Mais de 50.000 vidas, todas elas de jovens negros ou mulatos, pobres quase em sua totalidade, que acabam assassinados a cada ano, mais que em todas as guerras em curso no Planeta

Para o Estado somos todos bandidos
Ele existe não para nos defender sem necessidade de matar, mas para “executar”, e se for com tortura, melhor

 

O ambulante Carlos Augusto Braga

O ambulante Carlos Augusto Braga

por Juan Arias/El País/ Espanha

 

Estou há muitos anos neste país que amo, sobretudo suas pessoas. Muitas coisas mudaram desde que aterrissei pela primeira vez no Rio, onde ainda se podia caminhar pela rua e viajar de ônibus sem ter que ficar alerta por medo de ser vítima da violência urbana. O mesmo ocorria em São Paulo.

O Brasil avançou na consciência dos cidadãos e até em riqueza econômica, apesar de uns poucos continuarem crescendo cada vez mais do que a maioria. Há algo, porém, que no Brasil não só não avançou, como também retrocedeu. Por exemplo, no que se refere ao respeito à vida das pessoas.

Eu me pergunto tantas vezes, com dor e até com raiva, por que a vida de uma pessoa vale tão pouco e é esmagada a cada dia como se esmaga uma barata. Esse pouco apreço por ela faz com que nossa polícia, eternamente mal paga e mal preparada, sempre com licença para matar, seja a cada dia mais truculenta e corrupta.

Eu voltei a me perguntar lendo a sangrenta reportagem de minha colega María Martín neste jornal sobre o tiro disparado por um policial na cabeça de um jovem vendedor ambulante, que acabou morto no asfalto de uma rua da rica São Paulo.

Esse policial que atirou sem compaixão no ambulante, como se atira em um coelho no campo, não pensou que aquele jovem vendia suas coisas na rua porque talvez não tenha tido a possibilidade de fazer algo melhor na vida? Que poderia ter sido seu filho ou irmão? Que ele também tinha sonhos e desejo de continuar aproveitando a vida?

Vendo aquelas imagens feitas no lugar do crime pela nossa repórter María meu estômago se revirou de desgosto e a mente, de indignação, enquanto pensava que esses policiais que em vez de nos dar um sentido de segurança e proteção nos incutem a cada dia mais medo.

Uma mancha de sangue na rua onde começaram os distúrbios: MARÍA MARTÍN

Uma mancha de sangue na rua onde começaram os distúrbios: MARÍA MARTÍN

Pensei também que a nossa classe média ajuda os guardiães da ordem a disparar o gatilho da pistola sem tantos remorsos. Fomos nós que cunhamos a terrível frase de que “bandido bom é bandido morto”. E o respeito à vida? “É que eles também não respeitam a nossa”, se contrapõe. Mas isso leva à concepção de que o Estado existe não para nos defender sem necessidade de matar, mas para “executar”, e se for com tortura, melhor. E que todos acabamos sendo vítimas potenciais dessa loucura.

Há países, como os Estados Unidos, onde se um policial poderia ter prendido um criminoso sem lhe tirar a vida e fica comprovado que não o fez porque era mais fácil matá-lo, acaba sendo duramente punido.

É um problema de escala de valores. Quando a vida de um ser humano, criminoso ou santo, deixa de ter valor supremo, todos logo acabamos nos tornando carne de canhão. Nossa vida entra em liquidação, perde seu valor e dignidade.

Tudo isso, no Brasil parece mais evidente pelo fato de que o Estado trata os cidadãos não como pessoas em princípio honradas, mas como potenciais “bandidos”. Em outros países, o Estado parte do pressuposto de que o cidadão é do bem, que não mente, que não engana, que não procura, a princípio, violar a lei.

E é o Estado, se for o caso, que tem de demonstrar que não é assim, que esse cidadão é um delinquente e fraudador, e só então terá de ser punido.

