NATAL Suplemento literário em A República

Pedro Velho iniciou a Acta Diurna do Rio Grande do Norte,
em 1 de julho de 1889, no jornal A República.
Que Câmara Cascudo continuou. Que Woden Madruga hoje escreve.
Nestes três séculos são os três maiores jornalistas
da Terra dos potiguares

 

OS HERDEIROS DA ROSA

por Woden Madruga

Na desarrumada caixa de papelão onde guardo uns jornais antigos por absoluta mania, encontro o pacote que há anos perdera e há muito tempo procurava. Foi um acaso feliz. Nele estava a cópia encadernada dos originais de um livro inédito do poeta Talis Andrade e que ele me mandara nos meados dos anos 90 do século passado. Junto com os poemas uma carta. Talis é poeta, jornalista e publicitário. Natalense-pernambucano-recifense. Pernambucano de Limoeiro. Acho que sim, menino de Limoeiro do coronel Chico Heráclito, seu desafeto ideológico. Talis me falava muito de suas namoradas de Limoeiro. Vim conhecê-lo em Natal dos anos 50, apresentado pelo primo Márcio Marinho. Ficamos amigos de repente. Andávamos pelas redações dos jornais e pelos bares da vida naquela quadra entre os 18 e 24 anos de idade. Num nesses períodos veio morar em minha casa. Tínhamos um outro companheiro: Ronaldo Ferreira Dias. Lá se vai meio século. Talis fazia um suplemento literário em A República. Era no Governo de Dinarte Mariz.

Quando Aluízio Alves assumiu o governo, em 1961, Talis voltou para o Recife. Deambulou pelas redações de lá, Jornal do Commercio, Diário de Pernambuco, metido em literatura, fazendo poesia, atravessando as pontes e se apaixonando por todas as namoradas. Meteu-se em agências de propaganda, assessorou governos, entre eles os de Gustavo Krause e de Paulo Guerra, trabalhando, com este, ao lado do hoje presidente da Academia Brasileira de Letras, Marcos Vinicius Villaça. No prefácio para um livro de Talis, “Cantiga para um ícone dourado”, Marcos Villaça, lembra dos tempos em que participava – ao lado de Talis – das reuniões da “Academia de Novos” da qual foram fundadores: “Ele um inacadêmico sem nunca ter sido, é óbvio, anti-acadêmico. Nas sessões falava de autores indexados (pobres autores, tão inocentes!) e lhes mostrava os livros, tirados da robusta e de certo modo revolucionária biblioteca do pai; declamava Pound, mais balbuciando do que falando, na sua timidez invicta”.

Mais adiante, Villaça acrescenta:

– Depois, estivemos de vez em quando juntos, como ao tempo do governo desse saudoso e admirável Paulo Guerra. Nossos gabinetes geminados, o meu sempre arrumado, o dele, a maior desordem palaciana. Ainda: novamente flagrado em vida pública, fiz com ele seminários de informação governamental, nada oficiais e sem espartilhos das conveniências tipo chapa-branca.”

O prefácio de Villaça é de 1977 quando foi publicado “Cantiga para um Ícone Dourado”, terceiro livro de Talis. Os dois primeiros são “Esquife Encarnado”, 1957, e “Poemas”, 1975. Em 1977 sairia o quarto, “O Tocador de Realejo”, todos publicados no Recife.

Começo dos anos 70, Talis voltou a Natal. Veio trabalhar no governo de Cortez Pereira. Foi em 1971, por aí. Era o secretário de imprensa de Cortez. O cargo não tinha a suntuosidade que hoje ostenta nesta província de Poti mais frívola, mas não deixava de ter o seu charme e o poeta sabia exercê-lo. Não me lembro quanto tempo ele ficou no cargo, mas sei que comandou muitos agitos por estas bandas, apesar das mordaças da ditadura. Nestes trintanos tivemos uma meia dúzia de encontros entre Recife e Natal e alguns telefonemas, quase sempre altas madrugadas, ao gosto do poeta.

Aí, em 1995, era março, me chega a sua carta que fui reencontrá-la, agora, semana que passou, quando imagiva perdida de vez:

“Woden, meu rei mago:

Uma eternidade nos separa. Mas, não podemos reclamar. Mesmo quando eu morava na sua casa, passavam dias, meses, e a gente não se via…

Finalmente, estou lhe mandando meu livro Herdeiros da Rosa, que pertence a uma fase intimamente natalense.

E sonho que a Companhia Editora do Rio Grande do Norte me deve este livro, porque o sistema off-7 da empresa foi comprado quando eu era diretor responsável d’A República, na minha segunda passagem por Natal, sendo Cortez governador. Inclusive convoquei e presidi a comissão de concorrência, formada pelos diretores da Imprensa Oficial de Pernambuco, Parque Gráfico do Jornal do Commercio de Recife e Imprensa Universitária da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Os membros da comissão não se conheciam e a votação unânime.

Feita a concorrência (insisti que fosse uma impressora com dobradora para livros), dei como terminada a minha missão em Natal.

Lá no prédio da velha República existe a placa de inauguração sem o meu nome, desde que a direção empresarial foi contra a minha iniciativa.

Os Herdeiros da Rosa é dedicado a dois potiguares que admiro: Ticiano e Ney, que deviam ser mais festejados pelo povo e autoridades. Não são homenageados como merecem porque pessoas de uma humildade de santo, apesar da beleza dos deuses.

Bem, você, Veríssimo, Luís Carlos e o gordo Sanderson estão intimados a promoverem a impressão do livro.

Escrevi para o Sanderson: “Queria que você e/ou Luis Carlos fizesse(m) o prefácio… como motivação para escrever a história da poesia do Rio Grande do Norte no período de sua estréia.

Finalmente, outro pedido: E que a apresentação fosse (m) escrita por Woden e/ou Veríssimo. Uma apresentação que servisse de pretexto para um relato sobre a Imprensa potiguar nos tempos do velo de ouro que antecedem a março de 64.”

Sei que você anda velho, vivendo as corujadas de avô, mas ainda lhe imagino com aquele fogo que assanhava as meninas…

Este seu amigo sempre jovem e todo seu.

Talis

Rec/mar/95.

P.S. Queria ver se era possível reunir os amigos na 5ª. Feira Santa ou Domingo de Aleluia, na casa de Cláudio Marinho, em Ponta Negra (Ele plantou nos jardins, cactos de sua fazenda).”

Abro o livro de Talis. Nas duas primeiras páginas está escrito: “Os Herdeiros da Rosa” – A Ney Marinho e Ticiano Duarte. // Este livro foi iniciado após à morte de Berilo Wanderley e escrito nos plantões das redações do Jornal do Commercio de Recife e Diário de Pernambuco, no Recife // Finalmente concluído nas imediações da rua João Berckmans Marinho, Ponta Negra, em março de 1995. Acredito que retrata um pouco da boemia, do jornalismo e da poesia de Natal, no final da década de 50 e começo da de 60. T.A.”

Na página seguinte, duas epígrafes: “A cidade é uma construção da natureza e particularmente na natureza humana. Uma tessitura que não ignora os afetos.” (Gustavo Krause). “A cidade feliz não existe mais” (Luis Carlos Guimarães).

