La levée en masse du peuple grec contre l’austérité

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Malgré le chantage et les menaces d’étranglement financier, les Grecs ont opposé un non retentissant à leurs usuriers, comme les y invitait Alexis Tsipras. « OXI ! » ont-ils dit à toute nouvelle cure d’austérité, malgré la stratégie de terreur choisie par les eurocrates.

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«Nous sommes venus fêter la victoire du peuple grec, contre les diktats des financiers»

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por GÉRALD ROSSI/ HUMANITE.FR

Photo Gérald Rossi

Photo Gérald Rossi

Place de la République dimanche soir à Paris, quelques milliers de personnes ont manifesté leur solidarité et exprimé leur joie avant même de connaitre les résultats définitifs du référendum. Reportage.
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Pendant que radios et télés bourdonnent encore des résultats du référendum grec, la place de la République à Paris, se remplit. Il est à peine 21h30 ce dimanche 5 juillet, mais la victoire du non, « oxi » en grec, ne fait plus aucun doute. Ça et là des drapeaux se déploient, du PCF, du PG, de Ensemble, mais aussi d’autres organisations qui ne sont pas membres du Front de Gauche, comme le NPA, Attac, etc. Les petits groupes se transforment en petite foule de quelques milliers de personnes. On s’échange les dernières infos. Très vite des slogans sont repris à plusieurs voix comme cette « solidarité avec le peuple grec » qui court la foule comme une ola pas banale.
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« On vient pour fêter la victoire du peuple grec, la victoire du non, mais aussi aussi pour dire à François Hollande qu’il faut entendre ce qu’a dit clairement ce peuple dont la volonté est bien de rester dans l’union européenne mais avec des conditions qui doivent lui permettre de sortir de l’austérité. Lors des négociations à venir, il faut maintenant que la France parle d’une voie originale » résume David Proult, adjoint communiste au maire de Saint-Denis (93) venu avec quelques amis. Ensemble, ils veulent dénoncer « la violence de la campagne des adversaires du non; mais chaque fois que le débat porte sur des questions très sérieuses, c’est le risque. Souvenons nous des débats d’il y a dix ans, lors du référendum français sur le traité européen… »
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Eric est venu « en voisin, du 10e arrondissement » lui aussi pour « fêter la victoire du peuple grec, contre les dictats de la troïka, des financiers. Les grecs nous donnent là une belle leçon de démocratie et de courage ». D’autant plus, ajoute-t-il, « qu’ils ont du faire face à une campagne médiatique hors de propos. C’est bien de la haine de classe qui s’est déversée, en Grèce mais pas seulement… Maintenant il faut espérer que cette première victoire aura des répliques dans des pays comme l’Espagne, l’Irlande, mais aussi chez nous ».
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« C’est un Souffle d’espoir sur l’Europe » confirme Isabelle, venue de Vitry-sur-Seine. « Cette démonstration appelle a beaucoup d’audace chez nous aussi » poursuit-elle. « Et cela doit nous aider a en finir avec les sempiternels discours néo-libéraux selon lesquels les pauvres doivent toujours payer alors que les banques seraient de pauvres victimes … » insiste Sylvestre, un autre parisien.
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Le jour décline mais la foule grandit. Ça et là résonne maintenant l’Internationale. Arrive Jean-Luc Mélenchon, entouré de plusieurs responsables du Parti de Gauche dont Éric Coquerel et Danielle Simonnet. Sans sono, mais avec le relais sonore de militants qui comme lors des meetings populaires du 19e siècle se font portes voix, Jean-Luc Mélenchon note à son tour que les Grecs ont ouvert « une nouvelle page pour toute l’Europe » en dépit «des armes de désinformation massives ».
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Dans la foule, des anonymes circulent avec quelques pancartes bricolées à la va vite; « vive le peuple OXI » proclame l’une, « merci les grecs » affirme une autre, pendant qu’un grand format souhaite « long live the Greek democraty » (longue vie démocratie grecque). « Ce qui se passe là ce soir et en Grèce est simplement génial » souligne Theodoulitsa affirmant: « nous avons voté contre les politiques d’austérité. C’est un mouvement populaire qui ne fait que commencer ». Et comme le dit ce jeune homme venu les mains dans les poches, « sans carte d’adhérent, car je ne me retrouve pas complètement dans aucun des partis depuis quelques temps, ce qui s’est passé redonne des envies de bouger… »

