Todo olhar é denso quando contempla o outro

Areal

Existe, além da parede,
a espessa aspereza do tempo.
Todo olhar é denso
quando contempla o outro.
(Mergulhamos na fotografia
impressa da memória
e ficamos retidos,
adereços discretos da paisagem.)
Espera o fruto.
A hora se biparte e o alçapão está fechado.
Atinges o momento do ciclone,
a órbita aberta do planeta.
Espera a volta.
Teus ombros nus encostados na parede,
tua face na penumbra,
retendo as luzes do quarto.

 

.

.


In “Areal”, de Thereza Christina Rocque da Motta (Dolphin, 1995).

THEREZA CHRISTINA ROCQUE DA MOTTA

 

1
LILASES

.

impessoais
transfigurados
atirados sobre a terra
sem memória
esquecidos
Raízes se movem
sob o solo
Nenhum inverno arrancará
as sementes de seu seio
Permanecerão imóveis

 

2
MINHA SOMBRA DÁ LONGOS PASSOS ATRÁS DE MIM

.

Não espero mais encontrar-te ao acaso pelas ruas
Não acendo mais a lareira
para aquecer o quarto
e encolho-me de frio
sem luz
sem nenhum motivo
Não tenho mais medo
Tudo que conheci foi-se no pó
Atravesso as ruas em diagonal
para não me surpreender com ninguém
na contramão
esperando a primavera

 

3
TEU CORAÇÃO ESPREITA O SILÊNCIO

.

Bate lentamente, enquanto a tarde se arrasta
porque nada esperamos
para daqui à meia hora
O que vier, será novo
E o que restar, terá sobrevivido

 

4
AS PÉROLAS ERAM OS TEUS OLHOS, VEJA

.

como deslizam sobre o pano úmido
Todas vez que vieres
será como se fosse pela primeira vez
Nada será igual a este momento
Nada se repetirá

 

5
DEVES TEMER A MORTE NA ÁGUA

.

A água vem e te cobre
Verás teu ser se dissolver
e serás parte do oceano
Quantas flores umedecerás
quantos potes transbordarás sem cuidado
Teme a água
como teu quinto elemento
Teu inimigo dentro de ti

.

Motta

De Anne Morrow Lindbergh

SEGUNDO PLANTIO

A quem
dar o leite que ficou no peito
depois que o filho se foi?

A quem dar
o amor que ficou no coração
abandonado?

A porta dourada
que se abriu para um imenso prado em agosto
e tombou de dor em setembro,
agora guarda, nos celeiros, uma safra estéril.

Quebrem a tranca da porta,
rasguem as sacas, espalhem e derramem
os grãos
sobre os poros da terra.

Não há colheita para o coração que está só:
a semente do amor precisa ser
eternamente
replantada.


Tradução de Thereza Christina Rocque da Motta

De John Keats

O dia se foi, com todas as suas doçuras

Para Fanny Brawne

O dia se foi, com todas as suas doçuras!
A voz doce, os lábios doces, a mão suave, e o peito macio,
o hálito cálido, os breves sussurros, a voz em semitom,
os olhos brilhantes, a forma perfeita, a lânguida cintura!
Morreu a flor e seu botão de encanto,
apagou-se a beleza dos meus olhos,
afastou-se a sua forma dos meus braços,
foi-se a voz, o calor, a brancura, o paraíso!
Desapareceu sem razão ao final do dia,
quando na véspera do dia sagrado — ou da noite sagrada —
a fragrância do amor começa a tecer
a trama com a espessura da noite, para se deleitar no escuro;
mas ao ler hoje o missal do amor,
ele me deixará dormir, para me manter em jejum e oração.

The day is gone, and all its sweets are gone

For Fanny Brawne

The day is gone, and all its sweets are gone!
Sweet voice, sweet lips, soft hand, and softer breast,
Warm breath, light whisper, tender semitone,
Bright eyes, accomplished shape, and lang’rous waist!
Faded the flower and all its budded charms,
Faded the sight of beauty from my eyes,
Faded the shape of beauty from my arms,
Faded the voice, warmth, whiteness, paradise!
Vanished unseasonably at shut of eve,
When the dusk holiday — or holinight —
Of fragrant-curtained love begins to weave
The woof of darkness thick, for hid delight;
But, as I’ve read love’s missal through today,
He’ll let me sleep, seeing I fast and pray.

Tradução de Thereza Christina Rocque da Motta

De William Ernest Henley

INVICTO
(Tradução Thereza Christina Rocque da Motta)

Da noite escura que me cobre,
Como uma cova de lado a lado,
Agradeço a todos os deuses
A minha alma invencível.

Nas garras ardis das circunstâncias,
Não titubeei e sequer chorei.
Sob os golpes do infortúnio
Minha cabeça sangra, ainda erguida.

Além deste vale de ira e lágrimas,
Assoma-se o horror das sombras,
E apesar dos anos ameaçadores,
Encontram-me sempre destemido.

Não importa quão estreita a passagem,
Quantas punições ainda sofrerei,
Sou o senhor do meu destino,
E o condutor da minha alma.


INVICTUS

Out of the night that covers me,
Black as the Pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.

In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.

Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds and shall find me unafraid.

It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul.

O Livro das Horas

de Thereza Christina Rocque da Motta

(trechos)

Não há imperfeição possível

I

Caminhas
sob águas e ramagens
– manto transparente
sobre paisagens noturnas –
frios olhos
de quem vê através a alma

V

Nunca retornamos
Ao voltar
seremos outros
a redescobrir no olhar
o rosto da última despedida

VI

Tua ausência te faz mais belo
Posso aguardar
nos meandros de tempo
enquanto não te vejo
Refaço os contornos de teus olhos
tua boca, teu queixo
e espero tua imagem se dissolver
e se recompor novamente

VII

Jamais soube quem eras
Imagino-te sem que me digas
Descubro aos poucos o que já sabia
Amo-te sem conhecer-te
como dádiva silenciosa
daquilo que sei
sem que saibas de mim

XXI

Curva-te
sobre mim
e me escuta
Não mais avançarás
sobre areias
Não mais esperarás
na sombra
nem deixarás escoar o tempo
entre teus dedos
Guarda-o porque é tudo que tens
e não tens nada