Que horas ela volta?: Com medo de Jéssica

Há quem ache Jéssica arrogante e há quem ache maravilhosa. Dependendo do que você acha da Jéssica fica claro em quem você vota.

cartaz que horas ela volta

Conhecendo a servidão da mãe como empregada doméstica

Conhecendo a servidão da mãe como empregada doméstica

servidão

Na piscina de uso exclusivo dos patões da mãe

Na piscina de uso exclusivo dos patões da mãe

patrão

O patrão da mãe todo prestativo e generoso

O patrão da mãe todo prestativo e generoso

Sem teto, moradora de favela em São Paulo

Sem teto, moradora de favela em São Paulo

por Léa Maria Aarão Reis

O filme de Anna Muylaert mobiliza e provoca furor. Até a semana passada, 250 mil espectadores assistiram a saga da doméstica Val e da sua filha Jéssica. Oitenta mil deles apenas num fim de semana. Isto faz Que Horas Ela Volta? aprumar-se para chegar perto da bilheteria dos blockbusters americanos feitos de boçalidade e de músculos. Escolhido para representar o Brasil na competição de Oscar de melhor filme estrangeiro da edição de 2016, sua carreira reafirma o trabalho da cineasta paulista como autora de bons filmes: o premiado Durval Discos, É proibido fumar, Chamada a cobrar e, sobretudo, como corroteirista do excelente O ano em que meus pais saíram de férias, de Cao Hamburguer.

Qual a explicação para o sucesso, para a explosão do filme da Anna – nos festivais estrangeiros e nas principais cidades do país -, além da narrativa relatada com talento, e de contar com a experiente atriz Regina Casé fazendo com brilho e garra a empregada doméstica nordestina que trabalha para a alta classe média paulistana? Uma personagem emblemática, mas tão ‘banal’ e pouco original?

Simples: com habilidade, Anna toca num nervo infeccionado, até então camuflado, da classe média brasileira. Seu filme expõe e escancara a hierarquização feroz das classes no Brasil dentro da intimidade dos grupos familiares. Uma situação inspirada na sua própria experiência, quando, em certa época, ela precisou contratar uma babá para ajudá-la a cuidar dos filhos então pequenos. Sem esse suporte não poderia continuar trabalhando por um bom tempo. Esta é a origem do roteiro que criou.

Da figura da babá, resquício da escravatura, à empregada doméstica modelo nacional, um outro entulho largado no caminho pela escravidão no país, foi um pequeno passo para expandir o argumento. Sem o trabalho das outras milhares de Vals existentes neste país, sejam elas babás, diaristas ou moradoras em um quarto infecto, na casa dos patrões, a família burguesa brasileira emperra e não funciona. A dependência dos patrões é absoluta – até para o mínimo gesto de levantar da cadeira e ir à geladeira para se servir de um copo de água. É isto que Anna mostra serenamente, com simplicidade. E a dependência estampada no espelho que é a telona deixa a plateia burguesa nervosa.

Não surpreende que algumas mulheres, nas sessões de cinemas de zonas ditas nobres das grandes cidades, cheguem a se levantar, revoltadas, para ir embora, como já ocorreu, no meio da exibição.

Mas Muylaert vai além e introduz outro elemento definitivamente perturbador na história: a filha Jéssica, que, pequena, foi deixada pela mãe no Nordeste quando Val parte para trabalhar e sobreviver como doméstica em São Paulo. Agora, já mocinha, Jéssica chega para prestar vestibular para a faculdade de Arquitetura (escândalo!) na capital paulista e é hospedada na opulenta casa dos patrões, no quartinho minúsculo e abafado onde vive sua mãe. “Uma casa meio modernista!”, se deslumbra a futura arquiteta quando percorre a mansão. Ao chegar, a menina “subverte todas as regras”, como observa a cineasta.

Acaba instalada no confortável quarto de hóspedes para desespero da patroa, mergulha na piscina na companhia do filho da casa, também ele um vestibulando, e, a transgressão mais grave: come o sorvete da marca fina e cara, mas destinada aos patrões. O sorvete barato é reservado aos empregados.

Camila Márdila, de 26 anos, vinda de Tabatinga, na periferia de Brasília, é a jovem atriz que defende bem o personagem da filha de Val neste que é o seu segundo filme.

Com a a introdução – ou intromissão – no universo burguês, Jéssica desequilibra a ‘harmonia’ da casa, expõe o nervo podre disfarçado e estabelece uma nova equação familiar como ocorre no célebre filme Teorema, de Pier Paolo Pasolini. “Na cabeça dela,” acrescenta Muylaert, “aquelas regras não significam nada. Mas há quem ache Jéssica arrogante e há quem ache maravilhosa. Dependendo do que você acha da Jéssica fica claro em quem você vota.”

Bingo para Muylaert. Jéssica representa o Brasil novo que começou a ser parido há 12 anos por um governo progressista. Jéssica é a mudança, é o país em que porteiro embarca no avião e senta ao lado da madama no aeroporto. E madama agora é obrigada a cumprir a PEC 72 em vias de entrar em vigor na sua integralidade, e pagar direitos trabalhistas às mulheres que nunca mais serão semiescravas.

Jéssica é o Brasil que, obsessivamente, mesmo sem ainda plena consciência do fato, procura dirimir as diferenças de classe para se tornar um lugar mais igualitário, menos injusto e hipócrita. Mais do que raiva, ódio e menosprezo, os que se encontram instalados no topo da pirâmide sentem é medo de Jéssica. Ela é o ‘anjo’ do Teorema, de Pasolini, que vem anunciar os tempos e os arranjos novos. Um alerta para o início do fim da era da submissão.

O recado do Que Horas ela Volta? é singelo e firme apesar do seu final entreaberto: para a frente nada será como antes. Aconteça o que tiver que suceder, convém lembrar-se do clichê que, no caso, aqui cai como uma luva. A pasta de dentes que saiu do tubo nunca mais caberá dentro dele.

Da necessidade de conhecer a cultura africana para combater o preconceito e o racismo

racismo

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(Escrito por uma criança Angolana)

Quando nasci, era preto.
Quando cresci, era preto.
Quando pego sol, fico preto.
Quando sinto frio, continuo preto.
Quando estou assustado, também fico preto.
Quando estou doente, preto.
E, quando eu morrer, continuarei preto!
E tu, cara branco?
Quando nasce, é rosa.
Quando cresce, é branco.
Quando pega sol, fica vermelho.
Quando sente frio, fica roxo.
Quando se assusta, fica amarelo.
Quando está doente, fica verde.
Quando morrer, ficará cinzento.
E vem me chamar de homem de cor?

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Seleta da poeta Cláudia Gonçalves

Decadência da Faculdade de Medicina do Governo de São Paulo: Bacanais, tráfico de mulheres, de drogas, de álcool, curra, estupro, filme pornô e doenças sexuais

Violência sexual, castigos físicos e preconceito na Faculdade de Medicina da USP

por Tatiana Merlino, Igor Ojeda, Caio Palazzo/Vídeos e Rafael Bonifácio/Edição de vídeos

 

Fachada da Faculdade de Medicina da USP

Fachada da Faculdade de Medicina da USP

 

Muitas das garotas têm menos de 20 anos. A maior parte delas é branca, de família de classe A ou B. Estão felizes por realizar um sonho. Apreensivas pelos desafios que enfrentarão nos anos seguintes. Assustadas com o novo ambiente e os rostos desconhecidos.

São reunidas em círculo. Em volta, outro círculo, de garotos igualmente brancos, igualmente nascidos em famílias ricas ou de classe média alta. Mas são mais velhos. Intimidadores. Ordenam que todas gritem “bu”. Elas obedecem:

– Bu! Bu! Bu! Bu! Bu! Bu!

Um coro alto de vozes masculinas, a dos garotos em volta das garotas, abafa as vozes femininas e ressoa pelo ambiente:

– Buceta! Buceta! Buceta eu como a seco! No cu eu passo cuspe! Medicina é só na USP!

