Recife Cidade Cruel

por Talis Andrade

 

INGRATA PARA OS DA TERRA

No Guia Prático da Cidade do Recife
Canta Carlinhos Manuel João e Joaquim
Joaquim foi esquecido pela cruel cidade
quem vai se lembrar de mim

 

MAKTUB

Cumprirei minha sina
dias santos e profanos
vou escrever poesia
até que chegue a hora
vão me chamar lá no céu
Carlinhos João e Manuel
– Vem em paz irmão
a gente assina teus versos

 

 

 

 

 

Anúncios

Com o perdão de Nabokov: o Recife também teve uma Lolita

por Rafael Rocha

O andarilho da zona do meretrício do Recife condensava de forma extrema as contradições de todas as opressões e desconstruía o pudor hipócrita das elites.

Foi o retrato de uma época e hoje é uma lenda urbana

Ivo Alves da Silva era conhecido na cidade do Recife como “Lolita”. Nas lembranças de quem o viu de perto, como eu vi e de quem conheceu suas bravatas e fama de brigão tornou-se figura folclórica ao ponto dele mesmo dizer que “quem não conhece Lolita não conhece o Recife”. Uma variante de “quem vai a Roma e não conhece o papa não conhece nada”.

“Lolita” era um bebedor diário, homossexual e arruaceiro brigão. E muito mais do que isso era um cantor de rua, clown dos estudantes de engenharia e de direito, quando as duas escolas eram vizinhas, entre as ruas do Hospício e Riachuelo. A fama de Lolita teve seu auge nos meados dos anos 50 e 60. Ele deve ter morrido depois do ano de 1975. Não se tem certeza.

O tipo “Lolita” é incomum. Não se pode fazer um resumo simples. Ele levava para as ruas da cidade do Recife a explosão das contradições sociais brasileiras. Nascido no município de Nazaré da Mata, terra dos canaviais, migrou para São Paulo como faziam todos os nordestinos da época em busca de fortuna. Aos 22 anos, já alfabetizado, retornou ao Recife e tornou-se nome urbano da cultura de massa.

Seu vulgo “Lolita” nasceu de um personagem de um filme brasileiro de chanchada e de um folheto de cordel que ele leu e decorou todo. No filme e no folheto existiam personagens com o nome “Lolita”, e ele, como declamador dos versos pelas ruas do Recife, passou a ser chamado assim. Sua vida? Deve ter sido igual a de tantos meninos pobres. Estuprado quando ainda criança em sua terra natal terminou estigmatizado pelo pai, tornando-se a partir daí um beberrão e maconheiro. Toda sua vida adulta viveu nas zonas de prostituição, no bairro do Recife e no bairro do Pina, na Pensão Jaú.

Jamais mostrou infelicidade pela vida que levava. Dizia que adorava viver nesses lugares e também entre a estudantada universitária. Com a polícia do Recife teve uma relação não muito boa, mas até certo ponto cheia de paradoxos. Era perseguido, odiado, acolhido e protegido por muitos policiais. Apesar de pequeno e franzino era um valentão. Ninguém queria brigar com ele. Todos tinham medo dele, principalmente os playboys da alta sociedade.

Conheci “Lolita” em minha adolescência. Vi “Lolita” atuar na calçada no Bar Savoy, em plena Avenida Guararapes, fazendo uma arruaça dos demônios depois de ter bebido demasiado. De repente, apareceu um camburão com policiais militares para acabar com a “festa” dele. Não deu certo. Os policiais (em um total de cinco) tentaram deter “Lolita” na base da violência.

Todos eles entraram na pior, apanharam feio e pediram reforços. Chegaram dois camburões e cercaram “Lolita”. O tempo fechou! Depois de muito apanhar e completamente ensanguentado, “Lolita” olha para um dos policiais que brande o cacetete para ele e grita: “Bate, bate neste corpo que já foi teu”. O PM parou de bater depois de ver que todos os bebedores do Bar Savoy estavam a zombar dele.
O homem, sim, porque ele era um homem, condensava de forma extrema as contradições de todas as opressões. Sua família representou a fatalidade da exploração dos canaviais de Pernambuco. Todos os membros migraram para São Paulo, como fizeram famílias inteiras.

