“Os mortos voltam”

Urariano Mota

Urariano Mota

Urariano Mota, o renegado

 

por Gabriela Almeida

 

Quando alguém escreve, esse alguém imprime marcas suas que vão além do estilo. Parte dos personagens e das histórias é o autor. Acredito que no livro O filho renegado de Deus, romance do escritor pernambucano Urariano Mota, essas marcas sejam ainda maiores e doloridas, se assim podemos chamar.
O livro tem atraído atenção por imprimir uma imagem das mulheres pobres – ou não – de uma Recife passada, nos idos anos de 1950. Mas gostaria de ter uma nova perspectiva da história e acreditar que, na verdade, ela trata muito mais das transformações de um menino pobre, a construção e visão de mundo de um rapaz que descobre a política e se insere na classe média intelectualizada e a análise de uma vida por um homem feito. É um desabafo.

Com uma prosa poética muito cortante, a narrativa desse livro arquiteta um tipo de construção entre personagem, autor e narrador que chamei de trindade. Inicialmente, tomamos conhecimento da história por meio de um narrador onipresente que fala na terceira pessoa. Mas, em determinados momentos, quem conta a história é o personagem Jimeralto. Outra hora, aparece um terceiro narrador que não se apresenta, surgindo como uma quebra na história. Esses são os momentos em que o autor fala na primeira pessoa.

A história gira em torno de Jimeralto (que também é o nome de Urariano), um menino do subúrbio do Recife em 1950, que tem um apego especial pela mãe. Um amor dependente de filho e de homem. Ele se descobre na vida quando vai para a cidade grande, São Paulo, e toma na política e na própria solidão rumos para se formar. Apesar de fazer a apresentação de várias Marias (nome que é também o de sua mãe), a visão do livro é patriarcal. Tanto que quem renega é Deus, o pai. Se o elo do amor materno e carnal pelas mulheres é o lado bom da força, os conflitos e maiores perturbações vêm da imagem masculina. Um pai seco, distante, e um tio homossexual.

O filho renegado de Deus é um livro visceral, uma ferida aberta do autor e que também se abre para o leitor. Se se diz que a primeira impressão é a que fica, cito trecho da primeira cena do livro:

– Senta, filho, que os mortos voltam.

O que faz um homem quando reencontra a sua mãe falecida? Obedece-lhe, contrito, grato, louco doido de amor, de carinho e saudade.

Essa é a porta de entrada de um história que fala sobre classes sociais, gênero, família e amor.
Talvez, também quando se escreve um romance o objetivo maior seja separar essas marcas pessoais e demonstrá-las possa ser sinônimo de falha. Mas nessa ficção em particular, essa brecha proporciona ao leitor duas chaves que são primordiais em uma leitura: curiosidade e confiança.
renegado

A carta de aniversário de Urariano Mota para a filha Luanda

Para Luanda e para quem se tornar refém da sua beleza

Para Luanda e para quem se tornar refém da sua beleza


Um belo dia, desses belos dias em que não sabemos o que nos espreita, nem o que nos aguarda na noite, no futuro ou na sua vedação, um belo dia, num desses belos dias que são belos somente pelo pouco mal que fazemos, um belo dia, em manhã semelhante à de hoje eu te disse, eu te escrevi quando tinhas 17 anos:

Se o coral é vermelho, há quem se espante. Se as pétalas em sua alquimia, em seu laboratório e cornucópia sufocam-nos, há quem se espante. Um raio que caísse agora e nos matasse, neste exato instante em que escrevo “um raio que caísse agora…”, muita gente disso se espantaria. Sem palavras, no entanto, deveríamos ficar ante esse maior espanto: um desabrochar que da flor guarda a semelhança deste verbo, desabrochar, um ser, que é uma pessoa mais importante que a preservação das florestas amazônicas, mais séria e organizada que a sobrevivência de todo pantanal, das garças às borboletas, das rãs que pulam no rio aos jacarés que passeiam com pássaros a bordo, uma senhorita mais fundamental que a sobrevivência nossa, dos chineses aos esquimós, dos mongóis aos europeus, dos negros aos caucasianos, por que disto ninguém se espanta?

E insatisfeito, despudorado, sem dar importância ao que outros diriam, acrescentei:

Se o tempo parasse agora, nesta exata clara manhã. Se a orquídea fosse a mesma orquídea hoje e sempre. Se o movimento das pétalas, se as cores das macias pétalas, se as formas e os perfumes e o frescor das pétalas fossem eternas, se este encanto para os olhos fosse imorredouro, ah, nem assim a orquídea, a rara flor do campo atingiria a graça do ser que és, menina que deixas a infância.