É assim que calouras da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) são recepcionadas em seu primeiro dia dessa nova fase da vida. Todos os anos. É uma das muitas tradições da faculdade de ciências médicas considerada a melhor do país. “De elite.” Para as mulheres, no entanto, grande parte dessas tradições se traduz em opressão permanente, que traz como consequência extrema casos graves de abusos sexuais, incluindo estupros, no interior do ambiente universitário. Casos sobre os quais recai um pesado manto de silêncio que impede que se tome providências a respeito. É fundamental que se preserve o bom nome da instituição.

Ou melhor: das instituições, no plural. Pois a FMUSP abriga entidades tão tradicionais que elas próprias parecem ser autossuficientes. É o caso da Associação Atlética Acadêmica Oswaldo Cruz (AAAOC), ou simplesmente Atlética, e do Show Medicina, que reúne alunos para uma apresentação teatral anual e que recentemente virou notícia quando estudantes que dele fazem parte pintaram um anúncio de sua 72ª edição sobre um grafite na avenida Rebouças, em São Paulo.

Violências sexuais, trotes violentos, castigos físicos, humilhações, machismo, racismo e discriminação social. A Ponte reuniu inúmeras denúncias de violações sistemáticas aos direitos humanos ocorridas nessas instituições, quando não incentivadas ou promovidas por elas. Comumente varridos para debaixo do tapete, tais abusos passam atualmente por uma inédita publicização, fruto da luta das vítimas e de coletivos de direitos humanos da faculdade. Tanto que hoje são alvos de investigação por parte do Ministério Público do Estado de São Paulo (MP-SP) e objetos de uma histórica comissão interna formada por professores com o objetivo de apurá-los. As denúncias também chegaram à Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de São Paulo, presidida pelo deputado Adriano Diogo (PT), que realizará uma audiência pública sobre o tema nesta terça, 11/11.

Com esta reportagem, a Ponte dá início a uma série especial sobre o assunto. Tradição, hierarquia, segredo, ritualismo, elitismo, regras rígidas e punições são as palavras-chave. Os relatos são impactantes.

 

Abusos sexuais: a naturalização

Na segunda-feira à tarde da semana de recepção aos calouros, acontece o primeiro evento do ano no clube da Atlética, no bairro paulistano de Pinheiros. É a “Espumada”. Os estudantes de Medicina festejam com churrasco e bebidas o início do novo semestre. Numa quadra poliesportiva, é formada uma espécie de piscina cheia de espuma, que chega a cobrir a cabeça dos presentes. Garotas e garotos que lá entram mal veem um ao outro. Mas são elas as mais vulneráveis. Mãos masculinas anônimas apalpam tudo que encontram pela frente: seios, bundas, vaginas. “A caloura não sabe como é a festa. Qualquer menina que entra na espuma perde o controle sobre o corpo. É mão de todo lado, sem você saber quem é. O menino te agarra, te beija. E se você tenta fazer algo, a resposta é que se você está na espuma é porque quer, está lá para isso. Rola uma pressão. Se está lá é porque está topando qualquer negócio”, relata uma das alunas, que não quis se identificar. “Os veteranos abusam do poder que têm sobre as meninas, que estão vulneráveis, não sabem o que está acontecendo. Muitas ficam bêbadas. Abusam mesmo delas.”

“Muitos veteranos usam o fato de você estar numa situação vulnerável e forçam o beijo, o sexo. Às vezes a menina está desmaiada e ele tira a roupa dela.”

Segundo a estudante Marina Pikman, do coletivo feminista Geni, formado no final de 2013 dentro da FMUSP, é comum que as alunas reclamem do constrangimento a que são submetidas logo quando chegam à faculdade. “Há muita ênfase na hierarquia, em tirar a identidade do calouro, falar: ‘você não sabe de nada, esquece toda a sua vida pregressa que e a gente vai te ensinar’. Com as mulheres, isso acontece de forma machista, os veteranos acham que têm livre acesso às calouras”, diz.

 

 

Ana Luísa Cunha, também integrante do Geni, lembra que quando o grupo foi fundado começaram a chegar vários relatos de abusos sofridos na semana de recepção. “Você chega e não sabe o que vai acontecer. Quer se enturmar, está na euforia e os caras se aproveitam, muitos veteranos usam o fato de você estar numa situação vulnerável e forçam o beijo, o sexo. Às vezes a menina está desmaiada e ele tira a roupa dela”, conta.

Mas os casos de abusos não ocorrem apenas na primeira semana ou na “Espumada”. Há relatos de violências sexuais em outras festas, tanto promovidas pelo Centro Acadêmico Oswaldo Cruz (Caoc), como as cervejadas, quanto pela mesma Atlética, a exemplo das tradicionalíssimas “Carecas no Bosque” e “Fantasias no Bosque”, realizadas uma em cada semestre. De acordo com o Geni, são pelo menos 8 casos de assédios graves nos últimos 3 anos. Marina avalia, no entanto, que esse é um número bem menor do que a realidade, já que muitas estudantes não denunciam as violências sofridas por vergonha e medo de serem hostilizadas.

Cartaz de festa da Faculdade de Medicina da USP

Cartaz de festa da Faculdade de Medicina da USP. Na gíria universitária: Carecas (sexo masculino) no Bosque (sexo feminino)

Das festas que acontecem na FMUSP, a “Carecas no Bosque” e a “Fantasias no Bosque” são as que criam o ambiente mais “propício” para abusos. A começar pelos cartazes de divulgação, quase sempre com destaque a mulheres cheias de curvas, trajes mínimos e olhares provocantes. Os preços dos convites são diferenciados. Em geral, mulheres pagam quase a metade do que os homens. “Todo o marketing é baseado no fato de que lá haverá muitas mulheres e que vai ter sexo à vontade. A USP inteira sabe que tanto a ‘Carecas’ quanto a ‘Fantasias’ são para isso, para ir lá e transar”, explica a aluna que optou por permanecer anônima. O problema, segundo ela, não é a questão moral, mas o ambiente de machismo extremo que cria a impressão de que qualquer garota presente está disponível.

A festa acontece no campo de futebol da Atlética. As equipes masculinas de cada modalidade esportiva erguem suas barracas para vender bebidas e arrecadar recursos. Atrás destas são montados os “cafofos”: estruturas fechadas com colchões ou almofadas apropriadas para se levar garotas. Segundo relatos, uma das modalidades costuma contratar prostitutas, cuja tarefa é agradar os presentes com strip teases e “body shots” de tequila nos seios, além de deixar o corpo à mercê das apalpadelas. Na barraca de outra modalidade, filmes pornôs são projetados. Outra equipe batiza seu espaço de “matadouro”.

“Nessas festas, minha impressão é que as meninas são um pedaço de carne na prateleira.”

Em torno do campo de futebol, há um pequeno bosque, para onde os casais vão para transar. Seguranças contratados pela organização vigiam a entrada. “Nessas festas, minha impressão é que as meninas são um pedaço de carne na prateleira. A mentalidade dos meninos é que elas estão disponíveis para transar. Chegam de maneira agressiva, ao ponto de vários caras tentarem te puxar para o bosque. E, na minha percepção, se você entra no cafofo você não sai, vai ter de transar com o cara”, opina a estudante. “Ter” de transar. Marina, do coletivo Geni, revela que já ouviu muitas histórias de garotas assediadas e estupradas entre as árvores. “Houve uma vez em que meu namorado ouviu gritos e foi socorrer. Um cara que ele conhecia tinha rasgado a calcinha da menina contra a vontade dela”, conta.

“Há estupros de meninas inconscientes, casos de colocar ‘boa noite Cinderela’ na bebida delas. É algo sistemático porque acontece em todos os anos”, diz professora da FFLCH

Heloísa Buarque de Almeida, coordenadora do programa USP Diversidade e professora de estudos de gênero na antropologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), pesquisa a ocorrência de violência sexual, machismo, homofobia e trotes violentos na FMUSP desde que foi procurada pelos coletivos da faculdade, há alguns meses. “As violências se tornam rituais que se repetem a partir de uma ideia de tradição que querem manter, que não é exatamente do curso, mas uma tradição de algumas festas e instituições que se torna escandalosa”, analisa. “Há estupros de meninas inconscientes, casos de colocar ‘boa noite Cinderela’ na bebida delas. É algo sistemático porque acontece em todos os anos. A festa ‘Carecas no Bosque’ é tradicional entre aspas. Eles consideram tradicional que tenha prostitutas lá dentro, e no meio disso algumas meninas são estupradas porque estão bêbadas.”