Assim não custa entender porque “Lolita” tornou-se uma expressão libertária das ruas do Recife. Ele deixava a “zona do meretrício” e levava o corpo para as pontes e ruas chiques do centro da cidade. E então explodia sua agressividade e seus “escândalos cantantes”.

Ele desconstruía o pudor hipócrita e a máscara de macheza da elite pernambucana, desmoralizando-a com a sua extrema valentia e modo de brigar. Na ditadura militar suas peregrinações folclóricas pelas ruas do Recife acabaram à força, mas a lenda “Lolita” continua viva nas ruas do Recife e nas gerações que o conheceram e que o viram encarar a violência, brigando contra os poderes constituídos e cantar imitando a insuperável Ângela Maria de quem era fã: “Será que eu sou feia?” Secundado pelos boêmios dos bares: Não é não, senhor! E ele: Então eu sou linda? E os boêmios: Você é um amor! Publicado no HUMANITAS

Recife boêmio de Selênio Homem de Siqueira

Por Talis Andrade
(trechos)

3

Não encontro parceiro
para conversas de bar
O relato da imundice
das devassas
em segredo de justiça
em segredo cúmplice
os jornais temem publicar
Revelar as anotações
do livro dois da polícia
os vícios dos políticos puritanos
a origem das fortunas repentinas
dos industriais da seca e molhados
um prazer que redime
dos jornalistas os pecados

Não encontro parceiro
para conversas de bar
Expulsaram da noite os boêmios
os poetas os seresteiros
José Gonçalves de Oliveira
tornou-se abstêmio
Selênio Homem de Siqueira
virou místico de vez
Audálio Alves converteu-se
em um santo burguês

4

Dos amigos a lembrança
de antigas andanças

Eunício Campelo capitão do Santa Maria
herói de uma revolução que não existiu
nunca navegou nenhum navio
partiu nas asas de uma gaivota
em busca de uma nau
pelos mares de Oropa França e Bahia

Eugênio Coimbra Júnior o último dos românticos
amava os cães leprosos e vadios
Deve estar no céu fazendo companhia a São Roque
Deve estar no céu rezando poesia
com São Francisco de Assis

Carlos Pena Filho ninguém perdoa
a morte estúpida numa batida de carro
Um poeta deve finar tuberculoso
ou morrer de faca e bala
e não a mocidade perdida
numa simples curva da vida

5

Amortalhados na roupa surrada de jornalista
os amigos descansam na colina
Lembrá-los é ressuscitar exumados sonhos

Tadeu Rocha a preservação do São Francisco
rio conquistado das nações indígenas
o rio o sumidouro Abdias Moura
descreveu em livro
Luiz Nascimento a pesquisa
da história de Pernambuco
nos almanaques e pasquins
impressos nas campanhas eleitorais
festas de santo e motins
Adonias Moura a defesa do futebol
como arte dança alegria do povo
e não um escuro fosso de negócios escusos

Para que acordar os mortos
que viriam incomodar os vivos

* Jornalista, poeta, professor de Jornalismo e Relações Públicas e bacharel em História. Trabalhou em vários dos grandes jornais do Nordeste, como a sucursal pernambucana do“Diário da Noite”, “Jornal do Comércio” (Recife), “Jornal da Semana” (Recife) e“A República” (Natal). Tem 13 livros publicados, entre os quais o recém-lançado“Romance do Emparedado” (Editora Livro Rápido) e outros à espera de edição.

Postado por O Escrevinhador

Seleta de Vania Luiza de Lira: Bela poesia de Talis Andrade em homenagem a Selênio Homem de Siqueira!