Woden Madruga: “Tem que ter ‘literatura nordestina’ no palanque principal. Sou um aldeão, mais ou menos radical

A Poesia continua

Iara Maria Carvalho

Iara Maria Carvalho

por Woden Madruga

Findou a Festa Literária da Praia de Pipa, ontem a última noite, onde, numa das mesas da Tenda dos Autores, se discutiu a “Literatura e o Sertão”, mote que levava a outro: “O regional e o universal”. O papo ficou por conta de dois escritores nordestinos, ambos sertanejos: Aldo Lopes, paraibano, e Demétrio Diniz, norte-rio-grandense, intermediados por outro matuto, Tácito Costa, de Santana do Matos. Tenho certeza que a literatura nordestina – sobretudo potiguar/tabajara – esteve muito bem representada. Sou daqueles que ainda insistem que festa ou festival ou feira literária tem que ter “literatura nordestina” no palanque principal. Sou um aldeão., mais ou menos radical.

Teve um russo, chamado Léon Tolstoi, admirado no mundo inteiro e muito citado nas altas rodas literárias com acentuado sotaque acadêmico, que gravou numa das pedras do seu burgo: “Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia”. O russo apontava o caminho que, lá na frente, seria seguido pelo poeta português universal, Fernando Pessoa: “O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia/ Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia/ Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.”

Bom, a festa literária da aldeia de Pipa terminou ontem mas outros acontecimentos literários continuarão acontecendo em agosto por estas aldeias daqui. A literatura, a poesia, o livro permanecem vivos. Viva! Esta semana, já amanhã terça-feira, vai haver o lançamento em Natal do livro Saraivada da poeta Iara Maria de Carvalho. Ela é seridoense, nascida em Currais Novos, onde vive. O livro tem o selo da editora Sarau de Letras, de Mossoró (mais uma aldeia notável) e o lançamento acontecerá na Livraria Nobel da Salgado Filho, coisa das 19 horas.

“tenho flores roxas na língua / e hematomas líquidos rolando/ pelos meus versos. // pedaços de palavras/ me amor-/ tecem.// (dentro do trem/ que carrega no vazio do fundo/ em chamas por não encher)/ a poesia mora:/ úmida, cascuda, fria… // e eu desapareço enorme/ no interior da caverna/ onde o verbo dorme.” É de Iara Maria de Carvalho no poema “Belicosa”.
A sua poesia me encantou. Grata surpresa deste agosto tão literário. Foi a primeira vez que li Iara que também comete versos eróticos: “não quero colo/ nem calo: // quero um falo/ entre as telhas/ do meu mel aguado. // coar o vinho pastoso/ com a minha fenda oblíqua./ e acender poesia/ com a flama recolhida.

É Currais Novos, a mesma aldeia de Luís Carlos Guimarães e de José Bezerra Gomes, grandes poetas, que já se encantaram. Currais Novos de Francisco Ivan, outro poeta, admirador e cultor de James Joyce, e que acaba de lançar Signos in Excelsis, percorrendo os seus sertões seridoenses (“nas caatingas do sertão / bromélias bromélias / o chão cheio delas / brilha”).

Natal feliz

Luís Carlos Guimarães

Luís Carlos Guimarães

Natal, tempo de uma cidade feliz. É o título de um livro do poeta Luís Carlos Guimarães, obra póstuma, que acaba de ser publicado. Foi organizado pelo seu filho, o biblioteconomista Ricardo Luís Lins Guimarães, que não chegou a ver livro impresso. Ricardo faleceu ano passado. Já o poeta se encantou no dia 1º de julho de 2001, lá se vão 14 anos de muitas saudades. O livro saiu agora em julho pela 8 Editora. Não haverá lançamento. Mas pode ser encontrado em livrarias e em algumas bancas de jornais e revistas.

O livro, que tem apresentação de Nelson Patriota e prefácio de Ticiano Duarte, projeto gráfico de Waldelino Duarte, reúne crônicas que Luís Carlos publicou em jornais daqui, incluindo esta TN, revistas, no sempre saudoso jornal “O Galo”, da FJA, e antologias. Outros textos que serviram de apresentação de exposições de artistas plásticos, entre eles Thomé Filgueira, Assis Marinho e Túlio Fernandes. No livro tem ainda o discurso de posse de Luís Carlos na Academia Norte-Rio-Grandense, sucedendo a Newton Navarro.

Andei por estes dias passando as suas páginas com uma parada mais demorada no seu discurso, boa parte dele dedicado a Navarro. É um verdadeiro canto. Invenção mesmo de poeta. Luís Carlos passa e repassa a vida do amigo, o poeta, o pintor, o desenhista, o escritor, o agitador cultural. Ás folhas tantas, ele escreveu e falou assim sobre Navarro:
“Desconheço quem tenha demonstrado tamanha vocação de artista. Múltiplo, dominava com igual talento todas as áreas da atividade intelectual. Embora sua projeção maior tenha sido como artista plástico, realizou-se em plenitude como escritor, nos gêneros da poesia, novela, crônica, conto, jornalismo, teatro, oratória, conferência”.

O pôr do sol
Luís Carlos Guimarães era um amante, com tempo integral e dedicação quase exclusiva, de Natal. A confissão está declarada na crônica que tem o título de “Como um pôr de sol”.

Começa assim:

“Aprendi a te amar, Natal, no primeiro encontro, quando pisei teu chão no começo dos anos cinquenta. Horizontal na sua desambição de voos mais altos, a Natal daquele tempo cabia entre as dunas, o rio e o mar, deitada no seu casario baixo, poucas ruas calçadas, enfeitada do verde perfumando de tantas árvores. O tempo feliz de uma cidade feliz, que assistia de cadeiras nas calçadas, numa espera embevecida, o nascimento da lua cheia nos morros do Tirol.

Entre perplexo e alumbrado me enredei nas malhas do tem encantamento. O olhar fixava na memória uma nesga de céu vista do ângulo pouco propício de uma janela, as ruas estreitas inclinadas como se fossem despencar no rio Potengi ao crepúsculo de todos os entardeceres, uma alvoroçada e repentina chuva de verão, um bonde desaparecendo na curva breve de uma esquina.
Em amorosa intimidade desbravei seu território, prisioneiro de ter sortilégio. Descobri o mar do alto da balaustrada da Avenida Getúlio Vargas, onde a visão da beleza se associa à certeza de que a terra é redonda. Ali, reparei bem, como em nenhum outro lugar do mundo, o céu desce sobre o mar como uma concha e o horizonte se fecha como um arco ao nosso olhar contemplativo.”

Luís Carlos termina a crônica assim:

“A cidade inchou, transbordou suas margens, ganhou novos bairros, avançou pros lados da Redinha e Parnamirim. A gana imobiliária constrói uma nova cidade vertical, que sobe ao céu no gume dos edifícios. A cidade feliz não existe mais. Talvez um tanto volúvel no teu vestido novo, numa coisa és a mesma, Natal: guarda as marcas de tua feminilidade. Ainda sou o mesmo no meu querer, Cidade do Natal, e trago o coração acesso de ternura para dizer-te do meu amor nesta manhã de domingo.”

Os anjos e demônios no caminho de Woden Madruga

Ângela encontra o Anjo

por Woden Madruga

Na boca da noite me cai na bacia das almas um imeio de Ângela Almeida, artista plástica, fotógrafa, jornalista que mexe com muitos temperos na área da comunicação social, autora de uma boa penca de livros. Nas vésperas de lançar mais um: Newton Navarro – Os frutos do amor amadurecem ao sol. Trata-se de uma pesquisa que andou fazendo ao redor de trezentas obras (pintura, desenho e gravura) do grande artista que ela foi encontrar com colecionadores e em galerias. Muitos desses trabalhos estão reproduzidos no livro. Bom, mas o mote do imeio de Ângela não é Navarro. É Alex Nascimento, poeta, também pintor que pinta o sete.

