O CAMINHO DE ASSIS

por Talis Andrade

 

sfrancisco

Preciso fugir
do presídio
que construí
neste enfermo
mundo:
O suplício
de um suicídio
lesmo e doloroso
nos ermos campos
do abandono
e do medo

Preciso encontrar a paz
o amor
Sentir quanta alegria
no irmão Sol
quanta poesia
na irmã Lua

Andarilho descalço
seguir pelos caminhos
da irmã Pobreza
Na poeira das estradas
nos pedregulhos
no adusto chão
descobrir a beleza
da natureza
a beleza intrínseca
às coisas simples

Sentar na beira de um regato
e ouvir o silêncio dos peixes
Quedar extático
ante a presença de Deus
no quebradiço arbusto
e na fúria dos raios

Descalço andarilho
pelos apertados caminhos
da irmã Pobreza
a esperança de possuir
a leveza dos pássaros
a fiel mansidão
de um boi de cambão
amar o próximo como um irmão
seguindo o exemplo
de São Francisco de Assis:
Depois de despojado
das vestes de seda
foi mais feliz
que um rei

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Número de doentes que vão à Suíça para se suicidar dobra em quatro anos

por ELENA G. SEVILLANO

paises suicidio

O conhecido turismo do suicídio ou turismo da eutanásia não para de crescer na Suíça, o único lugar onde ocorre o fenômeno, segundo revelou uma pesquisa da Universidade de Zurique. Entre 2009 e 2012, o número de estrangeiros que viajaram ao país para se matar duplicou: de 86 casos para 172. O estudo, publicado pela revista Journal of Medical Ethics, coletou dados dos suicídios assistidos registrados no cantão de Zurique —sede das organizações que se dedicam a essas práticas— durante cinco anos. Entre 2008 e 2012, 611 pessoas foram à Suíça para por fim às suas vidas.

Os pesquisadores quiseram estudar esse “fenômeno único” e obter uma radiografia precisa sobre a procedência dessas pessoas, idade e sexo, os problemas de saúde que as levaram a tomar a decisão de cometer suicídio e o modo usado, disse por telefone Julian Mausbach, um dos pesquisadores. Na Suíça, onde o suicídio assistido “não está regulamentado com clareza pela lei”, há seis organizações que prestam esse tipo de ajuda. Quatro delas permitem que não residentes utilizem os serviços. Os 611 casos estudados eram provenientes de 31 países, mas quase um terço era de cidadãos da Alemanha (268), Reino Unido (126) e França (66). Com faixa etária entre 23 e 97 anos —uma média de 69 anos—, as doenças sofridas eram neurológicas (47%), câncer (37%), reumáticas e cardiovasculares. Do total, 58,5% eram mulheres.

enfermidades

Os dados colhidos pelos pesquisadores, que incluem estudos prévios dos anos noventa, mostram que as doenças não letais, ou as que ainda não são terminais (neurológicas, reumáticas) são cada vez mais usadas como argumento para cometer o suicídio assistido na Suíça, mas Mausbach diz que é preciso interpretar os números com cuidado. “Um terço sofria mais de uma doença”, afirma, e lembra que neste último trabalho apenas foram estudados os casos de não residentes. Pode ser que os turistas sofram mais dessas doenças que os residentes, ou os que sofrem de um câncer terminal não possam se deslocar a outro país. “Já estamos trabalhando em um estudo que identificará melhor os motivos”, acrescenta o pesquisador.

Outro objetivo do trabalho era determinar se o fenômeno do turismo do suicídio propiciou mudanças legislativas nos países de procedência dos turistas. Os pesquisadores concluem que foi o que aconteceu no Reino Unido, país que recentemente discutiu na Câmara dos Lordes uma proposta para regularizar o suicídio assistido. Também na Alemanha, em 2012, foi analisada uma proposta legislativa que pretendia penalizar as organizações que oferecem este serviço por dinheiro, incluindo as cotas anuais cobradas por entidades suíças como a Dignitas, onde foram registrados quase todos os suicídios assistidos analisados pelo estudo. “Nos três países que mais enviam turistas,há um debate político sobre essa questão”, dizem os pesquisadores.

