Mensagem poética de Nydia Bonetti

termina o ano como começou
nada nas mãos
a não ser o verso

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Nydia Bonetti

print, Nakamura Hôchû, Izumiya Shojiro, 1826

 

 

arrancar dos olhos a poeira do tempo
que nos impede
de enxergar a vida com mais clareza

sem temer os assombros

dilacerar a carne. arregalar os olhos
riscar a pele com espinhos
e desenhar

a flor

***

 

a caixa miúda a vida pequena
o verso raro
hoje tudo é pouco e o rio é raso
já não canta
se arrasta em ruídos
num fio
que se esquiva das pedras
do fundo
quase seco

***

todos os passos
que não
caminhou
ficaram marcados
no chão
que não havia

***

e por não ser
de nenhuma tribo
– em qualquer tribo
serei sempre
estrangeira
última da estirpe
remanescente
– quase extinta
vulnerável
tribo de um só

—-

Poesia Nydia Bonetti

Pintura Nakamura Hôchû

ELEFANTES AZUIS

por Nydia Benetti

O tempo não para
Mesmo
Ele não tem mais jeito
Desandou a correr
Ultimamente
Desembestou
__Estouro de boiada
Manada
De elefantes azuis

Lava de vulcão
Corredeira
Maremoto
Cachoeira
Avalanche
Batedeira

__Desertos

Nós
Surfistas
Sobre ondas instáveis
Cabelo parafina
Pele dourada
__Sob o sol
Que agoniza

Nós
Turistas
Num safári no Quênia
Sobrevoando baixo
Sobre a boca vermelha
De algum vulcão
Escalando Everests
Enfrentando Saaras
Tempestades de areia

__Insolação

Ao longe a vida
Miragem
Oásis
Onde?

PROPOSTA POÉTICA

de JOSEBA SARRIONANDIA

O destino foi muito cruel
quando fez de nós poetas.
A poesia não é uma arma carregada de futuro,
como esse tal de Gabriel propôs.
Além disso, o futuro – digam lá, a sério –
é pólvora molhada.

Não quero complicar a nossa triste sina,
meus companheiros de escrita,
mas todos temos escrito suficientes versos
brilhantes e medíocres,
quase todos já escrevemos palavras
para as canções de um cantor famoso,

todos já tivemos uma coisa ou duas traduzida
para uma antologia,
quase todos produzimos um argumento
por encomenda,
já recebemos um prémio ou dois
e gozamos da lisonja,

somos todos jogadores, maiores ou menores
do lamacento campo do jornalismo,
todos desfraldamos as velas da memória, tilintamos
os sinos do virtuosismo, e agora,
depois dos poetry slams, etc., o que é que vocês diziam
de começamos a escrever poemas mesmo?

por Nydia Bonetti