A inspiração para Ângela veio do imeio em que Alex fala com carinho sobre o bar Anjo 45, publicado aqui na sexta-feira, 27. O poeta encantado com a casa que fica na antiga Rua das Virgens (Câmara Cascudo), Ribeira de todos os espantos, e com a música que lá ouviu por conta de Joca (guitarra) e Jotapê (sax). Ângela Almeida também já subiu as escadas do Anjo 45 e se diz extasiada com o que ouviu e viu por lá. Deixemos, então, que ela conte, por sua conta, essa história:

“Querido Uódi (como é escrito por Alex):

Metendo a colher aonde não fui chamada, não pude deixar de ler a sua conversa da “bacia das almas” com o Reverendo Don Alex N. Mesmo que o imeio seja por natureza curto, o dele para você nos deixou o prazer e a sensação de um retorno de lê-lo. Por isso reclamo: “Volta Alex para os nossos braços! Publique mais seus poemas, cartas e imeios….” A gente agradece.

Agora se tratando desse tal de Anjo 45, é realmente um pedaço de ‘mau caminho’. Pois bem, eu, que sou uma moça da manhã e costumo ir dormir como se dizia antigamente “com as galinhas” (a metáfora se referindo ao bicho, sem preconceito), até porque (por questão de gosto) o que mais falta nesta cidade são bons galos que despertem moças até a madrugada. E quando elas já estão no caritó, fica ainda mais difícil. De toda forma, você acredita que uma noite dessas fui arrastado até lá, por uma amiga e mais dois anjos (homens) lindos, altos, inteligentes, cultos (que gostam de galos tanto quanto eu). Caímos na “naite” e só arredei o pé do Anjo 45 quando Joca (o músico) abandonou sua guitarra e Ítalo Trindade me descobriu…

Realmente os anjos e a noite, só para os corajosos!

Volto assim pra o “galheiro” um sítio mais seguro. Pelo menos daqui leio bons imeios de outros e do Reverendo Dom Alex N.

Abraços, AA”

De Política

De Ilimar Franco, de O Globo, em sua coluna de ontem com o titulo “A fábrica dos partidos políticos”:

– O Fundo Partidário virou uma indústria de partidos nanicos. Vem aí o PL, do ministro Gilberto Kassab, e o PMP, de Valdemar Costa Neto, condenado no mensalão. Um ex-deputado, que já foi de uma sigla nanica, explica que o dinheiro do Fundo é usado por deputados e senadores, na condição de presidentes regionais de uma legenda, para manter comitês (sedes), contratar parentes (funcionários) e cabos eleitorais. Ele diz que o deputado de uma agremiação nanica não tem peso político mas está com a vida ganha.

– Esse político pegou, a título de exemplo, o Solidariedade, presidido pelo deputado Paulo Pereira da Silva (SP), e que tem 16 parlamentares. No ano passado, a sigla recebeu R$ 7 milhões. Esses recursos garantem aos seus deputados manterem campanha permanente durante o mandato.

– A lei permite que esse dinheiro seja gasto também com propaganda política, criar e manter instituto ou fundação de pesquisa. A cota do PSL, R$ 1,8 milhão, serve a um deputado. A do PTC, R$ 2,2 milhões, atende a dois; e a do PMN, R$ 2,5 milhões, a três. Os especialistas eleitorais afirmam que a renda desses partidos, e dos seus, é maior com a venda do tempo de propaganda na TV, viabilizada pelas coligações partidárias.

 

 

Literatura Divergente

por Woden Madruga

 

Acontece em São Paulo o III Encontro de Literatura Divergente, que eu, confesso minha santa ignorância, não sabia de sua existência. Nem do encontro, muito menos de “literatura divergente”. Quem me descobre a mina é o Marcius Cortez, natalense nascido na Paraíba, graduado em Pernambuco (fez parte do time de Paulo Freire) e de casa montada, há tempos, em São Paulo, onde se meteu pelas veredas da Publicidade e Literatura. Marcius é um dos 36 escritores brasileiros que participam do Encontro. Estará na Mesa 1 que tem como mote “Gerações – Um pouco de história: relatos de criadores que estão na cena desde a década de 1970”. Vai bater papo com Raquel Trindade, de São Paulo, e com Douglas de Almeida, da Bahia. A mediação ficará por conta de Nelson Maca, também da Bahia.

O Encontro acontece na Biblioteca Alceu de Amoroso Lima, que já é, por conta do patrono, uma baita referência, e se estenderá até domingo, 28, encerrando sua programação no Sesc-Pinheiros, mesmo bairro da Biblioteca. Fico sabendo que lá estarão escritores “que se desviam dos princípios que regem os cânones da produção, divulgação e distribuição de textos e obras literárias da atualidade brasileira”. Editores, professores de literatura, pesquisadores, leitores e outros ativistas também estarão na plateia.

Além das palestras e debates, a programação consta também de lançamentos de livros (funcionará paralelamente uma feira de livros), exposição fotográfica, oficinas (uma das oficinas será ministrada pelo escritor Marcelino Freire) feiras de CDs e DVDs, saraus musicais e poéticos. No sábado, 27, haverá uma mesa de debates sobre o tema: “Fronteira: a palavra no limite entre a literatura e a música”, com Gustavo Gallo, Ademir Assunção e Peri Pane, todos de São Paulo, e mediação do baiano Nelson Maca.

Marcius Cortez – que tem publicado entre outros títulos, “O Deputado e as Seriguelas”, “Golpe na Alma” (contos e crônicas) e “Barbaridades Críticas”, além de crônicas e artigos nesta TN -, arremata o seu imeio, assim:

“Caro Woden:

Estou nesse encontro representando, por conta própria, o Rio Grade do Norte. Apesar de nascido em João Pessoa, sou potiguar de sangue e raízes. E tem mais, sou sobrinho do Conde de Miramonte, portanto, sou um papa-jerimum nobre. Abraços literários convergentes,

Marcius Cortez.”

Reencontro com Berilo

por Woden Madruga

 

Berilo Wanderley

Berilo Wanderley

Manhã de hoje, um sábado promissor, é para se bater o ponto na calçada do Sebo Vermelho. Abimael Silva abre o cerimonial a partir das 9 horas para o lançamento de “Literatura RN – Livros Selecionados”, de Anchieta Fernandes. Trata-se, gente, do quatro centésimo livro publicado pelo Sebo Vermelho, um recorde nacional! Integra a Coleção João Nicodemos (primeiro sebista natalense) e que foi iniciada, 25 anos atrás, exatamente com um outro livro do mesmo Anchieta Fernandes, “Ecran Natalense”. Mais outro motivo para que, na calçada famosa da avenida Rio Branco, Abimael solte todos os foguetões caracaxás e espoque as garrafas de champanhe de sua adega.

