“Cunha sobreviverá até mesmo a uma eventual guerra atômica. Restará apenas ele e as baratas”

Na cama com o rival da política

 

Tudo estava indo muito bem, até que ela resolveu fazer uma graça erótica com uma lingerie vermelha para o maridão

 


por Xico Sá/ Em País/ Espanha

O amor nos tempos do cólera. Se as amizades e o almoço domingueiro de família foram abalados, o arrulhar dos pombinhos também sofre ruídos e desafinações perigosas.

Sim, entre marido e mulher que estão em lados opostos na contenda -valha-me Nossa Senhora Desatadora dos Nós!-, o risco de ruptura se renova a cada edição do telejornal noturno. Que sufoco. Nunca foi tão fácil o divórcio depois de uma D.R. ideológica. Um legítimo pé-na-bunda dialético. E cada um para a sua manifestação partidária.

Um casal amigo de São Paulo foi obrigado a fazer um pacto de sobrevivência amorosa. Interessante. Graças à sugestão de uma alma diplomática, combinaram não discutir mais política na presença um do outro. Até o noticiário da televisão passaram a ver em cômodos separados. Nas refeições, ficavam restritos ao protocolo mais elementar – “passa a salada”, “passa o azeite”, “passa a farofa” etc.
Tudo estava indo muito bem, até que ela resolveu fazer uma graça erótica com uma lingerie vermelha para o maridão. A noite foi um fracasso na cama. O episódio virou folclore entre os conhecidos da dupla. A incendiária jura que não havia provocação alguma além da sedução caliente. Não o convenceu até agora. E não se fala mais nisso. Preservemos o amor, antes que seja tarde demais.

Turma do deixa disso

Você há de dizer, amigo zen e deboísta, bom mesmo era o tempo em que o país ainda não se dividia entre petralhas e coxinhas. Não havia sequer os isentões. Todos portavam apenas uma bronca: com o técnico da seleção Brasileira. Ninguém pensava em derrubar, golpear ou impichar o presidente. E o Chico Buarque, pasme, era unanimidade nacional. Nessa época, a nossa instituição mais firme e respeitável era a turma do deixa disso, a TDDD. Funcionava em regime de 24 horas. Uma garantia constitucional.

Vestisse vermelho ou verde-amarelo, você contava com a TDDD para eventuais pendengas de botequim, peladas de futebol ou quermesses. No Brasil dividido desde as eleições de 2014, a turma saiu de cena. Restou apenas a tropa que ora distribui porrada nos estudantes, ora tira sorridentes selfies com os “patriotas”.

Como faz falta tal turma nessa hora. Pela volta imediata dessa brava gente pacificadora. Agora teria um trabalho extra: mediar os confrontos nas listas do whatsapp das famílias. Aqui o bicho pega tanto quanto nas ruas. O almoço de domingo anda esvaziado ou servido em dois turnos -primeiro os parentes do “Fora Dilma”, depois a galera do “não vai ter golpe”. Tem filho por aí que não vê a mãe desde a fase I da Operação Lava Jato.

Os avós, de certa forma, ainda tentam encarnar a turma do deixa disso. Sem sucesso com os adultos. Irmão desconhece irmão. O risco bíblico de reedições caseiras de uma tragédia tipo Caim & Abel é constante. Que tempos. Calma, pessoal. Não há acordo nem em relação ao Eduardo Cunha, o inimputável presidente da Câmara que comanda o processo de impeachment. Este elemento, aliás, sobreviverá até mesmo a uma eventual guerra atômica. Restará apenas ele e as baratas.

 

 

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México. Por que Recife não tem passeio público

Recife também precisa de um Portal da Consciência do povo em um Passeio Público que poderia ser construído na Bacia do Pina, quando essa imensa área azul e verde estava destinada a ser um Parque Aquático e diferentes áreas de lazer com hortos, campos de esportes e praças e jardins.

De repente, não mais do que de repente, a Bacia do Pina passou a ter proprietários que deveriam ser investigados, mas são amigos ou patrões de governadores e prefeitos, e possuem blindagem da justiça.

E o que era verde e azul vai se transformar em cinzentas torres onde os novos ricos vão fazer sexo com Rapunzel. “Uma nova arquitetura agressiva para proteger quem nelas vive”.

A arquiteta Fernanda Canales, que escreveu ‘Arquitetura do México’ tem a resposta: “A única coisa que a fortificação dos edifícios faz é aumentar o contraste e a agressividade. Quanto mais arquitetura prepotente fizermos, mais fomentaremos isso. Fazer o livro me serve para ver como os mesmos temas são tratados em diferentes épocas. E a segurança é uma constante. Minha geração acredita que nos coube o tema da segurança como a nenhuma outra, e estamos lutando com a guetificação das cidades (gated communities) como se fosse algo novo. Se você revisar a história, [verá que] na época da Revolução Mexicana e dos primeiros edifícios modernos Enrique Yáñez fez uma casa na qual deixava buracos na fachada para que os usuários pudessem encaixar o rifle.