Urariano Mota: “O crime contra Soledad é o caso mais eloqüente da guerra suja da ditadura no Brasil”

Soledad, beleza e sangue

“A morte de Soledad deu-se em razão de sua ternura”

por Conceição Lemes

Soledad Barret Viedma. Eu a ‘conheci’ ao ler uma coluna do jornalista e escritor pernambucano Urariano Mota, em Direto da Redação. Fascinou-me na hora. Uma jovem idealista, corajosa e linda, muito linda. Foi torturada e morta no Recife em 1973, grávida, depois de ser entregue ao delegado Sílvio Paranhos Fleury, traída pelo cabo Anselmo, de quem trazia um filho na barriga. O texto era tão terno, carinhoso, delicado. Confesso que me passou pela cabeça os dois terem sido namorados.

Emocionou-me tanto a história, que, imediatamente, quis saber mais de Soledad. Daí nasceu esta conversa com Urariano, que lança, em julho, o livro Soledad no Recife pela editora Boitempo. Ele é autor do romance Os Corações Futuristas, cuja paisagem é a ditadura Médici.

Soledad

Por que Soledad? Na sua coluna, você diz que só agora teve condições de mergulhar nas entranhas daquele momento. Por quê?

Urariano Mota – Há temas que nos perseguem, embora nem sempre a gente perceba. No meu primeiro livro, o romance Os corações futuristas, houve Cíntia, uma brava socialista. Já no destino trágico de Cíntia havia um destino de Soledad. A ‘diferença’ é que Cíntia se apoiava em outra pessoa, em outra militante. Enquanto Soledad, pelo menos quero crer e me empenhei muito por isso, Soledad é a pessoa. É a própria pessoa, pelo menos desejo ter realizado isso.

Por que só agora, 36 anos depois? De um ponto de vista pessoal, estou mais apto e cônscio de minhas fronteiras. De um ponto de vista mais geral, digamos, objetivo, o crime contra Soledad é o caso mais eloqüente da guerra suja da ditadura no Brasil. A traição que ela sofreu expressa, com vigor, a traição contra jovens do sentimento mais generoso, que é o sentimento de humanidade, do mundo.

Era tua amiga? Como ela era?

U.M. – Eu sou fundamentalmente um escritor. Isso quer dizer, expresso minha experiência vivida, sempre. Ou em fatos biográficos, testemunhados e sofridos, ou em fatos imaginados, recompostos, ressurgidos, que são também, para a literatura, para o artista, fatos testemunhados e sofridos. Soledad não era, ela é minha amiga. Mas não trocamos palavras em sua curta vida. Este livro diz a ela, fala as palavras que não podemos trocar, no Recife da ditadura Médici.

Mais de uma pessoa, para não dizer quase todas as pessoas, pensam que Soledad foi minha namorada, que eu a conheci pessoalmente. Isso vem da narração e da forma apaixonada do relato. Essa impressão surge, veio e vem do livro. Mais de um leitor já recebeu essa impressão. Isso se deve à mistura, em um só corpo, de pessoas e fatos absolutamente reais, documentados, sabidos, ao sentimento que tenho daqueles dias. O documento vivido pela segunda vez. Então, é claro, o elemento ‘ficcional’ virou factual. Como ela era, como ela é, o livro dirá.

É citado o massacre da chácara São Bento. Que lembrança isso traz?

U.M. – As notícias, publicadas em todo o Brasil em janeiro de 1973, dos seis ‘terroristas’ mortos no aparelho da São Bento, são absolutamente falsas. As ‘notícias’ de terroristas mortos, naquele tempo, eram reproduzidas com a mesma redação e teor em toda a imprensa brasileira. Vinham da agência de segurança nacional. Jamais houve o ‘massacre da chácara São Bento’. Houve a execução fria, planejada, de seis bravos militantes. A chácara foi o teatrinho criado para a execução de seis bravos.

Soledad Barret Viedma e Pauline Reichstul – há testemunho público disso – foram assaltadas em uma butique no Recife, de surpresa espancadas sob pistolas e seqüestradas. Em uma mangueira, por trás da butique, a proprietária notou depois sangue, vômito e urina. Isso de modo público, à vista de todos. Jarbas Pereira Marques, outro militante, que aparece entre os terroristas da chácara, foi retirado da livraria onde trabalhava, à luz do dia. Digo isso no livro, e repito aqui: em uma ditadura, até as datas dos jornais são falsas.

