“Até no inferno!”

Contribuição de leitora do Blog da KikaCastro

O texto abaixo foi enviado pela leitora Sue Amado, professora de inglês de 49 anos de idade. Ela é nascida na Guiné-Bissau, país da África Ocidental, e hoje mora em Tomar, cidade do distrito de Santarém, em Portugal (Fiquei muito feliz ao saber que este blog é lido de tão longe!). Ela já tem quatro livros publicados e, neste ano, vai publicar mais um, já em fase de revisão. Quem gostar de seu estilo pode ler outros contos dela em seu blog.

Você também quer enviar um texto para o blog? CLIQUE AQUI e compartilhe comigo! Pode ser conto, crônica, poema, reportagem, resenha (de filme, livro, CD, show, restaurante…), artigo de opinião, divagações etc. Vou avaliar e, a menos que não tenha nada a ver com a proposta do blog (seja um conto erótico, por exemplo), seu trabalho será publicado aqui nesta categoria dos textos enviados por leitores.

Agora, vamos ao conto da Sue:

Quadro “Der Kuss” (O Beijo), de Gustav Klimt, feito entre 1907-1908.

Quadro “Der Kuss” (O Beijo), de Gustav Klimt, feito entre 1907-1908.

“Sempre disse que daria tudo para ter quem me seguisse, quem não soubesse viver se eu não estivesse por perto, alguém que sentisse as minhas palavras, tão fundo, que todas as outras fossem apenas o que se precisa de usar para nos juntarmos ao resto do mundo. Daria tudo para saber de quem pousasse um olhar fixo em mim, e que conseguisse auscultar-me por dentro. Um corpo no qual me encostasse para que todas as dores do mundo se subtraíssem, ter quem planeasse ver-me, nos mesmos lugares, até que os nossos corpos se recusassem obedecer-nos, mas que deixasse de importar, porque estaríamos a envelhecer juntos.

Gostava de poder mostrar, sentir e viver, um amor que me fizesse mergulhar nos mesmos mares dos quais tenho medo de morte, talvez por já ter morrido em algum, um amor que me levasse a perdoar cada falha, com receio de falhar também eu, e a ponto de perder quem realmente importasse.

Gostava de te poder dizer, todos os dias, tal como o sinto agora, que por ti me superaria, iria até onde fosse preciso para ser a pessoa que visualizasses em cada pedaço do teu futuro. Eu sei que da forma como te amo me faria ser amada de volta, e que se te perdesse procurar-te-ia, iria até no inferno, ao lugar de onde dizem nenhuma alma ter jamais saído, e te traria de volta, para que estivesses do lado de quem te respira e sabe como se te entrar dentro.

Nada, nem ninguém, nos roubaria um segundo que fosse, a mais do que aqueles que já teriam que nos arrastar para longe um do outro, porque viver tem, infelizmente, outras nuances e estar contigo e em ti, nunca poderá ser sempre e para sempre, mas seria intenso, sentido e desejado, tanto que não precisaria de te dizer o que escrevo agora, porque já o saberias, já me teria encarregado eu de te o provar.

Vou aprendendo a tranquilizar-me, a saber esperar, porque agora, mais do que ontem, sei que te terei outra vez, que te reconhecerei em qualquer outra vida, mesmo que o duvides, mas acredita que se te tiraria até do inferno, então também te conseguiria encontrar, em qualquer rua de um novo destino, na hora certa, naquela em que passarias tu para que te visse realmente!”

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A poesia na Copa

por Woden Madruga

 

futebol cérebro

 

Na caixa do correio, no meio de panfletos de pizzarias, cartas atrasadas e avisos da Caern, encontro um bilhete de Alex Nascimento, manuscrito, letra bem arrumada padrão arquiteto (ou seria designer?), uma linha apenas: “Madruguinha: estou indo. Leia o soneto. Voltarei no final de julho. Alex”. Há tempo, nas madrugadas da Bela Napoli, ele vinha conversando que passaria a Copa fora do Brasil. Talvez Lisboa, poderia ser Firenze, ou mais longe, quem sabe ao redor do Golfo Pérsico. Não escondia o desejo de conhecer Catar, que ele escreve com Q. Perguntei por que Catar? Ora, respondeu já no terceiro oldepar, o Qatar é o novo paraíso da Fifa. Referia-se à grana avultada que os dirigentes da matriz mundial do futebol teriam recebido (milhões de dólares) para que o pequeno, mas rico, país árabe sediasse a Copa do Mundo de 2022. Um doutorado em suborno.