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Grécia clama contra a austeridade

ESPANHA

ESPANHA

Gregos enviaram à Europa no domingo uma mensagem inequívoca contra a austeridade

Partidários do 'não' comemoram a vitória em Atenas. / YANNIS KOLESIDIS (EFE)

Partidários do ‘não’ comemoram a vitória em Atenas. / YANNIS KOLESIDIS (EFE)

por MARÍA ANTONIA SÁNCHEZ-VALLEJO/ El País/ Espanha/ Direto de Atenas

Com quase a totalidade dos votos apurados, 61% dos votantes que participaram no domingo do referendo convocado há uma semana pelo primeiro ministro Alexis Tsipras rechaçaram a última proposta dos parceiros europeus, que contemplava uma nova rodada de cortes e ajustes.

Em um referendo crucial, inédito por seu alcance desde que a democracia voltou ao país em 1974 depois da queda da junta militar, uma maioria absoluta de gregos (61,2% com 92,5% dos votos apurados) respaldou a proposta do Governo e votou contra os termos do programa de auxílio que os parceiros puseram sobre a mesa no Eurogrupo de 25 de junho, e que consistiam — no passado, já que essa proposta é extemporânea desde terça-feira, pois a prorrogação do resgate expirou — em uma nova dose de austeridade. Era o que figurava na cédula, ainda que muitos, os defensores do sim, tenham votado convencidos de que a pergunta era um sim ou um não ao euro e à Europa.

O que o primeiro ministro pretendia quando convocou a consulta há apenas oito dias, deixar o povo falar para evitar a ruptura com as instituições — o que, no entanto, se consumou unilateralmente depois da convocação —, foi amplamente conseguido, e de forma inequívoca; o que acontecer a partir de hoje precisará, no entanto, de uma legião de adivinhos.

“Com este valente ‘não’ que o povo grego disse, amanhã estenderemos nossa mão aos credores. Chamaremos cada um deles para tentar um acordo”, declarou Yanis Varoufakis, ministro das Finanças.

Depois de conhecer os primeiros resultados, milhares de pessoas foram para a praça Sintagma para comemorar a vitória, com uma presença massiva de bandeiras gregas — o orgulho nacional, a possibilidade de erguer a cabeça diante dos ditames de Bruxelas, foi outra das chaves da vitória. Transcrevi trechos

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Oxi, Oxi, Oxi!

FMI e UE estão determinados a manter o Sul da Europa sob o saque de uma finança desregulada, que tem como objetivo engolir todos os bens públicos e a fazer retroceder as políticas sociais e laborais ao séc. XIX.

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po João Camargo


O referendo de 5 de julho na Grécia é decisivo para a Europa. O povo grego deverá decidir o que lhe diz diretamente respeito: as medidas concretas que determinarão o seu futuro individual e coletivo. Há décadas que na Europa os povos raramente são chamados a participar em assuntos importantes e têm a possibilidade de dizer não aos caminhos anti-populares, anti-sociais e autoritários. Que digam aquilo que tantos dizemos por essa Europa fora: Não!

É difícil para burocratas e políticos do “status quo” aceitar que um povo seja chamado a pronunciar-se e a decidir. Os gregos podem até ceder à chantagem da política de medo e ameaças de expulsão do Euro e da União Europeia, mas nem por isso a decisão de convocar o referendo, neste momento, deixará de ser histórica.

O Governo Syriza foi eleito com um programa eleitoral ambicioso que atirava para a superação das dificuldades. Foi ambição demais propor uma política anti-austeridade, que permitisse que o país se pusesse de pé numa União Europeia e numa moeda única que parecem servir o objetivo único de fazer a riqueza fluir no sentido do centro da Europa. As negociações entre a Grécia e a troika deixaram tudo claro: FMI e UE não deixarão que o país funcione e estão determinados a manter o Sul da Europa sob o saque de uma finança desregulada, que tem como objetivo engolir todos os bens públicos e a fazer retroceder as políticas sociais e laborais ao séc. XIX.