 

‘Você estava muito bêbada’

 

Cartaz de festa dos alunos da Medicina da USP

Cartaz de festa dos alunos da Medicina da USP

Foi na “Carecas no Bosque” de 2011 que a então caloura Doralice* foi estuprada no “cafofo” do judô. Ela estava desacordada. “Demorei para saber o que tinha acontecido, porque eu retomei a consciência apenas quando estava no hospital. Não me falaram direito, só: ‘acho que você foi abusada’”, diz ela, em depoimento à Ponte. Posteriormente, juntando os relatos que foram surgindo, muitos por insistência dela, a estudante pôde entender melhor o que ocorreu após as 4 horas da madrugada, quando ainda estava consciente e havia ido tomar uma bebida na barraca do judô – depois disso, não se lembra de mais de nada. De acordo com o que lhe contaram, Doralice ficou com um dos garotos da modalidade, que a levou ao cafofo, onde a deixou. Quando ele voltou, viu-a desacordada com um homem sobre ela, estuprando-a.

O que se seguiu, segundo a aluna, foi uma série de tentativas, por parte da Atlética e da diretoria da faculdade, de abafar o caso. No Hospital das Clínicas, para onde foi levada por diretores da entidade esportiva, não foram feitos exame de corpo de delito, para se comprovar a violência, ou toxicológico, para identificar uma possível adulteração em sua bebida. No entanto, a caloura começou a tomar medicamentos antirretrovirais como prevenção ao HIV.

“Eles falaram que eu não tinha como provar, que não poderia dizer que havia sido estuprada porque estava muito bêbada.”

Apesar da insistência, os responsáveis pela Atlética demoraram a lhe explicar exatamente o que tinha acontecido. Foi somente 2 dias depois, quando teve a confirmação de que havia existido penetração, que Doralice decidiu denunciar o caso. Mas foi sistematicamente desencorajada pelos diretores da Atlética. “Eles falaram que eu não tinha como provar, que não poderia dizer que havia sido estuprada porque estava muito bêbada.”

Mesmo assim, a estudante fez um Boletim de Ocorrência na Delegacia da Mulher. Algum tempo depois, a delegada apontou um funcionário terceirizado da faculdade como o agressor. “Até hoje, quando o inquérito policial está sendo finalizado, eu descubro coisas sobre meu caso que não sabia, por exemplo, que a diretoria da Atlética não permitiu que a polícia entrasse no local da festa”, conta.

As pessoas que ela procurava para testemunhar se mostravam ariscas. Falavam que deveria “tocar a vida para frente”. “Foi feito um pacto de silêncio, como tudo é tratado dentro da Faculdade de Medicina. Meu namorado era mais velho e falavam para ele que a história não poderia vazar, que iria destruir a imagem da Atlética, que iria destruir a festa”, revela. Ela conta, ainda, que a diretoria da FMUSP tomou conhecimento do caso, mas não fez nada a respeito.

“Abaixou minha calça, enfiou o dedo, me beijou à força.”

O estupro no “Carecas no Bosque” de 2011 não foi a primeira nem a última violência sexual sofrida por Doralice. No início daquele mesmo ano, durante a semana de recepção, ela foi abusada por um dos diretores da Atlética, que inclusive faria parte do grupo que a levaria ao hospital alguns meses depois. Numa tarde de bebedeira, ele a levou a uma sala escura da equipe de atletismo e a jogou no chão. “Abaixou minha calça, enfiou o dedo, me beijou à força. Mas teve uma hora em que ele parou”, relata Doralice. “Depois ele fez isso com outras meninas, uma delas da ‘panela’ dele, outra, uma colega minha de turma. Ele vê que a menina está bêbada e não conseguindo oferecer muita resistência.” Nos anos posteriores ao estupro, outro diretor da Atlética aproveitou duas “Espumadas” para passar a mão em seu corpo. Segundo a aluna, ele igualmente costuma repetir o abuso com outras estudantes.

 

‘Eu sei que você quer, deixa de ser chata’

Em novembro de 2013, a estudante de Medicina Leandra* sofreu abuso sexual de 2 alunos durante uma cervejada do sexto ano realizada no Centro Acadêmico Oswaldo Cruz. Eles ficaram insistindo para que ela fosse até o estacionamento ao lado. “Vamos para meu carro que eu vou dar bebida para você”, diziam.

“Eu falava que não queria, eles insistiam para eu ir. Me puxavam, mas eu não queria ficar com eles. Nesse vai e vem acabamos chegando ao carro deles. Lá eles começaram a me beijar, enfiar a mão dentro da minha roupa, dentro da minha calça. Queriam que eu entrasse no carro, abriram a porta, e eu comecei a gritar, a fazer um escândalo, dizendo que não queria. Tentava sair e eles impediam a minha passagem. Me empurravam, e um deles começou a gritar comigo: ‘para de gritar, para de gritar!’. Eu dizia que não queria os dois e um deles respondia: ‘você quer sim, eu sei que você quer, deixa de ser chata’. E os dois me beijavam, passavam a mão em tudo, não me deixavam sair. Nisso uma menina que estava no estacionamento brigando com o namorado viu o que aconteceu, deu um grito e me chamou. Então consegui sair.”

 

 

A partir de então, Leandra iniciou uma epopeia para que a violência sofrida por ela fosse reconhecida. Fez um Boletim de Ocorrência e denunciou o caso à diretoria da faculdade. Uma sindicância formada por 4 professores foi criada, mas apenas a estudante e um dos agressores foram ouvidos, já que o outro estava viajando. Em abril de 2014, a conclusão divulgada foi que a relação havia sido consensual, e que o problema havia sido o consumo de álcool. “Para mim, essa decisão tira a culpa do agressor e a joga na vítima, porque ela estava bêbada. Chegaram à conclusão de que foi consensual só com meu depoimento e de um dos garotos”, reclama.

O forte corporativismo existente no ambiente universitário da Faculdade de Medicina da USP, que havia se manifestado no caso de Doralice, voltou a “atacar” no caso Leandra. A vítima, e não os agressores, passou a ser hostilizada sistematicamente desde então. “Eu passo no corredor, as pessoas cochicham, apontam, principalmente os amigos dos caras. Eu mesma ouvi dizerem: ‘ah, aquela menina sai com todo mundo, logo ela vai reclamar disso? Está querendo aparecer’”. A preocupação maior é com a imagem da faculdade. Até mesmo um dos que abusaram de Leandra foi tirar satisfação. Ameaçou processá-la por difamação.

“Quando fui denunciar, achei que o meu era um caso isolado, mas descobri que havia mais.”

Uma das instâncias procuradas por ela foi o Núcleo de Estudos em Gênero, Saúde e Sexualidade (Negss), grupo de alunos criado no início de 2013. “Quando fui denunciar, achei que o meu era um caso isolado, mas descobri que havia mais”, diz. Foi divulgada então uma nota sobre o ocorrido no Facebook, gerando grande repercussão, em sua maioria, negativa. O texto foi publicado na página mantida nessa rede social pelo Grupo Pinheiros, do qual participam alunos e ex-alunos da FMUSP. A reação de seus membros foi violenta, diz Marina Pikman, do Geni. “Temos um monte de prints com postagens supermachistas, homofóbicas, classistas, xenófobas… tirando sarro do que aconteceu. Foi bem difícil para ela [Leandra]. Ela é ridicularizada nas redes sociais.”

Questionada pela reportagem, a diretoria do Centro Acadêmico afirmou que ofereceu apoio e orientação a Leandra e a incentivou a registrar um Boletim de Ocorrência. Disse, ainda, que solicitou à FMUSP a instauração de uma sindicância administrativa, “uma vez reconhecida a dificuldade e inadequação do CAOC de realizar tal apuração”. Todas as respostas enviadas pelo Caoc à Ponte podem ser lidas aqui.

A estudante, no entanto, nega. Ela diz ter procurado a segurança da faculdade, que a levou até ao chefe da graduação. Este a teria orientado a fazer o BO. “Os diretores do Caoc disseram que não poderiam me ajudar pelo princípio da isonomia em relação aos alunos. Só após a pressão do Negss eles enviaram um ofício à diretoria da faculdade pedindo abertura de sindicância.”