Anchieta Fernandes reuniu neste seu livro 33 crônicas que foram publicadas no “Jornalzinho do Sebo Vermelho” aí pelo final dos anos 90 fazendo crítica literária em torno de obras de autores do Rio Grande do Norte. Crítica leve, palatável, sotaque jornalístico, sem preocupação com as teorias literárias acadêmicas. Pelo seu crivo passam alguns dos mais importantes escritores potiguares, começando por Luís da Câmara Cascudo. Ao lado do historiador e antropólogo, por exemplo, o poeta Jorge Fernandes, com o seu “O livro de poemas”, José Bezerra Gomes (“Os Brutos”), Homero Homem (“Cabra das Rocas”), Nei Leandro de Castro (“O Dia das Moscas”), Eulício Farias de Lacerda (“As Filhas do Arco-Íris”), Newton Navarro (“Os Mortos são Estrangeiros”), Zila Mamede (“Navegos”), Raimundo Nonato da Silva (“Quarteirão da Fome”), Américo de Oliveira Costa (“A Biblioteca e seus Habitantes”), Moacy Cirne (A Poesia e o Poema do Rio Grande do Norte”).

Cascudo se faz presente com três livros: “Dicionário Folclórico do Rio Grande do Norte”, “História da Cidade do Natal” e “Canto do Muro”. Djalma Maranhão também foi selecionado por Anchieta. O jornalista e o ex-prefeito de Natal está lá com “Cartas de um Exilado” que foram escritas em Montevideo, Uruguai, entre os anos de 1964 e 1971. Sobre o livro de Djalma Maranhão, Anchieta Fernandes anotou:

“Eu falei que podem existir cartas de beleza literária. Pois bem, em Djalma Maranhão, além de numa das vezes assumir a forma poética numa das cartas (inclusive com versos devidamente rimados – como foi o caso da carta destinada a Jacyra, esposa do desembargador João Maria Furtado, a datada de 12-01-70), o tom poético aparece desde o início, adoçando a sua tragédia política: ‘como um peregrino, continuo andando, sendo levado como as folhas que o vento arranca das árvores e voam sem destino’”

Outro livro acolhido por Anchieta Fernandes foi “O Menino e o seu Pai Caçador”, de Berilo Wanderley, publicado em 1980 pela Fundação José Augusto em parceria com a editora Clima. Anchieta abre o seu comentário, assim:

“Um dos melhores cronistas de jornal do nosso Estado foi Berilo Wanderley. Somada à sua participação como crítico de cinema competente, deu no que deu: páginas das mais inteligentes com que o leitor foi premiado. Escreveu principalmente em três jornais natalenses – Tribuna do Norte, Diário de Natal e A República, fazendo parte da época de ouro em que pontificaram outros cronistas de peso, um Newton Navarro, um Sanderson Negreiros, um Afrânio Pires Lemos (…) O que define a presença do cronista Berilo Wanderley no jornalismo natalense (desde aquele dia 13/09/1956, quando começou na Tribuna do Norte) é a sina da consciência social ao lirismo boêmio que acredita no amor e na bondade humana, testemunhando madrugadas e luares, se solidarizando com bêbados e namorados, contestando as matreirices dos políticos.”

O Canto do Cisne

Vou à estante e pego o “O Menino e seu Pai Caçador”. Passo as páginas, vou lendo devagar repassando na memória uma amizade de quase trinta anos, que começou nas esquinas do Grande Ponto e se consolidou no dia a dia das redações dos jornais, na Faculdade de Direito da velha Ribeira, nas conversas dos bares, a doce boemia, incluindo nesse meio tempo a temporada de ano e um dia como recrutas do Exército, os planos e os sonhos da província. Berilo morreu moço, aos45 anos de idade. Lá se vão 35 anos.

O menino

Releio agora sua crônica, “O Canto do Cisne”, com a qual brindo os leitores desta coluna e transcrevo-a numa homenagem ao poeta que gostava de assobiar os chorinhos de Pixinguinha e os sambas de Noel:

O Bar e Confeitaria Cisne, uma tradição e uma legenda na vida boêmia e na paisagem humana de Natal, fechou suas portas. Definitivamente. Apagaram-se as suas luzes foscas, como um palco que desce a cortina ao fim do último ato. Só faltou virem ao proscênio os irmãos Miranda – Múcio, Ademar e Rossini – para receber as palmas dos últimos boêmios, remanescentes de uma confraria fraterna que povoou, durante trinta anos, aquele espaço, proseando e tomando cerveja, alegrando o coração, esquecendo mágoas, que, como as águas passadas, não movem moinho de ninguém.

A confeitaria enfeitava a fachada. Os três Miranda se desmanchando em cortesia e frase bonitas, no atendimento às senhoras e às crianças que chegavam à procura de doces, caramelos e salames. No segundo estágio do estabelecimento, vinha o bar, em contraponto. Onde se movimentaram as figuras joviais de Luizinho Doublecheque, Albimar Marinho, maestro Alcides Cicco, Newton Navarro ainda o artista quando jovem, o poeta Evaristo de Souza. Quase todos são fantasmas a sobrevoar a solidão do espaço vazio, neste final de abril, cantando um réquiem para o Bar Cisne.

Zé Américo, o garçom bojudo e cordial, se desmanchando para a clientela que era como que sua família, sentando, vez em quando, na mesa, de um ou de outro, para tomar um solidário copo de cerveja. O maestro Cicco chegava, voz de tenor, pedia uma champanha, e esnobava, triunfalmente. Albimar Marinho repetia um trecho de fandango, que sabia de cor, como os passos que encenava através das mesas. E havia o freguês que, vez em quando, rompia de dentro do jipe de aluguel (era o início dos anos 50), pagava adiantado a “corrida” até a sua casa ao chofer conhecido, entrava no bar e embriagava-se de frisante.

Depois que se foram, vai agora o Bar Cisne. Vai ceder lugar ao que chamam de progresso, isto é, um bloco de cimento armado com vigas de ferro que dará muito dinheiro ao dono do chão. Os irmãos Miranda não vão abrir outro bar em parte alguma, para que o Cisne, cheio de saudade, nunca mais cante, nem sozinho nade, nem nade nunca ao lado de outro cisne.

Ariano e a Carnaúba

São José dos Campos

São José dos Campos

por Woden Madruga

Confesso a minha inquietude, aflição mesmo, acompanhando as notícias sobre o estado de saúde de Ariano Suassuna, internado num hospital em Recife, vítima de um acidente vascular cerebral. É grave o quadro. O grande escritor está com 87 anos. Fim de semana que passou andei por seus pagos, indo à Fazenda Carnaúba, município de Taperoá, na Paraíba, onde Ariano despertou para as artes: dramaturgo, romancista, poeta, ensaísta, artista plástico. Passei pelo terreiro de sua casa, menos de 100 metros dos alpendres do primo Manoel Dantas, Manelito, o anfitrião. Carnaúba realizava um grande festa por conta do seu “2º Leilão” onde se negociou bovinos das raças Guzerá, Sindi e Gado Pé Duro (sotaque de português, andar de piauiense), nove raças nativas de caprinos e sete de ovinos.

Só o empório (de acordo com o falar de Manelito) dessas cabras e bodes, ovelhas e carneiros, já é uma festa maior, nada igual por este Nordeste afora. Fantástico o trabalho de melhoramento genético dessas raças feito em Carnaúba. E é preciso dizer que tudo isso começou numa parceria de Manelito com Ariano, vaquejando cabras e ovelhas brasileiras pelos sertões nordestinos. O cenário da Fazenda Carnaúba, seus currais de pedra, suas baias, seus galpões, seus cercados que vão até ao pé das serras circundantes, aqui e acolá, as emas cruzando com as ovelhas Morada Nova e das Cabras Azuis, já acarinha e comove o visitante. Paisagem que lembra um castelo ibérico erguido em terras pedregosas da Galícia.