Os assassinos invisíveis. Dez denúncias de assédio moral no trabalho registradas por dia

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O que é assédio moral? São atos cruéis e desumanos que caracterizam uma atitude violenta e sem ética nas relações de trabalho, praticada por um ou mais chefes contra seus subordinados.

Trata-se da exposição de trabalhadoras e trabalhadores a situações vexatórias, constrangedoras e humilhantes durante o exercício de sua função.

Esses atos visam humilhar, desqualificar e desestabilizar emocionalmente a relação da vítima com a organização e o ambiente de trabalho, o que põe em risco a saúde, a própria vida da vítima e seu emprego.

A violência moral ocasiona desordens emocionais, atinge a dignidade e identidade da pessoa humana, altera valores, causa danos psíquicos (mentais), interfere negativamente na saúde, na qualidade de vida e pode até levar à morte. Suicídios e assassinatos. De mortes encomendadas. De pistolagem, pela preferência de pagar um assassino de aluguel a pagar direitos trabalhistas de um empregado.

Como acontece

A vítima escolhida é isolada do grupo, sem explicações. Passa a ser hostilizada, ridicularizada e desacreditada no seu local de trabalho. É comum os colegas romperem os laços afetivos com a vítima e reproduzirem as ações e os atos do(a) agressor(a) no ambiente de trabalho. O medo do desemprego, e a vergonha de virem a ser humilhados, associados ao estímulo constante da concorrência profissional, os tornam coniventes com a conduta do assediador.

A MAIORIA DAS VÍTIMAS É MULHER E É NEGRA

Assédio moral

VIOLÊNCIA MORAL CONTRA A MULHER 

 

O assediador é sempre um covarde. Ataca sempre os mais fracos.

Geralmente, o ambiente de trabalho é o mais perverso para as mulheres, pois, além do controle e da fiscalização cerrada, são discriminadas. Essa prática é mais frequente com as afro-descendentes. Muitas vezes o assédio moral diferido contra elas é precedido de uma negativa ao assédio sexual. Em alguns casos, os constrangimentos começam na procura do emprego, a partir da apresentação estética.

Posteriormente, ações como:

• Ameaça, insulto, isolamento

• Restrição ao uso sanitário

• Restrições com grávidas, mulheres com filhos e casadas

• São as primeiras a serem demitidas

• Os cursos de aperfeiçoamento são preferencialmente para os homens

• Revista vexatória, e outras atitudes que caracterizam assédio moral

O assédio moral contra as mulheres sempre acontece depois do assédio sexual fracassado. O famoso “dá ou desce”.

Matteo Bertelli

Matteo Bertelli

VIOLÊNCIA SEXUAL CONTRA O HOMEM E ORIENTAÇÃO SEXUAL

 

O homem não está livre do assédio, particularmente se for homoafetivo ou possuir algum tipo de limitação física ou de saúde.

No que se refere à orientação sexual, não há instrumentos oficiais para esse tipo de verificação. E, aqui, o entrave é também cultural e está ligado ao que significa ser homem na sociedade brasileira. Em uma sociedade machista, os preconceitos com relação à orientação sexual são ainda mais graves.

O assédio moral contra os homosexuals, também, pode começar pelo assédio sexual.

 

VIOLÊNCIA MORAL CONTRA A VELHICE, DOENTES E ACIDENTADOS (AS)

Tomas

Tomas

• Ter outra pessoa na função, quando retorna ao serviço

• Ser colocado em local sem função alguma

• Não fornecer ou retirar instrumentos de trabalho

• Estimular a discriminação entre os sadios e os adoecidos

• Dificultar a entrega de documentos necessários à concretização da perícia médica pelo INSS

• Demitir após o transcurso da estabilidade legal

No culto publicitário do hedonismo, do consumismo, da beleza dos jovens, a velhice começa com as primeiras rugas nas mulheres, e os primeiros cabelos brancos nos homens. Cada vez fica mais difícil arranjar emprego depois dos 40 anos.

