Carlos Gurgel traducido por Leo Lobos

eu_Giovanna_Hacradt

 

Selección, traducción y notas por Leo Lobos
Fotografía por Giovanna Hackradt Rêgo

A LO LARGO DEL TIEMPO

.

a lo largo del tiempo
preparamos tempestades, fugas
festejamos madurez, conciencia

a lo largo del tiempo
soportamos ofensas, olvidos, partidas

como
si nos fuese facultado el derecho
de nuestra propia desconstrucción

a lo largo del tiempo
perdemos embrutecidos como una piedra la razón
caminamos alrededor de una misma montaña

disfrazados con una armadura
frágil y falsa

a lo largo del tiempo
prisioneros acompañamos
la vida

como si sólo así
pudiésemos verla

a lo largo del tiempo
partimos

y ya no podemos sentir
el gusto de la mañana
y de la cara de la luna que reina

 

EL PODER DE LAS PIEDRAS

.
entienda

de una vez por todas:
todo lo que te di

es fruto

del descrédito humano
entonces

soy una muchedumbre

me llamo insomnio y hambre
otro día

próximo a un trampolín

soñé que sabría entender la ilusión

de celebrar mosquitos y follajes
y por un buen tiempo

mirando el mar

escuche el sonido

de cientos de diluvios semejante a un albergue

que acoge

ostras

y el hospicio de una nostalgia
confieso:

es por la sombra

donde se revela

el color de un sentimiento
y te digo:

en aquella playa

yo sé

un día

me será dado

el poder de piedras

y miedos imperturbables

 

LUZ DEL DÍA

.
ahora

de la ventana del cuarto donde estoy

recuerdo todo lo que aconteció

cuando te vi por la primera vez
era temprano

cuando nos encontramos en la plaza

y nos sentamos en la banca

y hablamos de todo lo que hace mucho paso
era como sí la nostalgia

despertase nuestros rostros

tan distantes de una hermosa contemplación
y las flores que suspiran por el jardín sus esperanzas

sentirán por los nuestros ojos

que la vida pasa
entre la sombra de un árbol secular

y la palabra tan febril que de tanto pensar

lentamente adormece

 

VENDAVAL

.
¿quién es usted

que llega de madrugada y me asesina

con sus garras de barro

ensuciando mis sueños y deslices?
¿quién es usted

con esa cara de malo

que desarregla el cotidiano de mierda

pronto para entregarse

en la primera esquina del apocalipsis?
¿quién es usted

que lacera mi cara

como sanación de mis fugas

sin fuerza y visión

para protegerme de las lluvias y los desmayos?
¿quién es usted

que me acusa de falso y traidor

que me sofoca

y estrangula mis lágrimas y lugares

como espantapájaros de una rosa roja

que explota entre la esquina y el retorno?
¿quién es usted

que me hace renacer entre cenizas

como vigía de intuiciones modernas

y la lúgubre rutina del pasado?
¿quién es usted

que se hace árbol

de símbolos, signos y cítaras

tan afortunado de mapas y ruteros

como una jirafa

que ve el mundo desde arriba

rociando impaciencia y recados?
¿quién es usted

que ya no sabe su nombre

que sacude los dientes de una lengua vacía

semejante a una fiebre de enfermo

parecida a una tragedia preñada de alergia?
¿quién es usted

que me acusa de fantasma

de ladrón sin límites

de su protector entre torres y castillos

ruidos sin esperanza, porvenir, ni mañana?
¿quién es usted

que me detesta y blasfema

sacrifica a mis pies, hijos

mañanas, alimentos y suerte?
¿quién es usted

solitario, que me dice lo que debo hacer

sin costilla, respiración, creencia, destinatario

mar, juicio, vestimenta y demente?

 

 

Em portos de desamor não se louvam as chegadas

[TRADUÇÕES DO MEDO]

amor violão mulher

por Elane Tomich

Olha, bem sei o segredo
das traduções do medo.
em qualquer canção e letra

O olho do amor que me espreita
tem uma relação estreita
com minha entrega e, decerto
nunca sei bem querer certo

O meu ombro ampara assombros
que alimentam meu espanto.
Já segurei muito escombro
em barras de despedidas
onde corpos ancorados
acenavam para as idas
que em portos de desamor
não se louvam as chegadas

De gente assim tão doída
mutilada e alquebrada
em histórias de saída
choravam em qualquer cor
Era um arco-íris de dor

O meu erro é de nascença
acerto em toda carência
não importa o cerne, a cadência
e planto em meu coração
cactos de amor deserto
suspenso entre o céu e o chão

Olha, bem sei o segredo
de qualquer canção e letra
em traduções do medo

SENTIMENTO DEL MONDO. Carlos Drummond de Andrade

sala

 

 

 

Ho soltanto due mani
e il sentimento del mondo,
ma sono pieno di schiavi,
i miei ricordi scorrono
e il corpo transige
nella confluenza dell’amore.