 

Modus operandi da violência

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Ao Geni chegaram outros exemplos de abusos semelhantes. Como o de uma aluna violentada por um ficante. Ou de uma caloura que “apagou” numa festa “Fantasias no Bosque” e acordou numa enfermaria às sete da manhã sem sapato e calcinha. Ou o estupro de uma estudante de Enfermagem por um aluno de Medicina na Casa do Estudante, a moradia estudantil do Hospital das Clínicas. Ou até de um aluno estuprado por um veterano numa “Espumada”.

“No começo elas nem se dão conta de que sofreram assédio. Elas acham que estavam muito bêbadas, que não resistiram o suficiente. Depois, quando se dão conta, acham que passou muito tempo, que as pessoas relativizarão o ocorrido.”

Nenhum desses abusos, no entanto, foi denunciado, com a exceção dos de Doralice e Leandra. “É claro que não são casos isolados, é claro que há uma cultura institucionalizada de violência, impunidade, desamparo das vítimas”, avalia Marina. Ela explica que se pode até dizer que há um modus operandi. “A maioria dessas violências acontece em festas, em ambientes nos quais a menina está bastante alcoolizada. Às vezes está inconsciente, às vezes consciente, mas ofereceu resistência à agressão, e não foi respeitada pelo menino. E ela se sente culpada por não ter conseguido se defender. E há a lógica machista de considerar sempre que foi consensual.”

A partir daí, inicia-se uma luta para decidir denunciar o assédio e/ou buscar apoio. As vítimas, porém, esbarram nas próprias dúvidas e na falta de mecanismos institucionais de acolhimento. “No começo elas nem se dão conta de que sofreram assédio. Elas acham que estavam muito bêbadas, que não resistiram o suficiente. Depois, quando se dão conta, acham que passou muito tempo, que as pessoas relativizarão o ocorrido”, analisa Marina, para quem seria fundamental uma instância que amparasse as alunas que sofreram violência. “Mesmo que não tenha havido denúncia, a maioria procurou alguma ajuda institucional, porque foi fazer o tratamento antirretroviral.”

Ainda que as estudantes decidam ou cogitem denunciar, devem enfrentar mais obstáculos: o pacto de silêncio e abafamento em relação aos escândalos, e a transformação das vítimas em algozes. “As meninas são ridicularizadas, estigmatizadas como loucas que só querem chamar a atenção, que estão inventando coisas, manchando a imagem das instituições da faculdade”, pontua a integrante do coletivo Geni.

Segundo Marina, o grupo chegou a se reunir com a diretoria da faculdade e da Atlética para pressionar por medidas que diminuíssem a vulnerabilidade das alunas nas festas promovidas pela entidade, mas seus diretores responderam que não era possível tomar providências antes de uma decisão judicial. “As meninas não reclamam muito, fica velado, pois ninguém tem coragem de criticar a Atlética, porque é uma instituição muito forte. Existe um corporativismo muito grande envolvendo a Atlética, ou o Show Medicina. Você vai ser perseguido se reclamar, se der a cara para bater”, lamenta Leandra. Foi justamente a violação sofrida por ela o estopim da criação do Geni. “Meninas vinham contar histórias de estupro por colegas que nunca haviam denunciado porque tinham medo, porque não viam canais de denúncia antes”, explica Marina.

No dia em que foram anunciadas as conclusões da sindicância sobre o caso de Leandra, as estudantes realizaram um ruidoso protesto criticando a decisão e denunciando outros abusos. Foi o suficiente para que a faculdade decidisse formar uma comissão para apurar os inúmeros exemplos de opressão em seu interior. Instalado em março deste ano, o grupo formado por professores da FMUSP vem ouvindo relatos de violações sexuais, físicas, morais, machistas e homofóbicas, entre outras. O relatório elaborado a partir dessa apuração deve ser divulgado nos próximos dias.

Enquanto isso, após a publicação de matérias na imprensa sobre os casos de Doralice e Leandra, a edição deste ano da festa “Fantasias no Bosque” foi cancelada.

A Ponte solicitou uma entrevista com o diretor da FMUSP José Otávio Auler, mas a assessoria de imprensa da faculdade informou que ele se encontra em um simpósio fora do país e enviou a seguinte nota:

“A Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) se coloca de maneira antagônica a qualquer forma de violência e discriminação (com base em etnia, religião, orientação sexual, social) e tem se empenhado em aprimorar seus mecanismos de prevenção destes tipos de casos, apuração de denúncias e acolhimento das vítimas. A Cultura da Instituição é baseada na tolerância e respeito mútuos, valores que são passados aos seus alunos. Com o intuito de fortalecer esta cultura, foi formada recentemente, inclusive, uma Comissão com docentes, alunos e funcionários com o objetivo de propor ações de caráter resolutivo quanto aos problemas relacionados às questões de violência, preconceito e de consumo de álcool e drogas. Em relação às denúncias envolvendo membros da FMUSP ou de casos ocorridos em suas dependências, foram abertas sindicâncias para apuração. Em caso de comprovação, a Faculdade adota as punições disciplinares de acordo com o Código de Ética da USP.”

A reportagem também procurou a Atlética, via assessoria de imprensa da FMUSP, mas até a publicação desta reportagem não havia obtido retorno.

* Nome fictício para preservar a identidade da vítima

Dilma na TUCA da Liberdade com o povo de São Paulo

por Rodrigo Vianna

Desde a campanha de 89 que não se via um ato político com tamanha carga de emoção em São Paulo. Os paulistas que votam no PT (e também aqueles que, apesar de não gostarem tanto do PT, resolveram reagir à onda de ódio e conservadorismo que tomou conta das ruas) foram nesta segunda-feira/20 de outubro para o TUCA – histórico teatro da PUC-SP, no bairro de Perdizes.

O TUCA tem um caráter simbólico. E o PT, há tempos, se descuidara das batalhas simbólicas. O TUCA foi palco de manifestações contra a ditadura, foi palco de atos em defesa dos Direitos Humanos. Portanto, se há um lugar onde os paulistas podem se reunir pra dizer “Basta” à onda conservadora, este lugar é o teatro da PUC.

O PT previa um ato pra 500 ou 800 pessoas, em que Dilma receberia apoio de intelectuais e artistas. Aconteceu algo incrível: apareceu tanta gente, que o auditório ficou lotado e se improvisou um comício do lado de fora – que fechou a rua Monte Alegre.

Em frente ao belo prédio, com suas arcadas históricas, misturavam-se duas ou três gerações: antigos militantes com bandeiras vermelhas, jovens indignados com o tom autoritário e cheio de ódio da campanha tucana, e também o pessoal de 40 ou 50 anos – que lembra bem o que foi a campanha de 89.

No telão, a turma que estava do lado de fora conseguiu acompanhar o ato que rolava lá dentro. Um ato amplo, com gente do PT, do PSOL, PCdoB, PSB, além de intelectuais e artistas que estão acima de filiações partidárias (como o escritor Raduan Nassar), e até ex-tucanos (Bresser Pereira).

Bresser, aliás, fez um discurso firme, deixando claro que o centro da disputa não é (nunca foi!) corrupção, mas o embate entre ricos e pobres. “Precisou do Bresser, um ex-tucano, pra trazer a luta de classes de volta à campanha petista” – brincou um amigo jornalista.

Gilberto Maringoni, que foi candidato a governador pelo PSOL em São Paulo, mostrou que o partido amadurece e tende a ganhar cada vez mais espaço com uma postura crítica – mas não suicida. Maringoni ironizou o discurso da “alternância de poder” feito pelo PSDB e pela elite conservadora: “Somos favoráveis à alternância de poder. Eles governaram quinhentos anos. Nos próximos quinhentos, portanto, governaremos nós”.

O “nós” a que se refere Maringoni não é o PSOL, nem o PT. Mas o povo – organizado em partidos de esquerda, em sindicatos, e também em novos coletivos que trazem a juventude da periferia para a disputa.