O assediador é tarado por carne nova.

 

OBJETIVO DO(A) AGRESSOR(A)

• Desestabilizar emocional e profissionalmente

• Livrar-se da vítima: forçá-lo(a) a pedir demissão ou demiti-lo(a), em geral, por insubordinação

 

ESTRATÉGIA DO(A) AGRESSOR(A)

• Escolher a vítima e o(a) isolar do grupo

• Impedir que a vítima se expresse e não explicar o porquê

• Fragilizar, ridicularizar, inferiorizar, menosprezar em seu local de trabalho

• Culpar/responsabilizar publicamente, levando os comentários sobre a incapacidade da vítima, muitas vezes, até o espaço familiar

• Destruir emocionalmente a vítima por meio da vigilância acentuada e constante. Ele(a) se isola da família e dos amigos, passa a usar drogas, principalmente o álcool, com frequência, desencadeando ou agravando doenças preexistentes

• Impor à equipe sua autoridade para aumentar a produtividade

 

COMO IDENTIFICAR O ASSEDIADOR

É no cotidiano do ambiente de trabalho que o assédio moral ganha corpo.

Alguns comportamentos típicos do(a) agressor(a) fornecem a senha para o processo de assédio moral nas empresas.

O assédio moral é uma relação triangular entre quem assedia, a vítima e os demais colegas de trabalho.

Após a confirmação de que está sendo vítima de assédio moral, não se intimide, nem seja cúmplice. Denuncie!

 

DENUNCIE O ASSEDIADOR, UM COVARDE PSICOPATA

Todo assediador é incompetente,  frustado, covarde, um baba-ovo quando um empregado que exerce cargo de confiança, ou um patrão escravocrata e usurário,  um psicopata social.

 

CONFIRA ALGUNS EXEMPLOS DE ASSÉDIO

• Ameaçar constantemente, amedrontando quanto à perda do emprego

• Subir na mesa e chamar a todos de incompetentes

• Repetir a mesma ordem para realizar tarefas simples, centenas de vezes, até desestabilizar emocionalmente o(a) subordinado(a)

• Sobrecarregar de tarefas ou impedir a continuidade do trabalho, negando informações

• Desmoralizar publicamente

• Rir, a distância e em pequeno grupo, direcionando os risos ao trabalhador

• Querer saber o que se está conversando

• Ignorar a presença do(a) trabalhador(a)

• Desviar da função ou retirar material necessário à execução da tarefa, impedindo sua execução

• Troca de turno de trabalho sem prévio aviso

• Mandar executar tarefas acima ou abaixo do conhecimento do trabalhador

• Dispensar o trabalhador por telefone, telegrama ou correio eletrônico, estando ele em gozo de férias

• Espalhar entre os(as) colegas que o(a) trabalhador(a) está com problemas nervosos

• Sugerir que o trabalhador peça demissão devido a problemas de saúde

• Divulgar boatos sobre a moral do trabalhador

 

COMO A VÍTIMA REAGE

 Alex Falco Chang

Alex Falco Chang

MULHERES: São humilhadas e expressam sua indignação com choro, tristeza, ressentimentos e mágoas.

Sentimento de inutilidade, fracasso e baixa auto-estima, tremores e palpitações. Insônia, depressão e diminuição da libido são manifestações características desse trauma.

HOMENS: Sentem-se revoltados, indignados, desonrados, com raiva, traídos e têm vontade de vingar-se.

Idéias de suicídio e tendências ao alcoolismo.

Sentem-se envergonhados diante da mulher e dos filhos, sobressaindo o sentimento de inutilidade, fracasso e baixa auto-estima.

 

O QUE A VÍTIMA DEVE FAZER

• Resistir. Anotar, com detalhes, todas as humilhações sofridas: dia, mês, ano, hora, local ou setor, nome do(a) agressor(a), colegas que testemunharam os fatos, conteúdo da conversa e o que mais achar necessário.

