A FITA AMARELA

por Talis Andrade

Quando eu morrer não quero choro nem vela
quero uma fita amarela gravada com o nome dela

Quando eu morrer vou encontrar Carlinhos e Capiba
compondo versos de excelência para os bem-aventurados
que chegaram ao céu

Onde anda ela
Dizem que casou
passa o dia limpando a casa
lavando roupas e panelas

Boa de forno e fogão
onde anda ela
Dizem que passa o dia na janela
Nem hoje sabe a importância
de uma fita amarela gravada com o nome dela

ALMA PENADA

por Talis Andrade

Por que este pressentimento
de morte não se afasta
Estranha inimiga em constante tocaia
a morte está dentro e fora do nosso corpo

Será a morte uma amiga cuja ajuda se pede
quando já não se suporta a dor
que flagela o corpo
a dor que atormenta a alma

Este pressentimento de morte próxima
será apenas o medo do que está além
da porta fechada
por ilusória segurança
Por que o medo
se jamais veremos a morte
se as mãos frias
nos fecham os olhos
Nunca mais um dia de sol

Quantas oportunidades perdidas
de caminhar pela praia
pelos jardins
pelos vales verdejantes
Nunca mais a contemplação dos lírios no campo
Nunca mais

Que valem estas flores que me jogam no caixão
que desce na cova rasa para ser coberto de terra
Terra que é posse
Meu único chão
até que reine a putrefação
Terra que será ocupada
por outro sem terra

Se o corpo está morto
por que o medo
o cadáver deixe a sepultura
para uma noite de assombração
Que a alma apareça
para agourar
te buscar
Alma penada
de saudade
Alma perdida
na solidão


 


QUANDO O TEMPO PARA

de Talis Andrade

Nenhum pregão dos ambulantes
na feira
nem a alegria das brincadeiras
das crianças no parque
nem a voz de um transeunte perdido
nem o sussurro dos amantes
escondidos

Nenhum som de chuva
no telhado
de ventania nas janelas
Nenhum bater de asas

Fora e dentro da casa
o desgosto
o silêncio do abandono

Na solidão da casa vazia
os espelhos não refletem
nenhum rosto
Não existem fantasmas
na solidão

Natal 1959. Surgia uma nova geração de escritores, notadamente poetas

O ENCONTRO COM UM ARTISTA DA PALAVRA

por Manoel Onofre Jr.

 

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Conheci Talis Andrade nos idos de 1959, quando, ainda adolescente, matuto da Serra do Martins, fui morar em Natal a fim de cursar o Clássico no tradicional Atheneu Norte-rio-grandense. Talis, muito jovem, era redator de “A Republica”, diário em que mantinha a coluna “Livros & Escritores”, com a qual agitava a vida literária natalense. Surgia, então, uma nova geração de escritores, notadamente poetas que logo alçaram vôo, tornando-se grandes nomes da literatura Poti-guar. Luís Carlos Guimarães, Myriam Coeli, Augusto Severo Neto, Berilo Wanderley, Deífilo Gurgel, Dorian Gray Caldas, Walflan de Queiroz, Sanderson Negrei-ros e Nei Leandro de Castro. Outros, como Zila Mamede e Newton Navarro, já se haviam firmado, este último não só poeta, mas também contista e cronista.

No meio dessa constelação, eu, na insignificância dos meus 16 anos, alimentava veleidades literárias, sonhava tanto ver em letra de forma os meus vagidos de escrevinhador.

Foi Talis que me lançou como poeta, em sua presti-giosa coluna. Pena que fiquei tão-somente no imaturo poema, que ele, generosamente, acolheu. Minto. Anos depois, escrevi uns arremedos de poesia, dentre os quais “No Recife”, único que não renego. E desde então, tendo enveredado pela ficção e pela pesquisa da cultura regional, desfiz o meu namoro com a musa… De sorte que sou poeta de um poema só. Mas, isto não vem ao caso. Importa dizer que, ainda no começo da década de 60, perdi de vista o poeta e amigo. Soube que ele retornara ao seu Pernambuco de origem. Longos anos se passaram… Até que, recentemente, lendo no jornal “Tribuna do Norte”, de Natal, a coluna de Woden Madruga, tive notícias de Talis, e tanto bastou que eu, proustianamente, reencontrasse todo aquele pequeno mundo da cena literária natalense dos anos sessenta.

