Independência ou morte

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Grécia é o primeiro destino dos refugiados que cruzam o Mediterrâneo

A Grécia foi o ponto de chegada de cerca de 125 mil refugiados e migrantes que arriscaram a vida no Mediterrâneo este ano. Longe de estar preparado para um acolhimento desta dimensão, o governo reúne hoje para tomar medidas de emergência. O Syriza quer mais apoio às redes de solidariedade auto-organizadas que têm dado a resposta mais eficaz no apoio aos refugiados.

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As Nações Unidas estimam que aproximadamente 224.5 mil pessoas atravessaram o Mediterrâneo rumo à Europa. As ilhas gregas foram o ponto de chegada para quase 124.2 mil refugiados e migrantes, a Itália para 98.5 mil, Espanha para 1.7 mil e Malta recebeu 94 pessoas, segundo os dados oficiais destes países.

Até ao início de agosto, o Alto Comissariado da ONU para os Refugiados, presidido pelo português António Guterres, estimava em 2100 o número de mortos e desaparecidos durante as travessias do Mediterrâneo.

A Síria é o ponto de partida e nacionalidade de dois terços dos refugiados que conseguiram chegar à Grécia. Segue-se o Afeganistão (20%) e o Iraque (5%).

Tsipras: “Crise dos refugiados é novo teste à solidariedade europeia”

O primeiro-ministro grego insurgiu-se contra a instituição do princípio de solidariedade “à la carte” na União Europeia, em que alguns Estados se recusam a contribuir com ajuda técnica e financeira aos países de acolhimento dos refugiados, como a Grécia e Itália.
Tjeerd Royaards

Tjeerd Royaards

No fim da reunião extraordinária do governo que discutiu medidas para responder à chegada de milhares de refugiados às ilhas gregas, o primeiro-ministro Alexis Tsipras sublinhou que a responsabilidade dessa resposta deve caber ao conjunto da União Europeia e não apenas aos países que foram o primeiro ponto de chegada de mais de 200 mil refugiados e migrantes desde o início do ano.

“É evidente que o fluxo de refugiados e migrantes resulta das intervenções militares do Ocidente, em particular na Síria e na Líbia, bem como no Iraque e Afeganistão, no passado recente”, lembrou Tsipras, contrapondo que hoje são “os países de acolhimento a serem chamados, infelizmente, a lidar com esta situação grave, tanto para a Itália como para a Grécia”.

Tsipras afirmou ter insistido nas duas últimas cimeiras europeias para que fossem usados todos os recursos à disposição da UE, incluindo novos fundos de emergência, na resposta ao aumento da chegada dos refugiados.

“Foram os membros mais recentes da UE que rejeitaram o princípio da solidariedade”

“Infelizmente, devido à insistência de alguns países, ficou decidido que esse apoio seria dado numa base voluntária”, o que para o governo de Atenas “levanta uma questão muito séria: o princípio da solidariedade não pode ser tratado à la carte e de forma opcional para certos países”.

“É importante sublinhar que os membros mais recentes da União Europeia se recusam a adotar o princípio da solidariedade e defendem que os países de acolhimento dêem contra do problema”, denunciou Tsipras este sábado. ”A UE não serve para nada se for uma União onde cada um dos estados só protege os seus interesses. O tema da Grécia já foi um teste à UE. Na minha opinião, o resultado no que toca à crise económica foi negativo”, prosseguiu, prometendo fazer todos os possíveis para ajudar os que precisam com os recursos limitados ao dispor do seu país. “Mas faremos também todos os possíveis para ilustrar a verdadeira dimensão do problema, que excede a capacidade do nosso país. Este é um problema europeu e como tal tem de ser resolvido através do princípio fundador da solidariedade”, insistiu.

O primeiro-ministro grego salientou ainda a necessidade de envolver a Turquia, que acolhe um número importante de refugiados da guerra civil na Síria, neste esforço de solidariedade europeia.

Governo quer usar infraestrutura pública no apoio às redes de solidariedade

A reunião governamental delegou no ministro de Estado Alekos Flambouraris e na ministra adjunta Tasia Christodoulopoulou a coordenação de esforços para melhorar os pontos de acolhimento nas ilhas e o processo de identificação dos refugiados, bem como a rápida deslocação para o continente. Por indicação de Bruxelas, também foi criada uma entidade para gerir os fundos de emergência que já estão ao dispor da Grécia.