• Dar visibilidade, procurando a ajuda dos colegas, principalmente daqueles que testemunharam o fato ou que sofrem humilhações do(a) agressor(a)

•Evitar conversa, sem testemunhas, com o(a) agressor(a).

• Procurar seu sindicato e relatar o acontecido.

• Buscar apoio junto a familiares, amigos e colegas.

* E denunciar ao

• Ministério do Trabalho e Emprego

• Superintendências Regionais do Trabalho e Emprego

• Conselhos Municipais dos Direitos da Mulher

• Conselhos Estaduais dos Direitos da Mulher

• Comissão de Direitos Humanos

• Conselho Regional de Medicina

• Ministério Público

• Justiça do Trabalho

• Ouvidoria 0800 61 0101 (Região Sul e Centro-Oeste, Estados do Acre, Rondônia e Tocantins) 0800 285 0101 (Para as demais localidades)

http://www.mte.gov.br/ouvidoria

* Existem organizações internacionais.

 

O MEDO REFORÇA O PODER DO(A) AGRESSOR(A)

O assédio moral no trabalho não é um fato isolado. Como vimos, ele se baseia na repetição, ao longo do tempo, de práticas vexatórias e constrangedoras, explicitando a degradação deliberada das condições de trabalho.

Nessa luta, são aliados dos(as) trabalhadores(as) os centros de Referência em Saúde dos Trabalhadores, Comissões de Direitos Humanos e Comissão de Igualdade e Oportunidade de Gênero, de Raça e Etnia, de Pessoas com Deficiência e de Combate à Discriminação nas Superintendências Regionais do Trabalho e Emprego.

Um ambiente de trabalho saudável é uma conquista diária possível. Para que isso aconteça, é preciso vigilância constante e cooperação. É preciso não ter medo. O agressor(a) conta com a sua covardia. Sua falta de amor próprio.

 

AS PERDAS PARA O EMPREGADOR

Pedro X. Molina

Pedro X. Molina

 

•Queda da produtividade e menor eficiência, imagem negativa da empresa perante os consumidores e mercado de trabalho

•Alteração na qualidade do serviço/produto e baixo índice de criatividade

• Doenças profissionais, acidentes de trabalho e danos aos equipamentos

•Troca constante de empregados, ocasionando despesas com rescisões, seleção e treinamento de pessoal

• Aumento de ações trabalhistas, inclusive com pedidos de reparação por danos morais

 

AÇÕES PREVENTIVAS DAS EMPRESAS

 Pedro X. Molina

Pedro X. Molina

Os problemas de relacionamento dentro do ambiente de trabalho e os prejuízos daí resultantes serão tanto maiores quanto mais desorganizada for a empresa e maior for o grau de tolerância do empregador em relação às praticas de assédio moral.

• Estabelecer diálogo sobre os métodos de organização de trabalho com os gestores (RH) e trabalhadores(as)

•Realização de seminários, palestras e outras atividades voltadas à discussão e sensibilização sobre tais práticas abusivas

• Criar um código de ética que proíba todas as formas de discriminação e de assédio moral (Fonte Ministério do Trabalho e Emprego, Assédio Moral no Emprego, cartilha)

 

 

A estranha doença que mata jovens

Cada vez mais jovens contraem essa doença praticamente incurável. Numa fase precoce, quando eles ainda poderiam ser ajudados, mesmo um médico experiente terá dificuldade em diagnosticar os sintomas perigosos dessa doença em gestação. Afinal que doença é esta e como se proteger a si e aos seus familiares?

