo assumiram o papel de noticiarem as ações de espionagem contra cidadãos, empresas e governo brasileiros, feitas por América, e reveladas pelo agora implacavelmente perseguido ex-técnico terceirizado da CIA, Edward Snowden. Nada melhor que elas, especialistas fiéis em roteiros dos roteiros de América, para levarem a cabo o roteirizado desafio de nos roteirizarem informações sobre a rede de espionagem de América, através da conexão do panóptico estelar e molecular, lançada sobre todos os âmbitos da sociedade brasileira: o civil, o econômico, o militar, o administrativo, residindo aí a roteirizada bombástica entrevista com o jornalista americano, Glen Greenwald, o primeiro que noticiou o caso de planetária espionagem da NSA, através do jornal britânico The Guardian, tendo obtido esses dados diretamente com Edward Snowden em Hong Kong, China.

18.

Após mais um roteiro golpista contra o governo Dilma, roteirizando as manifestações que tomaram as ruas do Brasil precisamente (mas não casualmente) durante a Copa das Confederações, nada melhor que taticamente mudar o foco, concentrando-se nas roteirizadas denúncias de espionagem do governo de América sobre nós todos, a fim de, ao mesmo tempo, roteirizar a mentira de independência da família Marinho em relação ao imperialismo de América, como se ela não fosse sua fiel produtora de subservientes roteiros colonizados. É nesse cenário que é possível entender a roteirizada entrevista, realizada no Fantástico do último dia 7 de julho, com o jornalista americano Glen Greenwald, o homem do Ocidente que guarda consigo as denúncias de ciberguerra de espionagem de América contra o mundo e o Brasil, prometendo divulgá-las gota a gota, não sem muito roteiro, é claro.

19.

Se se considera especialmente o momento, durante a entrevista do fantástico com o jornalista Glen Greenwald, em que este disse que a ciberguerra de espionagem do onipresente Tio Sam não visa nem o Governo Brasileiro nem a relação deste com os países da América Latina, o roteiro que está em jogo de divide em duas variáveis, a saber: uma primeira, fundamentada no roteiro da mentira a ser editada como se fosse verdade, baseada nos argumentos expostos por Glen Greenwald; e uma segunda que é a que devemos nos ater, porque é a única que nos interessa, a verdadeira: o Brasil é um dos países mais espionados do mundo porque seu Governo ensaia táticas e estratégicas relações com a China, com a Rússia e com os países rebeldes da América Latina, especialmente Venezuela, Argentina, Bolívia e Equador, de modo que somos vigiados porque América quer nos impor o roteiro de sempre: servidão voluntária, a nós e aos latino-americanos.

20.

Era e é essa segunda variável, a verdadeira, que os roteiros mágicos da TV Globo deveriam e devem disfarçar, além de fixar-nos o roteiro que os Estados Unidos não cansam de realizar ao mesmo tempo com o mundo e para o mundo: o de transformar as situações adversas, quaisquer que sejam, em versões roteirizadas como positivas, independente do que esteja em jogo, pois a principal função da América como roteiro ou da América como roteiro de um país que se tornou o roteiro ou a ratoeira de todas a mercadorias do mundo é nada mais e nada menos do que, como fazem todos os roteiros publicitários, vender gatos por lebres, venenos por remédios, mentiras por verdades, ditaduras por democracias, genocídios por defesa da liberdade e da justiça.

21.

Se não quisermos ser capturados pela ratoeira dos roteiros da TV Globo, a serviço da ratoeira-mor, os Estados Unidos, como a mais exemplar roteirizada democracia de fachada do planeta, a única saída reside na realização efetiva de nossos roteiros de soberania, inclusive e antes de tudo da soberania midiática.

22

Para tanto, é preciso ter absoluta clareza – sem a mais mínima hesitação – de que todos os roteiros que vêm do Tio Sam e da TV Globo não passam de ratoeiras de golpes (diretos ou indiretos, declarados ou dissimulados), colocadas em pontos estratégicos, com muitas guloseimas confeitadas, para apanhar e escravizar povos, vistos e concebidos sempre como desprezíveis ratos, tal é o nojo, o desprezo e a indiferença deles, assim como o sentimento de superioridade, sobre todos nós, inclusive o próprio povo americano.