O governo decidiu ainda este sábado usar as infraestruturas do Estado e dos governos locais para responder às necessidades de acolhimento e apoiar “os esforços da sociedade civil, ONGs, voluntários, cidadãos que se mobilizam em solidariedade e que já agiram significativamente na resposta ao problema”.

Na declaração feita no fim da reunião com os ministros, Tsipras agradeceu à Câmara de Atenas e aos voluntários que transformaram o parque onde se concentraram centenas de refugiados “num parque de solidariedade para os nossos semelhantes que procuram uma vida com dignidade”.

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La moral del esclavo

por Juan Rivera

Matteo Bertelli

Matteo Bertelli

Hoy la Troika ha dado una lección de Historia. El FMI recuperó la figura de la esclavitud por deudas vigente en la Antigua Grecia. El Banco Central, por aquello de estar pilotado por Mario Draghi, la ha adornado y matiza que se parecerá más al nexum romano. Ángela Merkel, menos clásica y de mentalidad teutona, se ha inspirado directamente en la historia contemporánea germana. Al conseguir la claudicación ha regalado a los negociadores helenos una fotografía en blanco y negro. La del campo de concentración de Auschwitz con la reja del Arbeit macht frei (“el trabajo libera” ) en primer plano. No en balde ha contribuido de manera destacada a convertir Grecia en un espacio socioeconómico cada día más parecido al ghetto de Varsovia.

A los griegos los han dejado pasear por el corralito, el chiquero, a cambio de que se comportasen como sumisas y espectrales almas en pena. En el momento que se creyeron libres y dueños de su destino con el “ No” del referéndum, conocieron la furia del amo y han sido tratados como esclavos cimarrones. Los han azotado sin misericordia delante de la casa señorial de la plantación, con los kapos babeando mientras ejecutan los designios del dueño y los díscolos alineados en la explanada, obligados a contemplar un castigo que los disuada de intentar aventuras similares.

El poder real, el financiero, ha sido inflexible. Con la excusa del “dura lex, sed lex”. Si hubiesen estado vigentes los autos de fe, habrían rematado la mañana con una pira y quemado vivo a Varoufakis.

El Sistema, mientras se limpiaba el culo con la voluntad popular, ha sembrado la sociedad griega de violencia, miseria y terror. Eso tiene un nombre en la Historia que es Fascismo. Y sólo una manera de combatirlo: la Resistencia. Ojalá desempolven la dignidad de Manolis Glezos y Santas Apostolos cuando (abril del 41) con todas las condiciones adversas y ante un enemigo en la cumbre de su poder totalitario, fueron capaces de quitar la bandera de ocupación nazi que ondeaba en la Acrópolis.

Y nosotros desde España, además de apoyarlos, empecemos a poner al axioma que nos envuelve “ todo el poder para los Mercados sin rostro”, las caras y nombres de los anuladores de los Derechos Humanos. Para impedir que la sociedad que nos diseñan se convierta en la de los siervos de la gleba.

Con lo que le han hecho a Grecia los pueblos del Sur ya saben el futuro que les espera. En él no caben acuerdos entre iguales, sólo rendiciones incondicionales e imposición del “diktat”. La espiral es demoníaca, a cada cesión se le suma una nueva exigencia hasta conseguir que cada inclinación vaya acompañada de un arrodillamiento.

Hoy Platón hubiese cambiado el escenario de su “mito de la caverna”. Lo situaría en lo que representa Bruselas en el mundo de las ideas capitalistas. Nos tienen en la oscuridad, aherrojados y cocidos en nuestra propia angustia. Por ellos provocada. La única manera de salir del círculo, de las sombras es plantear la salida del euro .

Lo contrario es correr tras una vana ilusión con final feliz de Hollywood (inexistente por tanto) en el que cuando estamos al borde del precipicio, agarrados a la rama a punto de romperse, el amo bueno, mientras nos tiende la mano para auparnos, nos acaricia y sonríe.

En la realidad ese escenario no existe. Por ello, de corazón, estoy con las personas que en estos momentos gritan en la plaza Sintagma: “Vámonos de esta Europa”.