Lá estavam criadores e técnicos (agrônomos, zootecnistas, veterinários) de várias partes do Brasil. Muitos sotaques, prosas deliciosas, encontros e reencontros de velhos companheiros. Fazia frio em Taperoá e caia uma chuvinha fininha, peneirando. Tempo para uma, tantas doses de cachacinha ou três dedos de uísque. Fazia frio, mas os negócios foram quentes. Preços bons para o gado Sindi, um pouco menos para o Guzerá, ótimos para as cabras e ovelhas. O resultado deve ter sido do agrado de Manelito e de seus meninos.

O Dia D da Fazenda não foi somente de venda de bois, vacas, cabras e ovelhas. Num de seus galpões (pé direito de três metros) montou-se uma exposição de arte com a pintura de Manoel Suassuna Dantas, a tapeceira de Ariano e Zélia Suassuna, o artesanato de couro dos artesãos de Cabaceiras e seus arredores, a feirinha dos famosos queijos e cremes (leite de cabra) da Carnaúba e as geleias, doces e compotas (mangaba, umbu-cajá, araçá, manga, pitanga, goiaba, jaca, caju com pimenta rosa, maracujá, ubaia e eteceteras) fabricadas pela Sobores da Vivenda, tempero potiguar da Fazenda Vivenda do Vale, que fica em Ceará Mirim, e que pertence ao casal Fernanda e Gustavo Câmara, agrônomos. Seus produtos fizeram o maior sucesso. Completando os espaços do grande galpão a cozinha montada por Adriana Lucena, peagadê em culinária e pimentas. Filas para seus sanduíches e os pratinhos feitos com carnes de cabrito, cordeiro e de porquinhos meide Piauí criados na Carnaúba, acompanhados de arroz da terra, batata doce, purê de jerimum caboco e farofinha.

Foi no galpão que conversei com o pintor Manoel Suassuna Dantas sobre o seu pai. Ariano retomara suas aulas-espetáculo, estava concluindo o novo romance e fora convidado para a Flipipa de agosto. Me presentou com o catálogo da exposição com a qual inaugurou em agosto de 2011 a sua Oficina Cabeça de Cabro, em Taperoá. No catálogo tem um texto manuscrito assinado por Ariano e Zélia. Manoel Dantas divide o tempo de artista entre Recife e Taperoá. Ultimamente executa o projeto “Pelo Caminho Sagrado”, seguindo as trilhas de Antônio Conselheiro, de Quixeramobim, no Ceará, a Belo Monte/Canudos, na Bahia. No documentário, Manoel Suassuna Dantas se veste de Antônio Conselheiro.

Falou ainda de outro projeto. Documentar os caminhos percorridos por Ariano por vários lugares do Nordeste, alguns também trilhados pelo avô João Suassuna. No Rio Grande do Norte lembrava de três lugares: Natal, Mossoró, Lajes e Martins.

Sempre é um encanto uma ida a Carnaúba.

A poesia na Copa

por Woden Madruga

 

futebol cérebro

 

Na caixa do correio, no meio de panfletos de pizzarias, cartas atrasadas e avisos da Caern, encontro um bilhete de Alex Nascimento, manuscrito, letra bem arrumada padrão arquiteto (ou seria designer?), uma linha apenas: “Madruguinha: estou indo. Leia o soneto. Voltarei no final de julho. Alex”. Há tempo, nas madrugadas da Bela Napoli, ele vinha conversando que passaria a Copa fora do Brasil. Talvez Lisboa, poderia ser Firenze, ou mais longe, quem sabe ao redor do Golfo Pérsico. Não escondia o desejo de conhecer Catar, que ele escreve com Q. Perguntei por que Catar? Ora, respondeu já no terceiro oldepar, o Qatar é o novo paraíso da Fifa. Referia-se à grana avultada que os dirigentes da matriz mundial do futebol teriam recebido (milhões de dólares) para que o pequeno, mas rico, país árabe sediasse a Copa do Mundo de 2022. Um doutorado em suborno.

Será que Alex foi mesmo para o Catar? Há três dias o seu telefone não atende. Passei pela rua São João, não vi o seu carro na sombra da mangubeira. Na Bela Napoli, há uma semana que não aparece. Mário Ivo também não sabe. Me falou que, no último encontro, Alex insistia em conhecer Catar e de lá, ir até o arquipélago de Bahrein, outra mania árabe do poeta, agora motivado pela Fórmula 1 (o Grande Prêmio de Bahrein), uma de suas paixões esportivas. Alex sempre incluiu o arquipélago na sua geografia árabe: Arábia Saudita espichada pelo Catar em forma de península, a ilha de Bahrein, o Irã mais a frente, o Iraque ao lado. Uma vizinhança da pesada.

Lembro que ele falava que no Catar pode-se ir às arenas (as sedes da Copa) de bicicleta. Nada de trem, carro, metrô, ônibus, táxi. Nem tampouco jumento, sugerido como meio de transporte por um importante estadista brasileiro. Vai-se de bicicleta, numa boa. O Catar é pequeno, todo o país tem pouco mais de 11 mil quilômetros quadrados, mais ou menos 10% do território do Rio Grande do Norte. Falava com muito entusiasmo, lembrando-se do tempo em que, vivendo uma temporada na Alemanha, passeava pedalando entre cidades alemãs, holandesas e belgas, no cruzamento de suas fronteiras.

Já para Bahrein, estando em Catar, pega-se um barco e se vai pelo Golfo Pérsico, pouco tempo de travessia. Também tem voo a toda hora, basta conferir nos patrocínios da Fórmula 1 e nas camisas dos jogadores dos principais clubes da Europa: “Qatar Airways”. Aceita todos os cartões de crédito, inclusive da Caixa Econômica Federal, em até oito parcelas mensais. Nos deleites asiáticos de Alex descobri que essa sua ligação com o Bahrein não era somente por conta da Fórmula 1. Vinha lá de trás, de muito tempo atrás, quando os portugueses navegavam por aquelas águas orientais, anos de 1550/1600. Camões já fala em Bahrein, que escreveu Barém em Os Lusíadas. Está na estrofe 41 do Canto X:

“Ali, do sal os montes não defendem/ De corrupção os corpos no combate,/ Que mortos pela praia e mar se estendem/ De Gerum, de Mazcate e Calaiate,/ Até que à força só de braço aprendem/ A abaixar a cerviz, onde se lhe ate/ Obrigação de dar o reino inico/ Das perlas de Barém tributo rico”.

Abro o volume II de Os Lusíadas, numa edição publicada em Lisboa, em 1915, e que comprei – bote tempo nisso – num sebo em São Paulo, não me lembro quando. É uma edição organizada por Francisco de Sales Lencastre, que fez anotações “para leitura popular”. O Lencastre faz seis anotações para a estrofe. Destaque de nº 6 para o último verso, onde é citado Barém: “Pequenas ilhas no Golfo Pérsico, e no qual se pescavam as mais ricas pérolas.”