Pois saibas que nove anos depois, nove para mim, infinitos para ti, saibas que depois dessa imensa infinitude o meu amor mudou. Nada é estático, tudo está em ebulição, bem sabes. Mas é também da natureza viva, das coisas vivas, que a transformação tenha um caráter e um sentido, algo como uma predestinação, se por predestinação podemos entender o futuro do embrião, que sempre está em mudança. Em poucas palavras, senhorita, o meu amor mudou, mas guarda e preserva um caráter que eu não sonhava naquele belo dia, quando nada adivinhava da noite futura. Ele tem e guarda uma característica que agora compreendo: é amor esquisito e raro, porque amadurece e cresce com os teus anos. De sorte e de forma que bem podemos dizer, predizer, ver e sentir: quando eu tiver 100 anos, e tu, Luanda, 63, sabes o que dirão o que nos cercam, os que nos cercarão? Imagina, porque sei agora os rumores de toda a gente: – “Dizem por aí que são pai e filha, mas todos sabem que não passam de dois bons e velhos companheiros”.

Por isso, antes desse remoto futuro, concluo agora como há infinitos nove anos concluí:

no dia do teu aniversário, pediste-me primeiro Neruda. Fiquei contente, exultei. Depois, mais prática, achaste melhor ganhar um par de sapatos. Minha resposta foi um silêncio. Os sapatos se gastam, eu não te disse, porque talvez eu não fosse compreendido. Nada te dei. Agora espero que ao fim destas linhas me compreendas, porque assim te saúdo:

Luanda de Angola, Luanda dos negros, Luanda de todas as raças, esta canção é o presente que te fiz na força dos teus jovens anos.

Caderno de classificados

por Urariano Mota

capainterna1

Nos jornais existe uma seção, um caderno que reflete melhor a sociedade que as notícias da primeira página. Os anúncios classificados, que se publicam ao fim das edições, revelam sempre uma pista segura de como age e anda o mundo.

Diferentemente da primeira página, que se faz ao gosto de quem organiza e hierarquiza os fatos de todos os dias, os anúncios publicados lá no último caderno se fazem conforme a gente da cidade, que em linhazinhas breves, em espaços curtos fala. Ali, quase toda a gente pede, oferece e propõe do jeito que as coisas e as pessoas são, ou melhor, revela-se no como gostaria que coisas e pessoas fossem. Numa palavra, compra-se, ou vende-se, conforme a natureza dessa gente.

O passar das páginas dos classificados são como o movimento de um avião que não levantasse vôo sobre a cidade, como um carro com asas que visse o conjunto de habitações sem que fosse preciso subir. Como o passar de carro por uma cidadezinha muito especial, lugar onde se mostram casas de todas as cores, tamanhos e arquitetura.

O mais engraçado, nessa cidade entrevista, é o corte bruto, sem consideração ou piedade para o sofrimento ou a alegria. É a passagem sem transição da mercadoria para o afeto da gente. Ali é o lugar de uma feira original, uma feira de tudo. Da mulher de que se necessita ao telefone que se vende. Do transplante de fígado, urgente, ao coração exposto, nu, sem pudor à luz do dia. Do engraçado, do cômico, ao Correio Sentimental na seção de Serviços Profissionais, vindo logo antes do Esoterismo/Místicos.

Nessa feira vai-se da tragédia ao prosaísmo, entra-se no amor e sai-se no eletrodomésticos, porque no espírito da página quem manda é a ordem alfabética. Os Produtos Gráficos se acham ao lado das Massagistas, ainda que estas não façam tatuagens, e os Telefones se vendem junto ao Som/Vídeo, mesmo que toquem uma só canção, mecânica.

Imaginem os leitores de hoje o mundo daqui a cem anos. Imaginem a humanidade, se existir, daqui a cento e cinqüenta anos. Então imaginem nossos descendentes, se vivos forem, imaginem se eles poderão entender os hábitos que éramos, se lhes mostrarem a primeira página dos jornais de hoje. “Popularidade de Bush cai”. Nossos futuros, se houver, perguntarão, quem foi mesmo esse vegetal pequeno que se apelidava de Bush? Imaginem agora o leitor que nos sucederá nesses futuros anos ao ler estas linhas:

PROCURO HOMEM – Sem compromisso, 38 a 45 anos, que ainda acredite no amor.