Perante o impasse de ter que aceitar uma política de austeridade contrária ao seu programa eleitoral ou arriscar ser expulso da União Europeia e do euro (que não fez parte do seu programa), os ministros do Syriza convocaram um referendo que lhes permite esclarecer inequivocamente qual a decisão do povo. É complicado para Passos Coelho, Rajoy, Renzi, Lagarde, Draghi ou Juncker pensar que uma decisão tão importante possa ser tomada pelas gregas e pelos gregos e não por si mesmos, entre cafés, conversas de corredores e conferências de imprensa em que são estrelas e decisores absolutos.

A história dos referendos
A história dos referendos na construção europeia revela o seu desrespeito pela decisão popular: em 1992 a Dinamarca referendou o Tratado de Maastricht, que foi rejeitado. Em 1993 foi re-referendado e ganhou o sim, levando a motins. O Tratado Constitucional foi referendado e chumbado na França e na Holanda em 2005, e na Irlanda em 2008. A Irlanda repetiu o referendo até ser aprovado. A UE não aceita a voz popular e, por isso, é que já começou o grande ataque à Grécia, recusando a extensão do programa até dia 5, tentando impor uma decisão antes que o povo se pronuncie.

Muitos dirão que o que devia estar na pergunta do referendo é a saída do euro, da UE e as dificuldades pela frente. Mas a alternativa é a permanência no euro, na UE e a contínua degradação social, coletiva e individual de um país e a recusa total da decisão democrática. Mas estes foram os termos decididos pela troika. Trabalhadores, precárias, desempregados, pensionistas, os credores da crise europeia, que pagaram o resgate da finança e da banca e que se transformou em dívida pública, deviam ser chamados a pronunciar-se em toda a Europa sobre a austeridade e o futuro de miséria que é imposto para, em conjunto com o povo grego, poderem dizer: Oxi! Oxi! Oxi!

Miro extrañado cómo muchos empresarios quieren volver al pasado

Vamos con Dilma

 

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por Francisco dos Reis/ El Mundo *


¿Qué está en juego en las elecciones del próximo domingo? La profundización de la mayor justicia distributiva que tuvo Brasil en todos los tiempos, del Brasil que en diez años se convirtió en potencia, referente internacional y en uno de los motores de la construcción de la Patria Grande. Dilma es este presente, una de las garantes de la continuidad de la construcción de una Latinoamérica integrada. Aécio Neves es Fernando Henrique Cardozo, que ya fue presidente de Brasil y que solo logró incorporar a la clase media a cinco millones de brasileños, mientras que estos diez últimos años el gobierno del PT, con Lula primero y su continuidad en Dilma, incluyó a 50 millones de brasileños a los sectores medios.

Tuve la suerte de conocer a Lula, Marco Aurelio García y a una gran cantidad de dirigentes del PT. Trabajé junto con ellos en las campañas electorales como dirigente empresario pyme, y con un conjunto de compañeros empresarios de Brasil. Con orgullo en ese proceso largo y complejo, que estábamos construyendo no solamente a partir de mis convicciones y la contribución de las organizaciones pyme de Brasil. Hoy, a la distancia, siento que no me equivoqué. No fue un trabajo en vano. El resultado de mi acompañamiento como presidente de Alampyme dio su fruto. Contribuimos desde los intereses del sector, porque representan a los más débiles de la economía.

Pero hoy miro extrañado cómo muchos empresarios quieren volver al pasado, un pasado tan cercano como para perder la memoria. Que cuestionan el espíritu de los proyectos de inclusión, que fueron profundamente humanistas. ¿Qué les ocurre a estos empresarios para que algo tan simple no se entienda? Algo tan sencillo como lo es incluir, demandar, consumir y agrandar el mercado.

Que falta mucho, que es justo quejarse, reclamar y aspirar a más, no tengo dudas, pero Aécio Neves no es la solución. Viene a cambiar el formato político de los últimos diez años de Brasil. Lo dice en sus discursos, no es antojadiza mi interpretación.

Estos últimos años pusieron a Brasil en el centro de la escena y, junto con la Argentina, no solo fueron los motores de la integración, del intercambio comercial ambicioso para nuestros países, sino también contribuyeron a tomar distancia –junto con el resto de los países de América latina– de los centros del poder global.