Logo, chegaram Dilma e Lula (que vinham de outro ato emocionante e carregado de apelo simbólico – na periferia da zona leste paulistana). Brinquei com um amigo: “bem que a Dilma agora podia aparecer nesse balcão do TUCA, virado pro lado de fora onde está o povo…”. O amigo respondeu: “seria bonito, ia parecer Dom Pedro no dia do Fico”. Muita gente pensou a mesma coisa, e começaram os gritos: “Dilma na janela!”

Mas a essa altura, 10 horas da noite, só havia o telão. As falas lá dentro, no palco do Teatro, foram incendiando a militância que seguia firme do lado de fora – apesar da chuva fina que (finalmente!) caía sobre São Paulo. Vieram os discursos do prefeito Fernando Haddad, de Roberto Amaral (o presidente do PSB que foi alijado da direção partidária porque se negou a alugar, para o tucanato, a histórica legenda socialista), e Marta Suplicy…

Vieram os manifestos de artistas e professores – lidos por Sergio Mamberti. E surgiram também depoimentos gravados em vídeo: Dalmo Dallari (o antigo jurista que defende os Direitos Humanos) e Chico Buarque.

Quando este último falou, a multidão veio abaixo. A entrada de Chico na campanha teve um papel que talvez nem ele compreenda. Uma sensação de que – apesar dos erros e concessões em 12 anos de poder – algo se mantem vivo no fio da história que liga esse PT da Dilma às velhas lutas em defesa da Democracia nos anos 60 e 70.

Nesse sentido, Chico Buarque é um símbolo só comparável a Lula na esquerda brasileira.

Aí chegou a hora das últimas falas. Lula pediu que se enfrente o preconceito. Incendiou a militância. E Dilma fez um de seus melhores discursos nessa campanha. Firme, feliz.

O interessante é que os dois parecem se completar. Se Lula simboliza que os pobres e deserdados podem governar (e que o Estado brasileiro não deve ser um clube de defesa dos interesses da velha elite), Dilma coloca em pauta um tema que o PT jamais tratou com a devida importância: a defesa do interesse nacional.

Dilma mostrou – de forma tranquila, sem ódio – que o PSDB tem um projeto de apequenar o Brasil. Lembrou os ataques ao Brasil nas manifestações contra a Copa (sim, ali o que se pretendia era rebaixar a auto-estima do povo brasileiro, procurando convencê-lo de que seríamos um povo incapaz de receber evento tão grandioso), lembrou a incapacidade dos adversários de pensarem no Brasil como uma potência autônoma.

Dilma mostrou clareza, grandeza e calma. Muita calma.

Quando o ato terminou, já passava de 11 da noite. E aí veio a surpresa: Dilma foi – sim – pra janela, para o balcão do Teatro voltado pra rua.

 

dilma balcão

 

No improviso, sem microfone, travou um diálogo com a multidão, usando gestos e sorrisos. Parecia sentir a energia que vinha da rua. Dilma, uma senhora já perto dos 70 anos (xingada na abertura da Copa, atacada de forma arrogante nos debates e na imprensa), exibiu alegria e altivez.

Foram dez minutos, sem microfone, sem marqueteiro. O povo cantava, e Dilma respondia – sem palavras. Agarrada às grades do pequeno balcão, pulava e erguia o punho cerrado para o alto. Não era o punho do ódio. Mas o punho de quem sabe bem o lado que representa.

Dilma não é uma oradora nata, não tem o apelo popular de um Lula. Mas nessa campanha ela virou líder. O ato no TUCA pode ter sido o momento a marcar essa passagem. Dilma passa a ser menos a “gerente” e muito mais a “liderança política” que comanda um projeto de mudança iniciado há 12 anos.

Dilma traz ao PT uma pitada de Vargas e Brizola, de trabalhismo e de defesa do interesse nacional. E o PT (com apoio da militância popular, não necessariamente petista) finalmente parece ter incorporado Dilma não como a “continuadora da obra de Lula”, mas como uma liderança que se afirma por si. Na luta concreta.

Uma liderança que – na reta final, nessa segunda-feira de garoa fina em São Paulo – pulava feito menina no ritmo da rua, pendurada no histórico balcão da PUC de São Paulo. Dilma ficou maior.

 

 

Eleitores de Aécio Neves citam beleza de Letícia Weber como justificativa de voto

beleza

Portal Ig = As eleições dominaram as redes sociais e os chamados memes, que ganharam fama pelas inteligentes sátiras com o dia a dia e trejeitos dos candidatos, viraram plataformas para o discurso do ódio no entorno da disputa presidencial. A última e triste campanha de milhares na internet defende o voto por “gente linda no poder”, usando o casal Aécio Neves, candidato do PSDB, e a possível primeira-dama e ex-modelo Letícia Weber como acessório de beleza ao Palácio do Planalto.

“Chega de feiura! Queremos gente linda no Planalto”, defende a postagem de Handel Araujo, que exibe em seu perfil do Facebook centenas de memes do tipo. Publicada no dia 3 de outubro, dois dias antes do primeiro turno das eleições, o post recebeu 3.327 compartilhamentos e ganhou aplausos de outros eleitores, que comemoravam “uma primeira-dama à altura do Brasil”.

Em outras situações, eleitores exaltam ainda o lado “conquistador” de Aécio, chamado de “herói nacional” pelo seu histórico de relacionamentos amorosos com belas mulheres da televisão brasileira, como a atriz Ana Paula Arósio, a modelo Gisele Bündchen e a ex-miss Brasil Natália Guimarães. “Se a nossa presidente é feia que dá até pena, o provável rival dela nas eleições deste ano já passou o rodo em dez beldades de dar inveja até em artistas globais”, defende o usuário como argumento de voto. Muitos encerram suas discussões nas redes apostando em eleger o candidato que teria uma vida sexual ativa, pois “quem transa governa melhor”.

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A Intolerância nas redes

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As eleições 2014 ficaram marcadas pelas participações das redes sociais, que muitas vezes chocaram pelo seu conteúdo de ódio, provocando até possíveis processos na Justiça contra crime de xenofobia e racismo. É o caso da onda de manifestações contra nordestinos e eleitores do PT, classificados como “pobres menos informados” pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso logo após os resultados do primeiro turno, que definiu a disputa pela Presidência entre Aécio e Dilma.

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OS FEIOS NORDESTINOS BOAS-VIDAS

OS FEIOS NORDESTINOS BOAS-VIDAS

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O comentário aumentou a disputa partidária dentro do País, criou um cenário “nós contra eles” e incentivou o ódio ao PT, gerando um surto de mensagens preconceituosas contra nordestinos, nortistas, negros e beneficiários dos programas sociais do governo federal. Uma das manifestações mais polêmicas foi a comunidade “Dignidade Médica”, hospedada no Facebook, que pregou um “holocausto contra nordestinos”. O grupo foi revelado pelo iG e reúne quase 100 mil usuários que se declaram da classe médica brasileira.

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Na mesma semana, a Procuradoria Geral da República (PGR) abriu uma frente de investigação e recebeu 85 denúncias de atos de preconceito contra nordestinos pela internet. As acusações são analisadas pela Procuradoria da República do Distrito Federal (PRDF), que pode instaurar um procedimento investigatório. Autores de posts discriminatórios estão passíveis de responder pelo crime de racismo. O delito é previsto no art. 20 da Lei 7.716/89 e pode render a pena de dois a cinco anos, mais multa. Além do racismo, internautas podem ser autuados em crimes de incitação pública à prática de ato criminoso, com pena de prisão de 3 a 6 meses, mais multa.
“Preconceito está entranhado na sociedade”

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Em entrevista ao iG, a psicóloga Luciana Ruffo, especialista do Núcleo de Pesquisas e Psicologia em Informática da PUC-SP, avaliou o comportamento do brasileiro nas redes sociais após os ataques aos nordestinos. Para ela, a interação online encoraja e valida opiniões como uma espécie de palanque na internet. A fantasia do anonimato, a desinformação de que poderá responder criminalmente pelo conteúdo com o rastreio do IP (endereço eletrônico) e a certeza de impunidade estimulam o compartilhamento de opiniões preconceituosas e racistas. “As pessoas se sentem mais corajosas para falar grandes absurdos”, disse na ocasião.