Hoje vamos falar de uma doença que pode atingir qualquer pessoa. Se trata da dismorfofobia – um distúrbio mental que se manifesta por uma percepção errada do seu próprio corpo e tem como consequência um ódio hipertrofiado contra si próprio. Essa doença é acompanhada de riscos muito elevados de suicídio, especialmente entre os jovens com 25-30 anos de idade.
A Voz da Rússia decidiu perceber com a ajuda da psicóloga Irina Lukianova como se pode detectar a tempo o início da dismorfofobia em si próprio, ou em pessoas das suas relações, o que fazer se se estiver no grupo de risco e como começar um tratamento correto.
Na maioria dos casos o grupo de risco inclui pessoas com uma autocrítica excessiva, perfeccionistas na sua maneira de ser e que têm o complexo de excelência. À dismorfofobia são sobretudo vulneráveis adolescentes a partir dos 14-15 anos. Regra geral, depois dos trinta anos a quantidade de pessoas que sofrem dessa síndrome se reduz em várias vezes e finalmente desaparece.
Irina Lukianova explica como detectar os sintomas da dismorfofobia:
“Se notou que alguma particularidade do seu aspecto físico atrai constantemente as suas atenções, está sempre se vendo ao espelho para descobrir até que ponto o seu “defeito” pode ser visível para os demais, e o que pode fazer para escondê-lo, se tenta não se deixar fotografar, sente uma apatia constante e falta de vontade para fazer seja o que for, o mais provável é ter sido mais uma vítima dessa síndrome. Se pensa que essa sua “particularidade” física o incomoda de uma forma insustentável e que sem ela sua vida seria completamente diferente: você teria uma vida socialmente ativa, com sucesso e feliz, se o seu único desejo é fazer uma cirurgia plástica ou mesmo pôr termo à vida, você ter que recorrer urgentemente a um psicoterapeuta altamente qualificado.”
O círculo mais próximo da pessoa tem um papel importante na dismorfofobia. De acordo com as estatísticas, mais de 60% dos que sofrem desse transtorno referem ter sido alvo de críticas constantes ao seu aspecto físico ao longo da sua infância por parte dos pais ou dos amigos. O desejo de alcançar a aprovação e o apreço geral acaba por empurrar essas pessoas para alterações radicais do seu aspecto exterior adotando estilos extravagantes no vestuário, a aplicação de tatuagens e a realização de cirurgias plásticas. Outros tentam reduzir ao mínimo o contato com o mundo exterior, adotam um modo de vida solitário, não saem de casa durante o dia para que as pessoas não vejam a sua “deformidade”.
Além de tudo isso, uma grande influência no desenvolvimento da dismorfofobia tem a mídia. Irina Lukianova também concorda:
“Os adolescentes vêm o mundo de uma forma idealista. Eles não se dão conta que as fotos retocadas das pessoas das revistas cor-de-rosa pouco têm a ver com a vida real. As personalidades que nos olham a partir das capas são na realidade pessoas iguais a nós, com os seus defeitos e imperfeições, mas a juventude não percebe isso.
Eles acreditam sinceramente que as pessoas não têm poros, ou rugas, ou erupções cutâneas. São todos altos, eternamente jovens e elegantes. Assim muitos criam uma imagem distorcida sobre qual deve ser o verdadeiro aspeto do corpo humano. O padrão de aspeto exterior imposto pela mídia é, na realidade, inatingível, mas infelizmente os jovens raramente o compreendem. Não sendo capazes de alcançar os padrões impostos pela ditadura da moda atual, eles entram em depressão, perdem a autoconfiança e, por vezes, a vontade de viver.”
O que temos de fazer para vencer a dismorfofobia e não permitir que atinja um estado extremo? Os fatos não são muito otimistas: uma pessoa praticamente não se consegue tratar sozinha. Aqui é necessária uma abordagem complexa, desde a psicoterapia e o uso de antidepressivos até mesmo ao internamento. Sem um tratamento adequado a doença pode atingir um estado crônico, com períodos de recaídas graves e remissões. É importante perceber que nem os dermatologistas, nem os cosmetólogos, nem os cirurgiões plásticos podem ajudar as pessoas com dismorfofobia, porque regra geral não se trata de defeitos físicos reais, mas imaginários.
O problema da recusa em aceitar o próprio corpo tal como ele é não desaparece depois das intervenções cirúrgicas. Ela tem um caráter puramente psicológico. Nos casos mais adiantados, e durante as recaídas, os pacientes podem se automutilar, tentando realizar sozinhas a operação que as livre da sua “deformação”. Houve casos em que as pessoas tentaram sozinhas cortar a gordura de suas barrigas ou quadris, ou serrar parte da cartilagem nasal. Ou então decidiam terminar com a própria vida por não se conseguirem aceitar como são.
Essa tendência assustadora aumenta a cada ano que passa ceifando as vidas de muitos jovens. Por isso tenha atenção! Não critique em excesso a sua aparência ou a aparência de outras pessoas. Tente não criticar o aspeto físico dos seus próximos, mesmo que pense estar fazendo bem. Quem sabe o que você irá semear na alma de outra pessoa? Pode vir a ser uma tempestade que lhe irá arruinar toda sua vida.