Soledad foi traída pelo cabo Anselmo, que a delatou ao delegado Fleury. Você conheceu o cabo Anselmo? O que sente por ele?

U.M. – Eu estudo o seu caráter há muitos e muitos anos. Ele é objeto de minha permanente observação e pesquisa. No entanto, jamais vi na rua o cabo Anselmo. Eu o conheço por seus cadáveres, que ele arrasta como uma cauda. Fui, sou amigo de quem ele perseguiu, traiu e matou.

Ninguém podia imaginar que ele fosse uma infiltração. Anselmo pertence à família dos agentes duplos, dos instrumentos de política que se chamam espiões. Isso quer dizer: ele é um mundo de mentiras. Ele era e é um sistema em que mentiras armam mentiras, que constroem mentiras, sempre. Isso quer dizer, enfim, que tudo quanto esse instrumento dizia e disser, falar, deve ser posto sob absoluta desconfiança, porque ele mente por sistema, por hábito, por defesa, por ataque e natureza. Não se pode acreditar em uma só das suas palavras. Quando ele diz eu amo, eu respeito, o bom senso deve traduzir de imediato, ele odeia e despreza.

Sou de opinião que não importa o seu último nome. Porque ele não tem outro nome nem outra face. Jonas, Daniel, José, com barba, sem barba, magro, gordo, com novos olhos, novas orelhas, novo nariz, nova boca, não importa. Ele será sempre, para onde for, cabo Anselmo, aquele que gerou a morte da sua companheira, que trazia um filho no ventre.

Soledad morreu jovem, linda. Se ela vivesse no Brasil de hoje, o que estaria fazendo Soledad, em quem votaria, o que a preocuparia?

U.M. – É a pergunta mais difícil. Mas sei, ou posso ter a esperança de que ela estaria no movimento socialista, com um apoio crítico ao governo Lula. Continuaria linda, pelo fogo que tomava o seu corpo e sua vida, que não se apaga, não arrefece, apenas fica mais maturado. Como um vinho decantado que embriaga melhor.

Para ela, viva neste 2009, digo o que escrevi no livro:

Soledad não é só a mulher bonita, de um ponto de vista físico, cuja fotografia revela apenas uma estação do seu ser. Uma estação imóvel do seu peito dinâmico, e de tal modo que dará ao fotógrafo o que se diz de um mau desenhista, ‘isto não se parece com ela, não saiu parecido’. E se pedirá então ao fotógrafo o absurdo, a saber, que a máquina, a mecânica, reproduza um ser, a textura, cor e delicadeza da orquídea, da pessoa mesma. Como se fosse possível da flor um close que a isolasse do ar que ela respira, do campo em torno, do cheiro que exala, em resumo, como se fosse possível reproduzir o complexo, a conspiração de sentidos que se dirigem para um único fim, a pessoa, o ser vivo, poderoso em nos despertar amor, afeição, paixão, tar a e paz, que buscamos como a uma miragem. Ainda assim, se sabemos que na flor há um ser inalcançado na fotografia, se comparamos, se transpomos mal, imagine-se então Soledad no lugar dessa flor do campo. Imaginamos mal e mau, já vêem. Flor não se rebela nem canta. Flor nos desperta canção e rebeldia, quando machucada. Mas a pessoa de Soledad, ainda que lembre essa flor – e é irrecusável não lhe ver a pele como o tecido de uma pétala –, e assim a lembraremos pelo vento forte e traiçoeiro que se prepara para a muchucar e destruir, ainda assim, como a superar tal associação, ainda que nos persiga como só uma idéia é capaz de perseguir, hoje, neste dia do seu aniversário, ela está mais bela que antes. ¡Arriba, Sol!