Será que Alex foi mesmo para o Catar? Há três dias o seu telefone não atende. Passei pela rua São João, não vi o seu carro na sombra da mangubeira. Na Bela Napoli, há uma semana que não aparece. Mário Ivo também não sabe. Me falou que, no último encontro, Alex insistia em conhecer Catar e de lá, ir até o arquipélago de Bahrein, outra mania árabe do poeta, agora motivado pela Fórmula 1 (o Grande Prêmio de Bahrein), uma de suas paixões esportivas. Alex sempre incluiu o arquipélago na sua geografia árabe: Arábia Saudita espichada pelo Catar em forma de península, a ilha de Bahrein, o Irã mais a frente, o Iraque ao lado. Uma vizinhança da pesada.

Lembro que ele falava que no Catar pode-se ir às arenas (as sedes da Copa) de bicicleta. Nada de trem, carro, metrô, ônibus, táxi. Nem tampouco jumento, sugerido como meio de transporte por um importante estadista brasileiro. Vai-se de bicicleta, numa boa. O Catar é pequeno, todo o país tem pouco mais de 11 mil quilômetros quadrados, mais ou menos 10% do território do Rio Grande do Norte. Falava com muito entusiasmo, lembrando-se do tempo em que, vivendo uma temporada na Alemanha, passeava pedalando entre cidades alemãs, holandesas e belgas, no cruzamento de suas fronteiras.

Já para Bahrein, estando em Catar, pega-se um barco e se vai pelo Golfo Pérsico, pouco tempo de travessia. Também tem voo a toda hora, basta conferir nos patrocínios da Fórmula 1 e nas camisas dos jogadores dos principais clubes da Europa: “Qatar Airways”. Aceita todos os cartões de crédito, inclusive da Caixa Econômica Federal, em até oito parcelas mensais. Nos deleites asiáticos de Alex descobri que essa sua ligação com o Bahrein não era somente por conta da Fórmula 1. Vinha lá de trás, de muito tempo atrás, quando os portugueses navegavam por aquelas águas orientais, anos de 1550/1600. Camões já fala em Bahrein, que escreveu Barém em Os Lusíadas. Está na estrofe 41 do Canto X:

“Ali, do sal os montes não defendem/ De corrupção os corpos no combate,/ Que mortos pela praia e mar se estendem/ De Gerum, de Mazcate e Calaiate,/ Até que à força só de braço aprendem/ A abaixar a cerviz, onde se lhe ate/ Obrigação de dar o reino inico/ Das perlas de Barém tributo rico”.

Abro o volume II de Os Lusíadas, numa edição publicada em Lisboa, em 1915, e que comprei – bote tempo nisso – num sebo em São Paulo, não me lembro quando. É uma edição organizada por Francisco de Sales Lencastre, que fez anotações “para leitura popular”. O Lencastre faz seis anotações para a estrofe. Destaque de nº 6 para o último verso, onde é citado Barém: “Pequenas ilhas no Golfo Pérsico, e no qual se pescavam as mais ricas pérolas.”

Para lá, que já foi o reino de Ormuz, teria embarcado Alex, fugindo da Copa da Fifa? Ou tudo não passa de invenção, de um fingimento do poeta, tal qual gostava de exercitar outro vate português navegando pelos seus oceanos infinitos (Ó mar salgado, quanto do teu sal / São lágrimas de Portugal!) ia pelo Rocio no rumo do Tejo, debulhando com Alberto Caeiro que o poeta é o fingidor, finge tão completamente que chega fingir que é dor a dor que deveras sente.