“A tragédia grega não é um jogo, senhor Schulz!”

Zoe Konstantopoulou

Zoe Konstantopoulou

Antes de se abster na votação de sexta-feira, a presidente do Parlamento da Grécia escreveu uma carta ao presidente do Parlamento Europeu. Zoe Konstantopoulou pede a Martin Schulz que respeite a democracia e se abstenha de fazer ameaças ao povo grego, como aconteceu antes e depois do referendo. E diz que se Schulz defende agora uma ajuda humanitária à Grécia, é porque tem consciência que o corte de financiamento do BCE aos bancos gregos põe em causa a sobrevivência das pessoas.

Na carta enviada no dia 7 de julho pela presidente do Parlamento da Grécia, Zoe Konstantopoulou chama a atenção para as “interferências externas” no processo democrático grego, com as pessoas a irem votar com os bancos fechados, após o BCE ter decidido não aumentar a sua liquidez dos bancos, ou com os responsáveis europeus a fazerem declarações públicas “que falseavam grosseiramente a pergunta do referendo ou pediam a sua anulação”.

“Como sabe, a pergunta do referendo nunca foi sobre ficar ou sair da União Europeia ou da zona euro, mas explicitamente sobre a aceitação ou rejeição das propostas apresentadas a 25 de junho de 2015, em forma de ultimato”, prossegue Konstantopoulou. A divulgação a poucos dias do referendo de um relatório do FMI sobre a sustentabilidade da dívida grega, que contrariava a análise então entregue pelo Eurogrupo ao governo de Atenas, “confirmou que a sua rejeição pelo governo e pelo povo foi acertada”, conclui a presidente do parlamento.

“Peço-lhe que tenha a bondade de se abster de fazer declarações como as que fez nos últimos dias, tanto antes como depois do referendo, a sugerir que o voto negativo às medidas antissociais abre caminho e ações punitivas contra o povo grego”, diz Zoe Konstantopoulou a Martin Schulz.

Quanto às declarações de Martin Schulz admitindo a necessidade de um plano de ajuda humanitária para a Grécia, a presidente do parlamento grego diz que elas indicam que ele “tem consciência de que a própria sobrevivência do povo grego está em risco por causa da recusa do BCE em garantir liquidez” ao sistema financeiro do país.

Boa parte da dívida grega é “ilegítima, ilegal, odiosa e insustentável”.

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“A tragédia grega não é um jogo e não pode ser separada dos enganos consecutivos, cálculos falhados, e erros gritantes dos credores da Grécia, que já foram reconhecidos publicamente. Vitimizar uma população como forma de compensar esses erros é uma situação intolerável, que contradiz os princípios europeus”, acrescenta a presidente do parlamento grego, desafiando Martin Schulz a dar um contributo para ultrapassar esta crise e assegurar o respeito pela democracia”.

Zoe Konstantopoulou refere ainda nesta carta que as medidas impostas pelos memorandos nos últimos violaram normas constitucionais e a lei internacional e resultaram numa crise humanitária sem precedentes, com inúmeras violações dos direitos humanos fundamentais.

A acompanhar a carta, Konstantopoulou enviou também o relatório preliminar da Comissão para a Auditoria e Verdade da Dívida, que ouviu especialistas internacionais e antigos responsáveis gregos envolvidos nas negociações com a troika, concluindo que boa parte da dívida grega é “ilegítima, ilegal, odiosa e insustentável”.

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Uma oportunidade para a Europa acordar

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1.

Lançado numa situação desesperada o “não” inesperadamente forte no referendo Grego foi um voto histórico. No meu trabalho uso muitas vez uma piada bem conhecida da última década da União Soviética sobre Rabinovitch, um Judeu que queria emigrar. No gabinete de emigração, um burocrata pergunta-lhe porquê e Rabinovitch responde: “Há duas razões. A primeira é porque tenho medo que os Comunistas percam o poder na União Soviética e o novo poder atire toda a culpa dos crimes comunistas sobre nós, os Judeus – havendo outra vez os pogroms anti-judeus…” “Mas”, interrompe o burocrata, “isto não faz qualquer sentido. Nada pode mudar na União Soviética, o poder dos Comunistas durará para sempre!”“Bem”, responde Rabinovitch calmamente, “Essa é a minha segunda razão”.

