Todo olhar é denso quando contempla o outro

Areal

Existe, além da parede,
a espessa aspereza do tempo.
Todo olhar é denso
quando contempla o outro.
(Mergulhamos na fotografia
impressa da memória
e ficamos retidos,
adereços discretos da paisagem.)
Espera o fruto.
A hora se biparte e o alçapão está fechado.
Atinges o momento do ciclone,
a órbita aberta do planeta.
Espera a volta.
Teus ombros nus encostados na parede,
tua face na penumbra,
retendo as luzes do quarto.

 

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In “Areal”, de Thereza Christina Rocque da Motta (Dolphin, 1995).

A entrevista de Cleonice Serôa da Motta Berardinelli (vídeo)

por Thereza Rocque da Motta

Cleonice

A entrevista de Cleonice Serôa da Motta Berardinelli a Roberto D’Ávila, na madrugada de sábado, foi uma delícia. E a leitura dos poemas de Pessoa com Maria Bethania uma diversão. As duas pontuando o poema “As cartas de amor são ridículas” estava hilário. Um beijo para minha prima querida. Este ano ela completa 99 anos dia 28 de agosto.

http://globotv.globo.com/globo-news/roberto-davila/t/roberto-davila/v/roberto-davila-aos-98-anos-cleonice-berardinelli-fala-da-paixao-pela-poesia/4087516/

Sonetos Portugueses de Browning

SONETO XXXI
De Elizabeth Barrett Browning
Tradução de Thereza Rocque da Motta

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Tu vens! Tudo é dito sem nenhuma palavra.
Sento-me à tua vista, como as crianças
Ao sol do meio-dia, com as almas trêmulas através
Das pálpebras felizes por sua inadvertida
E pródiga alegria interior. Vê, eu errei
Nesta última dúvida! Mesmo assim não posso lamentar
Mais o meu pecado, mas o momento – em que ambos
Deveríamos por um instante pausar libertos
Por nossa mútua presença. Ó, fica perto de mim,
Com tua doçura de pomba! E, quando eu tiver medo,
Com teu largo coração serenamente interpõe:
Acaba com tua divina segurança
Esses pensamentos que tremem desolados por estes,
Como pássaros inexperientes abandonados aos céus.


in Sonetos Portugueses

Elizabeth Browning

Thou comest! all is said without a word.
I sit beneath thy looks, as children do
In the noon-sun, with souls that tremble through
Their happy eyelids from an unaverred
Yet prodigal inward joy. Behold, I erred
In that last doubt! and yet I cannot rue
The sin most, but the occasion—that we two
Should for a moment stand unministered
By a mutual presence. Ah, keep near and close,
Thou dovelike help! and, when my fears would rise,
With thy broad heart serenely interpose:
Brood down with thy divine sufficiencies
These thoughts which tremble when bereft of those,
Like callow birds left desert to the skies.

sonetos portugueses

Noturno de Ariano Suassuna

Ariano

Têm para mim Chamados de outro mundo
as Noites perigosas e queimadas,
quando a Lua aparece mais vermelha
São turvos sonhos, Mágoas proibidas,
são Ouropéis antigos e fantasmas
que, nesse Mundo vivo e mais ardente
consumam tudo o que desejo Aqui.

Será que mais Alguém vê e escuta?

Sinto o roçar das asas Amarelas
e escuto essas Canções encantatórias
que tento, em vão, de mim desapossar.

Diluídos na velha Luz da lua,
a Quem dirigem seus terríveis cantos?

Pressinto um murmuroso esvoejar:
passaram-me por cima da cabeça
e, como um Halo escuso, te envolveram.
Eis-te no fogo, como um Fruto ardente,
a ventania me agitando em torno
esse cheiro que sai de teus cabelos.

Que vale a natureza sem teus Olhos,
ó Aquela por quem meu Sangue pulsa?

Da terra sai um cheiro bom de vida
e nossos pés a Ela estão ligados.
Deixa que teu cabelo, solto ao vento,
abrase fundamente as minhas mão…

Mas, não: a luz Escura inda te envolve,
o vento encrespa as Águas dos dois rios
e continua a ronda, o Som do fogo.

Ó meu amor, por que te ligo à Morte?