Viram como nós, cidadãos, somos tratados no Brasil quando precisamos comprar algo, quando entramos em um cartório? Todo o papel é pouco para demonstrar que não somos bandidos, sem-vergonha, mentirosos, vigaristas. Nos pedem certificados e mais certificados, assinaturas e mais assinaturas, reconhecimento de firma, e ainda mais, comprovação com presença física de que essa assinatura é autêntica.

Em uma ocasião, quando comprei um pequeno imóvel em Madri, tudo durou 20 minutos num cartório. Assinamos o contrato de compra e venda. O proprietário me entregou a escritura e as chaves e eu entreguei o cheque da compra. No Brasil nos teríamos perguntado, e se o imóvel foi vendido duas vezes? E se nós dois não estivéssemos nos enganando? E, e, e, e…..! quantos “es” e quantos medos de que no fundo sejamos de verdade uns bandidos que só queremos enganar!

Essa possibilidade de que possamos estar enganando sempre se deve ao fato de que perante as autoridades, ante a polícia, ante o Estado, todos somos sempre vistos como bandidos em potencial. Como me disse um amigo meu, para meu espanto: “É que todos nós, brasileiros, somos todos um pouco bandidos. Se nós podemos enganar, fazemos isso”.

Não acredito. Sempre pensei que até nas sociedades mais violentas e atrasadas as pessoas de bem, honradas, que não desejam enganar são infinitamente mais numerosas do que os bandidos. Do contrário, o mundo inteiro seria há muito tempo um inferno.

É assim no Brasil? Enquanto se continuar pensando e agindo como se a vida humana tivesse menos valor do que um verme e ninguém se espantar quando é sacrificada com violência e sem remorsos, às vezes até por uma insignificância, talvez tenhamos que reconhecer que esse inferno existe também aqui.

Isso é o que recordam as mais de 50.000 vidas, todas elas de jovens negros ou mulatos, pobres quase em sua totalidade, que acabam assassinados a cada ano, mais que em todas as guerras em curso no Planeta. Cada vez que um policial acaba com a vida de uma pessoa na rua, às vezes por uma mesquinharia, continuará sendo alimentada, pela outra parte, a dos cidadãos e dos mesmos bandidos, uma cadeia infernal de desejo de vingança que continuará nos esmagando e humilhando.

Até quando? Irá despertar alguma vez este país de tantas maravilhas, de tantas pessoas fantásticas, com desejo de viver em paz, sem serem tratadas como se fossem todas bandidos, ou continuará deixando atrás de si a cada dia tristes trilhas de sangue e medo ante a impassividade e a impotência do Estado?

Edinaldo, amigo e companheiro de trabalho de Carlos Augusto: M. MARTÍN

Edinaldo, amigo e companheiro de trabalho de Carlos Augusto: M. MARTÍN

Ambulantes, companheiros de Braga, a caminho do aeroporto de Guarulhos para prestar homenagem ao camelô: M. MARTÍN

Ambulantes, companheiros de Braga, a caminho do aeroporto de Guarulhos para prestar homenagem ao camelô: M. MARTÍN


Veja os soldados estaduais da polícia assassina do governador Geraldo Alckmin em ação (T.A.):

Violência em silêncio

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Deitados às cinzas das sombras dos prédios.
Sob a punição de seus medos
No relento do descaso
Onde as ruas são seus laços
Suas identidades desfeitas por cédulas de abandono
Aprisionados na dor da violência
De devassos governantes com viseiras do poder
Violência da alma, da mente
Não há armas
Apenas corpos sedentes
Do amor, do calor
Cansados da ausência do ser
Sufocados pela presença do ter
Na foto vejo um pouco de mim
e vejo um pouco de você.

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FOTO: Weslei Barba – Fotógrafos Ativistas
TEXTO: Ariana Lackshmi – Fotógrafos Ativistas

AUDIODESCRIÇÃO: Dois moradores de rua estão próximos a um monumento localizado na região da Sé. Um deles está sentado com a mão no rosto e o outro está deitado. No fundo, há alguns prédios antigos. Foto em preto e branco.