Informaram-me que uma nova versão desta piada circula agora em Atenas. Um grego visita o consulado Australiano em Atenas e pede um visto de trabalho. “Porque é que quer sair da Grécia”, pergunta o responsável. “Por duas razões”, responde o Grego. “Primeiro, estou preocupado que a Grécia deixe a União Europeia, o que levaria a mais pobreza e caos no país….”. “Mas”, interrompe o responsável, “isso não faz qualquer sentido: a Grécia continuará na União Europeia e submeter-se-á a disciplina financeira” “Bem, responde calmamente o Grego, “essa é a minha segunda razão”.

São, então, ambas as escolhas piores, parafraseando Estaline?

Chegou o momento de ir para além dos debates irrelevantes sobre os possíveis erros do governo grego. As apostas estão agora demasiado altas. Que uma solução de compromisso pareça sempre falhar no último momento nas negociações entre a Grécia e os administradores da União Europeia é em si mesmo profundamente sintomático, já que não se tratam definitivamente de questões financeiras – a esse nível, a diferença é mínima. A UE acusa geralmente a Grécia de falar em termos genéricos, fazendo promessas vagas sem pormenores específicos, enquanto os Gregos acusam a UE de tentar controlar o mais ínfimo dos detalhes e impor à Grécia condições que são mais duras que aquelas impostas ao governo anterior. Mas o que está por detrás dessas acusações é um outro conflito, bem mais profundo. O primeiro-ministro Grego, Aléxis Tsípras, assinalou recentemente que se tivesse a oportunidade de se encontrar com Angela Merkel para jantar, estes chegariam a uma solução em duas horas. O que Tsípras pretende dizer é que ele e Merkel, enquanto políticos, tratariam a divergência como questão política, ao contrário dos outros administradores tecnocráticos como o presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem. Se há um emblemático tipo mau nesta história toda é Dijsselbloem cujo lema é :“Se eu entrar no lado ideológico das coisas. Não conseguirei nada”.

Isto leva-nos ao ponto crucial: Tsípras e Yanis Varoufakis (o ex-ministro das finanças que se demitiu a 6 de Julho) falam como se fizessem parte de um processo político aberto onde as decisões são sempre ideológicas (baseadas em preferências normativas), enquanto os tecnocratas da UE falam como se fosse tudo uma questão de pequenas medidas regulatórias. Quando os gregos levantaram questões políticas importantes e rejeitaram essa estratégia, foram acusados de mentir e de evitarem soluções concretas. Mas a verdade aqui está do lado Grego: a negação do “lado ideológico” defendido por Dijsselbloem é a ideologia no seu estado mais puro. Medidas regulatórias aparecem mascaradas (apresentam-se falsamente) como sendo puramente técnicas, quando na verdade são baseadas em decisões politico-ideológicas.

Um exemplo dessa assimetria é o “diálogo” de Tsípras e Varoufakis com os seus parceiros Europeus, que aparece constantemente como um diálogo entre um jovem estudante que quer um debate sério sobre questões básicas e um professor arrogante que, nas suas respostas, humilhantemente ignora a questão central e bombardeia o aluno com reparos técnicos (“Não formulaste isso de forma correcta! Não levaste em conta essa regra”). Ou mesmo o diálogo entre uma vítima de violação que tenta desesperadamente relatar o que lhe aconteceu e um polícia que continuamente a interrompe para pedir pormenores burocráticos. Esta passagem da política propriamente dita para a administração especializada neutra caracteriza todo o nosso processo político actual: decisões estratégicas baseadas no poder são cada vez mais mascaradas como regulações administrativas baseadas num conhecimento especializado neutro, e são cada vez mais negociadas em segredo e impostas sem qualquer consulta democrática. A luta que está em causa é a luta pela leitkultur (cultura dominante) política e económica europeia. Os poderes da UE defendem o status quo tecnocrático que tem deixado a Europa em inércia absoluta durante décadas. Nas suas Notas para a Definição da Cultura, o grande conservador T.S. Eliot assinalava que há momentos onde a única escolha é aquela entre a heresia e a descrença, isto é, quando a única maneira de manter uma religião viva implica realizar uma fractura sectária no corpo principal. Esta é a nossa posição hoje relativamente à Europa: apenas uma nova “heresia” (representada neste momento pelo Syriza) pode salvar o que vale a pena salvar do legado Europeu: a democracia, a confiança, a solidariedade igualitária. A Europa que irá ganhar se o Syriza for derrubado é a “Europa de valores Asiáticos” (que, claro, não tem nada a ver com a Asia, mas com a actual e clara tendência do capitalismo contemporâneo de suspender a democracia)
2.