Mi participación en actos en distintas zonas de Brasil en respaldo a Lula fue un enorme placer y una militancia resultante. Hoy, las circunstancias me ponen más cerca que nunca del PT, de mis compañeros. Mi compromiso sigue allí, mi espíritu de solidaridad permanece íntegro con los hermanos brasileños y con Dilma, para que el PT continúe en la profundización del proceso político, llevando a Brasil y a nuestra América latina a la unión. Mis mejores deseos por Dilma, el PT y el pueblo brasileño.

* Presidente de la CEEN y Alampyme.

 

peixe tubarão povo pobre

É HORA DO POVO PENSAR

por Talis Andrade

livro pássaro

Ora poesia lírica
ora poesia épica
do Grande Rio
do Sul

Ora um canto suave
ora um canto áspero
– flor e espinho

Que lhe fere o coração
ver os filhos da rua
saber que existem meninas
que ficam nuas por um pedaço de pão

Ora Sandra ora
aos Santos ora
doutro poeta a oração

Oh! bendito o que semeia
livros à mão cheia
e manda o povo pensar

e manda o povo pensar

“Jesus está no meio do povo, não fala de seu púlpito”, afirma o Papa

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Jesus não é um professor que fala de seu púlpito, mas está no meio do povo e se deixa tocar para curar. Disse o Papa Francisco.

Comentando o Evangelho, o Pontífice refletiu sobre três momentos da vida de Jesus. O primeiro é a oração. Jesus passa “toda a noite rezando a Deus”. Parece um pouco estranho que Aquele que veio para nos salvar reze ao Pai”, disse o Papa. “E o faça com frequência. Mas Jesus é o grande intercessor”:

“Ele está diante do Pai neste momento, rezando por nós. E isto deve nos encorajar! Porque nos momentos difíceis, de necessidade e de tantas coisas, devemos pensar: ‘Mas Tu estás rezando por mim. Reza por mim junto ao Pai!’. É a sua missão hoje: rezar por nós, pela sua Igreja. Nós nos esquecemos disso com frequência, que Jesus reza por nós. Esta é a nossa força. Dizer ao Pai: ‘Mas se Tu, Pai, não nos olha, olha teu Filho que reza por nós’. Jesus reza desde o primeiro momento: rezou quando estava na terra e continua a rezar agora por cada um de nós, por toda a Igreja”.

Depois da oração, Jesus escolhe os 12 Apóstolos. O Senhor diz claramente: “Não foram vocês que me escolheram. Eu escolhi vocês!”. “Este segundo momento – afirma o Papa – nos dá coragem: ‘Eu fui escolhido, fui escolhida pelo Senhor! No dia do Batismo, Ele me escolheu’. E Paulo, pensando nisso, dizia: ‘Ele escolheu a mim, desde o seio de minha mãe’”. Nós cristãos, portanto, fomos escolhidos:

“Essas são coisas de amor! O amor não olha se alguém tem o rosto belo ou feio: ama! E Jesus faz o mesmo: ama e escolhe com amor. E escolhe todos! Ele, na lista, não tem ninguém importante – entre aspas – segundo os critérios do mundo: são pessoas comuns. Mas uma coisa – sim – destaca-se em todos: são pecadores. Jesus escolheu os pecadores. Escolhe os pecadores. E esta é a acusação que os doutores da lei e os escribas fazem: ‘Ele come com os pecadores, fala com as prostitutas.’. Jesus chama todos! Lembram aquela parábola das núpcias do filho: quando os convidados não aparecem, o que faz o dono da casa? Manda os seus servos: ‘Ide e trazei todos à casa! Bons e maus’, diz o Evangelho. Jesus escolheu todos!”.

Jesus – continuou o Papa – também escolheu Judas Iscariotes, “que se tornou o traidor … O maior pecador para Ele. Mas foi escolhido por Jesus”. Depois, há o terceiro momento: “Jesus próximo do povo”. Em muitos vão até Ele “para ouvi-lo e serem curados de suas doenças. Toda a multidão procurava tocá-lo”, porque “d’Ele saia uma força que curava todos”.

