BRASIL Qual é o teu negócio? O nome do teu sócio?

BRASIL
por Cazuza (*)

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Não me convidaram
Pra essa festa pobre
Que os homens armaram pra me convencer
A pagar sem ver
Toda essa droga
Que já vem malhada antes de eu nascer

Não me ofereceram
Nem um cigarro
Fiquei na porta estacionando os carros
Não me elegeram
Chefe de nada
O meu cartão de crédito é uma navalha

Brasil
Mostra tua cara
Quero ver quem paga
Pra gente ficar assim
Brasil
Qual é o teu negócio?
O nome do teu sócio?
Confia em mim

Não me convidaram
Pra essa festa pobre
Que os homens armaram pra me convencer
A pagar sem ver
Toda essa droga
Que já vem malhada antes de eu nascer

Não me sortearam
A garota do Fantástico
Não me subornaram
Será que é o meu fim?
Ver TV a cores
Na taba de um índio
Programada pra só dizer “sim, sim”

Brasil
Mostra a tua cara
Quero ver quem paga
Pra gente ficar assim
Brasil
Qual é o teu negócio?
O nome do teu sócio?
Confia em mim

Grande pátria desimportante
Em nenhum instante
Eu vou te trair
(Não vou te trair)

(*) Composição com a parceria de Nilo Roméro e George Israel

 

Brasil calle

O GRITO
por Talis Andrade

 .

Cazuza via
além do tempo
além das máscaras
as artimanhas dos vendedores de espaço
no pássaro de aço
dos vendedores de ilusões
nos jardins de Tântalo
Cazuza ouvia o tintilar dos ossos
das caveiras no baile da Ilha Fiscal
Cazuza sentia o cheiro da corrompida carne
de um país ferido nas entranhas
Um triste Brasil que esconde a cara

Cazuza via além dos corpos
dos governantes que bebem e comem
nos palácios em forma de concha
Cazuza via os cortejos fúnebres
dobrando as esquinas iluminadas
pelas velas em intenção das almas

Cazuza via além do tempo
e da carne viva dos jovens
Que toda carne à luz azul
e negra das boates
mal esconde a cor lívida
dos cadáveres
Daí a irreverência o risco
as canções os gestos
de escândalo e morte

Na carne dorida carne
Cazuza sofria por antecipação
o idêntico destino da tribo de tietes
A carne tremente dos infantes
a carne tremente e sangrenta das donzelas
exibida nas passarelas
mal esconde a cor lívida
dos cadáveres
plúmbea cor
dos que estão na mira do esqueleto
o esqueleto armado
de arco e flecha

 

A CIDADE DE GUSTAVO KRAUSE E O HOMURBANO

A CIDADE E O HOMURBANO
por Gustavo Krause

 

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A cidade é feita de casas
e de covas rasas.
A cidade é feita de ruas
e de estátuas nuas.

A cidade é feita de praças
e de fumaças.

A cidade é feita de bares
e de azares.

A cidade é feita de gentes
e de carentes.

A cidade é feita de graças
e de massas.

A cidade é feita de artistas
e de conquistas.

A cidade é feita de inteligências
e de consciências.

A cidade é feita de poesias
e de maresias.

A cidade é feita de amores
e de dores.

A cidade é feita de dezenas de equipamentos,
de centenas de lamentos
e de milhares de sentimentos.

A não-cidade é feita de céus arranhados
e de homurbanos desesperados.

Homurbanos?

Alpinista, escala morros.
Nadador, atravessa o mar de lama.
Velocista, corre contra o tempo.

O homurbano se move em disputa atlética.

Em busca frenética
de vapores tóxicos,
de rações dietéticas
com sabores cítricos,
de sonhos estéticos
sem formas nítidas,
com esperanças caquéticas
de vitórias exdrúxulas.

O homurbano pára no descanso (u)tópico.
Em recolhimento fóbico
da guerra cósmica.
Em proposta lúdica
de inspiração etílica.
Em impulso erótico
de sexo rápido.
Em sombras típicas
de sono asmático.

 

ponte da boa vista foto restaurada

RECIFE
por Talis Andrade

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(trechos)

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Nascida do encontro das águas
linda Cidade Maurícia
Veneza Brasileira
No turbilhão da Festa da Mocidade
eu não percebia
Vendidos a retalho
os arredores do Recife
os canaviais das fábricas de açúcar
as pastagens das vacarias
as matas os sítios
aterrados os alagados das marés
os novos dias
tornariam realidade
a profecia
de Gilberto Freyre
A cidade ficaria inchada
a pobreza morando ao lado
dos arranha-céus
a pobreza morando ao lado

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Multiplicaram-se as favelas
Krause construiu as escadarias
as ruas os caminhos dos morros
em parceria com o povo
Multiplicaram-se os carros
o prefeito Antonio Farias
abriu espaços para a passagem
duplicando pontes viadutos
por lugares nunca imaginados