Em outubro de 1968, depois da matança de Tlatelolco, na praça das Três Culturas, passou-se a temer o espaço público da cidade. Passou-se a ver a praça não como um lugar cívico, e sim como um risco. Mais de 30 pessoas juntas eram um perigo. Essa visão de um Governo totalitário começa a anular qualquer desenho de espaço público, privatiza-o. Mas a Cidade do México ultimamente sai mais à rua. Mudou, sabe que precisa derrubar muros”.

Existem vários movimentos no México contra a violência. A conquista do espaço público é um deles.

 

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Este portal, que se tornou uma nova peça pública no “Paseo de la Reforma”, foi concebido através de um projeto espacial, ativado pelos moradores da cidade e pelos estímulos da vida cotidiana da Cidade do México.

O Evangelho segundo a Época

A revista Época publica “O Cristo dos textos rejeitados pela Igreja toma o lugar do Messias dos Evangelhos”, de Antonio Gonçalves Filho, com o seguinte resumo:

“Jesus segundo os apócrifos
As heresias contadas pelos evangelhos rejeitados pela Igreja

Virgindade de Maria
Maria teria apenas 12 anos quando casou. José desconfiou de sua traição, achando que ela poderia ter perdido a virgindade.

Natividade
O menino Jesus seria filho ilegítimo de um soldado romano e não teria nascido em Belém, mas em Nazaré. Sem reis magos.

Jesus criança
Seria travesso e temperamental. Teria matado um amiguinho que esbarrara em seu corpo, ressuscitando o garoto em seguida.

Os discípulos
Alguns seriam misóginos e detestavam Madalena, que sempre estava ao lado do mestre e é retratada como sua amante.

Crucificação
Outro teria sido crucificado. Seguidores de Jesus não poderiam resgatar o corpo porque era impuro tocar cadáveres na Páscoa”.

 

Maria Madalena, obra de Gregor Erhart. Louvre.

Maria Madalena, obra de Gregor Erhart. Louvre.

Não discuto o sensacionalismo, e sim o desconhecimento dos apócrifos. Maria não casou com 12 anos. Ela foi confiada a José, porque não podia menstruar no templo. Como ficou grávida, quando tinha 15 anos, José devia uma justificação. Ele sabia que não era o pai. Está nos evangelhos canônicos e nos apócrifos.

In a História de José, o carpinteiro: IV. Bodas de Maria e José. 1. “Convocaram então as tribos de Judá e escolheram entre elas doze homens correspondendo ao número das doze tribos. 2. A sorte recaiu sobre o bom velho José, meu pai segundo a carne. 3. Disseram, então, os sacerdotes à minha mãe, a Virgem: `Vai com José e permanece submissa a ele até que chegue a hora de celebrar teu matrimônio”.

Madalena era considerada uma discípula. Isso diferenciava Jesus dos outros judeus. A comensalidade, e andar acompanhado de mulheres.

Maria engravidada por um soldado romano foi uma versão levantada pelos judeus, na Idade Média. A origem e fontes dessa contrapropaganda religiosa está bem documentada por John P. Meier in Um Judeu Marginal (são vários volumes, que Antonio Gonçalves não leu). Aliás, os apócrifos defendem a virgindade de Maria, com mais ênfase que os canônicos.

O cristianismo é uma religião de origem israelita. O Novo Testamento é uma continuação do Antigo. E todos com diferentes seitas. No século IV, os romanos temeram o crescimento do cristianismo. Maximiniana Maza fez publicar várias acusações contra os cristãos.

Vale acrescentar que para muitos judeus, Jesus nunca existiu. Maomé, que tem Jesus (Isa) como profeta, acreditava que Jesus foi retirado vivo da cruz.

Gonçalves assistiu o filme Código da Vinci e ficou impressionado. Não sabe que constitui um enredo que ganhou nova embalagem. No livro O Sangue Real e o Santo Graal já aparece a história do filho de Jesus com Madalena. Em Jesus, o Homem, Barbara Thieling fala de três filhos. Madalena jamais foi considerada uma amante.

Para quem gosta de escândalos: No Evangelho de São Tomás, fica explícita uma relação amorosa com Salomé. Thieling informa que Jesus se divorciou de Maria Madalena para casar com a bispa Lídia.

E a mulher que Jesus livrou do apedrejamento não era nenhuma das três Madalenas citadas no Novo Testamento.

Outro besterol: os apóstolos misóginos. O único que não casou foi João, o Evangelista. Antonio Piñero, citado por Antonio Gonçalves Filho, escreve in O Outro Jesus: “Tanto pelos documentos canônicos quanto pelos documentos que são a base deste história (os apócrifos), sabemos que Jesus passou sua vida pública rodeado por mulheres. Isso não era comum entre os escribas, legistas e rabinos do século I na Palestina, onde as mulheres não tinham acesso ao estudo da Lei, à pregação da sinagoga, nem à participação em atos públicos”.

A volta do homem religioso

Desde meados do século passado, nos meios intelectuais, fala-se da volta do homem religioso. Inclusive como estudo principal da filosofia. Escreve René Girard: a violência é o alicerce de toda sociedade; o ritual religioso é o alicerce de toda cultura; a Revelação cristã alterou radicalmente esses fundamentos, substituindo a violência pelo Amor.