O soneto O soneto de Alex Nascimento (Luiz Vaz de Camões também foi sonetista, grande) expressa o seu sentimento crítico diante do espetáculo cívico-esportivo-carnavalesco da Copa e todos os seus “legados”, incluindo os eleitoreiros:

Era uma vez, assim conta a história,
Um povo que adorava gambiarra,
Sem saber da ressaca, tome farra!,
Sem lei, sem rei, sem mão, sem palmatória.
Sem passado ou presente, sem memória,
Não havia formiga, só cigarra,
Cuja única trilha era piçarra,
Burguês ou miserável, tudo escória.
Diz a lenda, se é que lenda fala,
Sub-vermes não legam um império,
Pois desse povo não restaram elos.
Por fim me calo eu, olho a senzala,
E todo o campo em volta é um cemitério,
Repleto de caixões verde-amarelos.

O futebol de João Cabral Apesar dos excessos da Fifa, o futebol está no coração de grande poetas brasileiros. Lembro, agora, de três: Carlos Drummond de Andrade, Paulo Mendes Campos e João Cabral de Melo Neto. Os dois primeiros, mineiros. O terceiro, pernambucano, torcedor do América de Recife. No seu livro Museu de tudo, está o poema “O futebol brasileiro evocado na Europa”:
“A bola não é inimiga/ como o touro, numa ‘corrida’;/ e embora seja um utensílio/ caseiro e que se usa sem risco,/ não é utensílio impessoal,/ sempre manso, de gesto usual:/ é um utensílio semivivo,/ de reações próprias como bicho,/ e que, como bicho, é mister/ (mais que bicho, como mulher)/ usar como malícia e atenção/ dando aos pés astúcias de mão.”

No Juvenal Lamartine Na poesia potiguar tem Nei Leandro de Castro no time dos craques da aldeia. Foi peladeiro do América (da família quem batia um bolão era o irmão Berilo), mas bom de bola na literatura. É dele o poema “No Estádio Juvenal Lamartine”, incluído no livro Autobiografia:

“Em volta, somente os morros do Tirol/ guardavam silêncio e serenidade./ O fanatismo tomava a arquibancada/ e o desconforto da geral/ em gritos de gol, palmas, palavrões./ O juiz apitava, corria com suas pernas finas/ e, errando ou não, era sempre filho de uma puta./ O mundo girava em duas rotações/ de quarenta e cinco minutos./ De repente, a explosão do gol, redonda alegria./ E tudo era tristeza quando o América/ descia do seu carro de glória e não vencia.”

 

Um novo tipo de agente literário

Alfredo Martirena

Alfredo Martirena

Sobre o texto publicado na Folha pela Luciana Villas-Boas, condenando a política de tradução do autor brasileiro, achei grosseiro inclusive no modo como se dirige aos escritores. O que é até certo ponto explicável pelo fato de ter sido empregada durante tanto tempo de casa ligada ao comércio editorial, quem sabe os patrões falavam assim com ela o tempo todo.
Estamos precisando no Brasil de um novo tipo de agente, sem subserviência mercantilista às empresas e com um desenho literário sustentado em qualidade estética e identidade singular.
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A submissão operosa desse tipo de agentes às editoras não adianta de nada porque afinal terminam levando o mesmo pontapé (veja-se a mais recente das ex-Record) e o que os escritores desejam na verdade é serem respeitados e levados mais em conta no sentido que a Villas-Boas e suas colegas fossem mais altivas e ao menos desenhassem um perfil de qualidade literária em suas gestões profissionais.
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Outro dia mesmo fiquei pasma ao saber que uma outra ex- empregada de editora deu um estranho mini-curso no Rio pretendendo ensinar aos escritores os passos necessários como agradar a esses estabelecimentos comerciais para ter seus livros aceitos à publicação: o nome disso é mediocridade capitalista mesmo. É banalização vazia da arte e nada tem a ver com a verdadeira literatura.
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BRA^GO_DDM literatura escondida escritor livro

Um pastor e suas ovelhas negras

Para ver no cinema: O LOBO DE WALL STREET (“The Wolf of Wall Street“)

Nota 9

Nota 9

por Cristina Moreno de Castro

 

Imaginem um pastor, diante de dezenas de fiéis. Seu deus é o dinheiro, que ele vangloria com deleite, elencando o prazer concedido por meio de iates, mansões, carrões e mulheres com peito siliconado. Sua pregação é uma venda dessa vida de luxo. Os fiéis são seus empregados, mas também seus admiradores, eufóricos com a possibilidade de um dia serem como ele. Fanáticos e vorazes, discando em seus telefones, à cata do próximo norte-americano boçal que cairá em um golpe.