Haverá linha mais eloqüente que expresse, a nossos pósteros, que em 2008 houve uma vez uma mulher sozinha, sofrida, que procurava alguém que AINDA acreditasse no amor? O advérbio aí é mais substancioso que nossa transformação em pó. AINDA. Isso dirá que essa mulher já sofrera, já se magoara muitas vezes, mas que era possuída pela humanidade, que não desertara da esperança. E nos compreenderão, se viverem, se lerem, quando lerem:

TENHO 50 anos. Solteira, nível superior. Procuro pessoa livre, nível superior, de bons sentimentos, de 50 a 55 anos e acredite no amor, que tenha mente aberta e esteja também à procura de alguém para sincera amizade ou algo mais. Caixa Postal…

Não importa se o anúncio quer o difícil, o quase impossível. Se quer um homem de 55 anos que não esteja casado, que não esteja farto de tudo, que assim não estando procure a mulher ideal, e para algo mais que a amizade. Não importa. Pois não houve uma vez um professor em Água Fria que aos 65 anos ainda buscava a namorada de infância? Então é possível.

Em nome da inteligência dos que nos vêm depois, nem precisamos comentar os classificados que se seguem. Eles falam por si, das taras, dos tempos e das transgressões. “Casada infiel. Ligue e confira!”. “Menina linda, rostinho de anjo e sorriso encantador. Uma colegial superdanada! Para maiores de 40…”. “Bruna – bela travesti bronzeada para executivos”. “Tia & Sobrinha – Safadas e fogosas!”…. E como possível cura às frustrações dessas fantasias, uma nova, de certeiro homeopata: “Alberto – Resolve problemas amorosos.”

Os anúncios classificados, por serem comerciais, e porque vendem mercadorias, bem que poderiam ser lidos como um espelho invertido de desejos. De casas, de carros, de apartamentos, de objetos, de emprego, de sexo e de amor. De sonhos, de altos e baixos sonhos, do sublime e de quinquilharias. Feira da selva que legamos.

Dicionário Amoroso do Recife lançamento sexta-feira 28 de março

Dicionário Amoroso do Recife

 

Nesta sexta-feira, às 19 horas, na Livraria Cultura, no Paço da Alfândega, no Recife Antigo, o romancista Urariano Mota estará autografando o Dicionário Amoroso do Recife.

O Dicionário é fruto de um escritor que ama a cidade acima de tudo. Não foi à toa que o grande maestro Spok, o cara e a cara do frevo renascido, se referiu ao livro como se visse o Recife falando para os recifenses e para qualquer pessoa de fora, no Rio, em São Paulo, ou além das fronteiras do Brasil. Como um novo Pernambuco falando para o mundo.

De A até Z, o livro é um passeio pelas Igrejas, pela primeira Sinagoga das Américas, pelos terreiros, pelos mercados públicos, pelo elogio emocionante dos heróis do povo da cidade.

Um dicionário da humanidade pernambucana. Da gente do Recife, “da encantadora gente do Recife, que às vezes sufoca a gente de emoção e ternura, de um carinho que rasga o solo como uma flor no asfalto duro”.

De Eutanasinha, a criança flagrada na inocência da fantasia de princesa do carnaval. De Clarice Lispector a ver o frevo na rua. Da descoberta de uma qualidade rara em Dom Hélder Câmara. E muitas homenagens, recuperação de pessoas ilustres e queridas do Recife, desta vez salvas para sempre como exemplos e modelos de pessoas da cidade.

Quem? Não perguntem quem, perguntem como são e vivem essas pessoas. Do ser que são virá a sua fama.

Humor, poesia, drama, como de resto é feita uma cidade grande cujo crescimento se dá na memória e no afeto.

E mais: o novo centro do Recife.

E qual o gênero da cidade? Recife é macho ou fêmea?

Revelações como a passagem de Gagárin no Recife, a origem do nome Zumbi para um bairro. E as mulheres do Marrocos, o teatro de sexo do sonho dos meninos. O Mercado da Boa Vista.

Este é um Dicionário para o Recife “que está mais em seu povo que em todos os monumentos, pontes, rios e edifícios. Aquela cidade que vista de cima, no avião que chega, acende um calor, uma alegria e uma felicidade sem palavras, somente fogo íntimo”.

“Estamos de volta, Recife”, e quem volta suspira em silêncio, pouco importando se esteve fora um mês, um ano ou dois dias.