Ensina Girard: a violência é criada pelo desejo mimético, a imitação; nós só desejamos aquilo que o outro deseja. Mais perto de nós, na sociedade de consumo, são os nossos vizinhos que indicam o objeto que, por imitação, desejaremos. Esse desejo mimético é explorado pela publicidade. Da mesma maneira que descaracteriza o Natal, transformando-o em uma feira de objetos descartáveis.

Todas as páginas na revista Época estão dedicadas ao mercado de consumo. Em entrevista a Guy Sorman (Os verdadeiros Pensadores do Nosso Tempo), diz Girard: A questão fundamental que se apresenta a toda a sociedade é canalizar o desejo mimético e a violência que ela acarreta. Como? “Fazendo desviar essa violência para um inocente: o bode expiatório. É o sacrifício do bode expiatório que vai deter a crise”.

Escreve Sorman: “No sistema de Girard, o Novo Testamento nos fornece a chave do código universal das civilizações. Enquanto, há três séculos, a ciência se obstinava em reduzir a religião a interesses, medos, ignorância, Girard nos diz que os Evangelhos explicam cientificamente toda a história humana. E é ainda a partir dos Evangelhos que, segundo ele, a história evolui. Pois Jesus não é um bode expiatório igual aos outros? Vítima inocente e bode expiatório voluntário, ele próprio se autodesignou. Sua morte significa e anuncia que, depois d’Ele, o próprio mecanismo do sacrifício, da unidade social fundada na violência, não funciona mais. A crucificação é o ultimo dos sacrifícios que torna todo sacrifício absurdo”.

Na entrevista a Sorman: “Nesta nova `necessidade´da história que se aproxima do fim dos tempos, a arma nuclear ocupa, para Girard, um lugar especial, já que doravante ela torna a violência quase impossível. Não seria ela a última etapa antes que os homens abram realmente os olhos e substituam a lógica da violência pela necessidade do perdão, como lhes pede o Cristo?”

O real e a visão do futuro: a fala profética

Em 1981, Michel Serres concedeu entrevista ao Le Monde. Pergunta Jean-Claude Guillebaud: – O Senhor diz que os filósofos devem salvar o conhecimento com um ato fundador. Mas para fazer o que com isso?
Serres: – O conhecimento estava de tal forma misturado ao poder e à violência, que o fim dessa história foi Hiroshima. E ainda é Hiroshima. Ora, se há desafios na cultura, na filosofia, é no sentido de descobrir as condições de algo que vá além dessa data de vencimento, sempre adiada mais alguns milímetros. Nossa história é esse prazo de Hiroshima. Que é que fazem os políticos atualmente? (…) Por que eu sou filósofo? Por causa de Hiroshima, sem dúvida nenhuma. Hiroshima foi o ato inaugural que organizou toda a minha vida e que me fez dizer: vou retirar-me sempre diante da violência para tentar pensar e agir de outra forma.

Guillebaud: – Seus textos e suas expressões estão sempre repletos de referências evangélicas. No entanto o senhor nunca afirma ser cristão.
Serres: – Acredito fundamentalmente que, em matéria de antropologia, é a história das religiões que têm os conteúdos mais concretos, carnais, globais. (…) Por outro lado, não sei bem o que quer dizer `crer´, `crença´, `fé´… Gostaria realmente de saber, mas não sei.

Escrevi em 23/12/2006. Transcrito do meu blogue Jornalismo de Cordel in Comunique-se

BANHO DE SANGUE. Bandidos togados deram o golpe em Honduras

Edição de hoje. A manchete lembra o Brasil prá frente e feliz dos tempos do ditador Médici

Edição de hoje. A manchete lembra o pra frente Brasil dos tempos do ditador Médici

Com o golpe de Honduras se pretendeu um efeito dominó que já golpeou o Paraguai, e que visa atingir o Brasil, país líder da América do Sul. A consequência seria trágica. Logo em seguida cairiam os presidentes da Argentina, Bolívia, Venezuela e Equador. Para o Mundo seria o fim de BRICS. Para a América do Sul, o fim do Anasul e do Mercosul.

Em 28 de Junho de 2009, o presidente Manuel Zelaya foi destituido pela Suprema Corte e exilado pelo Exército hondurenho. O ato ocorreu em função do desejo de Zelaya de realizar uma consulta popular para perguntar aos hondurenhos se queriam que, em simultâneo com as eleições a realizar em novembro de 2009, se realizasse também uma votação no sentido de decidir a criação de uma Assembléia Constituinte que reformasse a Constituição.

A Suprema Corte, absolutista, luxuosa e parasitária, temia a voz do povo, via plebiscito e referendo.

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As Nações Unidas considerou o ato como um golpe de estado, e criticou duramente o novo governo liderado por Roberto Micheletti. Entretanto, os Estados Unidos apoiaram, e Zelaya ficou exilado, primeiramente, na embaixada do Brasil. Vide links.

A insegurança, a corrupção, a impunidade existentes no Brasil são resquícios dos 21 anos de ditadura militar.