Foi muito gratificante saber da vitoriosa trajetória de Talis nas letras, no jornalismo e na publicidade. Logo procu-rei entrar em contacto com ele, e desde então temos mantido um bom intercâmbio cultural.

Mas, não estou aqui para falar do nosso relacio-namento pessoal…

Acabo de ler a sua mais nova coletânea de poemas sob o título “A Partilha do Corpo”. Não é livro de poeta para poeta, como tantos outros por aí afora. Não. Nada de herme-tismo. A linguagem poética simples e clara, ganha em comunicabilidade sem que, todavia, faça concessão de espécie alguma ao gosto do grande público ledor. Aspecto de grande importância, aliás não só neste livro, mas em toda a sua obra poética.

Assim como Manuel Bandeira, Talis Andrade sabe muito bem que “difícil é escrever fácil”. Ele deve torturar-se para obter a expressão exata, prescindindo daquela linguagem cifrada tão cara a certos poetas contemporâneos. O leitor, que se deleita com a leitura, não avalia o esforço do autor para atingir essa simplicidade e clareza.

Outro aspecto digno de especial menção, mas este não apenas de natureza formal: a presença da Morte na temática escolhida pelo autor. Tal qual leit motiv, a Indesejada das Gentes reponta ao longo da série de poemas. É impressio- nante. Em contraposição, o Amor também está presente, sem caráter obsessivo, mais forte bastante para dar sentido à Vida. Eros versus Tanatos…

Na exploração dessa temática, o poeta busca a essência da Vida – desculpem-me se digo “o óbvio ululante”.

A propósito, Rachel de Queiroz cunhou, numa de suas crônicas, uma frase muito do meu agrado: “Literatura só tem importância quando se liga à vida”.

Pois bem, este livro está cheio de vida. Não somente – ressalto – da Vida com V maiúsculo, na dimensão filosófica, mas também da própria vida cotidiana, a servidão humana que se lê nas entrelinhas, dado o caráter confessional de quase todos os poemas.

Não me proponho a analisar a obra literária de Talis Andrade, até porque me falta qualificação para tanto. Na verdade, eu ainda teria algumas palavras a dizer sobre “A Partilha do Corpo”, e não poderia deixar de, pelo menos, citar os poemas nele contidos que mais me tocaram. “O Morto” (“…uma calmaria que não é paz”), “Presença” (“…quando descer/ a úmida luz/ da lua”), “Piquenique”, “O Sol de Capricórnio”, “Encantada Natal”, “Noturna Escadaria”, “Um Cavaleiro sem Bandeira”, “Cantar Alheio”, “Jornalismo Investigativo”, “Valsa” (“Eu não lembro/ de nenhum beijo/ nos meus tempos de criança”), “Rua Enluarada”, “Um Céu de Gesso” (“Uma casa não devia impedir/ os olhos avistassem o céu”), “Liação”, “Desencanto”, “Vazio Corpo” (“Cansado corpo/ de quem se contenta/ em ficar à espreita”), “Casamento Compulsório” (“Sexo que se faz/ como um autômato/ com a técnica/ dos profissionais/ a pressa/ de quem bate o ponto”), “Os Tambores da Noite”, “Tamil”, “A Pedra”, “Cego Vôo” (“Em cada um o covarde/ a limpar a face/ do escarro do patrão”), “Sempre o Mesmo Rumo”, “O Suicida” (“…não tem o que/ perder/ senão o corpo/ que sobrou”), “O Cemitério dos Suicidas”, “Partição” (“Os olhos embevecidos/ da beleza da amante/ ofereço para transplante”), “Certeza” (“Os amigos/ deitarão por fim/ comigo/ no mesmo chão”), “A Praça”, “A Cidade” (“Quem se lembra que/ por aqui passava um beco”), “Contida Ternura”, “Da Frigidez”, “Os Velhos Brinquedos Velhos” e “O Último Pedido”. Tantos outros momentos de alta poesia… Não devo, porém, alongar-me. Creio que todo prefácio é uma excrescência.