Jordan Belfort, o lobo na pele de Leonardo DiCaprio, é um personagem real, embora seja difícil de acreditar. Seu combustível, além da ganância e da depravação, é um punhado de drogas — barbitúricos e cocaína, principalmente — e bastante sexo. Ele é um autêntico yuppie dos anos 80, que conseguiu enriquecer — muito, muito — jogando com a Bolsa de Valores.

O fato de tudo aquilo ter realmente acontecido dá um sabor especial ao filme. Como pode haver tantas pessoas sem qualquer escrúpulo, reunidas assim, com a única motivação de se darem bem? O filme é narrado em primeira pessoa e Jordan faz questão de sempre destacar seus bens. É a melhor mansão, na região mais nobre da cidade. É o melhor iate, é a mulher mais bonita. Etc. Um esbanjamento de fazer corar qualquer rei do camarote. Mas uma hora aquilo ia ter um fim, e a gente já entra prevendo isso. A expectativa de como ele finalmente se daria mal — o anti-herói que consegue ser tão cativante e ao mesmo tempo tão repulsivo — é o que torna a passagem das três horas de filme menos sentida.

Sim, porque o filme tem um defeito: é longo demais. Martin Scorsese gosta de cenas longas. Graças a deus ele também gosta de boa trilha sonora blueseira (com Elmore James, Bo Diddley, Charles Mingus e outros grandes), de bons personagens e gosta do Leonardo DiCaprio, que é um dos melhores atores de sua geração. Então só tenho coragem de tirar um ponto da avaliação, por causa desses 180 minutos de filme que poderiam ter sido 120 numa boa. Afinal, uma boa história bem contada pode durar o tempo que for.

O filme concorre a cinco estatuetas do Oscar: melhor ator (DiCaprio), melhor coadjuvante (o fenomenal Jonah Hill, um dos vários não famosos que completam o elenco de forma brilhante), melhor roteiro adaptado, melhor diretor e melhor filme. Acho que vai levar pelo menos umas três dessas.

Estamos premiando o pastor da sacanagem? Bom, nada muito diferente da lógica que reina até hoje e que levou a bolha dos Estados Unidos estourar há pouco tempo. O lobo é apenas o cara que faz melhor o que muitos como ele gostariam de saber fazer. E o filme é só um novelo que vai desfiando tudo o que condenamos, tudo o que é moralmente proibido, mas que muitos secretamente desejam.

Leia sobre outros filmes do Oscar 2014:

Trapaça – nota 7
Capitão Phillips – nota 9
A menina que roubava livros – nota 8

Cristina por Cristina no novo blogue no jornal O Tempo: Sou jornalista desde que me entendo por gente. Mas também já fui atriz, atleta, bancária, produtora de um programa de rádio sobre blues, e ainda tenho o sonho secreto de ser professora… Bom, mas oficialmente eu me formei em Comunicação Social, pela UFMG. Passei pela “Folha de S.Paulo”, G1 e fiz frilas para UOL, editora Abril e outros lugares, antes de pousar aqui em O TEMPO, onde sou redatora de Economia. Uma das coisas que mais gosto de fazer é blogar – entrei neste mundo da blogosfera em 2003 e este é o quinto blog que vou editar.

Nota deste jornaleiro: Cristina esqueceu de dizer que faz Poesia. Excelente Poesia. Clique no link poesia

Vida, deusa louca e bendita

Oração à Vida

por Jamila Carvalho

Vida, deusa louca e bendita,
Abençoada e amada,
Poderosa e opressora,
E ainda assim, possível.
Vida, mulher dançante,
Que carrega em seu ventre o tudo:
O todo possível da humanidade.
Vida, louca bendita, te peço,
No novo tempo que se aproxima,
Que não sobrevenham os dias maus
Nem se aproxime o de mau coração.
Permita, ó Vida,
Que o amor perpetuado sossegue
E dê lugar a um novo.
Que as feridas abertas se fechem,
Que o olho fechado se abra,
Que a dor pare de doer,
Que o sossego se faça presente.
Vida, louca e amada,
Dê-me de presente a paz de espírito,
Que dá poderes divinos
A quem é igual a mim.
Vida, louca possível,
Sê grandiosa e abale minhas certezas
Para que nunca suba em pedestais.
Não te desapegues de mim, Vida,
Até que chegue o tempo,
De modo que possa sorrir,
Mesmo se todo o resto cair.