 

PARA LA ORGANIZACION MUNDIAL DE LA SALUD ES EL PAIS MAS VIOLENTO DE LAS AMERICAS

Una epidemia de asesinatos

Edição de hoje. Lembra os constantes incêndios de São Paulo com mais de 2.

Edição de hoje. Lembra os constantes incêndios de São Paulo com  2 mil e 627 favelas

Desde bancos hasta jugueterías tienen las entradas vigiladas por seguridad privada con ametralladoras. Los militares son los encargados de resguardar las escuelas y de cumplir las tareas que le correspondían a la policía, como sucede en México.

por Ezequiel Sánchez

Honduras es un país repleto de armas, con un promedio de veinte asesinatos diarios que ha naturalizado la barbarie. Desde bancos hasta jugueterías tienen las entradas vigiladas por seguridad privada con ametralladoras. Por otro lado, los militares son los encargados de resguardar las escuelas y de cumplir las tareas que le correspondían a la policía, ya que según el gobierno, y como en México, ésta fue relegada tras haber sido corrompida por el narcotráfico.

“Un policía mal pagado, un policía discriminado, un policía que sabe que está exponiendo su vida y que cualquiera de estos días va a dejar a su familia desprotegida, es presa fácil de cualquier ofrecimiento por parte de la delincuencia común o por la organizada”, dice María Luisa Borjas, ex jefa de Asuntos Internos de la Policía Nacional, removida de su cargo por denunciar que el jefe del Estado Mayor Conjunto había participado en una banda que robaba autos.

Omar Rivera, de la Asociación para una Sociedad más Justa (ASJ), indica que la ola de violencia se da en un contexto de aumento de presupuesto militar y disminución de los de salud, educación y servicios públicos. “Honduras es el segundo país que más ha incrementado su presupuesto militar en los últimos años (58 por ciento desde 2010) en América latina después de Paraguay”, señaló.

Aunque los militares tienen cada vez más poder, las muertes violentas no dejan de crecer. A pesar de que el gobierno aseguraba haber reducido el número a 69 sobre cien mil, la cifra es desmentida por la Organización Mundial de la Salud, con un informe publicado hace dos semanas, que ubica a Honduras entre los países más violentos del mundo. El informe de la OMS afirma que en realidad Honduras alcanza los 103,9 muertos por cada cien mil. En el continente, la segunda distante es Venezuela, con 57,6, mientras que Argentina ostenta 6 cada cien mil.

La violencia aqueja a toda la población, pero desde la sociedad civil afirman que practica una persecución colectiva para aprovecharse de los sectores más vulnerables. “Afecta a ciertas poblaciones como los indígenas, por las zonas con recursos naturales. Otros grupos vulnerables han sido los periodistas, abogados, líderes campesinos y miembros de la comunidad Lgtbi”, afirma Erick Martínez, del Ciprodeh.

Mientras tanto, el actual presidente Juan Orlando Hernández ha lanzado este año los Guardianes de la Patria, una iniciativa para que chicos rodeados de militares reciban educación cívica y religiosa los fines de semana. Por primera vez en su historia, el Comité de Derechos del Niño de las Naciones Unidas le envió una carta formal al presidente donde le solicita “abstenerse de implicar a niños y niñas en actividades como las visitas escolares a bases militares o los actos militares en los centros educativos”, según relata Wilmer Vázquez, director de la Red pro niños, jóvenes y adolescentes Coiproden.

En Honduras un permiso para portar armas durante cuatro años vale sólo quince dólares. Berta Oliva, fundadora del Comité de Familiares de Detenidos Desaparecidos en Honduras (Cofadeh), traza un paralelismo con las peores épocas del terrorismo de Estado. “Los mismos actores del pasado –afirma– han creado esta inseguridad para vender después políticas de seguridad.” Leia mais

 

 

 

 

 

Mais de 50.000 vidas, todas elas de jovens negros ou mulatos, pobres quase em sua totalidade, que acabam assassinados a cada ano, mais que em todas as guerras em curso no Planeta

Para o Estado somos todos bandidos
Ele existe não para nos defender sem necessidade de matar, mas para “executar”, e se for com tortura, melhor

 

O ambulante Carlos Augusto Braga

O ambulante Carlos Augusto Braga

por Juan Arias/El País/ Espanha

 

Estou há muitos anos neste país que amo, sobretudo suas pessoas. Muitas coisas mudaram desde que aterrissei pela primeira vez no Rio, onde ainda se podia caminhar pela rua e viajar de ônibus sem ter que ficar alerta por medo de ser vítima da violência urbana. O mesmo ocorria em São Paulo.

O Brasil avançou na consciência dos cidadãos e até em riqueza econômica, apesar de uns poucos continuarem crescendo cada vez mais do que a maioria. Há algo, porém, que no Brasil não só não avançou, como também retrocedeu. Por exemplo, no que se refere ao respeito à vida das pessoas.

Eu me pergunto tantas vezes, com dor e até com raiva, por que a vida de uma pessoa vale tão pouco e é esmagada a cada dia como se esmaga uma barata. Esse pouco apreço por ela faz com que nossa polícia, eternamente mal paga e mal preparada, sempre com licença para matar, seja a cada dia mais truculenta e corrupta.