Na Europa Ocidental gostamos de ver a Grécia como se fôssemos observadores distanciados que seguem com compaixão e simpatia o alívio da uma nação empobrecida. Essa perspectiva decididamente confortável assenta numa ilusão fatídica – o que tem vindo a acontecer na Grécia nas últimas semanas diz respeito a todos nós: é o futuro da Europa que está em jogo. Assim, quando lemos alguma coisa acerca da Grécia deveríamos sempre ter em conta, como diz o velho ditado, de te fabula narrator (o nome mudou, é de ti que trata esta história).

Um ideal tem vindo a emergir gradualmente da reacção do establishment europeu ao referendo grego, uma ideia bem patente no título de um artigo recente de Gideon Rachman no Financial Times: “Eurozone’s weakest link is the voters.” [“O elo mais fraco da Zona Euro são os eleitores”].

Neste mundo ideal, a Europa livra-se deste “elo mais fraco” e os especialistas ganham o poder de impor directamente medidas económicas necessárias – se as eleições acontecem ainda, a sua função é apenas a de confirmar o consenso de especialistas. O problema é que esta politica de especialistas é baseada numa ficção, a ficção do “estende e finge” (estender o período de pagamento, mas fingindo que todas as dívidas serão eventualmente pagas).

Porque é que esta ficção é tão obstinada e teimosa? Não é apenas pelo facto de ela tornar a extensão da dívida mais aceitável para os eleitores alemães; nem é apenas pelo facto da reestruturação da dívida grega poder acender o rastilho de exigências semelhantes por parte de Portugal, Irlanda ou Espanha. Mas porque aqueles que estão no poder não querem ver a dívida totalmente paga. Os credores e zeladores da dívida acusam os países endividados de não se sentirem suficientemente culpados – são mesmo acusados de se sentirem inocentes. Esta pressão cabe perfeitamente dentro daquilo que os psicanalistas chamam o superego: como viu Freud, o paradoxo do superego é que quanto mais obedecemos, mais nos sentimos culpados.

Imagine-se um professor perverso que dá aos seus alunos tarefas impossíveis, regozijando-se sadisticamente enquanto os observa em ansiedade e pânico. O verdadeiro objectivo de emprestar dinheiro não é ver a dívida paga com juros, mas o seu prolongamento indefinido que mantém o devedor em permanente estado de dependência e subordinação. Para a maior parte dos devedores, claro, pois há devedores e devedores. Tanto a Grécia como os EUA não serão capazes teoricamente de pagar a sua dívida, como agora se reconhece publicamente. Assim há devedores que podem chantagear os seus credores porque não podem falir (os grandes bancos), devedores que podem controlar as condições do pagamento da sua dívida (Governo Americano), e, finalmente, devedores que podem ser humilhados (Grécia).

Os credores acusam o governo do Syriza de não se sentir suficientemente culpado – eles são acusados de se sentirem inocentes. É isso que é tão perturbador para o establishment da UE: o governo do Syriza admite a dívida, mas sem culpa. Livram-se da pressão do superego. Varoufakis personifica esta posição nas suas negociações com Bruxelas: ele reconhece plenamente o peso da dívida, mas tendo em conta que a política da UE obviamente não funcionou, defende de forma bastante racional que uma outra opção deve ser encontrada.

Paradoxalmente, o argumento que Varoufakis e Tsípras repetem constantemente é que o governo do Syriza é a única hipótese que os credores têm de recuperarem pelo menos parte do seu dinheiro. O próprio Varoufakis pergunta como é que os bancos emprestaram dinheiro à Grécia e colaboraram com um Estado clientelar sabendo muito bem como as coisas estavam – a Grécia nunca se teria endividado a este nível sem a conivência do establishment ocidental. O governo do Syriza sabe bem que a ameaça principal não vem de Bruxelas – mas está na própria Grécia, um Estado corrupto e clientelista se é que alguma vez houve algum Estado. Aquilo que deve ser apontado à burocracia da UE é o facto de criticar a Grécia pela sua corrupção e ineficiência ao mesmo tempo que suportou a força politica (a Nova Democracia) que incorporou essa corrupção e ineficiência.