Jesus está no meio do seu povo

“Não é um professor, um mestre, um místico que se afasta do povo e fala da cátedra. Não! Está no meio do povo; se deixa tocar; deixa que as pessoas perguntem. Assim é Jesus: perto do povo. E essa proximidade não é uma coisa nova para Ele: Ele a sublinha em seu modo de agir, e é algo que vem desde a primeira escolha de Deus para o seu povo. Deus diz ao seu povo: “Pensem, qual povo tem um Deus tão próximo como Eu estou próximo de vocês?”. A proximidade de Deus ao seu povo é a proximidade de Jesus às pessoas”.

“Assim é o nosso Mestre, assim é o nosso Senhor – concluiu o Papa -; alguém que reza, alguém que escolhe as pessoas e alguém que não tem vergonha de estar próximo do povo. E isso nos dá confiança n’Ele. Confiamos n’Ele porque reza, porque nos escolheu e porque está próximo de nós”. (SP-BF)

Dois poemas de Paulo Leminski

dia de reis passou
o ano avança a maio
os reis passaram
flor
maria
trabalho
o povo ficou
mãe
maioria
os povos ficaram

paulo leminski

nascemos em poemas diversos
destino quis que a gente se achasse
na mesma estrofe e na mesma classe
no mesmo verso e na mesma frase
rima à primeira vista nos vimos
trocamos nossos sinônimos
olhares não mais anônimos
nesta altura da leitura
nas mesmas pistas
mistas a minha a tua a nossa linha


Seleta de El Maria

Caderno de classificados

por Urariano Mota

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Nos jornais existe uma seção, um caderno que reflete melhor a sociedade que as notícias da primeira página. Os anúncios classificados, que se publicam ao fim das edições, revelam sempre uma pista segura de como age e anda o mundo.

Diferentemente da primeira página, que se faz ao gosto de quem organiza e hierarquiza os fatos de todos os dias, os anúncios publicados lá no último caderno se fazem conforme a gente da cidade, que em linhazinhas breves, em espaços curtos fala. Ali, quase toda a gente pede, oferece e propõe do jeito que as coisas e as pessoas são, ou melhor, revela-se no como gostaria que coisas e pessoas fossem. Numa palavra, compra-se, ou vende-se, conforme a natureza dessa gente.

O passar das páginas dos classificados são como o movimento de um avião que não levantasse vôo sobre a cidade, como um carro com asas que visse o conjunto de habitações sem que fosse preciso subir. Como o passar de carro por uma cidadezinha muito especial, lugar onde se mostram casas de todas as cores, tamanhos e arquitetura.

O mais engraçado, nessa cidade entrevista, é o corte bruto, sem consideração ou piedade para o sofrimento ou a alegria. É a passagem sem transição da mercadoria para o afeto da gente. Ali é o lugar de uma feira original, uma feira de tudo. Da mulher de que se necessita ao telefone que se vende. Do transplante de fígado, urgente, ao coração exposto, nu, sem pudor à luz do dia. Do engraçado, do cômico, ao Correio Sentimental na seção de Serviços Profissionais, vindo logo antes do Esoterismo/Místicos.

Nessa feira vai-se da tragédia ao prosaísmo, entra-se no amor e sai-se no eletrodomésticos, porque no espírito da página quem manda é a ordem alfabética. Os Produtos Gráficos se acham ao lado das Massagistas, ainda que estas não façam tatuagens, e os Telefones se vendem junto ao Som/Vídeo, mesmo que toquem uma só canção, mecânica.

Imaginem os leitores de hoje o mundo daqui a cem anos. Imaginem a humanidade, se existir, daqui a cento e cinqüenta anos. Então imaginem nossos descendentes, se vivos forem, imaginem se eles poderão entender os hábitos que éramos, se lhes mostrarem a primeira página dos jornais de hoje. “Popularidade de Bush cai”. Nossos futuros, se houver, perguntarão, quem foi mesmo esse vegetal pequeno que se apelidava de Bush? Imaginem agora o leitor que nos sucederá nesses futuros anos ao ler estas linhas:

PROCURO HOMEM – Sem compromisso, 38 a 45 anos, que ainda acredite no amor.