Virginal idílio eu feito próprio exílio

por Maria Regina Alves

passarinho

 

 
– Deixei-me clorada

arremedo
em solução clorada,
sem graça
foram anos quaresmados
desfrutados no raso,
no ralo da trama
“amachucada” de lei
enferidei nas vias
nas veias, ceifei
devo “de ir”,
disse-me o mundo
seguir
sei
parindo tristezas,
risos de hiena
saltando num fosso
dentro? tudo tão mofo…
virginal idílio
eu feito próprio exílio
por que sem razão
me deponho?
fecho os olhos, a vida
essa angústia maldita
pedaço leproso de sonho

 

 

Dueto de Cristina Moreno de Castro

 

Cristina1

Dorme, menina

 

Numa noite louca, onde tudo muda num segundo

Quando a meia-noite chega salvadora

Em que o amor é cínico e a música é baixa

e o álcool circula em copos de plástico

Volto pra casa como num sonho…

 

 

(What) a glorious feeling

 

Insônia de duas semanas

Sou quase ébria de sono e afeto.

 

Singing in the rain goteja em minha cabeça

Como trilha sonora dos meus sonhos.

 

Insônia boa de mensagens bonitas

De apaixonada, como nem lembrava.

 

 

I’m happy again…

Lembrando que o cafona faz palpitar mais rápido.

 

 

 

Sonhador ser metade possível e já metade a morrer

por Fagner Moura

 

 

Fagner Moura

Fagner Moura

 

 

 

GOTAS DOMADAS

 

 

.

 
Agora quero ser o sonho de minha vida
a criança na estrada rumo à loucura
a significação mais feia já dita
o que dorme no meio dos que jazem na sepultura.

.

Durante o dia ser amado pela atrocidade
do cometa homem para com o terraço nu;
espanado porém não limpo, amordaçado
feito tomate na sopa; marginal outro dia na cidade.

.

E do passado pertencer para os que dizem
nada dele levar, nem mentiras tampouco saudades
e na sombra do esquecer poder enfim viver,

.

mas ser do ontem como do sonhador ser
metade possível e já metade a morrer
estampado na raiz do outro dia na outra eternidade.

 

 

 

“Levo para o campo onde descanso a fonte do sonho de ficar contigo para sempre”

PARA SEMPRE

por Nei Duclós

Nei Duclós

Nei Duclós

 

 

Te amar me basta
moro na ocasião
de pertencer-te
só o teu coração é livre
meu sossego
o meu é servo
da escolha que fiz
no amanhecer

.
Dizer não basta
é preciso flor
e outros momentos
para que não se perca
o sonoro
sentimento
a fonte que cobriu
o bosque

.
Pedir não basta
devo exigir do olhar
algo mais denso
para mexer
com teu espólio
de violetas
tua condizente
pose de princesa

.
Sofrer não basta
quero doer
o que não tenho
desistir de ser
para querer-te
ainda mais
se puder pagar
o apreço

.
Morrer não basta
cruzo o limite
que me deu o tempo
e levo para o campo
onde descanso
a fonte do sonho
de ficar contigo
para sempre

A morte de Cinderela

Apesar da perda precoce da virgindade, aumenta o número das mulheres que sofrem com o Complexo de Cinderela, principalmente quando se casam com o homem errado. Que o príncipe encantado apenas persiste no mundo infantil de casinha de bonecas. Coisa de desenho animado, que a vida hoje está mais para filme de terror.

O fim do casamento das Cinderela constitui a tragédia moderna de uma sociedade divorcista, e de homens sem nenhuma vocação para o casamento. E não incluo nesta lista os golpes de baú, os gays de armário, os Casanova e Don Juan, nem o homem que sofre da Síndrome de Peter Pan.

É impossível pensar em casamento eterno quando sequer se tem estabilidade no emprego. E hoje, no Brasil, todos os empregos em empresas e indústrias são temporários.

