É HORA DO POVO PENSAR

por Talis Andrade

livro pássaro

Ora poesia lírica
ora poesia épica
do Grande Rio
do Sul

Ora um canto suave
ora um canto áspero
– flor e espinho

Que lhe fere o coração
ver os filhos da rua
saber que existem meninas
que ficam nuas por um pedaço de pão

Ora Sandra ora
aos Santos ora
doutro poeta a oração

Oh! bendito o que semeia
livros à mão cheia
e manda o povo pensar

e manda o povo pensar

Mulheres negras e literatura

por Helena Theodoro

bio_helenatheodoro

1. Apresentação

A literatura atua em nossas vidas para unir os mitos fundamentais da comunidade, de seu imaginário ou de sua ideologia. Na literatura brasileira, no entanto, o negro tem sua palavra excluída, ocultada com frequência ou uma representação inventada pelo outro, sendo sempre o elemento marginal.

Darcy Ribeiro, em 1982, no seu Utopia Selvagem, reflete sobre o povo brasileiro através de uma fábula que dá continuidade ao lamento de Macunaíma diante da inocência perdida, constatando que a proximidade com o branco foi trágica não só para os brasileiros, mas para todos os latino-americanos, situando que a origem de nossos males está na perda de nossa identidade cultural, mostrando a necessidade de recuperação da fala dos excluídos.

João Ubaldo Ribeiro realiza em sua obra Viva o povo brasileiro um verdadeiro poema épico, onde realça a pluralidade cultural brasileira, sem folclorizações,subvertendo a tradição literária vigente até os anos sessenta, valorizando nossas tradições indígena e africana. Comprova a viabilidade de um povo brasileiro que constrói o futuro do país com suas crenças, seus rituais e sua própria maneira de manipular o mundo, além de valorizar em sua personagem Dadinha a capacidade da mulher negra de manter as tradições do grupo através das histórias de sua gente, passadas de geração a geração.

2.Mulheres negras

Conhecidas em nossa cultura popular como grandes contadoras de histórias, as mulheres negras sempre mantiveram a tradição oral de sua cultura, ensinando através de bichos que falam, do saci-pererê, das aventuras de tios africanos e de mitos dos orixás. Suas histórias, porém, eram recolhidas e escritas por outros, folclorizadas.

Hoje, no entanto, já se registra uma forma peculiar das mulheres negras caracterizarem na literatura sua condição e sua identidade, ressaltando-se que elas existem, publicam e precisam ser conhecidas como artistas da palavra marginal, sendo uma das falas dos excluídos, já que a literatura sempre se caracterizou por mostrar as peculiaridades , costumes e crenças de todos os segmentos populacionais que constituam um país.

 

2.1 – Geni Mariano Guimarães

Nasceu em São Manoel, interiorpaulista, trabalhou nos jornais Debate Regional e Jornal da Barra, em Barra Bonita e nos mostra sua capacidade de criar e transformar . Publicou “Terceiro Filho”, poesia , “Da flor, o afeto; da pedra, o protesto”, poesia e ganhou o Prêmio Jabuti com o seu “A Cor da Ternura”, literatura infanto-juvenil lançada pela Editora FTD. Seus textos são plenos de poesia e ternura:

“Nascia um belo dia, emoção grande me causou vertigem,
tomei das mãos do alfabeto, símbolos, com eles riam verso virgem.
Dos rios mastiguei os córregos, dos sóis sorvi doirados
bicos.
Mamei a minha mãe na fonte, ganhei vida, ri um
verso terno rico.
Da primeira cobra armada em bote,
aprendi as infinitas contorções molengas.
Tomei da angústia, vida fluída,
risquei um verso duro capenga.

Sou hoje colheita descoberta, nos amores da aurora
nas fazendas
extração dos capitães de mato e dos de areia do
Jorge.
Retrato pois, o poeta é um bicho da seda que se
explode.”

O poema de Geni resume sua trajetória de mulher negra, de personagem a autor. Suas caminhadas, seus passos, suas estórias de infância que , presas em seu peito, anseiam por sair, voar e se espalhar pelo mundo afora, em seu voo de pássaro.

 

2.2 – Elisa Lucinda

 

Os textos deElisa mostram a luta da mulher negra para participar , ter voz e vez, enfim, exercer em toda a plenitude o seu direito à cidadania, sem deixar de se dizer e se ver conforme suas tradições, como neste poema que trata do mistério da menstruação, da função mulher, com uma roupagem toda própria, sem a invenção social da velhice, que tira o direito à sexualidade das mulheres mais velhas.