Eu voltei a me perguntar lendo a sangrenta reportagem de minha colega María Martín neste jornal sobre o tiro disparado por um policial na cabeça de um jovem vendedor ambulante, que acabou morto no asfalto de uma rua da rica São Paulo.

Esse policial que atirou sem compaixão no ambulante, como se atira em um coelho no campo, não pensou que aquele jovem vendia suas coisas na rua porque talvez não tenha tido a possibilidade de fazer algo melhor na vida? Que poderia ter sido seu filho ou irmão? Que ele também tinha sonhos e desejo de continuar aproveitando a vida?

Vendo aquelas imagens feitas no lugar do crime pela nossa repórter María meu estômago se revirou de desgosto e a mente, de indignação, enquanto pensava que esses policiais que em vez de nos dar um sentido de segurança e proteção nos incutem a cada dia mais medo.

Uma mancha de sangue na rua onde começaram os distúrbios: MARÍA MARTÍN

Uma mancha de sangue na rua onde começaram os distúrbios: MARÍA MARTÍN

Pensei também que a nossa classe média ajuda os guardiães da ordem a disparar o gatilho da pistola sem tantos remorsos. Fomos nós que cunhamos a terrível frase de que “bandido bom é bandido morto”. E o respeito à vida? “É que eles também não respeitam a nossa”, se contrapõe. Mas isso leva à concepção de que o Estado existe não para nos defender sem necessidade de matar, mas para “executar”, e se for com tortura, melhor. E que todos acabamos sendo vítimas potenciais dessa loucura.

Há países, como os Estados Unidos, onde se um policial poderia ter prendido um criminoso sem lhe tirar a vida e fica comprovado que não o fez porque era mais fácil matá-lo, acaba sendo duramente punido.

É um problema de escala de valores. Quando a vida de um ser humano, criminoso ou santo, deixa de ter valor supremo, todos logo acabamos nos tornando carne de canhão. Nossa vida entra em liquidação, perde seu valor e dignidade.

Tudo isso, no Brasil parece mais evidente pelo fato de que o Estado trata os cidadãos não como pessoas em princípio honradas, mas como potenciais “bandidos”. Em outros países, o Estado parte do pressuposto de que o cidadão é do bem, que não mente, que não engana, que não procura, a princípio, violar a lei.

E é o Estado, se for o caso, que tem de demonstrar que não é assim, que esse cidadão é um delinquente e fraudador, e só então terá de ser punido.

Viram como nós, cidadãos, somos tratados no Brasil quando precisamos comprar algo, quando entramos em um cartório? Todo o papel é pouco para demonstrar que não somos bandidos, sem-vergonha, mentirosos, vigaristas. Nos pedem certificados e mais certificados, assinaturas e mais assinaturas, reconhecimento de firma, e ainda mais, comprovação com presença física de que essa assinatura é autêntica.

Em uma ocasião, quando comprei um pequeno imóvel em Madri, tudo durou 20 minutos num cartório. Assinamos o contrato de compra e venda. O proprietário me entregou a escritura e as chaves e eu entreguei o cheque da compra. No Brasil nos teríamos perguntado, e se o imóvel foi vendido duas vezes? E se nós dois não estivéssemos nos enganando? E, e, e, e…..! quantos “es” e quantos medos de que no fundo sejamos de verdade uns bandidos que só queremos enganar!

Essa possibilidade de que possamos estar enganando sempre se deve ao fato de que perante as autoridades, ante a polícia, ante o Estado, todos somos sempre vistos como bandidos em potencial. Como me disse um amigo meu, para meu espanto: “É que todos nós, brasileiros, somos todos um pouco bandidos. Se nós podemos enganar, fazemos isso”.

Não acredito. Sempre pensei que até nas sociedades mais violentas e atrasadas as pessoas de bem, honradas, que não desejam enganar são infinitamente mais numerosas do que os bandidos. Do contrário, o mundo inteiro seria há muito tempo um inferno.

É assim no Brasil? Enquanto se continuar pensando e agindo como se a vida humana tivesse menos valor do que um verme e ninguém se espantar quando é sacrificada com violência e sem remorsos, às vezes até por uma insignificância, talvez tenhamos que reconhecer que esse inferno existe também aqui.

Isso é o que recordam as mais de 50.000 vidas, todas elas de jovens negros ou mulatos, pobres quase em sua totalidade, que acabam assassinados a cada ano, mais que em todas as guerras em curso no Planeta. Cada vez que um policial acaba com a vida de uma pessoa na rua, às vezes por uma mesquinharia, continuará sendo alimentada, pela outra parte, a dos cidadãos e dos mesmos bandidos, uma cadeia infernal de desejo de vingança que continuará nos esmagando e humilhando.

Até quando? Irá despertar alguma vez este país de tantas maravilhas, de tantas pessoas fantásticas, com desejo de viver em paz, sem serem tratadas como se fossem todas bandidos, ou continuará deixando atrás de si a cada dia tristes trilhas de sangue e medo ante a impassividade e a impotência do Estado?

