Um vulto

por Cristina Moreno de Castro

 

Cristina Moreno de Castro

Cristina Moreno de Castro

 

 

Andando nas ruas, esbarram em mim:

não me vêem.

Em sala de aula, não prestam atenção:

nada sei.

Chegando em casa, os olhos me gelam:

não existo.

Reviro o passado, buscando a mim mesma:

só restam lembranças vazias.

 

 

 

Recife é a cidade cosmopolita mais provinciana em linha reta do mundo

por André Raboni

prédios

Recife sempre foi considerada a “capital do Nordeste” – desde quando o nordeste foi inventado, em meados do século 20. Antes disso, era considerada uma das cidades portuárias mais importantes do Brasil – desde quando o Brasil foi inventado, ao longo do século 19. No período colonial, a província de Pernambuco era uma das principais forças econômicas da colônia portuguesa e, claro, Recife era o principal centro da província.

Durante muito tempo, os filhos do Recife partiam para conviver durante alguns anos com as altas culturas europeias e voltavam para a província a esbanjar com mais vigor o seu nariz de senhorzinho de província. Uma viagem à Europa era um investimento familiar que rendia grandes dividendos no trato público: era a diplomação da respeitabilidade social e a garantia de um bom nome na praça.

No entanto, os ~bons~ filhos das castas recifenses, se iam a Paris com a ignorância pendurada no chapéu, regressavam de Paris igualmente ignorantes mas com uma novidade na lapela: a arrogância.

Essa mistura exótica da ignorância com a arrogância foi o que nos deu este doce presente: nos tornamos a cidade cosmopolita mais provinciana em linha reta do mundo.

Há quem acredite com fervor que a verticalização da cidade é sinônimo de progresso. Aliás, para muita gente o maior sonho de consumo é morar num espigão de trocentos andares com azulejos de banheiro.

Novo Recife e #OcupeEstelita

O Cais José Estelita é, talvez, a área mais nobre do Recife. A afirmação pode ser absurda aos olhos da província, porque o argumento (?) de quem defende o projeto Novo Recife é de que o lugar está abandonado e abarrotado de construções velhas e inúteis, além de cercada de pobres e pobreza. Com isso se forma a frase: “o que vier será bom”, e acabou-se o debate.

Um consórcio entre a Moura Dubeux, Queiroz Galvão e Ara Empreendimentos comprou o terreno da Rede Ferroviária Federal (RFFSA), que você vê na foto abaixo:

Cais-J-Estelita

O terreno está abandonado. Todo lascado, diria em boa linguagem Pernambucana. Mas a área é nobre porque, embora esteja completamente abandonada, se situa numa orla belíssima na melhor paisagem do Recife. Vivemos um completo abandono da prefeitura ao longo de várias gestões. Esse abandono do poder público criou o buraco perfeito para a indústria imobiliária tomar conta e decidir o futuro do Recife.

O avanço da indústria imobiliária sobre o destino da cidade ficou muito fácil, porque se de um lado temos uma parcela da população que jura de pés juntos que “bairro nobre é o bairro das Graças, Jaqueira e Boa Viagem”, por outro temos uma parcela extremamente ausente do debate sobre a cidade. Com um poder público completamente inerte, fica tudo ainda mais fácil.

Ontem uma multidão passou o dia no Cais José Estelita. Estive lá e vi professores, estudantes, artistas, médicos, advogados, arquitetos e urbanistas, filósofos, historiadores, sociólogos, enfim, um monte de gente que está bem longe de ser o que a jornalista Téta Barbosa chamou em seu blog de “hippie de butique com iPhone na mão”. Não sei se a moça, que mora em Aldeia e já fez trabalhos para a Moura Dubeux, estava lá na manifestação, ou se fala por mero recurso retórico.

(Update 16/04 às 21h: Um amigo acaba de me informar que a jornalista não está mais morando em Aldeia, mas no bairro das Graças)

Subtraindo toda a retórica apressada e sem graça da moça, dois substratos do texto valem ser citados. Primeiro quando ela afirma que não entende como pessoas que moram em prédios façam protestos contra a construção de prédios. Em seguida ela atira sem direção e diz que “é fácil ser hippie de butique e protestar tirando foto com iphone” (talvez só seja legítima nestes casos a participação via Twitpic).

Faço nem ideia de quais interesses movem a publicitária que fez propagandas dos prédios da Moura Dubeux (empresa que fraudou o leilão do terreno onde estão as duas torres no Cais de Santa Rita), mas a depreender do texto, eles parecem maior que seu interesse pela cidade do Recife – que, a se medir pela sua fuga pra Aldeia (legítima, diga-se de passagem), percebe-se que não seja dos maiores.

Bem. Pessoas que moram em prédios têm toda a legitimidade de serem contra a construção de, de, de… prédios – ou a moça acha que as pessoas que moram em prédios devem se sentir as mais felizes e realizadas Pollyanas Moças da face da terra? Morar em prédio não é o sonho de consumo de muita gente, pois muitas famílias moram neles por total necessidade financeira, pois não têm condições de morar num refúgio no meio do mato em Aldeia, ou numa casa no Parnamirim. Além disso, morar em prédio está bem longe de significar que se quer que toda a cidade seja uma imensa floresta de espigões com azulejos de banheiro.

Descontando o desconhecimento aparente da história da cidade ao afirmar que o Cais José Estelita está abandonado há 300 anos, achei interessante quando perguntou “porque (sic) só agora que resolveram fazer alguma coisa nele, é que decidiram protestar?”

É um fato que nossa sociedade vive uma desmobilização impressionante. Embora nos ensinem nas escolas que Recife é uma cidade de tradição libertária e revolucionária, sentamos nossas bundas nos sofás e nos sentimos bem com esse ensinamento. Esse bem-estar comodista nos fez a população mais apática em linha curva da América Latina, e que descobriu no “slaktivismo” (a militância de sofá) uma forma de se sentir melhor por não fazer patavina pelo bem comum.

Mas a manifestação que levou mais de mil pessoas neste domingo ao Cais José Estelita foi um momento importante pra cidade na busca de tentar reverter tanta apatia e comodismo na cidade. E se havia pessoas na manifestação que desconhecem o projeto Novo Recife, talvez seja não só pela desmobilização, mas porque ele foi MUITO mal divulgado. E nada melhor para sair do desconhecimento do que se encontrar com outras pessoas que conhecem o projeto.

Analiso a manifestação de ontem como uma massificação inicial do debate, que já vem acontecendo. Uma discussão muito bem fundamentada está sendo desenvolvida no blog Direitos Urbanos, desde a audiência pública que lotou a Câmara de Vereadores do Recife para discutir o ainda pouquíssimo divulgado projeto Novo Recife.

Se há pessoas que não conhecem o projeto, essa é a hora de entrar na discussão e conhecer as pessoas e as ideias que estão circulando, seja para apoiar ou para contrariar. Ao longo de décadas o que vemos são manifestações estritamente estudantis nas ruas, ou no máximo protestos do MST (que as manchetes de jornais logo se horrorizam anunciando “Baderneiros do MST atrapalham o trânsito”).

Aliás, eis aqui mais um retrato do nosso provincianismo pujante:

Quando há um protesto na Grécia ou na Espanha, quem participa do protesto é tratado como “manifestante”. Mas quando há um protesto aqui no Brasil, não passam de vagabundos, baderneiros ou hippies de boutique a ocupar as ruas com seus iPhones para postar no seu Instagram.

Como para hacer una diferencia, una experiencia de diseño que habla de inmigrantes

El proyecto “Migrantas, lenguaje visual de la migración” pone el diseño a reflexionar sobre migraciones, identidades y diálogos entre culturas.

início

Dibujos que sanan

Por Luján Cambariere
Desde Berlin
En las mejores circunstancias, ser inmigrante es una condición con sus problemas. Es una característica o un estigma que cada uno lleva según su temperamento y la realidad circundante, pero “no pertenecer” (el rasgo más potente del que desembarca en otro lugar) paradójicamente hace que se forme parte de otro grupo particular.

“Migrantas se propone hacer visibles en el espacio urbano las reflexiones y sentimientos vinculados a la vida en un nuevo país. La movilidad, la migración y la transculturalidad han dejado de ser excepciones y son cada vez más un fenómeno central de nuestro tiempo. Sin embargo, las experiencias de los migrantes suelen permanecer invisibles para el resto de la sociedad”, resumen de su proyecto sus creadoras, la diseñadora gráfica Florencia Young y la artista Marula Di Como, residentes en Alemania desde el 2002.

A Florencia, entrevistada en una gélida tarde de domingo en su departamento de Berlín, la llevó una beca de tres meses en Barcelona que la crisis del 2001 hizo que se evaporara, aunque no sus ganas (ni las de su esposo músico con giras en el exterior) de hacer experiencia en otro lugar. A poco de llegar, Young y Di Como se reencuentran (ya habían trabajado juntas en Buenos Aires) y comenzó la sinergia. “Marula, que venía haciendo pictogramas como parte de su obra, me pide que vectorialice unos dibujos que tenía sobre el ser extranjero. El tema me era totalmente afín. Al poco tiempo, la invitan al evento Berlín-Buenos Aires en el marco de la hermandad entre ciudades y decide presentar esos pictogramas firmando las dos con el nombre de ‘Proyecto ausländer’. Ese proyecto se presentó sólo en carteles luminosos en las calles de Buenos Aires en diciembre de 2003”, cuenta Young.

Así arrancan con esta iniciativa acerca de las experiencias de ser extranjero. En 2004 invitan a la socióloga Estela Schindel para abordar el fenómeno de la migración en Berlín, y extender la invitación a cientos de mujeres de diferentes orígenes, culturas y estatus social. En 2005 comienza Kollektiv Migrantas. En 2006 se une la urbanista Irma Leinauer y en 2007 la periodista Alejandra López.

El objetivo es siempre el mismo: reflexionar con diferentes grupos de mujeres –turcas, kurdas, españolas, entre muchas otras nacionalidades– el significado de la casa, dónde está el hogar. “Básicamente, qué quieren contarle al otro, a los otros, de ellas. Del país del que vienen y del que viven, cómo se sienten, qué les gusta o qué les molesta, qué necesidades tienen. Me pasa esto o lo otro. En los talleres les pedimos que lo dibujen, de forma simple, sencilla, sin miedo. De hecho tenemos hasta un paso a paso con consejos claves para que no se inhiban porque el saber dibujar no es impedimento para expresarse, que para nosotras es lo más importante. Y todos los dibujos los seleccionamos por temas y algunos los transformamos en pictogramas que exponemos luego junto con todos los dibujos originales, además de las fotografías de las participantes, el audio y fotos de la acción urbana que exponemos luego con todo el grupo participante. Y sin dudas esa parte es la más emocionante. Los proyectos de Migrantas concluyen con una exposición que brinda un espacio de intercambio. Al ver sus dibujos expuestos, las participantes de los talleres se ven legitimadas y reconocidas. A la vez, los visitantes tienen la oportunidad de acercarse a dichas experiencias y reflexiones”, detallan.

Así, definen los talleres como de “expresión gráfica de la propia historia”. “Migrantas se encuentra con otras mujeres migrantes para reflexionar colectivamente en talleres acerca de su condición. Los encuentros tienen lugar en sus propias organizaciones, instituciones y asociaciones. Mujeres de diferentes orígenes nacionales, sociales, culturales y estatus legal intercambian sus experiencias y las expresan en dibujos simples.”

logo_migrantas

DEL DIBUJO AL PICTOGRAMA

Después de un cuidadoso análisis de los dibujos surgidos en los diversos talleres y respetando la intención de los mismos, identifican los elementos claves, temáticas constantes y los traducen en pictogramas. Así surge un lenguaje visual y accesible para todos que despliegan en muestras e intervenciones urbanas, una acción aún más pregnante y generadora de conciencia.

“Los pictogramas son el lenguaje visual de Migrantas. Son imágenes simples que combinan síntesis con alta capacidad de expresión, cuyo diseño transmite una multiplicidad de emociones. Las personas de identidades y procedencias diversas pueden reconocerse en los pictogramas o, a partir de ellos, modificar sus propias perspectivas”, señalan.

La inserción de los pictogramas en el espacio público es un aspecto decisivo, ya sea a través de afiches publicitarios, animaciones digitales, la distribución de postales, o la impresión de bolsas para las compras. El objetivo es siempre integrar la subjetividad del migrante al paisaje urbano. Las acciones interpelan a los transeúntes y les proponen un estímulo para la reflexión.

“Después de haber realizado varios proyectos en la ciudad de Berlín, el colectivo ha iniciado su trabajo en otras ciudades alemanas. La primera estación fuera de Berlín fue en la ciudad de Hamburgo en 2007, a la que le siguió Colonia, en 2008. Trabajamos permanentemente en la creación de redes, consolidando las ya existentes y trazando nuevas para seguir proyectando y concretando proyectos en otras latitudes. Invitamos a todos aquellos interesados en generar proyectos con migrantas de otras ciudades: actores comunales, instituciones sociales y/o culturales y/o gubernamentales a contactarse con nosotras para diseñar juntos redes de trabajo”, cuentan.

Además, Migrantas desarrolló una exposición itinerante para congresos, jornadas y simposios que estén vinculados a temas de migración, integración y movilidad. La exposición consta de diez paneles de 195 x 70 cm en los cuales hay numerosas imágenes y textos en alemán e inglés. Se dan a conocer en ellos los resultados de los diferentes proyectos realizados por migrantas entre 2003 y la actualidad en Buenos Aires, Berlín, Hamburgo y Colonia. En el año 2011 obtienen el premio Hauptstadtpreis für Toleranz und Integration (Premio a la Tolerancia y a la Integración) otorgado por la Iniciativa de Berlín Hauptstadt E.V.

Así, a la fecha, ya han realizado más de 54 workshops, con más de 500 mujeres y niños de 72 nacionalidades diferentes en cinco ciudades distintas (Berlín, Colonia, Sevilla, Hamburgo, Buenos Aires), de los que resultaron más de 1000 dibujos, 68 pictogramas, 75.000 postales distribuidas gratuitamente, 1500 bolsas, 5 animaciones digitales, 3000 stickers, 3000 flyers y un sinfín de intervenciones callejeras (afiches, animaciones en subtes, instalación en pantallas luminosas de publicidad), entre otras acciones que permiten vislumbrar la potencia del proyecto.

Iniciativa que materializa del modo más simple y contundente tantas emociones y sentimientos encontrados: ¿Por qué y para qué? ¿Hacia dónde? ¿Qué cargás? ¿De dónde? ¿Con quién? ¿Por quién? ¿Futuro? ¿A dónde pertenecerá? Y quizá la más fuerte, la figura femenina con pies en forma de raíces y la pregunta clave: ¿Aquí?

¿Qué es lo más fuerte que vivieron con este proyecto?

–Ver la cara de felicidad, orgullo y satisfacción de las mujeres que iban a la muestra con sus familias y nunca habían entrado a un museo o a una galería, y que viesen sus dibujos expuestos, enmarcados o les hicieran notas y luego salieran en los diarios o en la televisión o en la radio. Eso que dicen que hacemos, empoderamiento, verlo es muy gratificante. Que el proyecto se analice en las universidades también. Y, por ejemplo, que a la empresa que pega los afiches de la filial de Colonia le pareciera que el proyecto debía apoyarse y desde el 2008 a hoy siguen pegando los afiches en la calle, es genial.

¿Qué les toca o tocó en lo personal?

–Ver que algunos de los pictogramas que surgieron de dibujos de mujeres migrantes representaban también, reconocido por ellos, a muchos alemanes.

¿Cuál es el pictograma que más las representa?

–“Aquí y allí mi país”.

www.migrantas.org

INVISIBILIDADE

por Sônia Arruda

Seres invisíveis habitam os espaços da cidade
passam à margem do preconceito, da indiferença
e o olhar egoísta só vê na urbana paisagem
no mendigo, um objeto. Desvia de sua presença

Trabalhadores desprezados pelo olhar
dos que se postam em classes elevadas
não participam das relações da empresa
passam despercebidos nas empreitadas
Seres insensatos somos todos nós
que, geralmente, não conseguimos ver
e não ouvimos, dos outros, os gritos
sufocados dentro de cada amargo ser
Invisíveis seres, insensíveis seres
não percebemos, da terra, a evolução
nem o seu giro em torno do sol e de si
nem a beleza futura da flor em botão
É preciso a generosidade do outro olhar
no outro está o alheio reconhecimento
para ser humano é preciso aparecer
A invisibilidade anula qualquer sentimento