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Testemunhal de um “socorrista de vândalos”

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Estamos aqui. Mas a PM... esta em peso!  Vem que ainda da tempo!!! Praça da República, centro de São Paulo

Estamos aqui. Mas a PM… esta em peso!
Vem que ainda da tempo!!!
Praça da República, centro de São Paulo

[GAPP EDITORIAL] DIÁRIO DE UM SOCORRISTA: A LUTA DE JUNHO PARA CÁHoje o GAPP (Grupo de Apoio ao Protesto Popular) completa 8 meses de vida, e chegou o momento de fazer um balanço.

Eu me considero um “acordado” de Junho, pois a primeiravez em que pisei em uma manifestação de rua foi no 4o ato para baixar a tarifa do MPL, no dia 13/06/2013. Até então, ativismo de internet, e olhe lá. Gostava e acompanhava política, mas não me envolvia. A vida parecia simples. Eu cresci em uma família batalhadora, meus pais tiveram origem comum, professores do Estado, minha mãe filha de caminhoneiro, então éramos gente simples, mas nunca me faltou nada. Não posso dizer que passei fome, dificuldade, que me faltou educação, saúde, que eu sofri como quem sofre todo dia precisando do Estado e é deixado na mão sem esperança.

Em junho, antes de explodir os movimentos, falava-se muito sobre “são vândalos ou não?” depois dos primeiros atos do MPL que acabaram em quebra pau. Eu confesso que talvez jamais teria ido pra rua no dia 13/06, se a rua não tivesse vindo até mim, pois trabalhava na Paulista na época e neste dia fatídico, aquele onde senhoras, jovens, estudantes, pessoas de todas as cores, tamanhos e origens foram brutalizadas enquanto cantavam “sem violência” para a PM (http://www.youtube.com/watch?v=E13BKzwXCho). Era impossível não ouvir as bombas, os gritos, mesmo do décimo nono andar. Desci pra rua.

Dez minutos depois, aquela pessoa indecisa que não sabia o que pensar estava horrorizada com a cena, chutei uma granada de gás lacrimogêneo de volta na polícia, gritei até ficar sem voz, xinguei, uma raiva tão profunda tomou conta de mim como eu nunca imaginei. Uma senhora se machucou. Eu havia sido brigadista de incêndio por três anos seguidos no meu trabalho, era treinado em primeiros socorros, então ajudei no socorro, mas não possuía nenhum tipo de equipamento comigo. Chamei o SAMU, que demorou uma hora e vinte minutos para chegar. Pensei “e se fosse minha mãe esta senhora?”.

No meio das nuvens de gás lacrimogêneo e estilhaços de granada de efeito moral, me bateu: as pessoas precisam de apoio. O Estado fere sem rodeios, mas não atende as vítimas. No meio de cerca de 4 ônibus da Tropa de Choque que zanzavam a Paulista, a cavalaria, batalhões e mais batalhões da Força Tática equipados até os dentes, nem ao menos UMA ambulância do Resgate se encontrava. Era o povo pelo povo e apenas. Que assim seja.

Uma semana depois surgiu o GAPP, composto por 10 voluntários, a maior parte brigadistas de incêndio, contando com a ajuda de amigos designers, amigos advogados, amigos que simpatizaram com a idéia, e decidiram ajudar. Criaram nome, logo, ajudaram a definir até onde pode ir a atuação de um socorrista, e nasceu essa ideia de “cuidar de quem luta pelo nosso país”. Nossa primeira manifestação como socorristas foi sem uniforme, fizemos uma cruz com esparadrapo no peito para identificação. Nosso material de socorro, doação de uma farmácia do pai de um conhecido, que apoiou a ideia.

Oito meses depois, mais de 40 vítimas atendidas em manifestações, mais de 60 moradores de rua atendidos em ações sociais, vários treinamentos oferecidos gratuitamente para comunidades carentes em primeiros socorros, depois de bater boca com majores, capitães, coronéis, depois de entrar na frente da Tropa de Choque, eu me sinto uma pessoa totalmente diferente daquela que eu era um ano atrás.