Quando mi alzerò, il cielo
sarà morto e saccheggiato,
io stesso sarò morto,
morto il mio desiderio, morto
il pantano senza accordi.

I compagni non hanno detto
che c’era una guerra
e che era necessario
portare fuoco e viveri.
Mi sento disperso,
anteriore a frontiere,
umilmente vi chiedo
che mi perdoniate.

Quando i corpi passeranno
io resterò solo solo
capeggiando la memoria
della guardia, della vedova e del microscopista
che abitavano la baracca
e non furono ritrovati
all’albeggiare

quest’albeggiare
più notte della notte.

 

 
In lingua originale:

SENTIMENTO DO MUNDO

Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo,
mas estou cheio de escravos,
minhas lembranças escorrem
e o corpo transige
na confluência do amor.

Quando me levantar, o céu
estará morto e saqueado,
eu mesmo estarei morto,
morto meu desejo, morto
o pântano sem acordes.

Os camaradas não disseram
que havia uma guerra
e era necessário
trazer fogo e alimento.
Sinto-me disperso,
anterior a fronteiras,
humildemente vos peço
que me perdoeis.

Quando os corpos passarem,
eu ficarei sozinho
desfiando a recordação
do sineiro, da viúva e do microscopista
que habitavam a barraca
e não foram encontrados
ao amanhecer

esse amanhecer
mais noite que a noite.

 

 
Traduzione dal Portoghese di Antonio Tabucchi.

cda

Carlos Drummond de Andrade è il più importante poeta brasiliano del Ventesimo secolo.

 

Sem limites

por  Carlos Sanchez

 

 

 

Me inundo de imensidade

nesta vida incompreensível

te escrevo

me escrevo

nós escrevemos

nesta limitação do ser

que são as palavras.

Amo tuas emanações invisíveis

meu toque que te completa

nesta estranha conexão

de fibras y canais.

Sou junto a ti

esta parte incompleta

que pressente o todo.

E essa unidade

devora

os meus limites.

 (Tradução de Talis Andrade)
livro Carlos

SENZA LIMITI

 

M’inondo di immensità

in questa vita incomprensibile

ti scrivo

mi iscrivo

c’iscriviamo

in questa limitazione dell’essere

che sono le parole.

Amo le tue emanazioni invisibili

il mio tatto che ti completa

in quella estranea connessione

di fibre e canali.

Sono vicino a te

questa parte incompleta

che presente il tutto.

E questa unità

si divora i miei limiti.

 

Os elementos que devem ser levados em conta na tradução poética

por Paulo Henriques Britto

A tradução é uma forma de reescrita; traduzir é reescrever um texto numa língua diferente. O objetivo é produzir um texto que possa substituir o original, para aqueles que desconhecem o idioma em que ele foi escrito. O tradutor é, pois, um tipo específico de autor.

Contar a história e imitar o estilo

O trabalho do tradutor exige que ele não apenas conte a mesma história contada por Tolstói, mas também que imite as peculiaridades de Tolstói como escritor, aquilo que encaramos como suas marcas de estilo: seu jeito de apresentar os personagens, de comentar toda a ação de um plano superior que lhe confere uma autoridade quase divina, sua maneira de utilizar a sintaxe etc.

Todas as exigências feitas à tradução de um texto em prosa ficcional se impõem ao tradutor de poesia. Quando me proponho a traduzir um poema de Emily Dickinson, meu objetivo é produzir um texto que seja um poema em língua portuguesa e que também seja, de algum modo, um poema de Dickinson.

É preciso ‘dizer a mesma coisa’ que Dickinson diz, e também dizê-lo do modo como ela o diz no inglês, um idioma muito diferente do português.

Transcrevi trechos

De William Ernest Henley

INVICTO
(Tradução Thereza Christina Rocque da Motta)

Da noite escura que me cobre,
Como uma cova de lado a lado,
Agradeço a todos os deuses
A minha alma invencível.

Nas garras ardis das circunstâncias,
Não titubeei e sequer chorei.
Sob os golpes do infortúnio
Minha cabeça sangra, ainda erguida.

Além deste vale de ira e lágrimas,
Assoma-se o horror das sombras,
E apesar dos anos ameaçadores,
Encontram-me sempre destemido.

Não importa quão estreita a passagem,
Quantas punições ainda sofrerei,
Sou o senhor do meu destino,
E o condutor da minha alma.


INVICTUS

Out of the night that covers me,
Black as the Pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.

In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.

Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds and shall find me unafraid.

It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul.