JOGO BRUTO DA MANIPULAÇÃO DA INFORMAÇÃO

 por Mario Augusto Jakobskind

indignados tv

O assassinato do repórter cinematográfico da TV Bandeirantes Santiago Andrade deixou não só a família como todo o Brasil de luto. É triste a morte, ainda mais nas circunstâncias em que ocorreu e que poderia até ser evitada se o profissional de imprensa estivesse com equipamento de segurança adequado para coberturas em áreas de risco.
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Mesmo antes da tragédia, durante negociações salariais da categoria dos jornalistas no Município do Rio de Janeiro, os representantes dos empresários midiáticos se recusaram a aceitar clausula prevendo a garantia das empresas em fornecer equipamentos de segurança para os repórteres. Esse fato, denunciado pela Presidenta do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro, Paula Mairán, foi ignorado no noticiário sobre o assassinato de Santiago.
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Da mesma forma que se condena a violência de alguns poucos, que não leva a lugar nenhum e na prática faz o jogo de setores da elite que tentam sempre impedir qualquer tipo de mobilização e organização popular, não se pode silenciar diante da ação truculenta da Polícia Militar que obedece a voz de comando do Governador para reprimir os protestos.
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Infelizmente, nesse contexto se inserem grupos midiáticos de mercado. No caso do Rio de Janeiro, as Organizações Globo bate recordes em matéria de criminalização dos movimentos sociais e de manipulação da informação.
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Vale um parênteses. Este mesmo grupo há poucos meses fez uma autocrítica por ter apoiado o golpe de 64. Tratou-se apenas de uma ação mercadológica para tentar limpar a sujeira do apoio, porque na prática a filosofia da Globo continua a mesma de 50 anos atrás.
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O mesmo ódio que nutriam contra as autoridades constituídas, sobretudo o Presidente constitucional João Goulart, nos dias de hoje fazem semelhante em relação aos movimentos sociais e a alguns políticos que não rezam pela cartilha da família Marinho. Os tempos e o cenário não são os mesmos de 64, até porque o mundo e o país mudaram substancialmente, mas a forma de manipular a informação segue vigente.
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O que dizer de uma mídia impressa, e a eletrônica segue o mesmo caminho, que apresenta um editorial, como de O Globo, sob o título “Quando os black blocs e o MST se encontram”? É a opinião do grupo, que em essência em nada difere de editorais que antecederam ao golpe empresarial militar de 64.
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E tem mais uma agravante, não é de hoje que as Organizações Globo criminalizam o mais importante movimento social da América Latina, talvez do mundo, como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. E também não é de hoje que o grupo da família Marinho, bem como outras mídias, tem vínculos estreitos com o setor do agronegócio.
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Um boato durante uma manifestação pacífica de mais de 15 mil trabalhadores rurais que realizavam seu VI Congresso em Brasília fez acionar de forma violenta a Polícia Militar. Alguém, sabe-se lá quem, mas pode-se imaginar os responsáveis, lançou a versão mentirosa segundo a qual um ônibus dos trabalhadores com material de acampamento guardava armas para enfrentar a polícia. Desrespeitando os manifestantes, PMs de forma truculenta se dirigiram ao ônibus e aí começaram os confrontos.
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O esquema Globo, que não faz jornalismo, e nestes casos age como um partido político retrógrado, culpou o MST pela ocorrência e no dia seguinte ainda equiparou os manifestantes pela reforma agrária aos Black Blocs.
Os boatos em Brasília chegaram as raias do absurdo quando um dos Ministros do Supremo Tribunal Federal, Ricardo Lewandowski, que presidia os trabalhos, ordenou a suspensão de uma sessão da instância máxima da justiça brasileira alegando “ameaça de invasão”. Mentira total, mas os canais de televisão, capitaneados pela Globo, deram o maior destaque à ameaça que nunca existiu.
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É preciso dar um freio nessa manipulação midiática grosseira que tem por objetivo impedir a continuidade das manifestações populares e ainda a aplicação de uma legislação restritiva às mobilizações populares. E de quebra ainda facilita o jogo de uma oposição de direita sem bandeiras.
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Se o espaço midiático eletrônico fosse melhor distribuído, digamos com 33% do espectro dividido para a iniciativa privada, pública, estatal e com garantia para canais da cidadania, os brasileiros teriam certamente maiores opções de se informar e não estariam sujeitos, como agora, ao esquema grosseiro de manipulação da informação da mídia de mercado.
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Nas manifestações populares que ocorrem em todo o país, o tema mídia tem ganho maiores espaços, o que preocupa sobremaneira os proprietários dos grandes veículos de comunicação, os mesmos que estão criminalizando os movimentos sociais ao misturarem alhos com bugalhos, como equiparar Black Bloc ao MST.
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O perigo de que nos roubem a rua

Nenhum presente é melhor para os que guardam sonhos autoritários do que gerar o medo de se manifestar

Mohamed Sabra

Mohamed Sabra

por Juan Arias/ El País/ Espanha

Um perigo paira sobre a democracia deste país após a morte violenta e covarde do jornalista Santiago Andrade: o de que possam roubar a rua e a liberdade de se manifestar nela dos cidadãos que pretendem reivindicar pacificamente melhores condições de vida.