Pelas minhas mãos passaram jovens moças com rosto e orelha partidas por cassetete, jovens com fraturas expostas por atropelamento, traumatismos cranianos, pessoas em choque, desmaios, cortes nas mãos, dilacerações por estilhaço de granada, lavei mais olhos com soro fisiológico contra gás lacrimogêneo e spray de pimenta que posso contar, e até mesmo fui até um amigo que perdeu a visão do olho direito por estilhaço de granada no hospital, apenas para descobrir que ele sangrou sem ajuda em uma maca das 7 da noite até as 3 da manhã no “melhor hospital público da América Latina”. Conseguimos sua internação só depois de muita luta. O médico olhou para ele por três segundos antes de dizer sem cerimônia: “você está cego deste olho”. Fiquei chocado, uma mistura de raiva e incredulidade, e quem me consolou foi ele. “Ta tudo bem, fica calmo”. Não era pra ser o contrário?

Eu contabilizo o 7 de Setembro de 2013 como o dia mais difícil da minha vida. Estava na rua desde as 10 da manhã, marchando na manifestação desde as 15h, havia atendido oito vítimas, saído da manifestação de noite já, quando a última vítima finalmente foi encaminhada e o final da manifestação dispersou, havia ido direto ao hospital e brigado com deus e o mundo pela internação do Vitor. Quando finalmente ele foi internado, quase quatro horas da manhã, fui pra casa, exausto como não sabia que era possível. Tirei o uniforme e o equipamento que pareciam pesar 100 quilos, e desatei de chorar. Chorei até dormir.

No dia seguinte ele me comoveu de novo, quis deixar um recado pro mundo direto do hospital. O nosso medo na época era que a força da repressão do dia 07 fosse tirar as pessoas da rua. Assisto este vídeo até hoje e penso que eu não seria capaz de juntar essa força menos de 24h depois de perder minha visão. “SE FOSSE EU”, pensei, estaria no chão, em posição fetal, me perguntando porque ao destino. Assista: http://goo.gl/qStUjK

Esse tipo de coisa me mudou. Mas não só na cabeça, minha vida pessoal mudou por conta dessa nova rotina. Amigos, família, namoradas, a constante na minha vida hoje é a reclamação por falta de atenção, falta de tempo. Mas surgiu algo ainda mais diferente: tenho dificuldade de conviver com pessoas que não enxergam essa realidade que agora eu vejo. Que não enxergam a dor, o sofrimento, que são incapazes de esboçar compaixão por todos que diariamente cambaleiam em uma balança composta de esperança de um lado e desespero do outro.

Para dar um exemplo MUITO íntimo e polêmico, antes eu poderia topar a companhia de uma mulher que considerasse bastante “fútil” de alguma forma se estivesse interessado em conquistá-la, mas hoje não consigo mais. Não consigo conviver bem com gente leviana, com gente que não se importa com nada. É errado, eu sei, é uma forma de julgamento de valor egoísta, prepotente e muitas vezes cruel, mas as vezes sinto como se andasse por um supermercado imenso onde nas prateleiras houvessem cenas que fazem parte do dia-a-dia de milhões de brasileiros, de gente que trabalha de sol a sol para receber migalhas de quem os oprime para aumentar uma casa decimal de uma margem de lucro, e que o resto do mundo não vê porque não quer. Gente que tem a mãe no SUS e não consegue uma consulta.

Parece um discurso radical, moralista, parece que estou exagerando, e que eu esqueci que menos de um ano atrás eu era uma dessas pessoas, e não deveria culpá-las por não enxergar o mundo pelo que ele é, mas é difícil. Conseguem imaginar o que é não sentir mais o fedor de um mendigo? Usei o termo assim, agressivo mesmo, falei “fedor”, falei “mendigo”, de propósito. Quero chocar você. Quero chocar você com palavras que você mesmo algum dia já usou. Quero que você entenda que eu passei ontem a maior parte do meu domingo prestando atendimento de primeiros socorros para moradores de rua, e te contar que você deixa de ligar, pro cheiro, pra aparência, pra sujeira, pra amargura na voz de alguns, pra dureza na voz de outros.