Edinaldo, amigo e companheiro de trabalho de Carlos Augusto: M. MARTÍN

Edinaldo, amigo e companheiro de trabalho de Carlos Augusto: M. MARTÍN

Ambulantes, companheiros de Braga, a caminho do aeroporto de Guarulhos para prestar homenagem ao camelô: M. MARTÍN

Ambulantes, companheiros de Braga, a caminho do aeroporto de Guarulhos para prestar homenagem ao camelô: M. MARTÍN


Veja os soldados estaduais da polícia assassina do governador Geraldo Alckmin em ação (T.A.):

En Bélgica, el 24% de las víctimas de agresión sexual la consideran normal

por Encarni Barrionuevo Sánchez

 

La sección belga de Amnistía Internacional lanzó el pasado 6 de marzo la campaña « Cuando digo no, es no » (Quand c’est non, c’est non, en francés). La organización pretende tratar de sensibilizar contra la agresión sexual en el país y dar a las víctimas y a su entorno la información necesaria para saber qué hacer tras la agresión.

Campaña “Quand c’est non, c’est non”, Amnistía Internacional (Bruselas). Foto: Encarni Barrionuevo Sánchez

Campaña “Quand c’est non, c’est non”, Amnistía Internacional (Bruselas). Foto: Encarni Barrionuevo Sánchez

 

Según un sondeo publicado por la ONG, el 46% de los hombres y mujeres preguntados han sufrido agresiones sexuales graves (violación, acoso, tocamientos…), el 25% de las mujeres (una de cada cuatro) son violadas por su pareja y el 24% de las víctimas banalizan la agresión.

El Director de la sección francófona de Amnistía Internacional en Bélgica, Philippe Hensmans, ha analizado estos ‘inquietantes’ resultados y nos ha explicado los objetivos de la campaña.

Pregunta: ¿cuál es el motivo de la campaña « Cuando digo no, es no »?

Respuesta: Se integra dentro de la campaña mundial de Amnistía Internacional “Mi cuerpo, mis derechos” que también se lanza hoy [6 de marzo]. Hemos querido traducirla en Bélgica examinando una de las violaciones masivas que conocen muchas mujeres: la agresión sexual.

Hemos realizado un sondeo sobre la violación porque las estadísticas policiales muestran que entre ocho y diez mujeres se quejan diariamente a la policía, aunque creemos que la cifra real es mucho más importante, y la ministra del Interior [Joëlle Milquet] habla de 9 veces más. Queríamos examinar la situación para saber cuántas son realmente las víctimas de agresión sexual. Las cifras han resultado ser excesivamente importantes, ya que hablamos de que una mujer de cada cuatro es víctima de violencia sexual en el seno de su pareja, por ejemplo.

Una vez agrupadas todas las cifras, hemos analizado la situación en Bélgica desde el punto de vista jurídico, policial y de ayuda a las víctimas; y hemos descubierto que hay inmensos retrocesos y que hace falta a la vez mejorar la ayuda a las víctimas, el trabajo de las distintas instituciones afectadas por la problemática y, especialmente, informar a las mujeres de sus derechos y sobre lo que deben hacer en caso de violación.

Según el estudio realizado, el 60% de las mujeres que son víctimas de violación no hacen nada, no se lo cuentan a nadie, se sienten culpables, no osan ni siquiera contarlo a sus amigas. Nos dijimos que había que contactarlas, y esta campaña aspira a decirles: no es vergonzoso, no es vuestra culpa, tenéis derecho a llevar una vida normal sin tener relaciones obligadas y esto es lo que podéis hacer en caso de violación.

Hemos publicado un panfleto con SOS Viol [asociación de ayuda a las víctimas de agresión sexual] y esperamos repartir decenas de miles de ejemplares hoy [6 de marzo] y en los próximos meses para informar al máximo de mujeres y a sus amigas, porque a la primera persona a la que cuenta el problema una víctima, o la única persona, a menudo, es a su amiga o a su colega.

P: Según el sondeo, 46% de las personas (mujeres y hombres) interrogadas han sido víctimas de agresión…

R: Han sido o son víctimas de agresión sexual, no sólo violación, pueden ser también tocamientos en el metro, por ejemplo, y ese tipo de casos. Es importante saber que aunque el problema afecta mayoritariamente a las mujeres, el 30% de los hombres entrevistados también han sido víctimas, la mayor parte cuando eran niños. Mientras que el 7% de las mujeres han dicho haber tenido relaciones con adultos siendo menores, en el caso de los hombres hablamos claramente de incesto o pedofilia.

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P: ¿Cuáles son los objetivos de la campaña?

R: El primer objetivo es dar información al máximo número de víctimas para que sepan qué hacer, y a sus amigas, para que sepan qué decirles a las víctimas. En segundo lugar, conseguir que haya un verdadero apoyo a las víctimas. Hace falta crear un número verde, que los servicios de ayuda en primera línea puedan acogerlas para así poder dirigirlas a los servicios competentes. Finalmente, a nivel de la justicia, de la policía, la ayuda social y médica, que todos sean formados para poder intervenir adecuadamente. Y en el caso de la justicia, condenar a los autores de violencia contra la mujer.

P: ¿También hacer hablar a la mujer?

R: Absolutamente.

P: ¿Por qué la mujer no denuncia?