“Quem é do Recife, quem já viveu no Recife ou quem passou um tempo no Recife, sempre dirá: eu tenho um caso pessoal com esta cidade”.

O Dicionário Amoroso do Recife é obra de toda uma vida na cidade, “um lugar possuidor de visco e modo de ser” que acompanhou e acompanha o autor sempre.

Nele, os significados vêm “na nuvem da memória e do sentimento. A memória a falar daquilo que a marcou. Falando para todos os humanos a humanidade do Recife”.

Urariano Mota

 

convite_vert_Recife

Imperdível! Urariano Mota lança o Dicionário Amoroso do Recife

UM LIVRO SOB ENCOMENDA PARA UM AMANTE DO RECIFE

 

dic amoroso do rec

O escritor Urariano Mota lança o Dicionário Amoroso do Recife neste 28 de março, às 19 horas, na Livraria da Cultura, no Paço da Alfândega.

Da notícia no jornal Metro:

“Escritores locais apresentam cidades-sedes da Copa em guias.

É tempo de Copa do Mundo de Futebol. Uma das boas ideias é a série de guias ‘Dicionário Amoroso’, proposta pela editora baiana Casarão do Verbo em torno das 12 cidades-sedes do torneio. Os livros, porém, apresentam um conteúdo que passa longe do que se costuma ver em volumes do gênero ao mostrar cada capital a partir do olhar de autores locais sobre lugares que marcaram suas vidas.
A ideia do projeto surgiu a partir do ‘Dicionário Amoroso da França’, lançado em 2008 pelo escritor francês Denis Tillinac. Na versão brasileira, o conceito é de textos que consigam traduzir as cidades do modo mais instigante possível.
O  Dicionário Amoroso do Recife do romancista Urariano Mota tem ilustração do artista Leonardo Filho”.

Urariano Mota

Urariano Mota

Do release para o lançamento do livro:

O Dicionário Amoroso do Recife é fruto de um escritor que ama a sua cidade acima de tudo. Sobre o livro, o maestro SPOK falou:

“Em muitos capítulos, eu me senti como se estivesse vendo o Recife. Ou então falando do Recife para os recifenses, e também para qualquer pessoa de fora, em São Paulo, no Rio, ou de fora do Brasil.
Eu li o que Urariano Mota escreveu para Nelson Ferreira como uma aula de mestre sobre um dos gênios do carnaval pernambucano. Em várias páginas do dicionário, tem hora que dá vontade de chorar, tem hora que dá vontade de rir, quando ele fala das histórias e pessoas do Recife.
Como na história engraçada de uma entrevista com Ariano Suassuna. Como na parte de Antonio Maria, no diálogo com um guia turístico no Recife Antigo. Como no Sotaque do Recife também. E na história dos velhinhos no ônibus, em Gente do Recife.”
De A até Z, o livro é um passeio pelas Igrejas, pela primeira Sinagoga das Américas, pelos terreiros, pelos mercados públicos, pelo elogio emocionante dos heróis do povo da cidade. Um dicionário da humanidade do Recife.

Antonio Maria

Bola no fotógrafo
.
por Urariano Mota
Antonio Maria

Antonio Maria

A memória da gente anda muito esquecida. Quase ninguém lembrou os 88 anos do nascimento de Antonio Maria. Se em toda a grande e média imprensa nada se disse, não foi por falta da importância de um certo Antonio Maria, que se apresentava como “cardisplicente”, mistura de doente do coração com displicente. E tanta coisa havia e há para falar sobre ele!

Nascido no Recife em 17 de março de 1921, se apenas fosse compositor, deveria ter merecido registros e especiais no rádio, na televisão e nos jornais. Autor de 62 músicas, de canções eternas como Frevo número 1, Ninguém me ama, Manhã de carnaval, Menino grande, Suas mãos, O amor e a rosa, Valsa de uma cidade, e, de passagem, digamos assim, autor desta vã promessa, “nunca mais vou fazer o que o meu coração pedir, nunca mais ouvir o que o meu coração mandar”, haveria muito o que falar sobre esse compositor de letras que são a ternura em quintessência.

Num coluna de revistas de curiosidades e fofocas, poderia ser dito que foi marido de Danuza Leão, roubada por ele do seu patrão, o grande jornalista Samuel Wainer. E que, ao receber o troco mais adiante, ficando só, morreu de fossa e de amor, em uma madrugada três e cinco, talvez. Que feio, grande e gordo, conquistava mulheres pelo poder da lábia e da inteligência. Que foi ameaçado por Sérgio Porto (sim, o Stanislaw), por ter servido de conselheiro sentimental a uma namorada de Sérgio. E que ao se apresentar como Carlos Heitor Cony a uma madame, levou-a para a cama, para depois contar ao verdadeiro Heitor, “Cony, você broxou”. 