Você começa a repetir um chavão que todo mundo já ouviu “daquele amigo chato que faz voluntariado” que a palavra de gratidão dessas pessoas, que não tem nada, nem esperança MUDA você por dentro. Consegue se imaginar abraçando um morador de rua? Muita gente não consegue, muita gente se torce de asco só de passar do lado na rua, sente um desconforto profundo em ouvir um pedido de esmola e ter que recusar, chega a surgir uma raivinha dentro de “ter que passar por isso” indo e voltando do trabalho. Posso dizer agora, isso te muda mesmo.

Discursos como “se eu der esmola ele não vai aprender a trabalhar” sumiram do meu repertório, e hoje tenho uma vergonha profunda de algum dia ter dito isso, me entristece como poucas coisas na vida. Eu dou esmola sim, em dinheiro ou prato de comida, eu desvio do meu caminho durante o dia pra tentar trazer um pouco de conforto pra quem considera encontrar um lugar seco pra dormir um luxo, e se ele gastar em cachaça, é um risco que estou disposto a correr.

Não consigo ouvir “bandido bom é bandido morto”. Quantos eu vi nas ruas, sendo chamados de bandidos, sendo brutalizados e presos sem motivo? Em uma manifestação em prol da educação, vi um jovem negro ser abordado, estava sem RG e foi levado para a DP. Filmei sua prisão e o capitão do tático dizendo “ele está sendo detido porque está sem RG, para identificação”. “APENAS ISSO?” – frisei para a câmera. “Apenas”. Chegando na delegacia ele foi acusado de dano qualificado ao patrimônio e ainda jogaram um “esse ai quebrou o vidro de uma viatura”. Corremos com o vídeo pros advogados, ele foi solto sem acusação. Semanas depois esse mesmo rapaz tomou um enquadro aleatoriamente no começo de uma manifestação, coisa que depois ele me contou que era muito comum. Perguntei qual foi o motivo, e ele disse “disseram que eu estava com ‘comportamento suspeito'”. Surpreso, pois ele estava parado ali do lado fazendo nada tal e qual eu mesmo quando aconteceu, perguntei “mas eu te vi, você não fez nada”. A resposta dele me pegou de surpresa: “aparentemente ser negro é comportamento suspeito”. Brinquei: “é melhor você parar com isso então”. Rimos.

Como eu posso acreditar agora, tendo visto isso INÚMERAS vezes na rua, que todos os 10.000 “bandidos bons e mortos” nos últimos 10 anos eram todos bandidos mesmo? Que foram acusados justamente? Eu mesmo fui preso. No dia 15/10/2013, a manifestação conhecida popularmente como “a da Tok&Stok”, que também tinha uma pauta em prol dos professores do Estado (me entristece quem lembra de manifestação pelo confronto e não pela pauta). Momentos antes da minha detenção, nossos voluntários e mais um grande número de pessoas, que se refugiava do confronto entre polícia e manifestantes dentro de um posto de gasolina, fomos emboscados e agredidos pela Força Tática da PM. Meus colegas socorristas, parece que foram agredidos em especial. Foram três para o hospital, sendo que um deles deu 12 pontos na cabeça e perdeu 1 centímetro quadrado de escalpo. Este vídeo mostra parte da nossa agressão: http://goo.gl/GHZlcE

A força tática apareceu e partiu como um furacão atrás do resto dos manifestantes, e ficamos novamente sozinhos no posto, apenas manifestantes. Apareceu um homem com a perna dilacerada por estilhaço de granada (veja:http://goo.gl/0NL6pT). E foi DURANTE este atendimento que fomos detidos, enquanto movíamos o homem de um local para o outro, ainda com sangue nas luvas. Alguns PMs da ROCAM (rondas extensivas com apoio de motocicletas) chegaram e nos renderam, tentei dizer “somos socorristas!” a resposta que tive foi “eu sei muito bem quem são vocês, cala a boca e encosta na parede”. Fui tirar o celular do bolso para filmar a prisão, um direito meu, e, novamente agressões. Me tomaram o celular. Eu e mais dois voluntários fomos para a DP de camburão, como se fossemos bandidos em um programa do Marcelo Rezende, “para averiguação”. Fomos fichados, e soltos. O delegado, depois de ver já tínhamos dado entrevista na Folha, Estadão, SBT e outros, decidiu nos soltar sem acusação, mas nossos dados ficaram. Depois disso descobrimos que éramos um dos 133 investigados do DEIC.