***

Trechos

Eu a vi primeiro numa noite de sexta-feira de carnaval. Fossem outras circunstâncias, diria que a visão de Soledad, naquela sexta-feira de 1972, dava na gente a vontade de cantar. Mas eu a vi, como se fosse a primeira vez, quando saíamos do Coliseu, o cinema de arte daqueles tempos no Recife. Vi-a, olhei-a e voltei a olhá-la por impulso, porque a sua pessoa assim exigia, mas logo depois tornei a mim mesmo, tonto que eu estava ainda com as imagens do filme. Num lago que já não estava tranquilo, perturbado a sua visão me deixou. Assim como muitos anos depois, quando saí de uma exposição de gravuras de Goya, quando saí daqueles desenhos, daquele homem metade tronco de árvore, metade gente, eu me encontrava com dificuldade de voltar ao cotidiano, ao mundo normal, ‘alienado’, como dizíamos então. Saíamos do cinema eu e Ivan, ao fim do mal digerido O anjo exterminador. Imagens estranhas e invasoras assaltavam a gente.

A vontade que dava de cantar retornou adiante, naquela mesma noite. No Bar de Aroeira, no pátio de São Pedro, naquela sexta-feira gorda. Como são pequenas as cidades para os que têm convicções semelhantes! Estávamos eu e Ivan sentados em bancos rústicos de madeira, na segunda batida de limão, quando irromperam Júlio, ela e um terceiro, que eu não conhecia. Ela veio, Júlio veio, o terceiro veio, mas foi como se ela se distanciasse à frente – diria mesmo, como se existisse só ela, e de tal modo que eu baixei os olhos. ‘Como é bela’, eu me disse, quando na verdade eu traduzi para beleza o que era graça, graça e terna feminilidade.

A morte de Soledad

Chegamos agora mais perto de Soledad Barret Viedma. Excluo-me, na medida do possível, da qualidade daquele que a amou em silêncio.

Há quem considere que a morte de Soledad, nas circunstâncias que conhecemos mais tarde, deu-se em razão de sua ternura. Isso é mais que um namoro, um interlúdio, para dizer que ela esculpiu a própria sorte, porque, diabo, era terna e verdadeira. Com a evidência de um escândalo. Prenhe de ternura até as raias do suicídio. Esse elogio torto, digno da reencarnação e pele de um Anselmo 2, é como um açúcar no sal de sua execução. Um doce, um mel, a lhe correr sobre os lábios entre coices, descargas elétricas e afogamentos. Conviria melhor ser dito que ela, por suas qualidades raras de pessoa, estava condenada.

Poeta Djalma Tavares, um arlequim bêbado

EM BUSCA DO SILÊNCIO
por Djalma Tavares

.

Busco o silêncio no vazio
Por este amor tânico e louco,
Como o bailarino busca inutilmente
Música, espaço, movimento…
Música,
Luz,
Espaço…

Em caso destes o silêncio é frio!
Tem a frieza dos sarcófagos,
Tem a pureza das estátuas.

_ndice_de_Biograf_as_Picasso_Arlequ_n_sentado nu

UM ANJO BÊBADO
por Talis Andrade

.

Atravessando a enluarada
ponte Príncipe Nassau
um arlequim
A música dos suaves guizos
repercute como sinos de vento
na solidão da madrugada

O arlequim
anjo arcanjo dos bêbados
e suicidas
O arlequim
visagem alada
de Djalma Tavares

picasso-arlequin-acodado2

Ilustrações: Arlequins de Picasso

.

Com seu corpanzil de Catimbó, Ascenso Ferreira canta a Cavalgada

A Cavalhada
por Ascenso Ferreira

Cavalhada

.

Fitas e fitas…
Fitas e fitas…
Fitas e fitas…
Roxas,
verdes,
brancas,
azuis…

Alegria nervosa de bandeirinhas trêmulas!
Bandeirinhas de papel bulindo no vento!…

Foguetes do ar…

— “De ordem do Rei dos Cavaleiros,
a cavalhada vai começar!”

Fitas e fitas…
Fitas e fitas…
Fitas e fitas…
Roxas,
verdes,
brancas,
azuis…

— Lá vem Papa-Légua em toda carreira
e vem com os arreios luzindo no sol!
— Danou-se! Vai tirar a argolinha!