Seleta de Thereza Rocque da Motta

Visões d’amor (& amizade) 4

 Alfredo Martirena

Alfredo Martirena

 

 

A vida é um jogo. Mas não gosto de jogos.
Se for para jogar, prefiro viver.
Se for para dedicar meu tempo a alguma coisa,
prefiro um livro, uma conversa, ou escrever.
Ligar para alguém. Ligamos tão pouco.
Hoje temos tão pouco tempo para conversar ao telefone.
Celulares não param de tocar e não param de nos cobrar.
Em algum tempo, não havia celulares, e só havia telefones fixos.
Saímos de casa e ninguém nos achava pelo GPS.
Livros ainda são os melhores companheiros depois dos amigos.
E quando não há amigos por perto, voltamos aos livros.
E os amigos sempre estarão presentes para dividir conosco
o bem mais precioso: seu tempo.

Thereza Rocque da Motta

 

 

O homem deve ter a sua atitude, assumir o seu risco, deve revelar-se. O homem não pode viver na simulação, no embuste, encoberto. O homem tem na vida a sua substância natural e na atitude a sua condição de ser moral. A coisa pura existe dentro de nós: quando você ama, quando você sacrifica sua vida, quando você luta por um ideal, quando você é solidário. Para mim a marca humana mais edificante, mais dominadora e mais fecunda é você tem a possibilidade de ser solidário. Até no crime.

Djalma Aranha Marinho

 

Quando a amizade não é verdadeira, ela não machuca só quando você descobre. Ela machuca todas às vezes que você se lembra dos momentos em que achou que ela fosse verdadeira.

Karina de Aranho Marinho de Andrade Lima 

Karina Andrade

Karina Andrade

 

FIM DE ANO

O Ano Velho, atravessei a nado
Para tudo ou
Para nada.

O Ano Novo vem em ondas
Para o mar ou
Para amar.

O Novo e o Velho, quero juntos,
Sem roupas
Na ilha.

O Novo e o Velho, quero vivos,
Com os corpos horizontais
Em cópula.

Gustavo Krause

o-amor-é-tão

 

DEZ CHAMAMENTOS AO AMIGO

1
Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo. Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
Desejasse

Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.

Te olhei. E há tanto tempo
Entendo que sou terra. Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta

Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento.

Hilda Hilst

 

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THEREZA CHRISTINA ROCQUE DA MOTTA

 

1
LILASES

.

impessoais
transfigurados
atirados sobre a terra
sem memória
esquecidos
Raízes se movem
sob o solo
Nenhum inverno arrancará
as sementes de seu seio
Permanecerão imóveis

 

2
MINHA SOMBRA DÁ LONGOS PASSOS ATRÁS DE MIM

.

Não espero mais encontrar-te ao acaso pelas ruas
Não acendo mais a lareira
para aquecer o quarto
e encolho-me de frio
sem luz
sem nenhum motivo
Não tenho mais medo
Tudo que conheci foi-se no pó
Atravesso as ruas em diagonal
para não me surpreender com ninguém
na contramão
esperando a primavera

 

3
TEU CORAÇÃO ESPREITA O SILÊNCIO

.

Bate lentamente, enquanto a tarde se arrasta
porque nada esperamos
para daqui à meia hora
O que vier, será novo
E o que restar, terá sobrevivido

 

4
AS PÉROLAS ERAM OS TEUS OLHOS, VEJA

.

como deslizam sobre o pano úmido
Todas vez que vieres
será como se fosse pela primeira vez
Nada será igual a este momento
Nada se repetirá

 

5
DEVES TEMER A MORTE NA ÁGUA

.

A água vem e te cobre
Verás teu ser se dissolver
e serás parte do oceano
Quantas flores umedecerás
quantos potes transbordarás sem cuidado
Teme a água
como teu quinto elemento
Teu inimigo dentro de ti

.

Motta

De Thereza Rocque da Motta

OS DOIS LADOS DA DOR

Existem dois lados da dor.

O que sentimos e o que não sentimos.

O que pensamos sentir reflete só um.

O que não sentimos, não dói.

Mas fica amortecido pelas camadas de dor

anterior.

A ferida indolor é silenciosa

e abre seu caminho despercebida

para só bem adiante se revelar.

Essa dor insentida guarda o que não vimos,

o que julgamos entender,

o que achamos desimportante

e custa a aparecer.

E ela só não se revela

porque se sabe ulterior,

apenas para ser aprendida

quando não houver mais dor.