Para lá, que já foi o reino de Ormuz, teria embarcado Alex, fugindo da Copa da Fifa? Ou tudo não passa de invenção, de um fingimento do poeta, tal qual gostava de exercitar outro vate português navegando pelos seus oceanos infinitos (Ó mar salgado, quanto do teu sal / São lágrimas de Portugal!) ia pelo Rocio no rumo do Tejo, debulhando com Alberto Caeiro que o poeta é o fingidor, finge tão completamente que chega fingir que é dor a dor que deveras sente.

O soneto O soneto de Alex Nascimento (Luiz Vaz de Camões também foi sonetista, grande) expressa o seu sentimento crítico diante do espetáculo cívico-esportivo-carnavalesco da Copa e todos os seus “legados”, incluindo os eleitoreiros:

Era uma vez, assim conta a história,
Um povo que adorava gambiarra,
Sem saber da ressaca, tome farra!,
Sem lei, sem rei, sem mão, sem palmatória.
Sem passado ou presente, sem memória,
Não havia formiga, só cigarra,
Cuja única trilha era piçarra,
Burguês ou miserável, tudo escória.
Diz a lenda, se é que lenda fala,
Sub-vermes não legam um império,
Pois desse povo não restaram elos.
Por fim me calo eu, olho a senzala,
E todo o campo em volta é um cemitério,
Repleto de caixões verde-amarelos.

O futebol de João Cabral Apesar dos excessos da Fifa, o futebol está no coração de grande poetas brasileiros. Lembro, agora, de três: Carlos Drummond de Andrade, Paulo Mendes Campos e João Cabral de Melo Neto. Os dois primeiros, mineiros. O terceiro, pernambucano, torcedor do América de Recife. No seu livro Museu de tudo, está o poema “O futebol brasileiro evocado na Europa”:
“A bola não é inimiga/ como o touro, numa ‘corrida’;/ e embora seja um utensílio/ caseiro e que se usa sem risco,/ não é utensílio impessoal,/ sempre manso, de gesto usual:/ é um utensílio semivivo,/ de reações próprias como bicho,/ e que, como bicho, é mister/ (mais que bicho, como mulher)/ usar como malícia e atenção/ dando aos pés astúcias de mão.”

No Juvenal Lamartine Na poesia potiguar tem Nei Leandro de Castro no time dos craques da aldeia. Foi peladeiro do América (da família quem batia um bolão era o irmão Berilo), mas bom de bola na literatura. É dele o poema “No Estádio Juvenal Lamartine”, incluído no livro Autobiografia:

“Em volta, somente os morros do Tirol/ guardavam silêncio e serenidade./ O fanatismo tomava a arquibancada/ e o desconforto da geral/ em gritos de gol, palmas, palavrões./ O juiz apitava, corria com suas pernas finas/ e, errando ou não, era sempre filho de uma puta./ O mundo girava em duas rotações/ de quarenta e cinco minutos./ De repente, a explosão do gol, redonda alegria./ E tudo era tristeza quando o América/ descia do seu carro de glória e não vencia.”

 

No dia da Poesia

por Woden Madruga

 

DIA-DA-POESIA

 

Hoje, 14 de março, antevéspera de lua cheia, comemora-se o Dia Nacional da Poesia. Vejo que nesta terra de Poti mais rimada há festas programadas ao gosto estadual e municipal. “Rio Grande do Norte, capital Natal: em cada esquina um poeta, em cada rua um jornal”. Isso era no começo do século que passou. Hoje, há poucos jornais. Contando nos dedos, três. Agora, poeta são muitos. Não somente nas esquinas – disputando o espaço com os camelôs (há camelôs poetas, sim, tantos como há poetas ambulantes, ambula aqui, ambula acolá) – , mas eles também são vistos nos canteiros centrais, espaços públicos onde, às vezes, se joga lixo, tão ao gosto do natalense. Isso sem contar que os poetas agora avançaram mais no tempo e ocupam a internet povoando os blogues. Como tem poeta em blogue! Mas com pouca poesia…

O Dia Nacional da Poesia existe por conta de Castro Alves. Mas o  grande baiano (“Boa-noite, Maria! É tarde… é tarde… / Não me apertes assim contra o teu seio. // Boa-noite!… E tu dizes – Boa-noite./ Mas não digas assim por entre beijos… / Mas não me digas descobrindo o peito, / – Mar de amor onde vagam meus beijos.”) nunca é lembrado, nunca é  recitado (“Oh! Eu quero viver, beber perfumes/ Na flor silvestre que embalsama os ares;/ Ver minh’alma adejar pelo infinito,/ Qual branca vela n’amplidão dos mares.”). Aqui e acolá quando é tempo de carnaval, a tevê desfilando por Salvador, mostra um trio elétrico contornado a Praça Castro Alves (“A praça! A praça é do povo/ Como o céu é do condor/ É o antro onde a liberdade / Cria águias em seu calor.”) Será que nas escolas o poeta, que começou a fazer versos na escola aos 14, 15 anos, é ensinado?

O poeta que nasceu no sertão da Bahia (14 de março de 1847), viveu apenas 24 anos. Viveu intensamente. Morreu em Salvador (depois de muito viver e muito amar em Recife, Rio de Janeiro e São Paulo), no dia 6 de julho de 1871 (“Morrer… quando este mundo é um paraíso,/ E a alma um cisne de douradas plumas:/ Não! o seio da amante é um lago virgem…/ Quero boiar à tona das espumas. / Vem! formosa mulher – camélia pálida,/ Que banharam de prantos as alvoradas. / Minh’alma é a borboleta, que espaneja / O pó das asas lúcidas, douradas…”)

Não, ninguém hoje mais ler nem cita Castro Alves, o poeta abolicionista, pregador da liberdade e amante apaixonado, o poeta do romantismo, autor teatral, o escritor, o tradutor de Vitor Hugo, de Lamartine, de Byron, de Alfred de Musset (“Deus! ó Deus! onde estás que não respondes? / Em que mundo, em que’ estrela tu t’escondes / Embuçado nos céus?”). Não ninguém “ouve” Castro Alves.  E Jorge Fernandes, natalense, xaria das ruas Santo Antônio e Vigário Bartolomeu, que tomou cachacinha com Mário de Andrade escoltado por Luís da Câmara Cascudo, também ainda é lembrado?  (“A luz elétrica do meu tempo / Vinha com  a lua-cheia… / Cantavam dentro de mim / Todos os trovadores do passado… / Os olhos que amaram os trovadores / Esquecidos / Eram de novo lembrados / Nas canções dentro de mim…”).

E um outro coestaduano ilustre, José Bezerra Gomes, seridoense de Currais Novos? Será que nas escolas daqueles sertões, uma professora (pode ser professor), um dia, abra um livrinho para recitar para seus alunos o seu poema de nome sugestivo, “Mealheiro”? (“Meu avô/ a camisa por cima da ceroula/ no mourão/ da porteira do curral/ de pau-a-pique/ cheirando a estrume. // Contando os bezerros/ novos/ das vacas paridas // Minha avó/ no santuário da capela/ o rosário de contas/ de capim santo/ nas mãos devotas. (…) A barra das madrugadas / o aboio dos tangerinos// As alpregatas/ do meu avô/ arrastando/ nas lajes dos alpendres/ do mundo/ de minha infância.”).

E tem outro poeta, agora pernambucano, que consta do meu cadastro dos não esquecidos: Ascenso Ferreira. Conheci aqui em Natal, entre os becos e ruas estreitas da Ribeira, guiado por Veríssimo de Melo, começo da década de 60. É da mesma geração de Jorge Fernandes, pouco mais moço do que José Bezerra Gomes. Já se foram. Mas a  poesia de cada um, não. De Ascenso, gosto muito do poema Sertão, que me lembra Queimadas de Baixo.