— Pra quem será?
— Lá vem Pé-de-Vento!
— Lá vem Tira-Teima!
— Lá vem Fura-Mundo!
— Lá vem Sarará!
— Passou lambendo!
— Se tivesse cabelo, tirava!…
— Andou beirando!…
— Tirou!!!
— Música, seu mestre!
— Foguetes, moleque!
— Palmas, negrada!
— Tiraram a argolinha!
— Foi Sarará!

Fitas e fitas…
Fitas e fitas…
Fitas e fitas…
Roxas,
verdes,
brancas,
azuis…

— Viva a cavalhada!
— Vivôô!!!

— “De ordem do Rei dos Cavaleiros,
a cavalhada vai terminar!”

INVENTÁRIO (POÉTICO) DO RECIFE
por Sylvio de Oliveira

Ascenso Ferreira

Ascenso Ferreira

(fragmentos)

Mas ainda permanecem
as ruas poéticas
de nomes e de poetas
que cantaram rios
exploraram ruas
e amaram tanto
a cidade sua
que entram em prantos
e quedam mudos
se recordarem
suas figuras
suas passagens
e seus poemas
como os lembrados
e sempre-vivos
Faria Neves Sobrinho
com suas Estrofes
aclarando o Crepúsculo
Olegário Mariano
sob cujos versos
a canção carregando
– em canto de cigarras –
evocou a sua terra
e tombou o solar
do Poço da Panela
Ascenso Ferreira
com seu corpanzil
de Catimbó
e a açucada voz
de Cana Caiana
soando grave
em todos nós

As favelas do Recife na poesia de Gustavo Krause e Sylvio de Oliveira

A DESPASAIGEM
por Sylvio de Oliveira

.

(fragmentos)

A água é quente
de muitos verdes
tão cristalina
que os arrecifes
que a contêm
bordam piscinas
que os olhos beijam
e os braços têm
em praias brancas
onde o mar lava
como alimenta
até nos mangues
a vária gente
e cuja fome
tão atrasada
e envelhecida
antes se tece
– não se arrefece –
nos arrecifes
do bom Recife
mas se extravasa
na despaisagem
de nus mocambos
na maré rasa
como a exibir
em seus molambos
os crus despojos
da subgente
sobrevivente

missing_favela_4

COMPR(0)MISSOS COM A FAVELA
por Gustavo Krause

.

(trechos)

TODA CIDADE TEM A FAVELA QUE MERECE.
TODA FAVELA TEM A CIDADE QUE MERECE.

FAVELA NÃO É CIDADE

N
E
C
E
S
S
I
D
A
D
SÓ E SÓ
S

(…)

O HOMEM É DOENTE, A MULHER É DOENTE.
O MENINO É DOENTE.
É PRECISO TER DÓ

D
O

E
N
T
E

ESTE SER NÃO VIVE O DILEMA HAMLETIANO.
VIVE DO DILEMA

D
O

N
Ã
O

SER

O MOCAMBO NÃO É CASA.
O BARRACO NÃO É ABRIGO.
O SOL É BRASA.
A CHUVA É CASTIGO

(…)

E ENTRE MORTOS E FERIDOS
NÃO SOBRA NEM A BONECA DO MARACATU

RAÇÃO NÃO É COMIDA.

CORPO E CARNE CARCOMIDA.

O ESQUELETO ANDA, FALA, E RI.

SIM, RI.

DO

S
I
R
I

QUE NA VIDA É CAÇA E NA MORTE
CAÇ(A)DOR

ÁGUA SUJA NÃO É BEBIDA.
NÃO HIDRATA, DESIDRATA.

ENGORDA
A
O
S
POUQUINHOS

O PASTO DA LAMA
QUE CLAMA, RECLAMA

O

C
O
R
P
DOS
A
N
J
I
N
H
O
S

HÁ QUEM PENSE (E MUITOS PENSAM)
QUE NESTE MUNDO NÃO VIVE GENTE

.