EVOCAÇÃO DE NATAL. A ronda da noite de Djalma Maranhão

EVOCAÇÃO DE NATAL
por Djalma Maranhão

DJALMA MARANHAO 2
(Trechos de Poema escrito no exílio)

Não te esquecerei, Natal!
Os olhos do sol transpondo as dunas,
Iluminando a cidade
Que dormiu embalada
Pelo sussurro das águas do Potengi.

(…)

Não te esquecerei, Natal!
No lirismo de teus poetas;
O quase bárbaro Itajubá
E o quase gênio Otoniel
E também o alucinado Milton Siqueira.
Jorge Fernandes esbanjando poesia
Na mesa de um bar
Era a imagem viva de um Verlaine.

(…)

Não te esquecerei, Natal!
A vocação libertária do teu povo,
A pregação caudilhesca de Zé da Penha,
Alguns políticos enganando o povo,
Que um dia ganhará conscientização.

(…)

Anoto para o futuro as lutas de hoje
Dos jovens sacerdotes
Plasmados por Dom Eugênio e Dom Nivaldo,
Para os duros embates sociais
Na fidelidade às Encíclicas de João XXIII,
Herdeiros do sacrifício de Frei Miguelinho.

(…)

Não te esquecerei, Natal!
A velha Simôa,
Mais imoral que uma antologia de Bocage,
Chico Santeiro, O Aleijadinho potiguar,
Esculpindo os seus bonecos de madeira,
Com uma ponta de canivete.

(…)

Não te esquecerei, Natal!
Encontro os teus pescadores no Ano do Centenário,
Com a mesma audácia dos irmãos Polinésios,
Numa jangada de velas esfarrapadas,
Levando a mensagem do Potengi a Baia Guanabara.

(…)

Água de coco com aguardente,
Era e continua sendo o melhor uísque nacional.
E o menestrel escravo Fabião das Queimadas,
Que libertou a si e a própria mãe,
Ganhando dinheiro, cantando e tocando rabeca.

(…)

Não te esquecerei, Natal!
A revolução liberal de 1930,
Meu batismo nas lutas sociais.
Fanfarras agitando, agitando,
Muitos discursos, poucos tiros.

(…)

A voz do fogo do seus tribunos,
Ontem, contra o colonialismo,
Hoje frente ao imperialismo.

Não te esquecerei, Natal!

A RONDA DA NOITE DE DJALMA MARANHÃO
por Talis Andrade

.

Estreladas noites Djalma passava
pel’A República dirigindo um jipão
que parecia um trator. O velho jipão
dos tempos da Grande Guerra
subia descia morros
dançava na areia fofa
das ruas que Djalma mandava ladrear.

O jipão seguia ziguezagueando
por desalinhadas ruas
ladeadas de casinhas de presépio.
Casinhas que a lua alumiava.
Ruas que exibiam os mistérios da noite
como uma mulher mostra os encantos
exclusivamente para o amante.
Ruas em que Djalma mandava levantar
postes de iluminação.

Djalma conhecia as quinas
as curvas das ruas estreitas.
Nos becos e botecos
saltava para um trago.
Djalma conhecia os moradores
as cantorias os amores
as aventuras dos pescadores.
Djalma bêbedo da paisagem
– o encantamento das dunas
estendendo o mar
transformado em areia.
Djalma bêbedo de saudade de Natal
contava histórias de quando preso
nas masmorras de Getúlio
parecendo previa carregadas nuvens
fechariam o tempo fechariam as casas.

Djalma levou consigo a saudade
para a escuridão do cárcere.
A evocação no exílio
lhe consumiu o coração.

Djalma voltou para Natal
dentro de um caixão.

 

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Carlos Drummond de Andrade canta Manuel Bandeira

POÉTICA
Manuel Bandeira

.

Estou farto do lirismo comedido
do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente protocolo e manifestações de apreço ao Sr. Diretor

Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo

Abaixo os puristas

Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis

Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo.
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes maneiras de agradar as mulheres, etc.

Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbados
O lirismo difícil e pungente dos bêbados
O lirismo dos clowns de Shakespeare

– Não quero saber do lirismo que não é libertação.

manuel_bandeira_violao
ODE NO CINQÜENTENÁRIO DO POETA BRASILEIRO
de Carlos Drummond de Andrade

.

Esse incessante morrer
que nos teus versos encontro
é tua vida, poeta,
e por ele te comunicas
com o mundo em que te esvais.

Debruço-me em teus poemas
e neles percebo as ilhas
em que nem tu nem nós habitamos
(ou jamais habitaremos)
e nessas ilhas me banho
num sol que não é dos trópicos,
numa água que não é das fontes
mas que ambos refletem a imagem
de um mundo amoroso e patético.

Tua violenta ternura,
tua infinita polícia,
tua trágica existência
no entanto sem nenhum sulco
exterior – salvo tuas rugas,
tua gravidade simples,
a acidez e o carinho simples
que desbordam em teus retratos,
que capturo em teus poemas,
são razões por que te amamos
e por que nos fazes sofrer…
Certamente não sabias
que nos fazes sofrer…

(…)

Não é o canto da andorinha, debruçada nos telhados da Lapa,
anunciando que tua vida passou à toa, à toa.
Não é o médico mandando exclusivamente tocar um tango argentino,
diante da escavação no pulmão esquerdo e do pulmão direito infiltrado.
Não são os carvoeirinhos raquíticos voltando encarapitados nos burros velhos.
Não são os mortos do Recife dormindo profundamente na noite.
Nem é tua vida, nem a vida do major veterano da guerra do Paraguai,

(…)

és tu mesmo, é tua poesia,
tua pungente, inefável poesia,
ferindo as almas, sob a aparência balsâmica,
queimando as almas, fogo celeste, ao visita-las;
é o fenômeno poético, de que te constituíste o misterioso portador

(…)

Que o poeta nos encaminhe e nos proteja
e que seu canto confidencial ressoe para consolo de muitos e esperança de todos,
os delicados e os oprimidos, acima das profissões e dos vãos disfarces do homem.
Que o poeta Manuel Bandeira escute este apelo de um homem humilde.

 

 

A voz de Luiz Alberto Machado

MINHA VOZ
de Luiz Alberto Machado

Quando minha voz é coragem de amar
No ultraje dos desencontros
E eu sou navio com rota esquecida
E naufrágios muitos
Quando um nublado olhar
Pousa em meu rio
É presságio que paira
No ventre da paixão
Quando minha voz é torrente de dor
No exagero sombrio de uma canção
Não é nada, é tempestade que passou
E deixou danos
Quando minha voz é a coragem de amar
Não é a sombra de um vendaval
É a sujeição de um eterno pavio
Que nunca se apagará.

 

POR ONDE CAMINHARMOS
de Meimei Corrêa

Luiz Alberto Machado 3

(Pra você, amado Luiz Alberto)

A voz, o riso, o canto
Cada dia que passa, meu encanto
Teu rastro me caça, tu me abraças
No dia que se manifesta
Na noite que em ti sou festa
És rio em meu mar
Sou mar, luar, sou teu amar
És meu florescer, viver
Sonho das madrugadas
Real existir
E vivo a sorrir pelos cantos
Mas também sou lágrimas, sou pranto
Se a saudade toma o teu lugar
És lenha na minha fogueira
Sou brasa na tua lareira
Somos par, sonhar, amar
Caminho a todo instante em tua direção
E tu me vens de encontro, dá-me tuas mãos
E pelas estradas da vida seguimos
Estou em ti, estás em mim
Sorrimos, vivemos, existimos
(Um no outro, por onde caminharmos).

 

Stella Leonardos e Cruz e Sousa

 

 

CÁRCERE DAS ALMAS

por Cruz e Sousa

.

Ah! Toda a Alma num cárcere anda presa,
soluçando nas trevas, entre as grades
do calabouço olhando imensidades,
mares, estrelas, tardes, natureza.

Tudo se veste de uma igual grandeza
quando a alma entre grilhões as liberdades
sonha e sonhando, as imortalidades
rasga no etéreo Espaço da Pureza.