O governo do Syriza pretende precisamente quebrar este impasse – veja-se a declaração programática de Varoufakis que apresenta o objectivo final estratégico do governo do Syriza:

“Uma saída Grega ou Portuguesa ou Italiana da zona euro levaria rapidamente a uma fragmentação do capitalismo europeu, produzindo uma região recessiva a leste do Reno e a norte dos Alpes, enquanto o resto da Europa seria palco de uma Estagflação. Quem seria o grande beneficiado com este processo? Uma esquerda progressiva, que se ergueria como uma fénix renascida das cinzas das instituições públicas da Europa? Ou os nazis da Aurora Dourada, neofascistas, xenófobos e vigaristas? Não tenho nenhuma dúvida quem fará mais pela desintegração da zona euro. Eu, pelo contrário, não estou preparado para alimentar essa versão pós-moderna dos anos 30. Se isto significa que somos nós, os erráticos Marxistas, que devem tentar salvar o capitalismo europeu de si próprio, assim seja. Não por amor ao Capitalismo Europeu, pela zona euro, por Bruxelas, ou pelo Banco Central Europeu, mas precisamente porque queremos minimizar o custo humano desnecessário desta crise.”

A política financeira do governo do Syriza seguiu de perto estas indicações: défice zero, disciplina apertada, dinheiro obtido através de impostos. Alguns jornais na Alemanha caracterizaram Varoufakis como um psicótico que vive no seu próprio universo, diferente do nosso – mas será ele assim tão radical?

Aquilo que se revela tão irritante em Varoufakis não é o seu radicalismo mas a sua humildade pragmática racional – se olharmos de perto as propostas do Syriza, não podemos deixar de reparar que foram em tempos parte do modelo de uma qualquer agenda social-democrata (na Suécia nos anos 60, o programa de governo era bem mais radical). É um triste sinal dos nossos tempos que hoje em dia seja necessário pertencer à esquerda radical para defender essas mesmas medidas – um sinal dos tempos escuros, mas também uma oportunidade para a esquerda ocupar o espaço, que durante décadas, foi do centro-esquerda.

Mas a repetição infatigável da ideia que os políticos humildes do Syriza são afinal de contas velhos simpáticos sociais-democratas, talvez esteja longe da verdade – como se, à custa de repetir tantas vezes, os eurocratas finalmente compreendessem que não somos assim tão perigosos, ajudando-nos decididamente. O Syriza é efectivamente perigoso, coloca de facto uma ameaça à orientação actual da UE – o capitalismo global actual não pode dar-se ao luxo de voltar ao velho Estado social.

Existe, então, qualquer coisa de hipócrita nas garantias de humildade dos propósitos do Syriza: este quer efectivamente algo que não é possível dentro das coordenadas do actual sistema global. Uma escolha estratégica séria terá de ser feita: e se chegou o momento de deixar cair a máscara da humildade e defender abertamente uma mudança muito mais radical, necessária nem que seja para assegurar uma conquista modesta?

Muitos críticos do referendo grego invocaram que este não passava de uma estratégia demagógica, afirmando ironicamente que nem sequer era claro o seu propósito. O referendo não era sobre o euro ou o dracma, sobre a Grécia na UE ou fora dela: o governo grego repetiu enfaticamente o seu desejo de permanecer na UE e na zona Euro. De novo, os críticos transformaram a questão política chave colocada pelo referendo numa mera decisão administrativa sobre medidas económicas específicas

3.

Numa entrevista de 2 de Julho, Varoufakis deixou bem claro o que estava em jogo no referendo. A escolha era entre a continuação da política que a UE seguiu nos últimos anos e que deixou a Grécia à beira da ruína – a ficção do “estende e finge” – e um novo começo realista fora dessas ficções, que forneceria um plano concreto capaz de iniciar a recuperação da economia grega.