Mas ele poderia ter sido lembrado, reverenciado, e lido principalmente por suas crônicas, que estão entre as maiores e melhores já escritas no Brasil. Suas crônicas, quase dizia, suas mãos, misturam humor, crueldade e lirismo, a depender dos dias e da sua vida, que não eram iguais, para ele ou para ninguém. Como neste perfil arguto de Aracy de Almeida: 

“Não é bonita, sabe disso e não luta contra isso. Não usa, no rosto, baton, rouge ou qualquer coisa, que não seja água e sabão. Ultimamente corta o cabelo de um jeito que a torna muito parecida com Castro Alves… Faz de cada música um caso pessoal e entrega-se às canções do seu repertório como quem se dá um destino. Não sabe chorar e não se lembra de quando chorou pela última vez. Mas a quota de amargura que traz no coração, extravasa nos versos tristes de Noel: `Quem é que já sofreu mais do que eu?/ Quem é que já me viu chorar?/ Sofrer foi o prazer que Deus me deu´… e vai por aí, sem saber para onde, ao frio da noite, na espera de cada sol, quando o sono chega, dá-lhe a mão e a leva para casa”

Ou aqui, dias antes de morrer:

“Há poucos minutos, em meu quarto, na mais completa escuridão, a carência era tanta que tive de escolher entre morrer e escrever estas coisas. Qualquer das escolhas seria desprezível. Preferi esta (escrever), uma opção igualmente piegas, igualmente pífia e sentimental, menos espalhafatosa, porém. A morte, mesmo em combate, é burlesca…

Só há uma vantagem na solidão: poder ir ao banheiro com a porta aberta. Mas isto é muito pouco, para quem não tem sequer a coragem de abrir a camisa e mostrar a ferida”.

E por fim aqui, nestas considerações sobre o sono:

“** Ah, que intensos ciúmes, no passado e no futuro, sobre a nudez da amada que dorme! Só você a viu, só você a verá assim tão bela!

** Nas mulheres que dormem vestidas há sempre, por menor que seja, um sentimento de desconfiança.

** A amada tem sob os cílios a sombra suave das nuvens.

** Seu sossego é o de quem vai ser flor, após o último vício e a última esperança.

** Um homem e uma mulher jamais deveriam dormir ao mesmo tempo, embora invariavelmente juntos, para que não perdessem, um no outro, o primeiro carinho de que desperta.

** Mas, já que é isso impossível, que ao menos chova, a noite inteira, sobre os telhados dos amantes”

A boa memória conta que Antonio Maria exclamava no rádio, ao ver um jogador chutar fora do gol: Bola no fotógrafo!.Nesse último 17 de março, para a mídia que não o lembrou, também vale dizer: bola no fotógrafo.
(Publicado no Literário)
 

Frevos de Antonio Maria

am 1

Ai, ai, saudade
Saudade tão grande
Saudade que eu sinto
Do Clube dos Pás, dos Vassouras
Passistas traçando tesouras
Nas ruas repletos de lá
Batidas de bumbo
São maracatus retardados ‘
Que voltam pra casa cansados
Com seus estandartes pro ar
Quando eu me lembro
O Recife tá longe
A saudade é tão grande
Eu até me embaraço
Parece que eu vejo
O Haroldo Matias no passo
Valfrido e Cebola, Colasso
Recife tá perto de mim
Saudade que eu tenho

São maracatus retardados
Que voltam pra casa cansados
Com seus estandartes pro ar

 

.

 

antonio-maria

.

Ai que saudade vem do meu Recife
Da minha gente que ficou por lá
Quando eu pensava, chorava, falava
Dizia bobagem, marcava viagem
Mas não resolvia se ia
Vou-me embora
Vou-me embora
Vou-me embora
Pra láMas tem que ser depressa
Tem que ser pra já
Eu quero sem demora
O que ficou por lá
Vou ver a Rua Nova,
Imperatriz, Imperador
Vou ver, se possível
Meu amor.
.
.
3
Alexandre Nix:  Antonio chutava corações – normalmente o próprio

Alexandre Nix:
Antonio chutava corações – normalmente o próprio

.
.
Sou do Recife com orgulho e com saudade
Sou do Recife com vontade de chorar
O rio passa levando barcaça pro alto mar
E em mim não passa essa vontade de voltarRecife mandou me chamarCapiba e Zumba a essa hora onde é que estão
Inês e Rosa em que reinado reinarão
Ascenso me mande um cartão
Rua antiga da Harmonia
Da Amizade, da Saudade, da União
São lembranças noite e dia
Nelson Ferreira toque aquela introdução.
.