R: Porque en muchos casos se siente culpable, no debería ser así, pero se siente culpable. Además, cuando hemos preguntado en el sondeo quiénes, según ellas, son las víctimas potenciales de agresión, responden los viejos clichés: son las mujeres sexys, las prostitutas…; mientras que sabemos que no es necesariamente así, sino que todas pueden ser víctimas.

Esto se debe a que han integrado en ellas mismas que son responsables, de alguna manera, de ser violadas; de la misma manera que aún existe esa sensación de deber conyugal: no tengo ganas de tener relaciones pero, si mi marido lo exige, lo tengo que aceptar. Eso muestra que el tiempo no ha pasado para mucha gente, tienen aún esa percepción de las cosas; y es algo que también quisiéramos cambiar.

P: Hablamos de una sociedad de mujeres machistas…

R: Inevitablemente. Una sociedad es machista no sólo porque hay hombres para imponerla, sino también porque hay mujeres que la aceptan. Es el rol de las organizaciones que defienden los derechos de las mujeres, ayudarles a exprimirse y a decir ‘no, no estoy de acuerdo con esto’, y además inculcarlo a una edad temprana.

P: Hay un alto porcentaje de mujeres, según el estudio, que banaliza la violación…

R: Sí, es bastante sorprendente. El 24% de las víctimas de agresión grave estiman que no es grave. Hacer que esas mujeres se den cuenta de que sí es grave y no lo vuelvan a aceptar también forma parte de nuestra campaña. Esto, evidentemente, es fundamental.

P: ¿Hablamos, por lo tanto, de un problema social?

R: Es un problema social, pero que debe ser solucionado de diversas maneras. Por un lado, a través de la ley, y en Bélgica hay actualmente una ley que prohíbe la violación; pero, también a través de una cultura que no banalice la agresión. Y por otro lado, también hace falta que por parte del hombre y de la mujer haya una toma de conciencia de que cuando decimos no, es no, como indica el título de la campaña; y podríamos añadir [en lo referente a la violación conyugal o de pareja] que cuando no decimos sí, también es no.

*Encarni Barrionuevo Sánchez (@nanibasan) es periodista especializada en derechos humanos gracias al European Master Programme in Human Rights and Democratization (E.MA). Ha trabajado como reportera para Cadena Ser y Radio Exterior de España. También ha trabajado en equipos de comunicación de distintas organizaciones. En la actualidad reside y trabaja en Bruselas (Bélgica) donde colabora, además, en el programa Bruselas con ñ de Radio Alma. Algunos de sus trabajos se encuentran disponibles en su página web: http://mychronicletype.wordpress.com/

 

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«Le devoir conjugal n’existe pas, si la relation n’est pas consentie c’est du viol»

 

 

 

Poluição atmosférica mata 4 mil pessoas por ano na cidade de São Paulo

por Isabel Harari e André Cristi

 

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Por ano, cerca de 1,3 milhão de mortes no mundo são causadas pela poluição urbana, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). Só em São Paulo morrem 4 mil anualmente. Em 2004, quando o número de carros era um terço menor, estima-se que o número de mortes tenha sido 2,9 mil. Idosos, crianças, gestantes, portadores de doenças respiratórias e cardíacas crônicas e, principalmente, os mais pobres – que têm níveis maiores de exposição – são os principais atingidos.

Segundo Paulo Saldiva, médico especialista em poluição atmosférica e professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), “não há impedimentos técnicos ou falta de conhecimento para que esse problema seja resolvido. No meu entendimento, temos todas as condições de resolver o problema da poluição do ar em nossas cidades em alguns anos”.

De acordo com a OMS, os elevados níveis de poluição na cidade de São Paulo são responsáveis pela redução da expectativa de vida em cerca de um ano e meio. Os três motivos que encabeçam a lista são: câncer de pulmão e vias aéreas superiores; infarto agudo do miocárdio e arritmias; e bronquite crônica e asma. Estima-se um aumento de oito meses na expectativa de vida a cada 10 microgramas de poluição retirados do ar.

Em entrevista à Carta Maior, o patologista apontou para as duas causas fundamentais do problema: o caráter segregador da ocupação do solo nas metrópoles e a falta de políticas públicas que privilegiem o transporte público. Segundo Saldiva, quem mais polui são os carros, e, nas grandes cidades do Brasil, a opção pelo transporte veicular sequer traz o benefício de uma mobilidade eficiente. “A existência de um transporte coletivo rápido, eficiente e barato daria a motivação para que a população migrasse para o transporte público”, afirma.

Carta Maior – Segundo dados da Cetesb (Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental, ligada ao governo do estado de São Paulo) e do Laboratório de Poluição Atmosférica da Faculdade de Medicina da USP, os índices de poluição em São Paulo são os piores dos últimos oito anos e as doenças cardiorrespiratórias matam 20 pessoas por dia na região metropolitana. Há relação entre esses dois fatores?