El último viaje de Miguel Hernández

El legado del poeta descansará en Quesada (Jaén), donde será expuesto dentro de la ruta de los poetas andaluces, tras su ruptura con el Ayuntamiento de Elche

La herencia de Miguel Hernández ya prepara las maletas para su último viaje. Desde la caja fuerte de un conocido banco catalán el legado del poeta se mudará a Quesada, una pequeña localidad de Jaén de apenas 6.000 habitantes donde nació Josefina Manresa, la mujer del poeta. Las negociaciones entre el Ayuntamiento jiennense, los herederos de Hernández y la Diputación están muy avanzadas y sólo faltan por concretar algunos aspectos del régimen económico y el visto bueno final de la Junta de Andalucía. “Es el mejor destino para la memoria de Miguel. Está claro que no puede seguir como está ahora y ésta es la salida más segura”, explica Lucía Izquierdo, nuera de Miguel Hernández, aPúblico.

La búsqueda de un nuevo destino para la memoria del poeta comenzó el pasado 17 de octubre cuando el Ayuntamiento de Elche (Alicante), gobernado por el Partido Popular, rompió de manera unilateral el convenio que unía el legado a la ciudad desde hacía más de 20 años . La alcaldesa ilicitana, Mercedes Alonso, esgrimió la crisis económica como causa de la ruptura y acusó a la familia de recibir tres millones de euros de las arcas municipales. “A Miguel Hernández la derecha lo mató una vez y ahora lo ha vuelto a asesinar. Detrás de la decisión del Ayuntamiento no hay más que motivos ideológicos y el resto son acusaciones falsas. Nos sentimos humillados, ofendidos y traicionados” , confesó Lucía Izquierdo a este diario el pasado octubre.  El convenio económico, al que tuvo acceso Público, incluía la cantidad de tres millones de euros, pero no para la familia, sino para la fundación que debía gestionar el legado durante un período de 20 años.

 

 

Las autoridades no reconocen una emergencia cuando la tienen delante: este fin de semana Bilbao se llena de poetas

Bilbao al fondo. PELIGRO: POETAS

Bilbao al fondo. PELIGRO: POETAS

Se equivoca quien crea que un poeta es alguien que observa el crepúsculo. Me temo que un poeta es más bien alguien que tiene la necesidad de comerse el crepúsculo y correr después por la calle gritando y riendo y llorando porque no puede soportar más no se sabe el qué mientras siente cómo el mismísimo sol trata de salírsele del pecho. También es alguien a quien no hay manera de convencer para que vuelva al hotel y deje de pretender a la camarera tuerta del único bar del puerto de una ciudad que hasta hace un rato ni siquiera tenía puerto.
Se nos llena la ciudad estos días de poetas. Y yo no quiero responsabilidades. Por eso aviso. Los hosteleros harán enormes recaudaciones, pero sufrirán enormes desperfectos. Sobre todo, si los poetas que vienen son buenos. El resto de la población debería quedarse en casa y atrancar puertas y ventanas. Señalaré para terminar que a François Villon, precursor de la mejor tradición poética francesa, solo consiguieron pararlo de una forma: ahorcándolo.

Bukowski, amante del alcohol y de la vida bohemia, costumbres que le acompañaron casi toda su vida.

Bukowski, amante del alcohol y de la vida bohemia, costumbres que le acompañaron casi toda su vida

Tributo al poeta Ramón Rodríguez

En el marco de la Feria Internacional del Libro Universitario (FILU) 2012 de la Universidad Veracruzana, se presentó la colección “Cuartel de Invierno” de la Editorial de esta casa de estudios, que busca rendir homenaje al poeta Ramón Rodríguez, en el foro al aire libre de la Casa del Lago UV.
En la presentación de esta colección dedicada a libros de poesía y sobre poesía, que toma su nombre de uno de los títulos emblemáticos de Ramón Rodríguez, estuvieron presentes el propio homenajeado.