O que é a literatura?

Por Urariano Mota

Adianto aqui algumas notas, com muita afoiteza. Se algum valor estas notinhas tiverem, a culpa é do acaso ou da sorte.

Há muita confusão entre ficção e invenção, e haja rima para tamanha falta de imaginação. Olhem, com paciência, olhem. Somente este ponto mereceria um trabalho mais profundo, desenvolvido por mãos bem menos incompetentes que as minhas. Mas com paciência e boa vontade, acompanhem, por favor, olhem, notem e reflitam.

O fato, elementar, de um trabalho de ficção ser absolutamente distinto de um relato objetivo, de um relatório, de um retrato, de uma foto batida por máquina, deu e dá margem a todo tipo de mito e mistificação. Ao comum da gente que sempre “adivinhou”, percebeu, viu personagem, narração, como um fiel retrato do autor, os escritores sempre responderam muito bem que a ficção é livre do factual, que, liberta do ocorrido puro e simples, a ficção mais falava a possibilidades que a fatos. Daí se caiu em outro extremo: se assim é, a falar do que não ocorreu, a ficção é puro invento. E o bom escritor, portanto, seria o de poderosa imaginação, porque, afinal, sua obra navega no mundo da fantasia. Etc. etc. etc.

Pensemos. Em nível geral, abstrato, dizemos, cobertos de fatos concretos, que o real é que é inesgotável. O real é o dom supremo. A maior fantasia, a jamais imaginada invenção é a realidade. Para não ir muito longe, pensemos somente neste ser que vemos todos os dias, o homem. E imaginemos se algum deus, se o Deus mais inspirado poderia algum dia inventar este ser fedorento, que ama, defeca, cria e gargalha. Este produto da realidade é que é a maior invenção. Sábio e maravilhoso e profundo e genial é o artista que o vê. Como Cervantes com o Dom Quixote, para citar um só gênio. E quando dizemos real, referimo-nos também às possibilidades disformes, conformes e multiformes do homem e da sua criação. O real é o todo, o real é o absoluto.

Cheguemos agora mais perto da imaginação. É um desastre mais que conceitual, ora ingênuo, ora cínico, ora cênico, ora estúpido, o acreditar que a literatura é obra da pura imaginação, e por imaginação o substantivo implícito, o miserável e empobrecido conceito de que imaginação é o sonhar além, sem lei da gravidade, uma criação acima e fora do mundo. Solta, além de toda e qualquer limitação. Ora, muito bem imagina quem melhor observa. Isso quer dizer, por um lado, que a imaginação sempre se exerce sobre o existente, anterior ao imaginar. Por outro lado, que a imaginação é uma imitação do que antes de si foi criado, mas com um salto, uma descoberta, fruto de uma pesquisa livre. Mesmo quando o artista disso não se dê conta, não perceba, conscientemente. Nenhum homem nem criador se diz, “bem, agora é hora de observar”. Ele faz, ele observa, como uma imposição do seu modo de ser. Até mesmo como uma condenação, muitas vezes como um conflito do qual não pode fugir.

Daí que chega a ser estúpido, pueril, o dizer, ou pior, o fazer um livro, um romance, ou o que se queira criar, na vã e fútil crença de que a criação é fantasia, invenção! Por Zeus, não é assim, desde os trágicos gregos, passando por Kafka e Proust, até Hesse, Mann e João Cabral de Melo Neto, não é assim. As pessoas não veem, ou não querem ver, que o grande e vasto mundo criado por Balzac possuía bases sólidas na França das ruas observada. Balzac seguia, perseguia o que no futuro seria personagem. As pessoas não veem, ou não querem ver que Da Vinci perseguia bêbados, devassos, marginais, para mais adiante transformá-los em seres evangélicos. A mais santa e imaculada Virgem Maria tem formas e seios de mulher parideira, será que não percebem? O que é mesmo A Metamorfose de Kafka a não ser a discriminação, o desprezo e vergonha que damos a nossos amados parentes, quando caídos em desgraça? Será que não veem que o Doutor Fausto, de Thomas Mann, não existiria sem a realidade nazista? Os exemplos são infinitos, melhor dizendo, finitos em número, mas tão fundos que parecem não ter fim. O contrário a essa realidade universal, o que poderia ser puro exercício da imaginação, se isso é possível, é sempre um rotundo e acabado fracasso.