Sem esse plano, a crise irá continuar a reproduzir-se outra vez e outra vez. No mesmo dia, o próprio FMI assumiu que a Grécia precisa de uma reestruturação da dívida capaz de criar um “espaço de respiração” e de por a economia a mexer (propõe uma moratória de 20 anos sobre a dívida).

O Não no referendo da Grécia foi assim muito mais que uma simples escolha entre duas estratégias diferentes à crise económica. O povo grego resistiu heroicamente à vergonhosa campanha de medo que mobilizou os instintos mais baixos de auto-preservação. Foram capazes de ver através da manipulação brutal dos seus adversários que falsamente apresentaram o referendo como uma escolha entre o euro e o dracma, entre a Grécia na Europa e o “Grexit”.

Este Não foi um Não aos eurocratas que provam diariamente que são incapazes de arrastar a Europa para fora da sua inércia. Foi um Não à continuação do “business as usual”; um grito desesperado que nos diz que as coisas não podem continuar como estão. Foi uma decisão para uma autêntica visão politica contra essa estranha combinação de tecnocracia fria e clichés racistas quentes acerca dos preguiçosos e esbanjadores gregos. Foi uma vitória rara de princípios contra o egoísmo e oportunismo autodestrutivo. O Não que ganhou foi um Sim à plena consciência da crise da Europa; um Sim à necessidade de iniciar um novo começo.

Cabe agora à UE agir. Conseguirá ser capaz de acordar da sua inércia auto-satisfatória e compreender o sinal de esperança dado pelo povo grego? Ou soltará a sua ira sobre a Grécia de forma a conseguir continuar o seu sonho dogmático

Artigo publicado originalmente no NewStatesman a 6 de Julho de 2015: “Slavoj Žižek on Greece: This is a chance for Europe to awaken”. Tradução realizada por Punkto. Postado por Ricardo Noronha

A morte do projeto europeu

por Paul Krugman

Minotauro

Minotauro

Suponha que considera Tsipras um imbecil incompetente. Suponha que quer muito que o Syriza saia do poder. Suponha ainda que daria as boas vindas à saída destes chatos dos gregos do euro.

Mesmo que tudo seja verdade, esta lista de exigências do Eurogrupo é uma loucura. O “hastag” que circulou “ThisIsACoup” é exatamente isso. Vai da crueldade à pura vingança, à completa destruição da soberania e à desesperança e falta de alívio. Era, supostamente, uma oferta que a Grécia não podia aceitar; mas, mesmo assim, é uma traição grotesca a tudo aquilo que o projeto europeu deveria defender.

Haverá alguém que consiga tirar a Europa do limbo? Parece que Mario Draghi está a tentar introduzir alguma sanidade, que Hollande está finalmente a mostrar um pouco de oposição à moral económica alemã com a qual sempre concordou no passado. Mas muitos danos já foram causados. Quem pode confiar na boa vontade alemã depois disto?

Por um lado, a economia ficou quase secundarizada. Mas, mesmo assim, sejamos claros: o que aprendemos nestas últimas duas semanas é que ser um membro da zona euro significa que os credores podem destruir uma economia se sair da linha. E isto não tem nada a ver com austeridade. Sabemos que medidas duras de austeridade sem alívio da dívida é uma política condenada, independentemente do que o país possa estar disposto a aceitar. E neste caso mesmo uma capitulação total da Grécia seria um beco sem saída.

A Grécia vai conseguir uma saída bem-sucedida? A Alemanha vai tentar bloquear uma recuperação? (Infelizmente, este é o tipo de coisas que temos que perguntar.)

O projeto europeu – um projeto que sempre elogiei e apoiei – acaba de ser objeto de um terrível golpe, talvez fatal. E independentemente do que se pense do Syriza, ou da Grécia, não foram os gregos que provocaram esta situação.

Postado por Paula Cabeçadas/ Observatório da Grécia

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Quand Socrate débat de la dette grecque avec Angela Merkel

par Alexandre Sulzer

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L’Express a imaginé ce que pourraient être les échanges de points de vue entre le célèbre philosophe et la chancelière allemande. Un dialogue, (très très) librement inspiré du Criton.

– Angela Merkel: Que viens-tu faire à cette heure, Socrate? Il est encore très tôt, ne vois-tu pas?