“Não há como escapar da dolorosa contradição que impõe o convívio entre a dor e a beleza o tempo todo”

por Nei Duclós
Jornal Opção

Nei Duclós

Nei Duclós

A invenção da leitura

Longe do panfletismo, o rigor de Alberto Moravia joga pesado na confluência de intenções contraditórias, nas vontades que se anulam, nas decisões erradas, no imaginário promovido pela iminência da guerra. “1934” é o romance que Moravia preparou para nos assustar

Moravia

Personagem de um romance é o seu primeiro leitor. O protagonista narra sua leitura para quem o acom­panha. Temos assim acesso a uma representação do romance que o autor compõe ao voltar-se para sua própria arte. É o princípio da es­piral que gera o tornado, fruto do confronto entre a massa de ar quente da imaginação com o gelo da palavra. O único cuidado, para artistas do verbo como o italiano Alberto Moravia (1907-1990), mo­nu­mento literário do século 20 com uma obra fluvial que muitas vezes de­saguou no cinema, é não transformar esse movimento ascendente de ro­tação num espetáculo virtual. É preciso que o evento destrua o ambiente para nele sobreviver a história sem concessões. É só literatura, mas não pode deixar de ser mortal.

“1934” é um romance de Mo­ravia que trata de um leitor compulsivo, escritor obcecado em alguns grandes autores que busca uma saída para o inevitável suicídio. “É possível viver no desespero sem desejar a morte?” é a primeira frase que nos leva para o abismo. Inspira­do na obra radical das gravuras e qua­dros de Albrecht Dürer e no Niet­zsche de Zaratustra, ele se divide entre a dor e o prazer, trafegando num fio de navalha a partir de uma ilusão: o namoro com uma be­la turista alemã casada. Ele procura do­minar o desespero para equilibrar-se na difícil Europa de domínio fascista. Revela a intelectualidade de mãos amarradas e de raciocínio podre, a serviço do imobilismo do gesto e do marca passo das ideias.

O jovem Lucio, o escritor que viaja a Capri para produzir algo que resolva seu paradoxo, entra no jogo de sedução cedendo a um impulso, mas sua intervenção obedece a um intuitivo planejamento. No fundo ele quer amarrar a súbita paixão ao confortável desfecho de sua aventura. Mas é traído pela complexidade da trama. A mulher do seu desejo tem uma outra, idêntica, irmã gêmea que se confunde com ela, apesar das personalidades opostas (o convívio com uma o liberta das amarras com a outra e vice-versa). Isso faz com que o jogo de cabra cega com o gênero oposto vire uma armadilha, intensificada pela presença do marido, um alemão nazista que o obriga a fazer a saudação maldita de braço estendido.