Haverá linha mais eloqüente que expresse, a nossos pósteros, que em 2008 houve uma vez uma mulher sozinha, sofrida, que procurava alguém que AINDA acreditasse no amor? O advérbio aí é mais substancioso que nossa transformação em pó. AINDA. Isso dirá que essa mulher já sofrera, já se magoara muitas vezes, mas que era possuída pela humanidade, que não desertara da esperança. E nos compreenderão, se viverem, se lerem, quando lerem:

TENHO 50 anos. Solteira, nível superior. Procuro pessoa livre, nível superior, de bons sentimentos, de 50 a 55 anos e acredite no amor, que tenha mente aberta e esteja também à procura de alguém para sincera amizade ou algo mais. Caixa Postal…

Não importa se o anúncio quer o difícil, o quase impossível. Se quer um homem de 55 anos que não esteja casado, que não esteja farto de tudo, que assim não estando procure a mulher ideal, e para algo mais que a amizade. Não importa. Pois não houve uma vez um professor em Água Fria que aos 65 anos ainda buscava a namorada de infância? Então é possível.

Em nome da inteligência dos que nos vêm depois, nem precisamos comentar os classificados que se seguem. Eles falam por si, das taras, dos tempos e das transgressões. “Casada infiel. Ligue e confira!”. “Menina linda, rostinho de anjo e sorriso encantador. Uma colegial superdanada! Para maiores de 40…”. “Bruna – bela travesti bronzeada para executivos”. “Tia & Sobrinha – Safadas e fogosas!”…. E como possível cura às frustrações dessas fantasias, uma nova, de certeiro homeopata: “Alberto – Resolve problemas amorosos.”

Os anúncios classificados, por serem comerciais, e porque vendem mercadorias, bem que poderiam ser lidos como um espelho invertido de desejos. De casas, de carros, de apartamentos, de objetos, de emprego, de sexo e de amor. De sonhos, de altos e baixos sonhos, do sublime e de quinquilharias. Feira da selva que legamos.

Escutem o louco. O homem que empurrou uma passageira nos trilhos do metrô desnuda o momento perturbador vivido pelo Brasil

por Eliane Brum/ Em País/ Espanha

 

“Chi lo ha deciso", por Paolo Troilo

“Chi lo ha deciso”, por Paolo Troilo

 

De repente, o taxista aumentou o som da pequena TV acoplada no console do carro. No banco de trás, eu parei de ler e afinei os ouvidos. Era meio-dia da sexta-feira de Carnaval (28/2). O homem que, dias antes, havia empurrado uma passageira nos trilhos do metrô de São Paulo tinha sido preso. A mulher teve o braço amputado. O agressor sofre de esquizofrenia, destacou o apresentador de TV. “Louco”, decodificou de imediato o taxista. Doença triste, disse o apresentador na TV. Ao ser preso, continuou o apresentador, o agressor afirmou que a empurrou porque sentiu raiva. Essa parte o taxista não escutou. Algo lá fora o havia perturbado. Colou a mão na buzina, abriu a janela do carro e xingou o motorista ao lado, que tentava mudar de pista. Perdigotos saltavam da sua boca enquanto ele empunhava o dedo médio com uma mão que deveria estar no volante. Fechou a janela, para não perder a temperatura do ar-condicionado, e voltou a falar comigo. “A polícia tem de tirar os loucos da rua”. A quem ele se refere, pensei eu, confusa, olhando para fora, para dentro. Era ao louco do metrô.

Há algo de trágico nos loucos. E não apenas o que é definido como loucura nessa época histórica. Há uma outra tragédia, que é a de não ser escutado. Sempre que alguém com um diagnóstico de doença mental comete um crime, a patologia é usada para anular as interrogações e esvaziar o discurso de sentido. A pessoa não é mais uma pessoa, com história e circunstâncias, na qual a doença é uma circunstância e uma parte da história, jamais o todo. A pessoa deixa de ser uma pessoa para ser uma doença. Se há um histórico, é o de sua ficha médica, marcada por internações e medicamentos – ou a falta de um e de outro. Esvaziada de sua humanidade, o que diz é automaticamente descartado como sem substância. A doença mental, ao substituir a pessoa, explica também o crime. E, se não há sujeito, não é preciso nem pensar sobre os significados do crime, nem sobre o que diz aquele que o cometeu.

