Não é pra todo mundo. Mineiro paga um mil e 260 reais para beijar pé de guru

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Sentado em uma poltrona dourada, ao redor de arranjos florais e com os pés descansados em uma almofada decorada com pétalas de flores, Sri Prem Baba Maharaj promete: “O silêncio e o amor podem realizar milagres”.

Depois de lançar seu livro Amar e ser livre – As bases de uma nova sociedade, em 23 de junho, Belo Horizonte, o mestre espiritual promoveu o retiro do silêncio entre os dias 25, 26, 27 em uma das pousadas mais charmosas da Serra do Cipó, Santana do Riacho.

As vagas oferecidas para o evento foram preenchidas rapidamente. Para participar, era preciso desembolsar R$ 800 para a equipe do guru, e R$ 460 de hospedagem, ou seja, R$ 1.260. “Ofereço vários tipos de trabalhos gratuitos. Mas, em um retiro como esse, há despesas operacionais que vão desde a alimentação, equipe e estadias”, esclareceu.

Orides Fontela: Difícil para o pássaro/ pousar/ manso/ em nossa mão

POUSO (II)
por Orides Fontela

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Difícil para o pássaro
pousar
manso
em nossa mão – mesmo
aberta.

Difícil difícil
para a livre
vida
repousar em quietude
limpa
densa

e ainda mais
difícil
– contendo o
vôo
imprevisível –

maturar o seu canto
no alvo seio
de nosso aberto
mas opaco

silêncio.

Terêza Thenório

Terêza Tenório

SONHOS POÉTICOS
por Talis Andrade

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À Terêza Tenório

Um pássaro
imenso
pousa manso
nas mãos
de Orides Fontela

Um peixe
nas coxas
de Cecília Meireles

Um corpo
de argila iluminada
cega Edna St.Vincent Millay

enquanto Alfonsina Storni
aguarda o amado
ponha nas carnes
a alma que pelas alcovas
ficou enredada

Indóceis as mulheres velam
o amor fosse tão belo
quanto seus versos
O amor que arde
nas faces coradas
o amor que arde
nas entranhas orvalhadas
tivesse a pureza
de uma prece

A vida pode ser vivida em três versões

MG

Um todo as vezes é múltiplo…
e as opções são três vezes mais do que uma só.
A vida pode ser vivida em três versões

 

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Fiquei a esperar que ela passasse entre as nuvens
e a chuva. Amanheceu tempestade por aqui.
Cheguei a contar brisa para o beija-flor enquanto ele brincava de banho.
Perdi a noção da palavra.
Alguém passou uma tarde inteira comigo ontem e eu não fiz chá.
Apenas fiquei como de costume, inclinada na janela, contemplando o que é poesia para mim.
Ela divaga sobre o que eu escrevi, e eu fico em silêncio.
Hoje foi apenas chuva, e o beija-flor a brincar de chuveiro no varal
depois disso, a solidão da manhã ganhou o dia e nem precisei molhar o jardim.

Falo baixinho pra não te acordar.

SILÊNCIO
por Núbia Nonato

 

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Falo baixinho pra não
te acordar.
Não me imponho, é bem
provável que não venha
a se lembrar.
Insisto em procurar no
seu rosto ossudo algo
de pai.
Insisto uma vez mais
ele recua, não me
conhece.
Toco de leve em suas
mãos e prendo a respiração
com medo da rejeição.
Minha alma corre em meu
socorro, é um menino,
é um menino…
Observo da porta, enquanto
ele se recolhe e faz um
meneio com a mão.
É hora de criança dormir…

 

Núbia Nonato

Núbia Nonato

Oração e poesia de Nei Leandro de Castro e Luís Carlos Guimarães

ORAÇÃO
Nei Leandro de Castro

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Dai-me, Senhor, essa paz suave
que emana da mulher amada,
rio com temperatura de lã
onde aqueço a minha solidão.
Dai-me, Senhor, a coragem de proclamar
a infinita ternura do meu silêncio
quando olho para a mulher amada
no abandono do seu sono.
Dai-me, Senhor, o recato dos guardiães
para que eu silencie sobre todas as doces loucuras
da mulher amada.
Dai-me, Senhor, a mulher amada
subitamente surgida nos ícones da poesia.

 

Nei

Nei

 

SOLO DESAFINADO EM CINCO CORDAS
PARA NEI LEANDO DE CASTRO
da Luís Carlos Guimarães

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Quero o poema tão claro
nas coisas que pretende dizer,
que na viagem da noite
pelos caminhos da madrugada,
ao falar na manhã que vai chegar
todos vejam o dia acabando de nascer.

E quando o poema fale de amizade,
saibam de que amigo quero falar.
Amizade que existe e para existir
tem trutas atravessadas na garganta,
contradições, mágoas, desencantos
e não se cansa e sempre recomeça.

Não descompassou o coração nas alturas
quando viajou mundo pela mão do amigo.
Solo de pandeiro, cuíca e violão,
amizade que distribui o pão
e a mostarda da alegria
e bebe tristeza se o vinho faltar.

Amizade de lágrimas repartidas
num velho filme de Frank Capra.
Antenas ligadas no cio da noite,
no bar Acácia descobriu a poesia
no fogo brando do primeiro conhaque,
no ouro amargo de uma cerveja Brahma

Parentesco maior que o do sangue,
a amizade existe, sempre existirá.
Como quero o poema tão claro
nas coisas que pretende dizer,
ao falar de amizade todos saibam
de que amigo quero falar.