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Luciana aponta ainda que os preconceitos diários estão longe de ser exclusivos das redes sociais ou mesmo do período eleitoral. “Comentários preconceituosos ocorrem diariamente, é algo entranhado na sociedade e acontece em grupos de pessoas que compartilham a mesma ideia. Mas quando cai na web, outros tomam consciência e gera uma repercussão enorme”, analisa a psicóloga, que classifica as denúncias como consequência positiva da convivência entre diferentes classes sociais.
Heltron Xavier · Médico Anestesiologista na empresa Skopia Clínica
E quem é que gosta de gente feia gente? Ora, processem os jornais, as empresas de marketing, as recepcionistas, as agencias de modelos e todo o mais. Faz parte da figura pública, faz parte do ser humano gostar e admirar a beleza. Agora é proibido gostar mais de mulheres bonitas?

Captura de tela

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Sigo cantando, pulsos fortes sustentando meu sopro

ÁRVORE ALADA

 

por Cristina Moreno de Castro

El Maria 22

El Maria 5

Rhaiza 1

para El Maria

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Livre das cordas que enforcam os preconceituosos
Vi-me tronco, galho, raiz e corpo.
Mas não me aceitam, como sou: desacordada
(desprendida, desgrilhada, desgrenhada).
Dou de ombros e sigo cantando,
pulsos fortes sustentando meu sopro,
como uma ave nadadora e uma árvore alada.

 

 

 

Performance (produção e criação): El Maria

Fotografia: Rhaiza Oliveira

 

 

 

 

 

 

O que você diz de “sua” empregada. Crítica do preconceito

por Carla Jiménez
e  Marina Rossi

empregada

Um perfil no Twitter satiriza a herança escravocrata brasileira sob o codinome @aminhaempregada. A brincadeira toca em um assunto sério, a começar pela inclusão do pronome possessivo “minha” na alcunha virtual, que demonstra um papel de posse de alguém que lhe serve. O autor, que prefere ficar no anonimato, segundo a BBCBrasil, retuíta os posts preconceituosos de parte dos brasileiros, que em algum lugar do seu imaginário se julgam seres superiores em relação a seus empregados. “Só porque eu sou negra tá achando que eu vou trabalhar de empregada”, diz uma.

“Minha empregada não chega, disse que tá sem ônibus, minha casa tá imunda. Vadia, vem andando!”, diz alguém, indiferente à greve de ônibus que paralisou a cidade de São Paulo e deixou mais de 260 quilômetros de congestionamento nesta terça-feira. “Minha empregada é anta, ela tava arrumando meu quarto, tocou quatro vezes o celular e ela nem para me levar e nem avisa!”, dizia outra tuiteira.

O portal choca, mas como diriam alguns, até a página 15. Esse tipo de comentário faz parte do cotidiano do Brasil, pelo menos desde a assinatura da lei Áurea, no dia 13 de maio de 1888. Antes dessas datas, os mesmos comentários, ou até piores, seguidos de chibatadas reais, eram dirigidos às servis escravas que este país, um dos últimos a eliminar a escravidão no mundo, manteve para assear os banheiros sujos das classes dominantes.

No caso do perfil @aminhaempregada, alguém apenas decidiu reuni-los, para que pudessem ser apreciados a olho nu em sua crueza mais genuína. Porém, há um lado muito positivo dessa história toda. Recorrendo à expressão em latim, verba volant, scripta manent, ou as palavras voam, e a escrita permanece, o perfil materializa um preconceito que em sua essência é intangível. Quando visto com todas as cores, ganha a função de espelho, onde o brasileiro pode se reconhecer como uma “anta” por adotar atitudes similares aos que estão sendo expostos na rede por seus comentários.

Na mesma rede, um sujeito teve a coragem de desabafar. “Tomei um ótimo tapa na cara com este perfil @aminhaempregada. Sim, já falei coisas assim. Mas essa é a beleza do negócio: aprender e melhorar.” O comentário desse internauta mostra o caminho que se pode tomar, ao enxergar o copo meio cheio em vez de meio vazio. Quanto mais detalhado o diagnóstico de uma doença, maior a chance de curá-la. O perfil @aminhaempregada apenas joga mais uma luz nessa distorção de uma parte da sociedade brasileira, em um país de maioria negra e pobre.

O professor Emerson Ricardo Girardi, sociólogo e professor da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), de São Paulo, lembra que a questão das empregadas domésticas no Brasil é antiga, abordada, por exemplo, na obra do escritor Gilberto Freyre, de Casa-Grande & Senzala, (livro publicado em 1933). Girardi acredita que a conta do Twitter tem dois lados, um positivo e um negativo. “O negativo é que ele acaba, de certa forma, disseminando o preconceito que já é estruturado na sociedade brasileira. Mas, por outro lado, isso gera uma certa polêmica e essas questões proporcionam o debate”, afirma.

Mesmo que a carapuça do perfil @aminhaempregada sirva para muita gente, é fato que ela não deve ser generalizada. Muitas famílias no Brasil procuram promover sua distribuição de renda particular, garantindo o que lhes é devido, ou benefícios extras para aquelas que se tornam seus braços direitos e que ainda cuidam de seus filhos. Diversos patrões ajudam suas funcionárias do lar a comprar suas próprias residências, a voltar a estudar, ou a pagar a escola dos filhos, apenas para praticar dentro de casa o que deveria ser o principio básico da igualdade.

Para os que não partilham dessa reflexão, vale lembrar que a vingança das empregadas domésticas já está em curso. Oitenta anos depois a obra de Freyre ter sido publicada, muita coisa mudou –para melhor– para elas. Seus préstimos se tornam cada dia mais caros –seu salário sobe mais que a inflação, em função de a procura ser maior que a oferta– e encontrar uma boa candidata demanda quase um esforço de headhunter. “De marido e de empregada, a gente não fala bem nem para a melhor amiga”, sentencia uma empresária.

A categoria ainda não ganhou o direito a ter a indenização legal em caso de demissão, a exemplo dos demais assalariados no país, uma batalha que está parada no Congresso. Mas conta com sindicatos organizados que fornecem orientaçoes nesses casos. Lograram ainda se transformar em fonte de debate, algo positivo para um país que tenta romper com suas práticas mais tacanhas. “O primeiro passo para poder se resolver algum problema, seja ele de cunho social ou político, é reconhecer que esse problema existe”, diz Girardi.

Futebol machista e lésbicas

A Copa do Mundo de Futebol Feminino é a competição mais importante no futebol feminino internacional. Organizado pela Federação Internacional de Futebol (FIFA), o órgão controlador do esporte, o torneio da Copa do Mundo foi realizado pela primeira vez em 1991 na China, sendo os Estados Unidos Campeão.

O máximo que o Brasil conseguiu foi o de vice-campeão em 2007, em torneio também realizado na China. O próximo campeonato será em 2015, no Canadá. E ninguém fala dele no Brasil. Parece que é tema tabu. Imposição machista e preconceituosa dos cartolas e colunistas esportivos.

 

A taça feminina nunca foi nossa

A taça feminina nunca foi nossa

Sempre ouvi esta frase: “Fulana é lésbica. Desde criança preferia jogar bola com os meninos, a brincar com bonecas”.  Apesar do tabu da virgindade, podia brincar de esconde-esconde.

Publica o Portal Terra: Apesar das enormes diferenças entre os países e das diversas pressões para mantê-la oculta, a homossexualidade começa a deixar de ser um tabu no futebol feminino, que neste aspecto parece estar um passo à frente da categoria masculina.

Se na Copa do Mundo da África do Sul em 2010 nenhum dos participantes era abertamente gay ou bissexual, na Copa do Mundo feminina da Alemanha (de 2011) há jogadoras que assumiram sua preferência por pessoas do mesmo sexo.

A equipe que melhor serve de exemplo é a Alemanha, anfitriã do Mundial e atual bicampeã da competição. A goleira Nadine Angerer, 32 anos, eleita em 2010 a melhor do mundo na posição, foi uma das que admitiram à imprensa de seu país a sua bissexualidade.

A notícia causou alvoroço na Alemanha, onde o futebol feminino possui grande popularidade, e gerou um debate sobre o silêncio existente a respeito do futebol masculino.