QUANTO MAIS VELA MAIS ACESA

Um dia quando eu não menstruar mais
Vou ter tanta saudade desse bicho sangrador mensal
que ainda sou
que mata os homens de mistério
Vou ter saudade desse lindo aparente impropério
desse império de gerações absorvidas
Desse desperdício de vidas
que me escorre hoje mês de maio.
Ensaio:
Nesse dia vou querer a vida
com pressa
menos espaços entre uma frase e outra
menos res-piração entre um fato e outro
menos intervalos entre um impulso e outro
Sem essa fartura de vírgulas
entre um verso e outro
menos lacunas entre a ação e sua causa
e se Deus não entender, rezarei:
Menos pausa, meu Deus
menos pausa.

2.3 – Conceição Evaristo

Falar de Conceição Evaristo é lidar com literatura brasileira em toda a sua magnitude. No entanto, muitos não conhecem esta doutora em Literatura que nasceu em Belo Horizonte em 1946.Mas, ninguém melhor do queConceição para falar sobre o que escreve, como fez em um depoimento para a internet em 2011.

“O que eu tenho pontuado é isso: é o direito da escrita e da leitura que o povo pede, que o povo demanda. É um direito de qualquer um, escrevendo ou não segundo as normas cultas da língua. É um direito que as pessoas também querem exercer. Então Carolina Maria de Jesus não tinha nenhuma dificuldade de dizer, de se afirmar como escritora. (…) E quando mulheres do povo como Carolina, como minha mãe, como eu, nos dispomos a escrever, eu acho que a gente está rompendo com o lugar que normalmente nos é reservado, né? A mulher negra, ela pode cantar, ela pode dançar, ela pode cozinhar, ela pode se prostituir, mas escrever, não, escrever é uma coisa… é um exercício que a elite julga que só ela tem esse direito. (…) Então eu gosto de dizer isso: escrever, o exercício da escrita, é um direito que todo mundo tem. Como o exercício da leitura, como o exercício do prazer, como ter uma casa, como ter a comida (…). A literatura feita pelas pessoas do povo, ela rompe com o lugar pré-determinado.”

Conceição viveu rodeada por palavras que ouvia de seus familiares através de histórias contadas pelos mais velhos. Desde pequena sofreu com o racismo, tendo se tornado militante dentro e fora da academia. Mestre em Literatura Brasileira e doutora em Literatura Comparada possui inúmeras publicações, sendo reconhecida internacionalmente , apesar da dificuldade que temos de encontra-la nas grandes livrarias e nos manuais de literatura brasileira.

A escrevivência de Conceição Evaristo se propõe a revelar a desigualdade existente em nossa sociedade, além de recuperar uma memória sofrida dos afrodescendentes, em toda a sua riqueza e potencialidade de ação, como constatamos no romance Ponciá Venâncio de 2003 ou no poema A voz de minha Bisavó de 2011

A Voz de Minha bisavó

A voz de minha bisavó ecoou
criança
nos porões do navio.
Ecoou lamentos
de uma infância perdida.

A voz de minha avó
ecoou obediência
aos brancos donos de tudo.

A voz de minha mãe
ecoou baixinho revolta
no fundo das cozinhas alheias
debaixo das trouxas
roupagens sujas dos brancos
pelo caminho empoeirado
rumo à favela.

A minha voz ainda
ecoa versos perplexos
com rimas de sangue

e
fome.

A voz de minha filha
recolhe todas as nossas vozes
recolhe em si
as vozes mudas caladas
engasgadas nas gargantas.
[…].

 

 

 

Violência em silêncio

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Deitados às cinzas das sombras dos prédios.
Sob a punição de seus medos
No relento do descaso
Onde as ruas são seus laços
Suas identidades desfeitas por cédulas de abandono
Aprisionados na dor da violência
De devassos governantes com viseiras do poder
Violência da alma, da mente
Não há armas
Apenas corpos sedentes
Do amor, do calor
Cansados da ausência do ser
Sufocados pela presença do ter
Na foto vejo um pouco de mim
e vejo um pouco de você.