Queremos dizer, a literatura para o escritor é um destino, uma determinação de vontade, o desejo de um lugar único, e somente único, não mais que único, sem jamais pensar em qualquer outra riqueza, a não ser esta honra suprema, como por ela enlouquecia Lima Barreto:

“Eu quero ser escritor, porque quero e estou disposto a tomar na vida o lugar que colimei. Queimei os meus navios; deixei tudo, tudo, por essas coisas de letras”.

Notem o quanto é estranha a frase de Lima do marketing, que se tornou o próprio fazer literário. Há casos, e certamente o exemplo não é só brasileiro, há casos de escritores que recebem resenha e críticas elogiosas antes, bem antes de o livro ser escrito. É uma consagração antecipada, por ovo futuro, que a galinha ainda não pôs nem botou.

Esse fazer literatura, diria melhor, esse “acontecer” literatura, termina por trazer para a escrita o próprio mundo do business, que no Brasil, em se tratando de arte de massas, é voltado para o mundo da música popular e da televisão. O compositor, o astro da telinha, é que é, tão bom ou melhor que a coca-cola: poeta, gênio, galã, ator, conselheiro, guru, modelo, pensador, cineasta, cantor, humorista e, até, acreditem, músico. Nessa ordem. A isso se acrescenta, neste novo tempo: escritor. E acontece então um paradoxo, na melhor das hipóteses uma ambivalência: diante de intelectuais, o astro pop finge que é só escritor. Diante de colegas, afirma que é só artista na mídia. Para ser fiel às suas profundas leituras e formação literária, deveriam se apresentar sob o pseudônimo de Don Diego, o próprio Zorro da Califórnia. Com a máscara, literato. Sem ela, celebridade.

E a literatura, sei que estão perguntando, e a literatura, o que é? Posso responder numa próxima?


Ilustração Nadia Gal Stabile

Soledad no Recife, de Urariano Mota

O livro Soledad no Recife percorre as veredas dos testemunhos e das confissões ao reviver a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, e a traição que culminou em sua tortura e assassinato pela ditadura militar.

Delatada pelo próprio companheiro Daniel, conhecido depois como Cabo Anselmo, Soledad morre com um grupo de candidatos a guerrilheiros, na capital pernambucana, pelas mãos da equipe do delegado Sérgio Paranhos Fleury. O episódio ficou conhecido como “O massacre da chácara São Bento” e revelou-se mais um extermínio do que um confronto armado.

A trama real inspira o romance em que Urariano Mota – com a propriedade de que viveu e sobreviveu aos anos pós 1964 – resgata os vestígios da traição arquitetada contra Soledad e contra o País naqueles tempos, com o olhar reflexivo de quem se volta ao passado. A vida e morte de Soledad é um forte contraponto a “história oficial” propagada pela mídia na época e um testemunho da violência do Estado.

Nas palavras de Flávio Aguiar, que assina a apresentação da obra, Soledad no Recife é a recuperação de uma história, “como preito àquelas vidas que se doaram e foram ceifadas pela traição inesgotável que foram o golpe e à ditadura de 1964 ao seu próprio país – traição espelhada na de Anselmo ao amor que, sabe-se lá por que, despertou em Soledad”.

Trecho do livro
Naqueles anos, o amor era uma alienação. É claro, disso sabemos agora. Se nos afirmassem isso então, reagiríamos irritados. Sem pensar, haveríamos de dizer: “na ordem do dia, existem ações mais urgentes que namorar e tocar as mãos”. E namorar e tocar as mãos, que púnhamos no lugar do amor, era uma brutalidade para destacar o ridículo de ficar pegando mãos, em lugar do mais prático e forte, foder e foder para toda a vida. Era uma brutalidade que não reconhecia na ternura uma instância legítima.

Trecho da Apresentação de Flávio Aguiar
De qualquer modo, nas ditaduras não se perde apenas a liberda¬de de expressão, como vê o pensamento liberal. Sim, perde-se o espaço da expressão, mas também o amor perde a liberdade. Ele é tornado impotente. As pessoas ficam isoladas, amargas, cobertas anos e anos por cicatrizes. Os que veem a morte de frente, às vezes de olhos arregalados na tortura, sabem por que estão morrendo: de certo modo, foram traídos pelo próprio amor. Os que sobrevivem, não sabem por que sobreviveram: são traídos no seu amor-próprio.