A atleta Ursulla Holl, reserva de Angerer, já havia se assumido como lésbica e em 2010 se uniu civilmente a sua companheira Carina, em Colônia. A imprensa alemã especulou bastante sobre outras relações afetivas existentes entre as jogadoras da seleção, mas as protagonistas dos casos nada confirmaram.

O presidente da Federação Alemã de Futebol (DFB), Theo Zwanziger, deu apoio a “saída do armário” de Angerer.

Indo para outros países, destaca-se o caso de Hope Powell, treinadora da seleção inglesa e eleita a 68ª na lista dos 100 homossexuais mais influentes do Reino Unido, elaborada em 2010 pelo jornal The Independent.

Vale lembrar ainda outras jogadoras que se assumiram como lésbicas ou bissexuais. É o caso da alemã Martina Voss, 125 vezes convocada para a seleção nacional, das noruegueses Bente Nordby e Lisa Medalen, e da ex-capitã da equipe francesa, Marinette Pichon.

 

Lugar de mulher também é no campo de futebol

Escreve Hérika Vale: Não lembro quantas vezes escutei frases feitas que de tanto serem repetidas, de certa forma se tornaram realidades inventadas, acredito que não só para mim, mas para muitas mulheres, dentre elas estão as que mais me deixam furiosa: “Lugar de mulher é na cozinha” e a famosíssima: “Futebol é coisa de macho”.

 

Devagar, temos visto o futebol feminino se organizar, mas ainda poucos clubes brasileiros se interessam em apostar nas meninas com a bola, mesmo tendo o que há dez anos parecia impossível: uma mulher eleita cinco vezes consecutivas a melhor jogadora de futebol feminino, o que aconteceu quando Marta Vieira da Silva, a menina de Alagoas, conseguiu esse feito. Alagoas? Pois é, região Nordeste, terra de cabra macho.

 

Atletas falam do assédio, ensaios sensuais e homossexualidade

Formiga: O comentário da técnica foi muito infeliz, até porque, querendo ou não, ela mexeu com muitas pessoas. Já falei que as pessoas hoje em dia falam muito do futebol feminino em relação a isso, como se só no futebol feminino existisse isso. Todas nós sabemos que em várias classes isso existe. Então até por esse preconceito com o futebol feminino que às vezes não temos apoio. Ela fazendo isso complica, não só em relação ao nosso país, mas para o lado dela também, porque tenho certeza que muitas jogadoras do lado dela não gostaram. Então acaba manchando o futebol feminino no geral.
Marta: Acho que cai muito para o futebol feminino, porque já tem a fama de ser masculino, de jogar um esporte que exige força. Como a Cris falou, não dá para colocar um shortinho para jogar. As pessoas quando olham o futebol feminino já pensam que aquela menina é homossexual, gosta de mulher. Não quer dizer que nos outros esportes não aconteça, mas não é tão exposto como no futebol feminino. Minha opinião é que cada um faz da sua vida o que quiser. Você não tem que julgar aquela atleta pelo que ela gosta fora de campo, pelo fato de ela ter um relacionamento com homem ou mulher, mas sim pelo que ela faz dentro de campo. Não tenho preconceito nenhum. A gente tem que aceitar as pessoas como elas são.
Cristiane: Cada um faz o que quer com a sua vida e o que vale para gente é o que fazemos dentro de campo. O nosso trabalho infelizmente é voltado para o futebol feminino e justamente pela palavra futebol, que para eles é uma coisa de homem, mas não tem nada disso. Acontece em várias modalidades e fora do esporte. Tem aquele foco todo para o futebol feminino, e fica maior ainda com uma polêmica. Queira você ou não, as pessoas sempre gostam de ficar martelando em cima daquilo, mas acho que é uma coisa que tem que mudar.
Aline: Se pessoas que fazem o mesmo que a gente tem esse tipo de preconceito, imagina todo o resto, que não faz ideia do que acontece. Vê o caso do Michael, do vôlei. Hoje em dia quem é do esporte e acompanha sabe o que acontece, só que ninguém fica gastando os caras falando que todo mundo que joga vôlei é gay, mas [falam que] todo mundo que joga futebol é sapatão. Vai botando tudo nas nossas costas que a gente lida bem, mas é complicado. Chega ao ponto de um cara, que está super bem resolvido, ter de sair do armário, se expor, de uma coisa que ele não é obrigado a fazer, e isso é complicado.
Marta: Na Alemanha você vê que ninguém está nem aí. Nos Estados Unidos a mesma coisa. Na Suécia também. São países bem evoluídos que não querem perder tempo com isso.
Cristiane: Também é uma questão de cultura. Tem pessoas que foram criadas de uma maneira bem antiga, e hoje não tem mais isso não. Uma coisa diferente para eles já não vale. Acho que é muito de cultura também.
Aline: A gente que chega em uma Olimpíada e vê atleta do mundo inteiro sabe o que é. O cara é o top, e alguém está preocupado? Aí tem aquela nadadora.. Alguém está preocupado se ela vai ficar com uma mulher depois que ela nadar? Ninguém fala nada, e a galera venera esses atletas no país. E no país que a gente está é só atrativo para ficar mais difícil, mas estamos acostumadas.
Cristiane: Acaba virando motivo para dizer. “ah, está vendo, não dá para patrocinar tal atleta ou equipe justamente por isso”.
Aline: Isso no Brasil mudou no Pan. Enchemos o Maracanã com 70 mil pessoas, e ninguém estava preocupado se tinha alguém de cabelo curto, se era neguinha, se era loirinha, se era bonita, se era feia, a galera estava ali extasiado com o futebol feminino, e ali demos uma quebrada nessa questão. Mas antes, nossa, era incrível.
Formiga: Era complicado, em 1997 falavam mal porque tinha uma menina com o cabelo curto.
Aline: Você vê aqui na Alemanha, tem mãe, irmã, tia, tudo com o cabelo curto, e é super normal. E lá no Brasil tinha sempre alguém que ficava do lado de fora contando quantas tinham cabelo curto. Agora não é mais o cabelo. Falam que a gente perde de não sei quanto a zero por causa da beleza. Então agora tem que ser bonita. Antes tinha que ter o cabelo cumprido. Caramba, cada hora temos de ser alguma coisa.

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História do Futebol feminino 

Os primeiros indícios da participação da mulher no futebol datam desde o tempo da Dinastia Han (206 a.C. – 220 d.C.) em que elas jogavam uma variação do antigo jogo chamado TSU Chu. Há outros relatos que indicam que, no décimo segundo século, era usual a prática de jogos de bola, pelas mulheres, especialmente na França e na Escócia.

O documento mais conhecido sobre os inícios do futebol feminino remonta a 1894 quando Nettie Honeyball, um ativista dos direitos da mulher, fundou o primeiro clube desportivo britânico chamado o Ladies Football Club. Honeyball, convicta de sua causa declarou que pretendia demonstrar que as mulheres poderiam alcançar a emancipação e ter um lugar importante na sociedade.

Lady Florence Dixie desempenhou um papel fundamental na criação do jogo, organizando jogos de exposição para caridade, e em 1895 ela se tornou presidente da British Ladies’ Football Club, estipulando que “as jovens devem entrar no espírito do jogo com o coração e a alma”. Ela providenciou uma turnê para a Escócia da equipe de futebol de Londres.

A Primeira Guerra Mundial foi a chave para a superlotação de futebol feminino na Inglaterra. Porque muitos homens foram para o campo de batalha, e a mulher foi introduzida na força trabalhadora. Muitas fábricas tiveram suas próprias equipes de futebol que até então eram privilégio de homens.

No entanto, no final da guerra, a FA não reconheceu o futebol feminino, apesar do sucesso e popularidade. Isto levou à formação da English Ladies Football Association (Associação Inglesa de Futebol Feminino) cujo início foi difícil devido ao boicote da FA que levou mesmo a mulheres a jogarem em estádios de Rugby.

Após a Copa do Mundo 1966, o interesse dos amadores cresceu de tal forma que a FA decidiu voltar atrás, e em 1969 criou o ramo feminino da FA. Em 1971, a UEFA instruiu seus respectivos parceiros a gerir e promover o futebol feminino, e na Europa ele foi consolidado nos anos seguintes. Assim, países como a Itália, E.U.A. e o Japão têm ligas profissionais, cuja popularidade não inveja o que é atingido pelos seus similares do sexo masculino.