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FOTO: Weslei Barba – Fotógrafos Ativistas
TEXTO: Ariana Lackshmi – Fotógrafos Ativistas

AUDIODESCRIÇÃO: Dois moradores de rua estão próximos a um monumento localizado na região da Sé. Um deles está sentado com a mão no rosto e o outro está deitado. No fundo, há alguns prédios antigos. Foto em preto e branco.

fotografia violência

Para que serve a leitura

Por Cristina Peri Rossi
Tradução Nina Rizzi

livro 

PARA QUE SERVE A LEITURA

Me chamam de um editorial
e me pedem que escreva
cinco folhas sobre a necessidade da leitura

Não pagam muito bem
e quem poderia pagar bem por um tema desses?
mas de qualquer maneira
preciso do dinheiro

assim que ligo meu computador começo a pensar
sobre a necessidade da leitura
mas não me ocorre nada

é algo que seguramente sabia quando era jovem
e lia sem parar
lia na Biblioteca Nacional
e nas bibliotecas públicas

lia nos cafés
e nas consultas ao dentista

lia no ônibus e no metrô

sempre andava olhando os livros

e passava as tardes nos sebos
até ficar sem um tostão nos bolsos

tinha que voltar para casa a pé

por ter comprado um Saroyan ou uma Virginia Woolf

Então os livros pareciam a coisa mais importante da vida

fundamentais

eu não tinha sapatos novos
mas não me faltava um Faulkner ou um Onetti
uma Katherine Mansfield ou uma Juana de Ibarbourou

hoje os jovens estão nas discotecas
não nas bibliotecas

eu fiz uma bela coleção de livros
ocupavam toda a casa

tinham livros em toda parte
menos no banheiro

que é o lugar onde estão os livros
da gente que não lê

as vezes tinha que seguir durante muito tempo
as pegadas de um livro que tinha saído no México
ou em Paris

uma longa pesquisa até consegui-lo

Nem todos valiam a pena
é verdade
mas poucas vezes me enganei
tive meus Pavese meus Salinger meus Sartre meus Heidegger
meus Saroyan meus Michaux meus Camus meus Baudelaire
meus Neruda meus Vallejo meus Huidobro
para não falar dos Cortázar ou dos Borges
sempre andava com anotações nos bolsos
dos livros que queria ler e não encontrava
ali andavam os Pedro Salinas e os Ambrose Bierce
a infame turba de Dante
mas agora não saberia dizer pra que maldita coisa
serve ter lido tudo isso

mais que para saber que a vida é triste

coisa que poderia saber sem precisar tê-los lido

Depois de cinco horas eu ainda não tinha escrito
uma só linha
assim que comecei a escrever esse poema
Chamei os do editorial
e disse creio que a única coisa para que serve
a leitura
é para escrever poemas

não posso dizer mais que isso

então me disseram que um poema não servia,
que precisavam de outra coisa.

 

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livro 3

PARA QUÉ SIRVE LA LECTURA

Me llaman de una editorial
y me piden que escriba
cinco folios sobre la necesidad de la lectura

No pagan muy bien
¿quién podría pagar bien por un tema así?
pero de todos modos
necesito el dinero

así que enciendo el ordenador y me pongo a pensar
sobre la necesidad de la lectura
pero no se me ocurre nada

es algo que seguramente sabía cuando era joven
y leía sin parar
leía en la Biblioteca Nacional
y en las bibliotecas públicas

leía en las cafeterías
y en la consulta del dentista

leía en el autobús y en el metro

siempre andaba mirando libros

y me pasaba las tardes en las librerías de usados
hasta quedarme sin un duro en el bolsillo

tenía que volver a pie a casa

por haberme comprado un Saroyan o una Virginia Woolf

Entonces los libros parecían la cosa más importante de la vida

fundamental

y no tenía zapatos nuevos
pero no me faltaba un Faulkner o un Onetti
una Katherine Mansfield o una Juana de Ibarbourou

ahora la gente joven está en las discotecas
no en las bibliotecas

yo me hice una buena colección de libros
ocupaban toda la casa

había libros en todas partes
menos en el retrete

que es el lugar donde están los libros
de la gente que no lee

a veces tenía que seguirle durante mucho tiempo
las huellas a un libro que había salido en México
o en París

una larga pesquisa hasta conseguirlo

No todos valían la pena
es verdad
pero pocas veces me equivoqué
tuve mis Pavese mis Salinger mis Sartre mis Heidegger
mis Saroyan mis Michaux mis Camus mis Baudelaire
mis Neruda mis Vallejo mis Huidobro
para no hablar de los Cortázar o de los Borges
siempre andaba con papelitos en los bolsillos
con los libros que quería leer y no encontraba
por allí andaban los Pedro Salinas y los Ambrose Bierce
la infame turba de Dante

pero ahora no sabía decir para qué maldita cosa
servía haber leído todo eso

más que para saber que la vida es triste

cosa que hubiera podido saber sin necesidad de leerlos

Cuando habían pasado cinco horas yo todavía no había escrito
una sola línea
así que me puse a escribir este poema
Llamé a los de la editorial
y les dije creo que para lo único que sirve
la lectura
es para escribir poemas

no puedo decirles más que eso

entonces me dijeron que un poema no servía,
que necesitaban otra cosa.

– – –

 

In Substantivo Plural