Submeter-se às conveniências para sobreviver é a fonte do desespero, fruto da escravidão. O escritor não pode se manifestar porque a situação política que ultrapassa fronteiras não permite. Em 1934 o ambiente já estava definido a partir da morte e sua celebração, consolidada no Viva La Muerte da futura guerra espanhola naquela década. A criação estava confinada ao oposto de sua natureza. Moravia escreveu sobre esse pesadelo de 1934 só muito mais tarde, na década de 1980. O romance tem tudo de um resgate a partir das ruínas. Criaturas demolidas pela situação insuportável imaginam amar, pensar, gerar um destino diverso do que está sendo imposto. “Acredito que a criação humana é universal”, disse ele numa entrevista. “Qualquer homem possui uma capacidade criadora, nunca desprezível e incessante. A todo o instante se pode encontrar no interior de qualquer homem, por mais insignificante que seja, a sua força criadora. E isso é que é belo.” Mas neste romance a beleza fica sufocada, apesar da mestria do texto, sempre encantadora.

Longe do panfletismo, o rigor de Moravia joga pesado na confluência de intenções contraditórias, nas vontades que se anulam, nas decisões erradas, no imaginário promovido pela iminência da guerra. Tudo é delicado nos detalhes dessas rotinas vulneráveis, em que os bilhetes podem levar a um assassinato, uma leitura consegue destruir carreiras, uma paixão de verão acaba virando um caso sinistro. Em que sombras definem a vontade de sumir e todo esforço bate na barreira de uma realidade intransponível. Estávamos estrepados em 1934 e parece que saímos daquela gruta. Mas ele prepara uma surpresa.

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Continuamos lá, nos prova o ogro da palavra. Ainda estamos engessados em nossas limitações econômicas, políticas, comportamentais, apesar de falarmos tanto mal daquela época. Não saí­mos do horror, como imaginávamos. O desespero continua martelando a existência e empurrando-a para o final. A arte tem o poder de nos salvar, mas em qual livro a salvação se esconde, qual o trecho definitivo, o que a arte pode reverter em nosso benefício? No momento em que pensamos estar no caminho da redenção, acabamos girando em torno do caos.

Não é, como nos diz a literatura de autoajuda, uma situação que encerre lições de vida. Mas é uma obra que encarna as hostilidades espirituais inerentes às criaturas, envolvidas em suas criações diárias. A complexidade humana, em Moravia, é pintada com sua estupenda capacidade estética, em que tudo ganha vida nas descrições de paisagens, tanto as urbanas quanto as da natureza. O velho balneário de uma aristocracia já morta (tema recorrente em sua literatura) agoniza à beira das cores míticas do mar Tirreno, na ilha de Capri. O veraneio faustoso en­cerra uma sucessão de conflitos internalizados, dolorosos, de onde é difícil sair ileso.

A solução, provisória diante da precariedade humana, mas decisiva como exercício do talento, é um romance assustador, com a narrativa diante do espelho, voltada para si mesma e que encontra nessa reprodução o avesso de sua essência. Não se trata apenas de arte, mas das ameaças à sua existência. Isso combina com o sofisticado pessimismo do autor: “As artes poderão morrer por uma razão simples: a arte não é mais do que uma alta, muito alta, forma de artesanato”, disse ele. “No mundo inteiro, assistimos ao fim do artesanato. Ora, o homem reflete-se naquilo que produz: pois que, si se fabrica para tudo objetos em série, não se poderá também impedir de criar homens em série — e o homem em série é o contrário do artista.”

Essas declarações fazem parte também do enfoque que dá ao seu trabalho: “Não procuro mostrar o bom humor. Os heróis de romance não têm de ser felizes. Devem, pelo contrário, ser durante todo o tempo aquilo que as pessoas são num instante no auge dos seus conflitos”.

Moravia tem gana da aristocracia e dos conservadores em geral. Em seus romances, como a sua estreia “Os Indiferentes”, ele retrata o ambiente de sua infância e adolescência, de família abastada onde encontrou a desgraça de ficar imobilizado devido a uma tuberculose óssea. Transformou-se num observador atento e um narrador detalhista. E nos seus contos surrealistas e satíricos, ele pega cada personagem desses castelos carcomidos, mansões obsoletas, profissões inúteis num mural humano degradado. É um clima de Fellini sem a vantagem onírica, já que é “realista” demais para se deixar levar pelo delírio.