 

O Futebol feminino no Brasil

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O amor de Araguari Atlético Clube (de Belém do Pará) é considerado o primeiro clube do Brasil a formar um time feminino, que em meados de 1958, selecionou 22 meninas para um jogo benificiente em dezembro deste mesmo ano. O sucesso desta partida foi grande que a revista “O Cruzeiro” fez matéria de capa sobre o acontecimento, pois até então, partidas femininas só ocorriam em circos ou jogos de futsal. Com esta divulgação, houve, nos meses seguintes, vários jogos do time feminino do Araguari em cidades de Minas Gerais (Belo Horizonte inclusive) e também em Goiânia e Salvador. Em meados de 1959 a equipe feminina do Araguari foi desfeita, por pressão dos religiosos de Minas Gerais.

 

 

 

Preconceito e violência

Por Pedro J. Bondaczuk 

 

indignados contra racismo

O preconceito, seja a que propósito for, mas, sobretudo, o racial – que ainda é o mais comum – é sempre odioso. Não tem a menor justificação. Ademais, é um pavio aceso em um barril de pólvora para a deflagração da violência. Essa, como todos sabem (até o mais tolo dos tolos não o ignora), é fácil de começar… todavia, em alguns casos, é difícílima de controlar. E, em situações extremas, é, até mesmo, incontrolável. Principalmente quando o preconceito sobe um degrau a mais e se transforma em discriminação. Ou seja, em segregação daqueles que o preconceituoso julga inferiores. Como ninguém gosta de ser inferiorizado, nem mesmo o mais renitente dos masoquistas, a reação da vítima é para lá de lógica. E, invariavelmente, é violenta.
 
Escrevi muito sobre este tema, que considero apropriado de ser tratado em Literatura, pelas diversas facetas que apresenta. Aliás, tudo e todos são assuntos para um bom escritor (atento e competente), pois sua principal missão é reproduzir, em ficção ou não ficção, a vida como ela é. E, infelizmente, o ser humano é assim: preconceituoso e discriminador, egoísta e violento. O que varia é a intensidade desses comportamentos, de acordo com a educação que o indivíduo recebe e, por conseqüência, da sua forma de encarar o mundo e esta aventura perigosa, mas fascinante, que é o privilégio de viver.
 
Fico imaginando se há, em alguma parte do mundo, algum país em que não exista o mais leve resquício de preconceito. Desconfio que não haja neste Planeta que parece tão grande, e no entanto é tão pequeno, nenhum “paraíso” como esse. Indago-me, amiúde, por exemplo, se a discriminação racial foi, de fato, banida da África do Sul, depois da sapientíssima e nobre ação de Nelson Mandela, no sentido de tornar aquela sociedade (em que o preconceito e a discriminação foram, por praticamente meio século, inclusive normas legais), em uma nação não somente multicultural, mas, sobretudo, multirracial. Tenho lá minhas dúvidas. Receio que resquícios de ressentimento sobrevivam nos corações e mentes de muitos brancos e de muitos negros. O que pode variar é a quantidade desses ressentidos e preconceituosos dissimulados.
 
E os Estados Unidos, livraram-se do racismo, com a eleição de Barak Obama para a presidência? Ou este permanece vivo, esperando, apenas, oportunidade, algum pretexto, mesmo que banal, de se manifestar? Consultando meus arquivos, para escrever sobre o assunto sem risco de dizer bobagens, encontrei matéria, datada do início de maio de 1992, dando conta dos distúrbios ocorridos nos Estados Unidos, que começaram em Los Angeles e se estenderam a outras dez cidades norte-americanas, de sete Estados, e que trouxeram à tona, mais uma vez, naquela oportunidade, a questão do preconceito racial naquele país.
 
A absolvição dos agressores de Rodney King, um negro, barbaramente espancado pelos policiais Laurence Powell, Theodore Briseno, Timothy Wind e Stacy Koon em 3 de março de 1991, cujo fato foi registrado por um cinegrafista amador e cujas imagens foram divulgadas praticamente no mundo todo, por um júri, todo ele integrado por brancos, foi o estopim da revolta. Foi a gota d’água que faltava para que ressentimentos acumulados por anos extravasassem.
 
As cenas do videoteipe falavam por si sós e por isso ninguém compreende – e certamente nem os próprios jurados – a razão de uma decisão tão infeliz, parcial e injusta do grupo encarregado de julgar os que exorbitaram da autoridade. A vítima havia sido detida por dirigir em alta velocidade. Não resistiu à detenção e sequer esboçou mínimo gesto de hostilidade. Ainda assim, King recebeu, em várias partes do corpo, 56 golpes de cassetete, chutes e socos, numa inesquecível cena de selvajaria que quem a presenciou, pela televisão, certamente jamais irá esquecer.
 
Compreende-se, até, a revolta da comunidade negra diante do ridículo veredito da Justiça. Mas nada justificava que se respondesse à violência com outra violência ainda maior. Los Angeles virou praça de guerra, com centenas de incêndios se espalhando por toda a cidade, saques e depredações generalizados e, o que é pior, agressões de toda a sorte que redundaram na morte de pelo menos 38 pessoas, ferimentos em cerca de 1.300 e prejuízos incalculáveis, que ascenderam a alguns milhões de dólares. E, o que foi mais grave, a imagem dos Estados Unidos, de uma sociedade quase perfeita, perante a comunidade mundial, ficou bastante comprometida na ocasião.
 
Aliás, coincidentemente, somente alguns dias antes desses conflitos, o filósofo esloveno, Slavoj Zizek, comentando o fim do comunismo e a desagregação da ex-União Soviética, previu tumultos como estes em países capitalistas. Observou: “Sem o mundo comunista, desapareceu a figura do inimigo externo que deve ser exterminado. As lutas agora se transferiram para a esfera interna. Não é verdade, como diz Francis Fukuyama, que com a queda do comunismo terminaram os antagonismos e a História” E não terminaram mesmo.
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Não eram (e não são), apenas, os Estados Unidos que tinham (ainda têm?) essa autêntica bomba de tempo montada em seu interior para explodir a qualquer momento chamada preconceito. Na Alemanha, por exemplo, o ressurgimento do nazismo, com toda sua ideologia de ódio e de pretensa superioridade racial,  gerou alguns tumultos, posto que nenhum tão grave como os que afetaram Los Angeles e mais dez cidades norte-americanas em fins de abril e começo de maio de 1992.
 
França, Grã-Bretanha, Itália, apenas para mencionar outras potências, estão muito longe de serem os oásis de paz e solidariedade que alguns apregoam, muitos sonham construir, mas que ninguém se empenha seriamente para tornar concretos. Isto para não citar o antagonismo étnico latente em várias partes da Europa, especialmente no Leste europeu e os fundamentalismos religiosos, instigando ódios em seguidores fanatizados, ao invés de mensagens de amor, como seria de se esperar da parte de qualquer religião.
 
Mais do que nunca, os homens se odeiam, se agridem e ressaltam pequenas e irrelevantes diferenças, quando deveriam se concentrar em cultivar as enormes semelhanças. Martin Luther King, na década de 1960, definiu com clareza o que está por trás das atitudes segregacionistas: “A segregação racial é alicerçada em medos irracionais como a perda de privilégio econômico, a posição social alterada, os casamentos interraciais e o ajustamento a situações novas”.
 
Teme-se que explosões de violência até inesperadas venham a ocorrer, e não importa onde, motivadas pelo preconceito (não apenas o racial, mas principalmente ele) e pela conseqüente discriminação. Pretextos, infelizmente, sempre existiram e existirão enquanto não houver uma consciência clara de que os sistemas sociais existentes, que classificam os homens e determinam seus destinos pelo que eles têm e não pelo que são, são perversos, injustos, imorais e ilógicos. Afinal, como indagou William Shakespeare, numa de suas peças: “O que é a cidade senão as pessoas?” Da minha parte, faria uma ligeira mudança nessa indagação. Substituiria a palavra “cidade” por “sociedade”. E a questão ficaria assim: “O que é a sociedade senão as pessoas?”. Sim, leitor, o que é?!