Paulo Saldiva – O aumento dos casos de doenças cardíacas e respiratórias em nossas cidades tem várias causas: envelhecimento da população, sedentarismo, obesidade e também a poluição atmosférica. Nas cidades onde há grandes séries históricas de medições de poluição, como São Paulo e Rio de Janeiro, houve uma melhora contínua até cerca de 2005 e 2006. A partir desse momento, a tendência de melhora se interrompe, com evidências de piora, notadamente para partículas finas e ozônio. O mais grave é que o patamar onde estamos é reconhecidamente causador de dano à saúde.

Carta Maior – Por que a poluição piorou a partir de 2006? Foi por causa do aumento da frota de veículos?

Paulo Saldiva – A poluição deixou de melhorar a partir de 2006, estacionando em níveis inadequados para a saúde humana. Os poluentes que ficaram acima do padrão são o ozônio e o material particulado. As razões para isso são o aumento da frota e a lentificação do trânsito, que fazem com que os veículos emitam mais poluentes ao estarem presos em congestionamentos. A redução da velocidade do tráfego faz com que permaneçamos cada vez mais tempo em meio a corredores de tráfego, onde os níveis de poluição são substancialmente mais elevados do que a média da cidade. Em outras palavras, quanto mais tempo ficamos presos em congestionamentos intermináveis, maior será a nossa dose de poluição.

O tamanho do problema pode ser resumido da seguinte forma. Aproximadamente 12% das internações respiratórias em São Paulo são atribuíveis à poluição do ar. Um em cada dez infartos do miocárdio são o produto da associação entre tráfego e poluição. Os níveis atuais de poluição do ar respondem por 4 mil mortes prematuras ao ano na cidade de São Paulo. Trata-se, portanto, de um tema de saúde pública.

Carta Maior – Quem são os principais atingidos pelo aumento da poluição?

Paulo Saldiva – Idosos, crianças, gestantes, portadores de doenças respiratórias e cardíacas crônicas e, principalmente, os mais pobres, que têm níveis maiores de exposição.

Carta Maior – Por que os mais pobres têm níveis maiores de exposição?

Paulo Saldiva – O fato de tratarmos o solo das cidades como mercadoria faz com que as áreas centrais da cidade percam população, notadamente a mais pobre, que migra para áreas mais acessíveis na periferia, aumentando, consequentemente, o tempo de permanência no tráfego. As casas das comunidades mais carentes são também as mais permeáveis à entrada de poluentes. Finalmente, é nos pontos de ônibus, pontos de alta concentração de poluentes, que a população mais desfavorecida passa longos períodos à espera do transporte.

Carta Maior – Quais as alternativas de políticas públicas que o senhor sugere para diminuir a poluição?

Paulo Saldiva – No meu entendimento, temos todas as condições de resolver o problema da poluição do ar em nossas cidades em alguns anos. Nas grandes cidades do Brasil, a poluição veicular é responsável pela grande maioria das emissões de poluentes. Mudamos o microclima urbano e poluímos o ar sem termos nem ao menos o benefício de uma mobilidade mais eficiente. A existência de um transporte coletivo rápido, eficiente e barato daria a motivação para que a população migrasse para o transporte público. Sabemos fazer metrô, construímos trens e nossos engenheiros produzem os grandes corredores de ônibus em Santiago, Bogotá e Pequim. Temos a disponibilidade de vários combustíveis mais limpos do que os que utilizamos. Não há, portanto, impedimentos técnicos nem falta de conhecimento para que resolvamos o problema. Faltam políticas públicas de médio prazo para privilegiar o transporte coletivo.

Carta Maior – Além das medidas de mobilidade, existem outras que poderiam ser tomadas em outras áreas?

Paulo Saldiva – Aumento da cobertura vegetal – que funciona como fator de redução de poluição –, medidas de readensamento urbano nas regiões centrais das cidades e políticas de incentivo aos combustíveis menos poluentes.

Carta Maior – Se não há impedimento técnico ou de conhecimento, esse impedimento é político?

Paulo Saldiva – Nas presentes circunstâncias, dificilmente haverá um político no Brasil, que ouse implementar políticas de favorecimento do uso das vias pelo transporte coletivo ou ciclovias em detrimento dos automóveis. Também creio ser muito pouco provável que encontremos condições para combater a política atual de uso e ocupação do solo urbano, dado o estado de descrédito em que as principais forças políticas de nosso país se encontram. Por exemplo, a maior parte da população irá preferir pagar um pedágio urbano “indireto” – pagar estacionamentos particulares nos locais de trabalho ou perder horas de sono por causa dos congestionamentos – a pagar uma taxa para a melhoria do transporte coletivo. É uma situação que mistura uma crise de gestão política, interesses econômicos e falta de lideranças confiáveis.

Carta Maior – Como o modo de vida nas grandes cidades pode afetar a saúde, além da poluição?

Paulo Saldiva – O fator mais significativo é o estresse social. O conjunto de falta de mobilidade, ruído excessivo, sedentarismo veicular e violência faz com que a incidência de doenças mentais e afetivas seja muito mais frequente nas cidades. Outro exemplo é a obesidade, produto do modo de vida que resulta da maneira como organizamos a cidade. Por exemplo, uma criança hoje não tem acesso ao espaço público por razões de violência. Nesse cenário, o jogo de futebol é no console eletrônico do Fifa 2012 e não na rua.