 

 

Os quatro nomes e pecados da deusa Bruna Lombardi

 

ELOGIO DO PECADO
por Bruna Lombardi

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Ela é uma mulher que goza
celestial sublime
isso a torna perigosa
e você não pode nada contra o crime
dela ser uma mulher que goza

você pode persegui-la, ameaçá-la
tachá-la, matá-la se quiser
retalhar seu corpo, deixá-lo exposto
pra servir de exemplo.
É inútil. Ela agora pode resistir
ao mais feroz dos tempos
à ira, ao pior julgamento
repara, ela renasce e brota
nova rosa

Atravessou a história
foi queimada viva, acusada
desceu ao fundo dos infernos
e já não teme nada
retorna inteira, maior, mais larga
absolutamente poderosa.

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mitmesper122385

 

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SEGUNDA CANÇÃO DE MARIO QUINTANA
por Talis Andrade

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A ti e ao teu poder invoco ó deusa
Tu podes conceder tudo que eu pedir
Teus passos se encaminhem para mim
Para mim se alarguem teus passos iluminando os caminhos
com sete raios azuis sete raios brancos sete raios vermelhos
Vem ó deusa incorporada em uma de tuas sacerdotisas
Patrícia Romilda Maria Teresa
Vem ó deusa das quatro faces dos quatro nomes terrenos
dos quatro mares das quatro luas das quatro partes do mundo
Vem ó deusa teus passos se encaminhem para mim

 

f_astarte

Quando publiquei o Elogio do Pecado, no Jornalismo de Cordel, Antonio F. Nogueira, que assinava um blogue no portal Sapo, Portugal, comentou:

“A maioria realiza uma leitura totalmente errada deste poema de Bruna Lombardi. Que está, praticamente, em todas as antologias de poesia erótica. Não é nenhum poema maldito. Ou sensual. Escuto um canto que lembra um hino à Astarte, deusa do amor. Sua imagem mais conhecida: nua, quadris largos e mãos em concha abaixo dos seios arredondados. Adorada com diferentes nomes em todas civilizações antigas. Mãe e filha. Esposa e amante. Deusa da fertilidade, da vida e da morte. Astarte permanece representada nas seis deusas gregas”.

deusa_ishtar

Deusa Ishtar, estatueta representativa do século IV a.C.

Ilustrações: Diferentes representações da deusa

Tocaia de Bruna Lombardi

TOCAIA
por Bruna Lombardi

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Que o amor nos possuísse
no meio de um descampado
num jogo que não tem regra
nem pecado

Numa tortura lenta
com ritual absoluto
que o amor nos possuísse
doce e bruto

Que houvesse fuga e corrida
e grito agudo na boca
Que a dança fosse selvagem
e louca

Com maldade instintiva
guerra de unha e dente
todo impulso desmedido
corpo quente

Depois na hora do cerco
firmes os cinco sentidos
vem o animal e se envolve
atraído

Pra que dure mais o jogo
ora foge ora se entrega
se joga se abre provoca
depois nega

Cúmplice do adversário
de manso se defendendo
vai pouco a pouco à cilada
cedendo

Corpo todo se espalhando
no meio do descampado
na luta que não domina
é dominado

E aí segura a corrente
manseia cavalo brabo
na luta quem não é senhor
é escravo

Chegada a hora da posse
o momento mais violento
novilha presa arqueia
sem movimento

No meio do seu combate
foi afinal possuída
e geme pra essa morte
melhor que a vida

Se enrosca sentindo o gosto
de ter sido capturada
sabendo que foi vencedora
e derrotada

E depois de tudo resta
um cansaço ainda melhor
sorriso dentro do corpo
fora o suor

Que o amor nos possuísse
com sensação de perigo
no meio do descampado
como a dois inimigos.

Alain Chartier, por Edmun Blair Leighton (1903), sendo beijado por Margarida de Escocia

Alain Chartier, por Edmun Blair Leighton (1903), sendo beijado por Margarida de Escocia

 

 

TERCEIRA CANÇÃO DE MARIO QUINTANA
por Talis Andrade

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Deusa e musa abelha rainha
Abelha que beijou os lábios de Píndaro quando criança
predestinando-lhe a sina de poeta
Abelha que representa Krishna
A abelha azul sobre a fronte de Krishna
Ó deusa com teu mel as ninfas
no cume do Monte Ida alimentaram Zeus
Inebriante mel dos lábios de Margarida da Escócia
Mel concedido ao poeta Alain Chartier
que a bela Margarida encontrou dormindo
o sonho iniciatório das viagens imaginárias
o sonho místico dos visionários
o sonho profético da fala divina
o sonho revelado em versos
A um cortesão que pediu explicação
lembrou a radiosa rainha da França
Não beijei o homem Beijei a boca da qual saíram
e brotaram palavras boas e virtuosas
Ó deusa quem ousaria tanto

 

 

 

Juntando coisa com coisa não fiquei com nada

IMPROVISO
por Francisco Carvalho

 .