Mas o que essa escolha – a de reduzir uma pessoa a uma patologia e a de anular os sentidos do seu discurso – diz da sociedade na qual foi forjado esse modo de olhar? Se Alessandro de Souza Xavier, 33 anos, o homem que na terça-feira (25/2) empurrou Maria da Conceição Oliveira, 28, no metrô, for escutado, há algo de particularmente perturbador na justificativa que confere ao seu ato. Alessandro diz: “Fizeram um mal pra mim, e eu descontei. Fiz porque estava nervoso com o pessoal do mundo.”

O louco não expressa apenas a sua loucura. Ele também denuncia a insanidade da sociedade em que vive

O que há de particularmente perturbador nessa fala é que, quando escutada, ela desnuda o atual momento do Brasil. Vale a pena lembrar que o louco é também aquele que diz explicitamente do seu mundo. Sem mediações, ao dizê-lo ele pode sacrificar a vida de outros, assim como a sua. Vale a pena lembrar ainda que o louco não expressa apenas a sua loucura. Ele denuncia também a insanidade da sociedade em que vive.

Ao interrogar sobre os sentidos do que Alessandro diz, quando explica por que empurrou Maria, é necessário olhar para os outros crimes que viraram notícia nos últimos dias. Nenhum deles, até agora, relacionado a doenças mentais. Torcedores do São Paulo bateram com barras de ferro em um torcedor do Santos que esperava o ônibus. Bateram nele até matá-lo. Ao deparar-se com blocos de Carnaval interrompendo o trânsito, na Vila Madalena, bairro de classe média de São Paulo, um homem acelerou o carro e feriu dez pessoas. Quem estava perto o arrancou do veículo e passou a agredi-lo. Quando ele conseguiu fugir, destruíram o carro. Um casal de lésbicas foi espancado ao sair de um bloco de Carnaval, no Rio. Uma delas teve a roupa arrancada. Apenas uma pessoa na multidão ao redor tentou ajudá-las. Em Franca, no interior de São Paulo, um adolescente correu atrás de um suspeito de assalto e lhe aplicou um golpe chamado de “mata-leão” (estrangulamento). O suspeito, de 22 anos, teve um infarto após ser imobilizado e morreu no hospital. Um morador de rua foi linchado em Sorocaba (SP) por ter pegado um xampu de um supermercado. Teve afundamento do crânio. No Rio, mais um adolescente foi amarrado e agredido depois de furtar um celular. Linchamentos eclodiram em todo o país depois do caso do garoto acorrentado com uma trava de bicicleta no Flamengo. Nas semanas anteriores, dois manifestantes acenderam um rojão num protesto no Rio, matando um cinegrafista. Na Baixada Fluminense, um homem executou um suspeito de assalto com três tiros, em plena rua, durante o dia, assistido por vários. Mais de 40 ônibus foram incendiados em São Paulo em 2014.

A lucidez do louco é a de não vestir como razão a nudez do seu ódio – ou do seu medo

O discurso do louco é encarado como uma afirmação (e confirmação) da sua loucura, o que é outra forma de não escutá-lo. No caso de Alessandro, uma das provas da loucura do louco teria sido ele dizer que jogou Maria nos trilhos do metrô por raiva e também por vingança. Explícito assim. Outra prova da loucura do louco revelou-se ao afirmar que não a conhecia, que a escolheu de forma aleatória. “Desconexo” – foi o adjetivo usado para definir o discurso de Alessandro. Sua vítima não era torcedora do Santos, não era lésbica, não tinha furtado um celular ou um xampu, as desrazões interpretadas como razões. Por que, então? O louco confessou: Maria não era Maria, já que não a conhecia nem sabia o seu nome, mas o “pessoal do mundo”. A lucidez do louco talvez seja a de não vestir como razão a nudez do seu ódio – ou a nudez do seu medo. Por isso também é louco.