“Sertão! – Jatobá! / Sertão! – Cabrobó! / – Cabrobó!/ – Ouricuri!/ – Exu!/ Exu! // Lá vem o vaqueiro pelos atalhos, tangendo as reses para os currais…// Blém… blém… blém… cantam os chocalhos/ dos tristes bodes patriarcais. // E os guizos fininhos das ovelhas ternas: / dlim… dlim… dlim… // E o sino da igreja velha: / bão… bão… bão… // O sol vermelho como um tição.”

Eis o meu quarteto de poetas no Dia da Poesia. Representam bem todos os poetas.

Na Capitania
A Capitania das Artes faz festa para celebrar a Poesia. Logo cedo, coisa das 8 horas, o prefeito  Carlos Eduardo e o presidente Dácio Galvão recebem seus convidados, poetas e escritores, para um café Poesia & Prosa. Haverá homenagem ao grande Moacyr Cirne, cujo nome será dado a um dos Centros de Artes e Esportes Unificados (CEUs), projeto conveniado entre Ministério da Cultura e Prefeitura. O de Moacyr fica no bairro Lago Azul, na zona Norte.

Em seguida serão lançados os editais dos concursos Othoniel Menezes (Poesia), Ensaio Etnográfico (Câmara Cascudo) e Ensaio Literário (Moacyr Cirne).

Emenda-se com o lançamento do livro “A Poesia e o Poema no Rio Grande do Norte”, de Moacyr Cirne, reedição do Sebo Vermelho, Projeto Nação Potiguar.

Mesa Literária 
Ainda na programação da Capitania das Artes, duas mesas literárias: a primeira, 9 horas, sobre o tema “A Poesia vista pelos olhos da Poesia”, por conta do poeta carioca Eucanaã Ferraz, professor de Literatura da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Prêmio Alphonsus Guimaraens da Biblioteca Nacional, doutor em Vinícius de Moraes.

A segunda mesa (10 horas), “Da crítica à Poesia Experimental”, tem como mediador o sebista e editor Abimael Silva. Palestrantes: Falves Silva, Anchieta Fernandes e Muirakitan de Macedo. Em seguida, intervenções poéticas.

Chuva

Natal amanheceu quinta-feira debaixo de chuva. Que beleza! Chove em todas as regiões do Estado. Mais no Oeste e no Seridó. A maior chuva foi em Carnaúba dos Dantas, 42 milímetros; Acari, 40. São informações da Emparn até coisa das 9 horas. Deve ter tido mais chuvas no andar do dia.

Dozinho
Partiu Dozinho para os carnavais celestiais. Compositor, letrista, músico, boêmio, papo delicioso. Bela figura de gente. Saudades.

Quando o plantão da justiça vira um balcão de negócios

justiça_bunda justiça balança

 

Quem condena é a justiça. A corrupção depende da impunidade, da certeza de que não vai ser preso. A justiça é falha. Em Natal, um setuagenário questionou a venda de um hotel, e perdeu dois para uma funcionária lotada no gabinete de ex-presidentes do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Norte. Arrumaram para a vítima até uma prisão apenas do conhecimento dessa funcionária ligada a bandidos internacionais – a “Máfia do Frio”. Assim os documentos da negociação de um hotel foram assinados na cadeia. Esta mágica de 1 ser transformado em 2 constitui um dos casos mais vergonhosos da história da Justiça. Esta semana, a vítima entrou com uma ação rescisória. Espero que meus amigos jornalistas Woden Madruga e Cassiano Arruda contem esta safadeza que inclui ameaças de morte, documentos falsos, despacho de pai de santo, e um parecer de um procurador que afirma que casos de interesse individual não são do interesse público, não é coisa de se resolver na justiça. Fica implícita a recomendação de que cada indivíduo aplique a lei de talião, do linchamento, da pistolagem dos justiceiros.   Acontece o mesmo na Justiça do Ceará.

1deusa

CNJ de olho nos plantões do TJ

A concessão de liminares suspeitas em plantões do tribunal de Justiça do Ceará (TJCE) está na mira do conselho nacional de justiça (CNJ).

por Demitri Túlio e Claudio Ribeiro/ Jornal O Povo

BRA_OPOVO hoje

Pelo menos duas investigação estão em andamentoUma mensagem telefônica alertava o presidente do Tribunal de Justiça do Ceará (TJCE), desembargador Gerardo Brígido, da articulação suspeita de dois advogados para conseguir a liberdade, no fim do ano passado, de pelo menos três criminosos de uma quadrilha especializada em assaltos, sequestro e tráfico de drogas.

Dizia mais, o caso tinha preço e seria tratado em um plantão do Judiciário cearense. Por cada um dos três habeas corpus o desembargador plantonista embolsaria R$ 150 mil. E, se tudo corresse como havia sido acertado, os advogados pagariam ao magistrado mais R$ 150 mil para derrubar um mandado de prisão contra um quarto traficante que já estava solto.

O traficante em questão havia conseguido a liberdade, em julho de 2013, de maneira suspeita, também em um plantão do TJCE. O habeas corpus, assinado por outro desembargador, chegou a um presídio cearense durante a madrugada. O plantão da Justiça, em Fortaleza, vai de meio-dia às 18 horas.

A soltura do criminoso, flagrado pela Polícia Federal numa tentativa de lavar R$ 340 mil dos negócios do tráfico, teria incomodado o presidente do TJCE e mais 11 desembargadores do Órgão Especial do Tribunal cearense. A matéria jurídica não era caso para ser apreciada em um plantão da Justiça. Deveria seguir o curso normal na vara criminal onde vinha tramitando.

Em setembro de 2013, por causa da recorrência de liminares suspeitas, o Órgão Especial do TJCE resolveu especificar o que deveria ser objeto de julgamento durante os plantões. Ficou determinado, por exemplo, que os magistrados plantonistas não poderiam analisar “pedidos que poderiam ter sido apresentados ainda antes do início do período do plantão” em suas respectivas varas ou no próprio tribunal.

 

Estratégias e burlas

A mensagem telefônica recebida pelo desembargador Gerardo Brígido teria gerado um corre corre na presidência do TJCE e mobilizado alguns servidores de confiança nos setores por onde deveriam chegar as petições suspeitas. A estratégia era interceptar os pedidos no protocolo e distribuição.

Os nomes vazados para o presidente do TJCE batiam com os pedidos de soltura que deram entrada em um daqueles plantões de fim do ano passado. Os advogados eram os mesmos e os criminosos também. Os três já eram condenados em pelo menos um processo e, todos, reincidentes no mundo crime.

Na busca para tentar evitar a liberação “legal”, outra descoberta. Os advogados dos bandidos apresentaram mais de um pedido de habeas corpus para o mesmo criminoso numa tentativa de confundir o sistema de distribuição eletrônica e chegar ao desembargador do acerto. Em um dos casos, três advogados diferentes (contratados pelo mesmo escritório) repetem a solicitação em datas distintas. Pelo menos naquele final de semana, o suposto esquema não deu certo e os presos não foram liberados.

O POVO apurou que, pelo menos, duas investigações estão em curso no Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e outras para serem encaminhadas. O desembargador Gerardo Brígido, presidente do TJCE não quis comentar o assunto. Limitou-se apenas a dizer que os fatos estão no CNJ.