Que o leitor vá logo ao que mais importa: o encontro com um verdadeiro artista da palavra.

Dez poemas de Talis Andrade

QUANDO SE DESEJA UM FILHO DE JUDÁ

Chagall

Sempre desejou ultrapassar
os lugares traçados desde a infância
Seguir além dos vigilantes olhares
os familiares olhares que delimitavam
o tempo os espaços
Sempre desejou possuir a autoconfiança
a magia a sabedoria
das prostitutas na cama

Sempre desejou uma outra vida
mas tudo se enfuna em areias
quando não se exige as prendas
Tudo se enfuna em areias e espumas
quando não se exibe de Judá as prendas

.

LIAÇÃO

Nunca tentes ver
a face do amor
a angustiosa face

Ver é transpor
os estorvos da carne

a lama pegajosa

.

CONJUNCTIO

Nunca perguntes
pelo amor
Entrega teu corpo
cega
intensamente

Que a força úmida
se junte
à força áurea

eternamente

.

ADIVINHAÇÃO

Ai Maria
que a cigana viu
Invisíveis fios
nos enredam a alma
Invisíveis fios
nos enredam o corpo

Ai Maria
que a cigana viu

.

ESTIGMA

Maria Maria
da Conceição
como desgravar
teu nome
da palma
da minha mão

.

DESLEMBRANÇA

Maria Maria
Maria José
Maria das Dores
Maria dos Prazeres
Maria de Nazaré

No meio de tantas Marias
já não sei
quem você é

.

O ESPELHO PARTIDO

Quebrei o espelho
em mil pedaços
Cada estilhaço
uma face minha

Quebrei o espelho
que você me via
Rasguei os retratos
de nossas viagens
pelos paraísos
que lhe convinha

.

NECROPSIA

Por estranha reversão
o desamor afeia
tudo que foi amado
tudo que foi belo
no passado

.

A CONTA DOS OITO

A libido obcecada
pelo buraco
transforma

um corpo igual
a outros corpos
com oito buracos
oito desejos

saciados

.

DESENCANTO

Este fastio este desconforto
em ver a fêmea nua dormindo
na nossa cama o sexo exposto

Este despudor de quem perde
o mistério de ser a eterna musa
que o poeta venerou em versos

A vida este abuso este desacato
a tudo que é belo este asco
do cheiro costumeiro de sexo
que impregna o quarto

.

SONO DOS JUSTOS

Entregue ao sono
esquecida de que é
uma simples visita
a fêmea se apossa
de toda a cama
como se tivesse
afinal encontrado
o abrigo que todo
animal procura
resguardada e livre
de todos os perigos

.

Ilustração: Tamar grávida de Judá, por Marc Chagall

.

A solidão nenhum deus vigia. Seis poemas inéditos de Talis Andrade

Christian Vincent

Christian Vincent

 

POR TRÁS DO ESPELHO

Há muito tempo
me fragmento
por trás do espelho

Há muito tempo
não me animo
sair para rua

O isolamento vicia

Há muito tempo
se aparecesse
uma companhia
não saberia
compartir
os espaços
do dia

Há muito tempo
o tormento
de um isolamento
que nenhum deus vigia

.

 SEMPRE PERTO E LONGE

Qualquer parte
do meu corpo
atingida por estranhos
minha mãe
lavava com água
gelo e neve
Minha mãe
esterilizava com álcool

Livre dos contágios
meu corpo
foi ficando
frio como o gelo
puro como a neve

Para continuar imune
passei a não deixar
fossem tocadas
as partes íntimas
do meu corpo

Fui me distanciando
me distanciando
e assim ando
sempre longe
de quem amo

.

