Carlos Pena Filho e Joaquim Cardozo na estação de águas do Rio Capibaribe

MENINA
por Joaquim Cardozo

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Os teus olhos de água,
Olhos frios e longos,
Esta noite penetraram.
Esta noite me envolveram.

Bem querida madrugada…

Olhos de sombra, olhos de tarde
Trazem miragens de meninas…
Bundas que parecem rosas.

Sob o caminho de muitas luas
O teu corpo floresceu.

 

The Cat of La Mediterranee by Balthus

 

GUIA PRÁTICO DA CIDADE DO RECIFE
por Carlos Pena Filho

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(fragmentos)

(…) vieram de longe as águas
que aqui no Recife estão,
já começaram areia e pedra
lá bem perto do sertão
e é por isso, talvez,
que escuras e tristes são.
Porém não foi só tristeza
sua peregrinação,
em seu trajeto tiveram
a farta satisfação
de dar de beber a secos
homens, cavalos e bois
e em seu incerto caminho
ainda viram depois
os sítios cheios de sombra,
onde dorme o sonho espesso
do poeta Joaquim que foi
fazer uma estação de águas
nos olhos do seu amor
e trouxe nos seus, acesos,
os cajueiros em flor.

 

Ilustração Window Balthus galeria aqui 

OS AFOGADOS DO CAPIBARIBE VIVO

OS AFOGADOS
por Fernando Monteiro

 

 

afogados

1. Os afogados nos rios, os mortos na água de lama sem sepultura, sempre me pareceram mais mortos do que os defuntos enxutos, vestidos para o enterro por mãos amigas ou estranhas — na sua solidão de gravata frouxa e (inúteis) sapatos.

2. Os afogados nos rios tiram os sapatos, largam as sandálias antes de entrar na fluidez da água que os convida para desaparecerem do mundo de caranguejos humanos de patas as mais afiadas, temíveis garras de insinceridade que não pode olhar para um rio como a líquida tumba do bruto de atos tautologicamente brutais de traição e desamor sem ar para respirar quando o traído e o desamado mergulham sem remissão.

3. Os afogados nos rios me tiraram a respiração (sempre), é natural para quem foi criança vendo um ou ou outro corpo surgir do Capibaribe mordido dos animais que se alimentam dos humanos que não sabem ou não quiseram nadar — mas quiseram parar a correnteza das suas vidas.

4. Os afogados nos rios são anunciados pelos ribeirinhos. Apareceu um corpo, surgiu um morto (mais morto do que os outros mortos)!

5. Os afogados nos rios eram anunciados com um espanto vizinho da esperança de surgirem mais mortos ao longo da semana de pesca de pequenos bichos feios afeitos à lama — e nenhum cão que não pode ter plumas. (Por que um rio seria um cachorro sem nenhuma?)

6. Os afogados nos rios passam debaixo das baronesas, nas enchentes espetaculares que nos abandonaram à completa falta de tragédia. As baronesas não são nobres mulheres em cima dos falos dos afogados sem sexo (o falo é a primeira parte comida pelos caranguejinhos solertes), mas plantas lentas que passam como um cachorro com pelos. Cão tem pelos, essa é a verdade.

7. Os afogados nos rios não têm pelos, porque já passam despidos deles, em carnes comidas que alimentam a voragem do rio sem vira-latas inteiros.

8. Os afogados nos rios provam que a morte pela água é uma horrível morte que incha a barriga e deixa os olhos abertos para o céu ou o inferno. Ninguém quer ver os afogados de perto. Eles quase não têm parentes que saiam da secura para dizer: “Esse afogado é meu, eu o reconheço, apesar de tudo, pela coragem de se juntar ao rio fedorento, talvez depois do abraço que lhe neguei”…

9. Os afogados nos rios se purificam não pelo poema do cão imberbe, mas pelo afeto da desesperança que, afinal, às vezes os enterram longe das águas passando, lentas, por dentro de uma cidade cortada por rios aos quais os passantes sobre as pontes se tornaram indiferentes.

10. Os afogados nos rios serão meus irmãos por toda uma eternidade de inconformação com um rio ser chamado impunemente de cão.

 


Publicado in Antologia CAPIBARIBE VIVO, editada pela poeta Jussara Salazar para o Parque Capibaribe (e que foi lançada em festa no dia 5 último)

Rio Capibaribe de João Cabral de Melo Neto e Carlos Pena Filho

PAISAGEM DO CAPIBARIBE
por João Cabral de Melo Neto

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A cidade é passada pelo rio
como uma rua
é passada por um cachorro;
uma fruta
por uma espada
O rio ora lembrava
a língua mansa de um cão,
ora o ventre triste de um cão,
ora o outro rio
de aquoso pano sujo
dos olhos de um cão.
Aquele rio
era como um cão sem plumas.
Nada sabia da chuva azul.
da fonte cor-de-rosa
da água do copo de água,
da água de cântaro,
dos peixes de água,
da brisa na água.

 

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GUIA PRÁTICO DA CIDADE DO RECIFE
por Carlos Pena Filho

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(fragmentos)

(…) tudo o que for do rio,
água, lama, caranguejos,
os peixes e as baronesas
e qualquer embarcação,
está sempre a todo instante
lembrando o poeta João
que leva o rio consigo
com um cego leva o cão.

 

BRA^PE_JDC capibaribe

Em minha vida passa um rio

por Valmir Jordão

 

Recife na visão do artista Zé Som

Recife na visão do artista Zé Som

O dossel do rio se rompeu: As derradeiras baronesas
Desprendem-se das úmidas entranhas dos barrancos.
Precavidas, as ninfas já partiram.
Doce Capibaribe , corre suave , até que meu canto termine.
O rio não suporta garrafas vazias, restos de comida,
Lenços de seda, caixas de papelão, pontas de cigarros,
E diferentes bugigangas em seu dorso,
E outros testemunhos das noites insones.
Os ociosos herdeiros dos magnatas municipais,
Partiram sem deixar vestígios.
Às margens do Capiberibe sentei e lá chorei.
Doce Capibaribe, corre suave, pois falarei
Baixinho e quase nada te direi.
Atrás de mim, porém numa rajada fria, escuto
O insistente chocalhar de ossos na Cruz do Patrão,
E um riso ressequido tangencia o rio.
Os lúgubres murmúrios da Emparedada da Rua Nova,
Ecoam no vento cruzando a terra estiolada.
O rumor das buzinas e motores, não trarão
A rebeldia da Praieira, e a libertária Confederação do Equador.
Oh! cidade indomável, às vezes posso ouvir
Em qualquer bar da Mamede Simões,
O álacre lamento de um bandolim,
E a algazarra que farfalha em bocas tagarelas.
O rio poreja vinhoto e poluição
As barcaças derivam ao sabor das marés,
Onde os desportistas ao remo exercitam-se
Sob os arcos das belas e infindáveis pontes.
E sua correnteza serpenteia a cidade
A convidar para o eterno renascimento,
Rio das Capivaras, corre suave,
Até que meu canto termine.
Cão sem plumas, pássaro fênix
A prolongar o nosso desencanto e alumbramento.

 


Seleta de Luanda Calado