Prestamos depoimento em novembro. O delegado do DEIC nos acusou de “serem os socorristas dos vândalos, porque assim eles não vão pro hospital e não são identificados”. Expliquei que o conceito de primeiros socorros automaticamente influi que haverá outro socorro. Nosso papel é estabilizar, chamar uma ambulância e acompanhar a vítima. A vasta maioria das nossas vítimas vai JUSTAMENTE ao hospital, muitas vezes em ambulâncias do resgate chamadas pela própria PM (sim, existem alguns poucos oficiais que chamam ambulâncias depois, elas vem mais rápido do que se um civil chamar) e nós socorremos TODO tipo de pessoa, temos tudo isso muito bem documentado para nossa proteção. A constituição e nossa índole não nos permitem negar socorro, e nunca negaremos.

Voltando ao presente, hoje por vezes nos sentimos um pouco estranhos. Uma mistura de MEDO que a mídia corporativa e o governo consigam sufocar os movimentos de rua, gritando sem parar “VÂNDALOS VÂNDALOS VÂNDALOS” na TV, e fazendo campanha sobre os benefícios da Copa (promessas quebradas, veja aqui:http://goo.gl/4SF6k2 e entenda a revolta contra a copa aqui: http://goo.gl/YLXxIo), e que o povo pare de apoiar a luta, que a classe governante volte ao seu conforto de legislar em prol de si mesmo, garantindo sua impunidade, garantindo que os R$ 200 bilhões que a ONU estima que todo ano escoam do país por corrupção continuem fluindo. Depois de enxergar esse mundo novo, seria insuportável pensar que foi tudo em vão.

E por vezes sentimentos esperança. Sentimos que o povo vai acordar novamente, que não vai deixar um país sem educação, sem transporte, sem segurança, sem saúde e sem esperança de lado pra gritar “gol”. Existe um grito muito maior que qualquer grito de comemoração futebolística, e nós já vimos ele antes, e sentimos muita falta do povo em MASSA nas ruas.

Por fim, o objetivo desse post é passar um pouco como é a vida de quem luta nas ruas, e tentar sensibilizar a população para um momento decisivo na nossa história. Esse ano é o ano que temos como dizer em uma só voz: A LUTA NÃO ACABOU, e obrigar nossos governantes e seus partidos que não nos representam a dar os direitos do povo. Somos o quarto maior país do mundo em carga tributária (%), pagamos imposto em nível de Alemanha e recebemos serviços em nível de Irã. Temos a quinta maior economia do mundo, mas isso não se reflete naquilo que é mais importante para a população: qualidade de vida.

Nós temos fome de grandeza. Nós merecemos mais. Pra terminar, rogo que se você teve paciência de chegar até o fim desse post, assista esse vídeo, e que volte a ser aquela pessoa que você foi brevemente, em Junho. Parece que faz muitos anos que tudo aquilo aconteceu, mas é porque de lá pra cá vivemos muitas vidas. Vem pra rua!

Assista o vídeo: http://ful.eco.br/

Termino com um agradecimento eterno por esse time de voluntários que hoje integra o GAPP, uma outra coisa que descobri nesses últimos 8 meses é que existe um tipo diferente de amor, diferente de amizade e diferente do amor romântico, que surge por quem luta ao seu lado contra todas as chances. Obrigado pelo privilégio de estar ao lado de vocês, meus irmãos.

#VEMPRARUA
#ALUTANAOACABOU
Se não tiver direitos #NAOVAITERCOPA

Fotos por: https://www.facebook.com/RRFotografiaSP
Tiradas durante a “Operação Mais Pão Menos Opressão VII”.

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