Nem só de chuva
se tece a nuvem
nem só de evento
se inventa o vento.

Nem só de fala
se engendra o grito
nem só de fome
prospera o trigo.

Nem só de raiva
arde a metáfora
nem só de enigmas
se enfeita o nada.

Nem só de parca
o céu nos singra
nem só de pão
se morre à míngua.

Nem só de pégaso
escapa o seio
para essa concha
partida ao meio.

 

 

muitos têm nada

PARTILHA
por Talis Andrade

.

Pedro herdou o gado
Manoel herdou as éguas
e as verdes léguas
Francisco Carvalho herdou
a dimensão das coisas
na vocação para a poesia

Nasci deserdado
juntando coisa
com coisa
não fiquei
com nada

Hora de paz de Auta de Souza

HORA DE PAZ
por Auta de Souza

.

Como é feliz a hora do descanso!
Quando sinto os meus olhos, manso e manso,
Morrendo para a luz…
Todas as dores da Saudade esqueço,
Junto as mãos sobre o seio e adormeço
Sorrindo para a Cruz…

 

AUTADESOUZA

 

RÉQUIEM PARA OS NEGROS DE ALMA BRANCA
por Talis Andrade

.

Os martelos cantavam
sobre os yunques sonâmbulos
sobre os yankees bêbados
nas barracas de cerveja
da praia de Ponta Negra

Os martelos cantavam
dissonante escala
Cravados sons
a penetrar a carne
Cravados sons
a penetrar a tampa do caixão
de Auta de Souza
a virgem negra

Ao compasso dos martelos
os negros catavam nuvens brancas
nos campos de algodão

 

Presença de Cazuza

BALADA DO ESPLANADA
por Cazuza

.

Ontem de noite eu procurei
Ver se aprendia como é que se fazia
Uma balada, antes de ir pro meu hotel

É que esse coração
Já se cansou de viver só
E quer então
Morar contigo no Esplanada
Contigo no Esplanada

Pra respirar
Abro a janela
Como um jornal
Eu vou fazer a balada
Fazer a balada
Do Esplanada e ficar sendo o menestrel
E ficar sendo
O menestrel do meu hotel
Do meu hotel

Mas não há poesia em um hotel
Nem mesmo sendo
O Esplanada, um grande hotel
Há poesia na dor, na flor, no beija-flor
Na dor, na flor, no beija-flor, no elevador
No elevador

 

cazuza

PRESENÇA DE CAZUZA
por Talis Andrade

.

Órfãos das fantasias dos pais
que viveram a angústia beat
vaguearam a loucura hippie
tentaram as utopias consumidas
nas fogueiras das guerrilhas
sofreram a tortura
na escuridão de março
Órfãos da rotatividade dos pais
em um bar do Baixo Leblon
belos infantes
lindas ninfetas
esperam a poesia
vença a morte
Encarnado descarnado
Cazuza ressurja
das sombras
Triunfante
radiante
Cazuza ressurja
para uma madrugada
de chope

 

 

 

Documentário Volta Cazuza

 

 

Francisco Bandeira de Mello e Ariano Suassuna: Em que ponte do Recife se esconde o inimigo

SINTAXE
Francisco Bandeira de Mello

.

Sentir
o eixo
da palavra

sentir
o valor
axial
de tudo

e não
achar
nada

 

Ladyanne Nascimento

Ladyanne Nascimento

ENCONTRO COM CARONTE
por Talis Andrade

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Na tarde avulsa
Francisco Bandeira de Mello
serenamente caminha
embora esteja acesa
a chama amarela do perigo

Chegou a hora precisa
de salvar Ariano
o imperador da Pedra do Reino
Chegou a hora de salvar o amigo
das mãos do velho Caronte
que amarrou o barco
em uma das mil pontes
do Recife

Na tarde avulsa
o franciscano Francisco
serenamente caminha
O importante
o saber pela intuição
não pelo instinto
Conhecer em que ponte
se esconde o inimigo

 

Fotografia Ladyanne Nascimento

A Estrada Real de Francisco Bandeira de Mello

BIOGRAFIA
por Francisco Bandeira de Mello

De Numa Pompílio
vou contar a tristes história:
nasceu viveu morreu.
Tudo mais são águas
que o absurdo cobre.

 

Peregrino, por Carlo Crivelli

Peregrino, por Carlo Crivelli

A ESTRADA REAL
(POEMA PARA FRANCISCO BANDEIRA DE MELLO)
por Talis Andrade

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Na tarde avulsa o andarilho
não apressa o passo
não retarda o passo
O andarilho conhece
o roteiro dos peregrinos
as igrejas os mosteiros

Serenamente
o andarilho caminha
No céu
os três luzeiros