Rafael Antúnezprecisó que Ramón Rodríguez es autor de una obra que se reduce a siete títulos, publicados en un espacio de 50 años. “El hecho de que todos sus libros se editaron en Veracruz, y de que Ramón sea dueño de la más rara cualidad que un escritor puede tener: una verdadera aversión por cualquier tipo de publicidad, hicieron que no fuera conocido más que por un pequeño pero ferviente círculo lector”.

“El poeta es un músico de la palabra”: Ramón Rodríguez

por Xóchitl Partida Salcido

Hacerle una entrevista a Ramón Rodríguez es fácil y no. Fácil porque es generoso y amable. Muchas veces te da la razón con un: “como usted bien apunta”; y difícil porque no sabes si te dice eso por su generosidad, o para darte por tu lado. De cualquier forma, durante la charla uno se ríe mucho y la disfruta porque el poeta sigue el camino del humor, se relaja y se divierte mientras contesta las preguntas.

En el prólogo a La navaja de Ocam, poemario de Ramón Rodríguez (Córdoba, Ver. 1928) editado por el IVEC en 1998, Esther Hernández Palacios dice:

Ramón no es un poeta paisajista, su discurso poético es el paisaje. En su rítmico fluir utiliza, sin temor, es decir, con absoluta libertad todos aquellos recursos que encuentra a su paso, siempre y cuando le permitan conseguir su principal objetivo: acceder a la música. Sonido y sentido discurren a veces linealmente, otras marcando un alterado cauce; que tan pronto se yergue y se transforma en creciente huracán, o un alterado sereno, al ritmo de una ronda o una pavana.

Yo, como no soy especialista en poesía, sólo diré que el descubrimiento de la obra de Ramón Rodríguez es para mí una alegría: la de encontrar un lenguaje poético fresco, ingenioso. Leer algún poema de Rodríguez fue la pausa agradable en un agitado día de trabajo. Mi oído disfrutó porque su poesía suena, y mi alma gozó porque a partir de los materiales más triviales y cotidianos como un perro o un gato, el poeta ejecuta la quimera del lenguaje y los convierte en poesía.

“Não há modernidade se não se recorre à lição do passado”

Entrevista de Ivan Junqueira: a ordem secreta da poesia

 

– Qualquer poeta autêntico, por menor que seja, sempre cria uma linguagem, ainda que não a transgrida, ou melhor, não transgrida o sistema da língua.

– A crítica literária, pelo menos como a entendo, é uma forma de criação paralela. Se não o for, não será crítica, mas simples exercício de vivissecção cadavérica. É nesse sentido que a crítica universitária se resume amiúde num desastre e, não raro, em pedantaria erudita.

– É nesse sentido que endosso um crítico como Wilson Martins quando investe contra o sucesso literário de escritores como Jorge Amado ou o alcance filosófico de “pensadores” como Alceu Amoroso Lima, dois monstruosos equívocos de nossa literatura. Serve assim a crítica para despertar no leitor o interesse por essa ou aquela obra, mas nunca para induzi-lo a partilhar da opinião do crítico.

– É bom lembrar aqui que fomos colonizados por europeus, ainda que da pior espécie, e que nossas raízes, como de resto as de toda a América Latina, são europeias: portuguesas, espanholas, francesas, holandesas, alemãs, inglesas. E foram essas tradições, essas ideias e esses valores que nos geraram, nos criaram, nos enriqueceram, até sermos o que hoje somos. O que herdamos no âmbito cultural não nos veio dos guaranis nem dos africanos, mas dos europeus, a começar pela língua, que é portuguesa, e não sem razão toda a América Hispânica fala uma única língua, o castelhano. Caso contrário, nós, brasileiros, estaríamos falando tupi-guarani (como chegou a pretender Oswald de Andrade, aliás) ou qualquer dialeto nagô. Nossos valores culturais são também europeus (e, mais remotamente, latinos), como europeus, em suas trágicas origens, foram também nossos costumes calcados na transigência e na tolerância. E europeia é, ainda, a religião que prevalece no país. Não pretendo aqui negar a influência da cultura negra, mas o fato é que ela se restringe a áreas diminutas de nosso território intelectual. Quanto à influência indígena, praticamente inexiste. Incluir o candomblé como “notável fonte de êxtases” é desconhecer a alma da sociedade brasileira.