Engendrar o medo de sair à rua é um tópico de todos os ditadores que preferem ver as pessoas presas em suas casas, vendo de maneira passiva a televisão. Nenhum presente melhor para os que guardam sonhos autoritários do que gerar medo de que as pessoas se manifestem alegando que é perigoso sair para protestar porque isso se revestiu de violência.

O fato de que a presidenta Dilma Rousseff decida desistir, segundo a Folha de São Paulo, de participar da abertura do estádio Amazônia em Manaus “por medo de possíveis manifestações” contra ela, motivadas pela Copa, ou de que não vá encontrar com os 12 governadores dos Estados que receberão as partidas da Copa do Mundo para discutir medidas de segurança, é um fato grave e alarmante. Como o é que jornalistas profissionais de diferentes meios se vejam obrigados a esconder sua identidade por medo de serem agredidos pelos grupos violentos, algo que não ocorre nem nas guerras onde há leis internacionais que protegem e vigiam para que eles possam trabalhar em liberdade.

Se o fruto da morte de Andrade, no lugar de abrir com seu sacrifício novos espaços de liberdade, é impedir que os cidadãos pacíficos possam sair de novo à rua, sem medo, para reivindicar melhores condições de vida, estaríamos cultivando germens para tentações ditatoriais.

Não há melhor sonho para o poder que ter encontrado a chave, através do medo, para pôr fim neste país às manifestações democráticas. Seria a maior ofensa aos centenas de milhares de cidadãos que em junho passado tomaram a rua para reivindicar seus direitos de maneira pacífica.

Se a morte do jornalista servisse como estopim para impedir que, motivadas pela Copa do Mundo, possam acontecer novas manifestações em massa, estaríamos ante a pior das tragédias e manipulações.

O medo das ruas, os toques de recolher, os abusos policiais, o medo infundido nos cidadãos para que se fechem em suas casas, é o fermento que faz fermentar todas as ditaduras.

Foi um só tiro o que provocou a Primeira Guerra Mundial. E pode ser às vezes o simples estopim de um foguete que arranca a vida de um jornalista o que acabe frustrando os anseios de liberdade de uma sociedade como a brasileira, que se orgulha de ser uma das democracias mais consolidadas dos países emergentes.

Medo das ruas e batalha aberta ou germinal contra os meios de comunicação que acabam sendo fechados ou censurados pelos ditadores da vez costumam ser sempre o presságio de sombrios autoritarismos.

Em outros países do mundo, a ação violenta dos Blak Bloc foi neutralizada pelas forças da ordem convenientemente treinadas, sem que consigam impedir as manifestações pacíficas.

Se no Brasil estes grupos violentos continuam atuando sem que o Governo seja capaz de lhes frear e lhes neutralizar, até o ponto de impedir aos cidadãos verdadeiramente democráticos exercer seu direito de ocupar a rua para gritar seus anseios de liberdade e suas justas reivindicações, poderia ser aberta a suspeita de que essa situação acaba servindo ao poder.

Tudo o que seja incitar a ira dos cidadãos contra os meios de comunicação lhes acusando de exercer com liberdade seu direito de crítica ao poder, ou deixar livres aos violentos como muro eficaz para que a gente tema sair de novo à rua, seria a melhor demonstração de que está em curso uma involução autoritária que poderia acarretar graves prejuízos à imagem do país dentro e fora dele.

Já vivi em minha carne, durante a ditadura franquista da Espanha, a afronta de ter que sofrer que um censor do regime decidisse gratuitamente se publicaria minhas crônicas ou se as mutilaria a seu desejo.

Já vivi não o medo, senão o terror de sair à rua para protestar pacificamente durante tal ditadura, onde as manifestações se pagavam com a tortura e a morte.

Brasil é um país que deixou para trás a ditadura militar para dar lugar a uma democracia real que os cidadãos desfrutam há quase 30 anos. E todas as vezes que nestes anos a gente saiu em massa à rua foi para fortalecer os valores democráticos.

Impedir agora as manifestações, seja pelos grupos violentos ou pelo desejo subliminal do poder de evitar protestos que prefeririam ver emudecidos, seria assassinar duas vezes o jornalista, primeira vítima do dever sagrado de informar.

Nenhum antídoto melhor contra a barbárie e o autoritarismo que a informação livre de toda censura ou de qualquer outro controle por social que possa existir.

A presidenta Dilma Roussef pode ser criticada por muitas coisas, mas uma a honra sobretudo: sua postura intransigente contra o controle dos meios de comunicação. Em seus já quase quatro anos de governo foi firme na sua promessa realizada durante seu discurso de tomada de posse: “Prefiro o ruído da imprensa livre ao silêncio das ditaduras”. Ela apoiou o clássico ditado que diz que na democracia é “melhor um mau jornal” que a ausência do mesmo.

O medo à informação, o acosso aos jornalistas deixados à própria sorte nas mãos dos violentos, poderia ser convertido em um bumerangue contra os que com isso pretendem se sentir mais seguros, menos vigiados e criticados.