Sobre o autor
Urariano Mota, 59 anos, é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. Atualmente, é colunista do Direto da Redação e colaborador do Observatório da Imprensa. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Os corações futuristas (Recife, Bagaço, 1997), um romance de formação, que se passa sob a ditadura de Emílio Garrastazu Médici (1969–1974).

PUBLICAÇÕES NA IMPRENSA:
26/07/2009 – Blog do Luis Nassif – Soledad no Recife, recriação dos anos de terror – 
29/07/2009 – Blog do Zé Dirceu – Soledad no Recife – Zé Dirceu
31/07/2009 – Carta Capital – Confiança e traição – Camila Alam
01/08/2009 – Site Via Política – Soledad no Recife – Mouzar Benedito
08/08/2009 – Diário de Guarulhos – Escritor recupera fragmentos de uma história esquecida – Paulo Carneiro
08/08/2009 – Jornal do Commercio – De eleições e guerrilha – Juracy Andrade 
13/08/2009 – Brasil de Fato – A guerrilheira que amava, a flor que lutava – Eduardo Sales de Lima 
13/08/2009 – Brasil de Fato – A “luz da lua” sobre o rosto de uma mãe – Da Reportagem
13/08/2009 – Brasil de Fato – … “ele viveu” – Da Reportagem
14/08/2009 – Diário de Pernambuco – Bastidores de um massacre – André Duarte
14/08/2009 – Jornal do Commercio – Livro relata massacre da ditadura – Da Redação
14/08/2009 – Globo Nordeste – pe360graus – Livro reconstitui trajetória da militante política Soledad Barret no Recife – 
14/08/2009 – CBN Recife – Cesta de livros – Entrevista com Urariano Mota, autor de Soledad no Recife Éden Pereira 
01/09/2009 – Revista Espaço Acadêmico – Um livro apaixonado e revelador – Mouzar Benedito
06/09/2009 – O Estado de S. Paulo – Uma crônica da morte anunciada – Paulo Sérgio Pinheiro*
07/09/2009 – Jornal do Commercio – Soledad, Cabo Anselmo e um massacre – Paulo Augusto
11/09/2009 – Revista Brasileiros – Ficção poética e muito real – Mouzar Benedito
03/10/2009 – Jornal O Globo – Ficção para narrar a dor – Letícia Lins
10/10/2009 – Jornal O Povo do Ceará – Soledad, a mulher do cabo Anselmo – Urariano Mota
10/10/2009 – Blog No Rastro da Educação, Cultura e Política – Sol: a mártir do pernambucano Urariano Mota – Luiz de Almeida
23/10/2009 – Agência Carta Maior – Sol: a mártir do pernambucano Urariano Mota – Luiz de Almeida 
03/11/2009 – Blog Mosaico – Diário da paixão e da infâmia – Memélia Moreira
09/11/2009 – Site da Revista Brasileiros – Entrevista com Urariano Mota – Imagens e edição: M. Coil / Reportagem: Mario J. Silva
07/01/2010 – Nova cultura – Um monumento às vitimas – Michael Kegler
11/01/2010 – Literário – Entrevista com Urariano Mota – “Sou, acima de tudo, amante de Literatura, para mim arte e atividade suprema” – Pedro Bondaczuk
01/07/2010 – Revista Literatura e Autoritarismo – Dossiê Escritas da Violência – Soledad no Recife –Urariano Mota
28/07/2010 – Tribuna do Norte – Livro – Redação
28/07/2010 – Direto da Redação – Soledad, a mulher do cabo Anselmo – Redação
07/08/2010 – Interpoética – Urariano Mota – Marco Albertim
12/03/2011 – Vermelho – Soledad, a mulher do Cabo Anselmo – Urariano Mota
19/09/2011 – Portal Vermelho – Quando o intelecto alia-se à paixão – Pedro J. Bondaczuk
17/10/2011 – Carta Maior – Soledad, a mulher do Cabo Anselmo – Urariano Mota
17/10/2011 – Vi o mundo – Blog do Azenha – Urariano Mota: O Cabo Anselmo, a ditadura, o Roda Viva e a Folha – Conceição Leme
19/10/2011 – Folha de S. Paulo – Ilustrada – Entrevista com cabo Alselmo esquentou volta do ‘Roda Viva’ – Nelson de Sá

 

 Compre o livro aqui