– Oswald, como Mário de Andrade – mas este, além de conhecimento artístico e talento polimórfico, tinha dignidade literária -, foi antes um animador, um “palhaço da burguesia”, como ele próprio se chamou, um bufão bem nutrido e endinheirado que a história, à qual ele e os demais modernistas jamais deram a menor importância, haverá de reduzir às proporções que lhe cabem.

– O transplante da estrutura ideogramática da escrita chinesa para a nossa língua é o mesmo que pretender implantar o chifre de um rinoceronte na testa de uma girafa. Os concretistas incidem nessa tolice de contrariar – ou mesmo assassinar – a índole da língua, de uma língua que, queiramos ou não, só é nossa por ser portuguesa. O “make it new” da poesia concreta não o faz nem novo nem velho simplesmente porque não faz nada: promove apenas um tumulto babélico no qual se confundem e se atropelam recursos que são específicos de outras técnicas artísticas.

– O Surrealismo, por recorrer às realidades e manifestações oníricas que subjazem no inconsciente, foi e será sempre uma poderosa vertente do pensamento poético, pois suas imagens pertencem a uma linguagem metalógica, ou seja, à linguagem que é própria da poesia. O que não se pode é deixar que esse fluxo tenha comando autônomo, como acontece na escrita automática, e aqui voltamos àquela sábia observação de Huidobro. O que diferencia basicamente o Surrealismo francês daquele que se irradiou pela América Latina é que este último não foi programático, e chego mesmo a arriscar aqui que, em suas origens, ele se confunde às vezes com o realismo fantástico, que é fenômeno literário tipicamente latino-americano.

– Até mesmo um poeta engajado como Pablo Neruda – esse grande mau poeta, como dele diz Juan Ramón Jiménez -, foi, em certo sentido, profundamente surrealista, como o foram alguns outros. É que esses poetas, além do influxo que receberam da literatura francesa que então se escrevia, tiveram um contato muito forte com a literatura de sua própria língua, em particular com a poesia de García Lorca, que, digam o que disserem, jamais renunciou inteiramente às suas fontes surrealistas. E digo, enfim e afinal: enquanto houver incursão ao subconsciente no afã de decifrar os abismos da alma humana, haverá sempre, não um programa, mas uma prática surrealista que se confunde com a busca das raízes da própria vida.

(Transcrevi fragmentos). Entrevista concedida a Floriano Martins. Leia 

Vozes d’África

por Castro Alves

 

Deus! ó Deus! onde estás que não respondes?
Em que mundo, em qu’estrela tu t’escondes
Embuçado nos céus?
Há dois mil anos te mandei meu grito,
Que embalde desde então corre o infinito…
Onde estás, Senhor Deus?…

Qual Prometeu tu me amarraste um dia
Do deserto na rubra penedia
— Infinito: galé! …
Por abutre — me deste o sol candente,
E a terra de Suez — foi a corrente
Que me ligaste ao pé…
………………………………..

Não basta inda de dor, ó Deus terrível?!
É, pois, teu peito eterno, inexaurível
De vingança e rancor?…
E que é que fiz, Senhor? que torvo crime
Eu cometi jamais que assim me oprime
Teu gládio vingador?!

…………………………………

Cristo! embalde morreste sobre um monte
Teu sangue não lavou de minha fronte
A mancha original.
Ainda hoje são, por fado adverso,
Meus filhos — alimária do universo,
Eu — pasto universal…

Hoje em meu sangue a América se nutre
Condor que transformara-se em abutre,
Ave da escravidão,
Ela juntou-se às mais… irmã traidora
Qual de José os vis irmãos outrora
Venderam seu irmão.

Basta, Senhor! De teu potente braço
Role através dos astros e do espaço
Perdão p’ra os crimes meus!
Há dois mil anos eu soluço um grito…
escuta o brado meu lá no infinito,
Meu Deus! Senhor, meu Deus!!…