FRIGIDEZ DE DAFNE

Insensibilizado corpo
de Dafne

O coração atingido
por uma flecha
uma flecha
com ponta de chumbo

Uma flecha de ponta
rombuda
de envenenado chumbo
frio e invernal

Insensibilizado corpo
insensibilizado coração
Um coração que não ama
um coração que não sangra
bate no peito
de um morto

.

      O INTOCÁVEL

Nasci intocável
como um judeu
forçado a exibir
costurada
nas vestes brancas
a marca amarela
de uma rodela

Nasci intocável
como um leproso
anunciando com um sino
a temida aproximação

Um leproso vestido
com comprida túnica
até os tornozelos
a comprida túnica
com um ele marcada
a túnica vermelha
com guizos pendurados

Nasci intocável
como um leproso
o rosto dissimulado
em um cônico capuz

.

O CORPO INTERDITO

A desdita de me consumir
no não-dito
na síndrome de pânico
no corpo interdito

A desdita de me consumir
no medo da entrega
no que poderia advir
além do muro

que ergui
entre eu e você
entre eu e o mundo

.

 EMPEDRADO CORPO

Insensível como uma pedra
um urso hibernando
insensível como uma pedra
um boi ruminando
paisagens cinzas e capim
não tenho olhos para o vôo de uma borboleta
não me encanto com o canto de um pássaro
não farejo o perfume de uma rosa
a rosa que revelaria o secreto jardim

Sou insensível como uma pedra
que cobre um cadáver
em um cemitério clandestino

Em alguma curva da vida
encruzilhada de despachos
uma bruxa me transformou em pedra
Uma pedra que não marca
nem desmarca
Simplesmente uma pedra
—-

Do livro inédito O Cantar das Pedras, de Talis Andrade

Orides Fontela: Difícil para o pássaro/ pousar/ manso/ em nossa mão

POUSO (II)
por Orides Fontela

.

Difícil para o pássaro
pousar
manso
em nossa mão – mesmo
aberta.

Difícil difícil
para a livre
vida
repousar em quietude
limpa
densa

e ainda mais
difícil
– contendo o
vôo
imprevisível –

maturar o seu canto
no alvo seio
de nosso aberto
mas opaco

silêncio.

Terêza Thenório

Terêza Tenório

SONHOS POÉTICOS
por Talis Andrade

.

À Terêza Tenório

Um pássaro
imenso
pousa manso
nas mãos
de Orides Fontela

Um peixe
nas coxas
de Cecília Meireles

Um corpo
de argila iluminada
cega Edna St.Vincent Millay

enquanto Alfonsina Storni
aguarda o amado
ponha nas carnes
a alma que pelas alcovas
ficou enredada

Indóceis as mulheres velam
o amor fosse tão belo
quanto seus versos
O amor que arde
nas faces coradas
o amor que arde
nas entranhas orvalhadas
tivesse a pureza
de uma prece

Poeta Djalma Tavares, um arlequim bêbado

EM BUSCA DO SILÊNCIO
por Djalma Tavares

.

Busco o silêncio no vazio
Por este amor tânico e louco,
Como o bailarino busca inutilmente
Música, espaço, movimento…
Música,
Luz,
Espaço…

Em caso destes o silêncio é frio!
Tem a frieza dos sarcófagos,
Tem a pureza das estátuas.

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UM ANJO BÊBADO
por Talis Andrade

.

Atravessando a enluarada
ponte Príncipe Nassau
um arlequim
A música dos suaves guizos
repercute como sinos de vento
na solidão da madrugada

O arlequim
anjo arcanjo dos bêbados
e suicidas
O arlequim
visagem alada
de Djalma Tavares

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Ilustrações: Arlequins de Picasso

.