“Tive dois obstáculos para superar”, disse. “Primeiro, foi a minha doença — tuberculose óssea. De cinco em cinco anos ia à cama, o que me deprimiu bastante. E depois, claro, houve o fascismo. No entanto, não acredito muito nos obstáculos exteriores. O olhar do homem moderno é demasiado forte para tudo conseguir anular, mesmo a doença. Há somente para ele alguns obstáculos interiores.”

Num dos seus contos, alguém visita o ateliê de um amigo e lá dorme e sonha com o cenário que se descortina da janela. Quando o personagem acorda, a mesma paisagem é descrita de modo inteiramente diverso. É a mágica de Moravia, um mestre da percepção pictórica, que nos devolve em quadros o que enxerga em três dimensões. Em “O Desprezo”, filme de Jean-Luc Godard baseado em outro livro seu, ele serve uma paisagem clássica como moldura de uma covardia: “Em ‘O Desprezo’ procurei mostrar como o dinheiro, num mundo capitalista, determina não apenas as relações de negócios, mas também as relações afetivas. Está igualmente fixado sobre a dúvida: a mulher começa a desprezar o seu marido porque desconfia que ele a quer colocar nos braços do realizador, do qual depende o seu futuro como cineasta. O livro decorre em Roma e em Capri, no mundo do cinema. onde o dinheiro tudo corrompe”.

Não há como escapar da dolorosa contradição que impõe o convívio entre a dor e a beleza o tempo todo. “Um artista é um belo ser independente”, dizia ele, “mas quando se trata de assuntos para uma sociedade restrita como a de Luís XIV, ou vasta como a atual sociedade francesa, põem-se problemas diferentes. Há sempre uma pressão”. Mo­ra­via não se iludia com seu ofício, que dominava como poucos: “Não quero ser diferente, mas por outro lado sei bem que o ar­tista é diferente, porque possui um poder de contemplação. Po­de­ria mesmo dizer-se que é uma tes­temunha, ‘a testemunha’ no ver­dadeiro sentido da palavra. Em certas circunstâncias, ele é a ú­nica pessoa que ‘viu’ o que se passou”.

Seu nome verdadeiro era Alberto Pincherle e há 23 anos, desde 25 de setembro de 1990, não temos mais o privilégio da presença física deste romano talentoso. Mas seus livros, vários, estão aí para nos alertar.

A MORTE VOLUNTÁRIA

por Talis Andrade

 

 

suicídio

 

 

O animal incapacitado para caçar

perdeu a destreza as presas

se deita

e imóvel deixa a morte vir

lentamente

 

Todo animal pressente

a morte que se aproxima

a morte que imobiliza

e morde a jugular

 

Quando o homem

desiste de desafiar

o sistema

de ir à luta

por uma vida condigna

 

quando o homem

não consegue o sustento

da família

e se torna um peso

para os filhos

uma despesa

sem recompensa

 

a voluntária morte

alivie o corpo

dos tormentos do dia

dos demônios da noite

 

 

In A Partilha do Corpo, p. 220

O CEMITÉRIO DOS SUICIDAS

por Talis Andrade

 

 

Ilustração Halit Kurtulmus Aytoslu

Ilustração Halit Kurtulmus Aytoslu

 

Do suicida

os amigos se escondem

Temem um louco pedido

de socorro ou a cobrança

de alguma dívida

 

Quando se tenta

o autocídio

e a morte recusa

realizar sua parte

os amigos sentem-se enganados

Tudo não passou

de uma chantagem

uma farsa

para tirar vantagem

Quem quer morrer

não escapa

Atira-se do alto de um edifício

toma uma dose dupla de veneno

acerta um tiro na boca

aperta o laço no pescoço

deita na linha do trem

Viaja para bem longe

uma ilha perdida

uma cidade desconhecida

e se mata de uma maneira

que não dê trabalho

Simplesmente desaparece

escafede e continua sumido

Um defunto anônimo

não prejudica ninguém