Diante da violência que irrompe no Brasil em todos os espaços, talvez seja a hora de escutar o louco. Talvez o fato de ele atacar no metrô não seja um detalhe descartável, uma coincidência destituída de significado. No mesmo dia em que Alessandro foi preso, morreu no hospital Nivanilde de Silva Souza, aos 38 anos. No mesmo dia em que, na Estação da Sé, Alessandro empurrou Maria, na Estação da Luz um trem atingiu a cabeça de Nivanilde. Ela tinha dito a um estagiário da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) que estava grávida, o que lhe assegurava o direito a entrar no vagão especial. O estagiário disse a ela que teria de apresentar um documento comprovando a gestação. Os dois teriam se empurrado, seguranças deram voz de prisão à Nivanilde. Na confusão, ela teria caído na plataforma. O trem bateu na sua cabeça.

No início de fevereiro, a linha-3 vermelha do metrô parou por cinco horas depois da falha em uma porta na estação da Sé, a mesma em que Alessandro empurrou Maria. No verão paulistano mais quente desde 1943, o ar-condicionado foi desligado. Pessoas vagavam pelos túneis, algumas desmaiaram, grávidas e velhos esperaram dentro de vagões abafados por horas. Pelo menos 19 dos 40 trens que circulavam na linha foram depredados.

O outro, qualquer outro, tornou-se inimigo e competidor por um lugar no trem que nos engole e nos cospe em seu vaivém automático

Os protestos de junho de 2013 começaram por causa das tarifas do transporte público, em São Paulo os 20 centavos de aumento da passagem. Naquele momento, milhares romperam o imobilismo, no concreto e no simbólico, e passaram a andar por cidades em que não se andava, vidas consumidas em ônibus e metrôs superlotados. O aumento de 20 centavos foi cancelado, mas o péssimo transporte público continuou mastigando o tempo, desumanizando gente. Basta parar para esperar o trem nos horários de pico para ser empurrado, xingado, odiado. O outro, qualquer outro, tornou-se nosso inimigo e nosso competidor por um lugar no trem que nos engole e nos cospe em seu vaivém automático. Somos passageiros que não passam, e a tensão dessa impossibilidade cotidiana pode ser apalpada. A violência é gestada como uma promessa para o segundo seguinte.

Então o louco vai lá e empurra a mulher sobre os trilhos. Rompe o imobilismo e empurra aquela que espera. Porque é louco. Caso isolado, nenhuma conexão com nada, desconexo é o seu discurso, fora da história é o seu gesto, a insanidade é só dele. Basta eliminá-lo, tirá-lo de circulação, para que a sociedade brasileira volte a ser sã. E o metrô de São Paulo um espaço de convivência agradável e pacífico, marcado pela cordialidade.

Talvez estejamos todos não loucos, mas no lugar do louco. Já não nos subjetivamos, tudo é literal. Nos mínimos atos do cotidiano nos falta a palavra que pode mediar a ação, interromper o gesto de violência antes que se complete. Mas talvez estejamos no lugar do louco especialmente porque nem escutamos, nem somos escutados. E quem não é escutado vai perdendo a capacidade de dizer. Só resta então a violência.

Reprimir os protestos é uma forma brutal de não escutar o que dizem aqueles que ainda se preocupam em dizer

Os protestos iniciados em junho pelos 20 centavos e agora centrados na Copa do Mundo são um dizer. Responder a eles com repressão – seja da polícia no espaço público, seja em projetos de lei que transformam manifestantes em terroristas, seja anunciando que o Exército vai para as ruas em tempos de democracia – é uma forma brutal de não escutar aqueles que ainda se preocupam em dizer. É talvez a maior violência de todas.

É preciso ser muito surdo para acreditar que prender todos, “deter para averiguação”, criminalizar manifestantes é suficiente para voltarmos a ser o Brasil cordial e contente que nunca existiu, 200 milhões em ação torcendo pela seleção canarinha. Que o dizer de quem deseja um Brasil diferente seja hoje expressado no campo simbólico do futebol é mais uma razão para escutá-lo, ao mostrar que estamos diante de novas construções do imaginário.

Escutem o louco. Para não colocar aqueles que protestam no lugar do louco, no lugar daquele que não é escutado porque não teria nada a dizer. E depois surpreenderem-se com a resposta violenta, convencendo-se de que não têm nada a ver com isso.