Ó almas presas, mudas e fechadas
nas prisões colossais e abandonadas,
da Dor no calabouço, atroz, funéreo!

Nesses silêncios solitários, graves,
que chaveiro do Céu possui as chaves
para abrir-vos as portas do Mistério?!

 

Alma de vermelho, Leonor Fini

Alma de vermelho, Leonor Fini

.

 

EXERCÍCIO SOBRE “O EMPAREDADO”
(PROSA POÉTICA DE CRUZ E SOUSA)

por Stella Leonardos

.

Quem nega que essas pedras emparedam
– tantas e tantas pedras cumuladas –
são cúmulos de céus apedrejados,
asas de astros partidos que se empedram?

Entre as penas do pássaro apresado
e cada pedra posta sobre pedra
repercute teu solo negregado.

Com tal ritmo, metal, sonoridade,
que consegues romper paredes pétreas,
que gravas na prisão a sombra grave
de um pássaro apenado e te libertas.

Luís Carlos Guimarães e Zila Mamede

A PONTE
Zila Mamede

Salto esculpido

sobre o vão

do espaço

em chão

de pedra e de aço

onde não permaneço

– passo

 

zila mamede
SONETINHO ENTRE COMOVIDO
E TRISTE PARA ZILA MAMEDE

de Luís Carlos Guimarães

 

Zila, nós

te amamos
e ficamos
mas sós:

a desolação
na alma,
um trauma
no coração

Alegre, triste,
como partiste
para o mar?

Ao viajar,
ias pensando
no até quando?

Luís Carlos Guimarães

Vânia Moreira Diniz e Luiz Alberto Machado

SISIFISMO
Luiz Alberto Machado

 

luiz alberto machado 4

Sobre esta terra, hy breazil

Muita lágrima e muito sangue jamais redimido

Sonhou-se novo sol, hy breazil

Mas a banda é a mesma

As armas as mesmas

Os homens os mesmos, hy breazil!!

.


POEMA PARA LUIZ ALBERTO MACHADO

por Vânia Moreira Diniz

 

Enquanto teus versos falam de amor,
Da humanidade e teu dedicado carinho,
Sinto no caminhar de meus passos
A certeza da verdade que encerram.

Teus poemas, pétalas de doçura,
Ah teus poemas, teus poemas,
Revelam a doçura de tua alma
E neles quero me apoiar.

Teus poemas que me levam enleada
Para outras paragens de consolo,
Ensinando a verdade do sentimento,
E resgatando todo o amor.

Teus poemas são úmidos,
Lentamente, lentamente,
Caindo como doce orvalho
E deixando o coração em transe!

Teus poemas a acompanhar a vida,
Tenho por eles a ternura
Que suaviza o dia conturbado,
e dá a certeza do carinho!

 

Os homens os mesmos, hy breazil!!

SISIFISMO

.

por Luiz Alberto Machado

 

Sísifo, de Tiziano, 1549

Sísifo, de Tiziano, 1549

Sobre esta terra, hy breazil

Muita lágrima e muito sangue jamais redimido

Sonhou-se novo sol, hy breazil

Mas a banda é a mesma

As armas as mesmas

Os homens os mesmos, hy breazil!!

 

Luiz Alberto Machado

Luiz Alberto Machado

POEMA PARA LUIZ ALBERTO MACHADO

.

Enquanto teus versos falam de amor,
Da humanidade e teu dedicado carinho,
Sinto no caminhar de meus passos
A certeza da verdade que encerram.

Teus poemas, pétalas de doçura,
Ah teus poemas, teus poemas,
Revelam a doçura de tua alma
E neles quero me apoiar.

Teus poemas que me levam enleada
Para outras paragens de consolo,
Ensinando a verdade do sentimento,
E resgatando todo o amor.

Teus poemas são úmidos,
Lentamente, lentamente,
Caindo como doce orvalho
E deixando o coração em transe!

Teus poemas a acompanhar a vida,
Tenho por eles a ternura
Que suaviza o dia conturbado,
e dá a certeza do carinho!

Vânia Moreira Diniz