O mercado de trabalho, quando o salário baixo que se paga faz parte do lucro, passou a ser um motel de alta rotatividade. Um ano em uma empresa, seis meses procurando emprego; dois anos numa empresa, um ano procurando emprego – assim o brasileiro vai levando a vida sem possibilidade de planejar e realizar nenhum sonho. Inclusive cumprir os votos de casamento: “Te prometo ser fiel, amar e respeitar, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, por todos os dias da nossa vida, até que a morte nos separe”.

 

cinderela

COMPLEXO DE CIDERELA: CAUSAS E IMPLICAÇÕES

por Jorge Elói

Recentemente ouve-se falar do Complexo da Cinderela, mas o que é afinal esse “complexo” e ao que é que se deve?
O complexo da Cinderela foi criado em inícios da década de oitenta, por Collete Dowling uma psicóloga norte-americana.
Essa mesmo autora descreve, que o “complexo da Cinderela” ocorre quando existe um sistema de desejos reprimidos, memórias e atitudes que tiveram sua origem na infância. Neste fenómeno existe uma crença da menina ou princesa vai ter sempre alguém que a proteja e que a sustente, tal como acontecia com a Cinderela e o príncipe.
Independentemente da idade, dentro dessas mulheres, existe uma criança que vive assombrando todos os níveis da sua vida, criança essa que ambiciona ter um “príncipe perfeito” que a proteja e lhe proporcione uma vida sem esforço e sem perigos. Consequência dessa crença, existe uma insegurança em vários níveis da vida, dando origem a todas as espécies de medos e dúvidas.
Por consequência desses medos, insegurança e desse príncipe que nunca mais chega, as mulheres que sofrem deste complexo, subestimam-se a elas próprias, autossabotando-se e menosprezando-se.
Quando de fato encontram alguém ou um “príncipe”, as mesmas crenças que sempre o ambicionaram, podem provocar o seu abandono. Pois devido a essa crença, elas tornam-se extremamente dependentes, ao mesmo tempo que elevam as expetativas ao máximo. Esperando que aquele “príncipe” lhe dará o mundo e fará todas as suas vontades. Isso irá provocar, por um lado continuas decepções, ao mesmo tempo que “asfixia” do “príncipe”. Por mais que o “príncipe” a valorize, nunca chegará. Além disso é obvio um sentimento transversal de incompetência e conformismo, pois abdicam de desenvolver as suas competências e conhecimento, por esperarem o “príncipe”.
Para mulheres com este complexo, necessitar de trabalhar pode significar, que aquele não é o “príncipe”, pois se fosse, não necessitariam.
Este complexo teve origem na educação, na cultura e nas sociedades essencialmente ocidentais. Pois durante muito tempo, o papel da mulher era ficar em casa, não trabalhavam, pois a sociedade de forma geral, via o trabalho, o estudos e o conhecimento, quase exclusivo para os homens. Assim sendo, desde muito cedo, as pequenas mulherzinhas eram educadas/formatadas para serem “princesas”.
Gradualmente a sociedade veio-se alterando e com ela a educação. Atualmente já existem mais mulheres no ensino superior que homens. As mulheres têm acesso à informação, ao trabalho, tal como os homens. Contudo ainda muitas recusam todas essas oportunidades de evolução pessoal e profissional, centrando-se exclusivamente no “casamento de sonho”.
As mulheres com esse complexo, possuem baixa tolerância à frustração, pois a sua competência de resolver problemas é muito escassa. Não são educadas para ser independentes e/ou autónomas, mas dependentes de um “príncipe”. Desistem com facilidade de algo que não tenha a ver com o seu “casamento” ou o seu “príncipe”. Não vão à luta, acomodam-se.
É importante referir o forte papel na educação, destas crenças. Como estas há crenças de um emprego perfeito, de pessoas perfeitas, amigos perfeitos, dia perfeito. Provocando inevitavelmente continuas desilusões e inseguranças. É necessário ter em conta quais os conceitos que passamos para as nossas crianças, pois elas muitas vezes irão aprender literalmente. E como vimos irá influenciar necessariamente a sua vida futura a todos os níveis.

 

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