Esse bumerangue já parece estar atuando, se é verdade que até a presidenta está com medo de aparecer em público para inaugurar um estádio de futebol.

Nada mais quebradiço, efetivamente, que uma democracia e nada mais difícil de derrotar que uma ditadura.

E quando em uma democracia, desde a máxima autoridade até aos simples cidadãos manifestam o medo de sair à rua, significa que as liberdades começam a ser amordaçadas de forma aberta ou dissimulada.

Daí o perigo de que possam roubar a rua dos cidadãos que amam a democracia e que neste país, felizmente, são a imensa maioria.

O assassinato de Santiago. A morte como espetáculo

Por Luciano Martins Costa

televisão protesto

A sequência do noticiário sobre a morte do cinegrafista Santiago Andrade, causada pela explosão de um morteiro, lança o leitor atento em uma enorme confusão. Mesmo levando-se em conta o turbilhão emocional provocado por eventos desse tipo, do qual nem repórteres experientes estão isentos, o conjunto das informações, análises, palpites e iniciativas descreve uma sociedade atônita, sem noção da realidade, crédula ao nível da carolice e ao mesmo tempo cética diante de informações avalizadas pela imprensa.

Mas não é a sociedade que está aturdida: é a versão midiatizada da sociedade que nos parece à beira de um ataque de nervos. A diferença entre o ambiente social e sua representação na mídia tem sido marcada em estudos recentes sobre comunicação e cultura, mas em geral eles se concentram em reflexões sobre o funcionamento do chamado espaço informativo, ou espaço informacional.

A sociedade é a expressão das relações conscientes entre as pessoas, com objetivo do bem comum. A sociedade midiatizada é a expressão do interesse de quem media essas relações. Essa curta e certamente pobre contextualização pode ser útil para lembrar que nem tudo que sai na imprensa é exatamente jornalismo.

Aliás, um dos problemas da observação da imprensa nestes tempos de grandes mudanças é justamente a mistura de jornalismo e imprensa: nem sempre o que a imprensa faz é jornalismo, e, cada vez com mais frequência, o jornalismo costuma ser encontrado fora do sistema que chamamos de imprensa.

Vejamos, então, alguns dos elementos desse conjunto de informações que compõem o noticiário sobre a morte de Santiago Andrade, com os quais tentaremos pintar um quadro mais ou menos compreensível.

Primeira dificuldade: entender o que vem a ser o tal Black Bloc. Sem uma estrutura visível, caracterizada apenas por uma disposição permanente para a violência, essa coisa tem sido apresentada ora como horda, ora como massa de manobra, ora como organização política de orientação anarquista. Segunda dificuldade: situar nesse contexto os dois jovens apontados como coautores da morte do cinegrafista da TV Bandeirantes.

Mídia e sociedade

Há outras dificuldades presentes na tarefa de encontrar um significado nessa maçaroca de notícias, opiniões e palpites. Por exemplo, muitos jornalistas ativos nas redes sociais duvidam que o jovem acusado de acender o petardo, identificado como Caio Silva de Souza, seja o mesmo homem que aparece de costas, na cena do crime.

Preso na madrugada desta quarta-feira (12/2), ele confessou ter acendido o artefato, mas disse pensar que se tratava de uma bomba comum, do tipo conhecido como “cabeça de negro”, e que se surpreendeu quando o projétil saiu voando.

A polícia identificou e prendeu o autor da detonação a partir da descrição que foi feita pelo jovem que portava o morteiro, não pelas fotografias, e fica sem explicação a imagem do homem que aparece nas cenas do protesto, e que certamente não se parece com o jovem esquálido que confessa ter participado do incidente.

Esclarecido que Fábio Raposo, de 22 anos, entregou o rojão a Caio Silva, de 23 anos, desfaz-se a dúvida sobre a dupla autoria, mas surgem questionamentos sobre a anunciada periculosidade dos dois jovens e a eventual participação de uma terceira pessoa. Nos arquivos da polícia, a única coisa que existe é a suspeita, sem provas, de que um deles foi acusado de portar drogas há três anos. O ato que cometeram se aproxima mais da irresponsabilidade, do crime culposo, do que da ideia de uma ação terrorista que excitou o Congresso Nacional.

Da mesma forma, fica registrado o esforço feito pelo jornal O Globo e pela TV Globo para incriminar o deputado Marcelo Freixo, do PSOL, com mais um episódio de manipulação dos fatos por parte da imprensa.

Registre-se também a profusão de artigos, entre eles o texto de autoria de um professor de Ciência Política da USP, que expressam um sentimento de pânico onde se misturam ações do crime organizado, depredações de ônibus e manifestantes mascarados, num retrato de uma sociedade que estaria, segundo essa visão, insatisfeita “com tudo isso que está aí”.

Ora, pode-se afirmar que o mal-estar está presente, de forma generalizada, no ambiente da sociedade midiatizada, mas isso não quer dizer que o mesmo sentimento domina a sociedade real.

O que sai na imprensa é, na melhor das hipóteses, apenas uma versão da realidade.

A mais espetaculosa.