 

Falsa advogada entrou com recurso para soltar traficante

O Tribunal de Justiça resolveu acompanhar em detalhes o que se passa nos seus plantões judiciários. Um levantamento parcial indica que pelo menos cinco escritórios de advocacia assediariam, de maneira ostensiva, alguns desses plantões.

Uma das bancas está sendo investigada porque teria usado o nome, o CPF e o número de inscrição na OAB falsos de uma mulher que nunca teria passado por um curso de Direito. A profissional fantasma é um dos três advogados que “assinaram” o pedido de soltura para um mesmo traficante no fim do ano passado durante um plantão.

O POVO apurou também que alguns escritórios de advocacia esperam por plantões específicos de determinados desembargadores – a lista dos escalados para cada plantão passou a ser pública, por determinação do Conselho Nacional de Justiça.

Durantes esses dias de maior fluxo, há advogados, segundo as investigações do Tribunal de Justiça do Ceará, que chegam a pressionar os servidores para preparar alvarás de soltura de seus clientes. Antes mesmo dos autos serem avaliados pelos magistrados.

 

A visita dos 80 causídicos

A movimentação de advogados foi intensa nos corredores de granito polido do Palácio da Justiça naquele plantão judiciário de fim de ano. A média de visitantes, que num plantão normal fica em torno de dez pessoas, naquele dia passou de 80, de acordo com o livro de registro de entrada de visitantes do próprio Tribunal.

Eram advogados que representavam clientes em pelo menos 64 processos. Iam direto para o Setor de Protocolo do Tribunal de Justiça. Buscavam a oportunidade de terem seus recursos julgados mais celeremente.

O entra e sai de advogados para além do comum chamou a atenção de magistrados e servidores. Tanto que o livro de registro será encaminhado ao Conselho Nacional de Justiça como elemento para embasar as investigações sobre a suposta concessão irregular de liminares.

O POVO opta por não divulgar nome dos suspeitos ou datas porque as investigações ainda estão em fase inicial no CNJ.

 

Números

2 Casos estão sendo investigados pelo Conselho Nacional de Justiça.Os processos são sigilosos.

64 Recursos chegarama ser apresentados em um mesmo plantão do Tribunal de Justiça.

Desacordo português

por Woden Madruga

língua

João Pereira Coutinho é um jornalista e escritor português que escreve, semana sim semana não, na Folha de S. Paulo. Tem espaço reservado também no Correio da Manhã, de Lisboa, um dos mais importantes jornais de Portugal. Tenho-o entre os meus cronistas preferidos. Escreve sobre tudo. Ou quase. De Shakespeare a futebol passando por Woody Allen, Saramago, Nelson Rodrigues, Darcy Ribeiro, Elias Canetti, Mário de Andrade, Lula. Na pauta: literatura, cinema, política, gastronomia. As coisas que acontecem no mundo vistas pela sua ótica crítica, polêmica às vezes, e com pitadas de fina ironia. Aqui e acolá, sarcástico. Leitura agradável, do saber e do sabor de ser bom jornalista. Algumas de suas crônicas estão reunidas no livro “Av. Paulista”, publicado pela Editora Record, em 2009, ocupando um lugarzinho bem à vista na minha estante.

Esta semana, foi terça-feira, ele  escreveu sobre o complicadíssimo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, invenção de acadêmicos que não pegou, tantas vezes adiada a sua aplicação. Era para entrar em vigor em todos os países de língua portuguesa em 2009. Não foi. Pegue adiamentos. Portugal não quer nem ouvir falar desse “acordo”. Basta ler os seus jornais ou os livros de seus escritores. Lá vale a ortografia antiga, como deveria valer aqui também. Por estes brasis já tem até  dicionários com a “nova ortografia”. Mas a sua obrigatoriedade foi adiada mais uma vez. Tem um decreto assinado pela presidente Dilma, transferindo  a coisa para 2016.

Bom, o assunto foi o tema da última coluna de João Pereira Coutinho, cujo título já diz tudo. Ou quase: “O aborto ortográfico”. Deveria ser lido por todos aqueles que gostam e são fiéis ao falar de nossa gente. Transcreverei algumas passagens do artigo, que começa assim:

– O acordo ortográfico é conhecido em Portugal como um aborto ortográfico. Difícil discordar dos meus compatriotas. Basta olhar em volta. Imprensa. Televisões. Documentos oficiais. Correspondência privada.

– Antes do acordo, havia um razoável consenso sobre a forma de escrever português. Depois do acordo, surgiram três “escolas” de pensamento. Existem aqueles que respeitam o novo acordo. Existem aqueles que não respeitam o novo acordo e permanecem fiéis à antiga ortografia.

– E depois existem aqueles que estão de acordo com o acordo e em desacordo com o acordo, escrevendo a mesma palavra de duas formas distintas, consoante o estado de espírito – e às vezes na mesma página.

– Disse três “escolas”? Peço desculpas. Pensando melhor, existem quatro. Nos últimos tempos, tenho notado que também existem portugueses que escrevem de acordo com um acordo imaginário, que obviamente só existe na cabeça deles.

Adiante, João Pereira Coutinho ressalta:

– Felizmente, não estou sozinho nestas observações: Pedro Correia acaba de publicar em Portugal “Vogais e Consoantes Politicamente Incorrectas do Acordo Ortográfico” (Guerra & Paz, 159 págs). Atenção, editores brasileiros: o livro é imperdível.”

E por aí vai o JPC. Seu artigo merece ser lido por inteiro. Precisa ser lido. É uma crítica perfeita a essa imposição e empostação acadêmica, empurrada pela goela abaixo dos patrícios brasileiros, portugueses, angolanos, cabo-verdenses, moçambicanos. Mais a gente de Timor-Leste, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, todos falando e escrevendo seu português com sotaques e cacoetes legítimos  e deliciosos. Às vezes, engraçados.

Carlos Peixoto, diretor de redação de TN, acaba de chegar de uma viagem por Portugal, o que ele faz quase todos os anos. Gentilíssimo, me trouxe de Lisboa o último livro  de Antonio Tabucchi (aliás, edição póstuma), escritor italiano que traduziu Fernando Pessoa, levando a sua poesia para a Itália. Título do livro “Viagens e outras viagens”, com o selo da Editora D.Quixote, tradução de Maria da Piedade Ferreira, a companheira do escritor.

Pois bem, já que estamos papeando sobre acordos, desacordos e abortos ortográficos, vale destacar aqui, a ressalva que a D. Quixote faz na ficha catalográfica do livro: “Por vontade expressa dos herdeiros do autor, a tradução respeita a ortografia anterior ao actual acordo”.

Aliás, nessas viagens de Antonio Tabucchi pelo mundo há uns desvios e paragens pelo Brasil. Como diria aquele meu amigo paraibano, de Cuité, “pense” num livro gostoso de ler, este do Tabucchi.

 

Coloquei o mapa como provocação. Sou pelo acordo. Admiro e sou amigo de Woden Madruga, que considero o maior cronista do Brasil da atualidade. Outro grande jornalista que é contra: Moacir Japiassu, que escreveu os principais romances sobre as “revoluções” brasileiras no século passado: a de 30, Concerto para Paixão e Desatino; e a de 64, Quando Alegre Partiste.

Curiosamente, Woden, que tem mais de meio século de crônicas diárias, teima em não publicar nenhum livro.