– Socrate: Oui, il est encore très tôt.

– Mais enfin, qu’es-tu venu faire ici de si bonne heure?

– Retirer mon capital au distributeur comme tous les Athéniens que tu vois autour de toi, Angela.

– Comment expliquer tel phénomène?

– Il me faut, Angela, t’apporter une nouvelle pénible et accablante. La Grèce ne remboursera pas ses créanciers, par Zeus.

– Et sur quoi te fondes-tu pour affirmer cela, Socrate?

– Je m’en vais te le dire. Lorsqu’on est convenus avec quelqu’un comme le FMI d’une chose, à condition qu’elle soit juste, faut-il la faire ou peut-on la décevoir?

– Il faut la faire.

– Les règles que la Grèce a jusqu’ici mises en avant, elle ne peut les jeter maintenant par-dessus bord, sous prétexte qu’il lui est arrivé quelque chose d’imprévu. Cela posé, fais attention maintenant à ce qui en découle. Si nous nous y plions, sans avoir obtenu l’assentiment de la Cité, faisons-nous du tort à des gens, et précisément à des gens à qui il faudrait le moins en faire parce que leurs retraites ont déjà baissé, oui ou non?

– Dis-moi Socrate, le référendum que ton peuple envisage, est-ce autre chose que de porter préjudice à l’Europe? Crois-tu vraiment qu’un Etat arrive à subsister et à ne pas chavirer, lorsque les jugements rendus restent sans force, qu’il dépense au-delà de ses propres besoins et que les particuliers se permettent d’en saper l’autorité en ne payant pas leurs impôts et d’en tramer la perte? Allons donc Socrate, que reprochent les Grecs aux institutions européennes pour entreprendre de les mépriser ainsi? N’est-ce pas elles qui ont permis d’engendrer une Grèce moderne, de développer des routes et de belles infrastructures qui profitent au peuple?

– L’Europe nous a mis au monde, nourris, instruits, elle nous a, moi et les autres citoyens, fait bénéficier de la bonne organisation qu’elle était en mesure d’assurer. Je proclame pourtant qu’il est possible à tout Athénien qui le souhaite, après qu’il a été mis en possession de ses droits civiques et qu’il a pris connaissance de la vie publique, de quitter la zone euro, à supposer qu’elle ne lui plaise pas, en emportant ce qui est à lui et aller là où il le souhaite. Aucune loi n’y fait obstacle.

– Mais si la Grèce reste, expérience faite de la façon dont nous rendons la justice et dont nous administrons la zone euro, je déclare que désormais elle est vraiment d’accord avec nous pour faire ce que nous pourrions lui ordonner de faire. Et j’affirme que, si elle n’obéit pas, elle est coupable à deux titres: parce qu’elle se révolte contre la zone euro qui l’a élevée monétairement et enfin, parce que ayant convenu de nous obéir, elle ne nous obéit pas sans même chercher à nous faire changer d’avis et que, même si nous lui laissons le choix entre les deux possibilités suivantes: sortir de la zone euro ou nous obéir, elle ne se résout ni à l’une ni à l’autre.

– Mais dis-moi Angela. N’est-ce pas le souci de ce qui pourrait t’arriver à toi et tes amis des institutions financières qui t’empêche de laisser la Grèce à son libre jugement? Tu crains que les sycophantes de Bruxelles et Washington ne te suscitent des tracas en t’accusant de nous avoir laissés échapper à nos créanciers?

– Tu te trompes, Socrate. Délibérez, Grecs, puisque vous le souhaitez. Ou plutôt non, ce n’est pas le moment de délibérer, il faut avoir pris une décision. Il ne reste qu’un parti. Car, la nuit dernière, il fallait déjà que toute l’opération de remboursement soit menée à son terme. Si vous tardez encore, il n’y aura rien à faire. Alors Socrate, de toute façon, suivez mon conseil et ne dites pas non. L’avenir de l’Europe n’est pas en jeu dans ce référendum mais celui d’Athènes, oui. Et souviens-toi que tes dernières paroles à tes amis, après avoir avalé la ciguë, furent: “Criton, nous devons un coq à Asclépios. Payez cette dette, ne la négligez pas”.