Todo olhar é denso quando contempla o outro

Areal

Existe, além da parede,
a espessa aspereza do tempo.
Todo olhar é denso
quando contempla o outro.
(Mergulhamos na fotografia
impressa da memória
e ficamos retidos,
adereços discretos da paisagem.)
Espera o fruto.
A hora se biparte e o alçapão está fechado.
Atinges o momento do ciclone,
a órbita aberta do planeta.
Espera a volta.
Teus ombros nus encostados na parede,
tua face na penumbra,
retendo as luzes do quarto.

 

.

.


In “Areal”, de Thereza Christina Rocque da Motta (Dolphin, 1995).

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Nos estertores da morte os tremores idênticos aos do orgasmo

REBIS

por Talis Andrade

Leonor Fini by Jelenski, Constantin
 

Caminho curvado
como um condenado
como se fosse
proibido viver
o milagre da vida
em sua plenitude

como se apenas
fosse permitido
um escasso amor
um escasso sexo
como se estivesse
obrigado a andejar
apenas metade
de um caminho
 
Caminho curvado
como um condenado
o coração vazio
o vazio de me sentir
incompleto
como se faltasse
um lado do corpo
 
Caminho curvado
eu e uma societária
dor fantasma
dor descontinuada
alucinatória percepção
de uma parte amputada
como punição divina
 
2
 
Homem ou fêmea
o que fazer do corpo
quando se sente o corpo
como um peso morto
 
Homem ou fêmea
daimon demônio
o oposto posto
como continuação
do contrário

3

O que fazer do corpo
que se torce retorce
nos estertores da morte
os tremores idênticos
aos do orgasmo
 
Homem ou fêmea
o que fazer do corpo
quando me sinto
dividido em dois

um lado vivo
um lado morto
 
4
 
O que fazer do corpo
quando se tem
uma parte doente

sofrida parte
limitada a todo
o lado esquerdo
como se um raio
lançado por Zeus
tivesse me partido
ao meio

como se um raio invisível
tivesse me dividido
uma metade podre
uma metade sensível
 
O que fazer
da parte cortada
apartada parte
jogada fora

parte contrária
feminina parte
perdida parte
carne carniça
sanguento pasto
para os urubus

fremente parte
parte partida
que se estorce
cortado rabo
o rabo largado
o rabo tremente
de uma lagartixa
que se debate
no asfalto quente 
 
 
 
 
 
 


Tela: Leonor Fini

O outro, o duplo e a defesa do ser/estar fake

Não devemos confundir o fake com o duplo, o gêmeo, o outro, ou mesmo o hemafrodita como símbolo alquímico.

androgyne-aurora

In O Enforcado da Rainha, na página 136, publiquei o poema:

 

O INIMIGO

 

Como descobrir o inimigo

quando nunca saberemos

quem seguramente somos

Um corpo inteiriço

o eu único

ou o outro

o gêmeo o duplo

Nunca saberemos

quem realmente somos

qual o temerário o verdadeiro

Na controvertida dualidade

o passivo o ativo

o benigno o maléfico

o inocente o infesto

Nunca saberemos

quem realmente somos

 

Na internet o significado do termo fake é este: Uma palavra da língua inglesa que significa falso ou falsificação. Pode ser uma pessoa, um objeto ou qualquer ato que não seja autêntico.

Com as redes sociais, o termo passou a ser muito utilizado para designar uma conta na internet ou o perfil em uma rede social de alguém que pretende ocultar a verdadeira identidade. Aqui fake como pseudônimo. Usado nos livros de estréia de romancistas e poetisas no confronto com o patriarcado, a Santa Inquisição e o machismo. Ou qualquer escritor ou jornalista para escapar da perseguição política e do assédio judicial, notadamente em uma ditadura.

Da página da consagrada poetisa Nina Rizzi apresento como se fosse um debate:

Eu sempre imaginei um cara, pela poesia mesmo, e tudo ok até aí. E, para mim, se confirmou depois de uma entrevista n’O Chaplin. A inverosimilhança estava na grandiosidade de tudo: céus, Rimbaud, HH? E a bio e, por fim, a morte, a partir de um fato verídico e verificável nesses jornais sensacionalistas vide youtube…

Não, isto não é juízo de valor à poesia ou ao ser-fake – ainda que num ano foice como esse 2014, ‘ninguém merece chorar a morte de um fake no domingo de páscoa’, como bem disse M.

Mimi Verunschk: Querem criar fakes, que criem. Heterônimos mais que Pessoa, mas não criem nas pessoas vínculos afetivos com alguém que parece gente. Quando dão carne a alguém que é de plástico e depois anunciam sua morte de modo trágico não pensam nas lágrimas que caem ante a decepção que a verdade traz.

[palavras da minha amiga Ehre, que vinha acompanhando a produção de Nanda Prietto e que, como eu, desconfiou da morte trágica e sem notícias da imprensa de Poços de Caldas. Se Nanda Prietto errou em algo na composição da personagem foi em não dar verossimilhança à própria morte]

 

Sobre ser-estar fake, faço minhas as palavras de Cellina Muniz neste texto que adoro:

Celina Muniz/ Alice N.:

EM DEFESA DO SER/ESTAR “FAKE”

 

Em diversas ocasiões, em inúmeros artigos e comentários postados aqui no SP, de vários autores, tenho observado rastros de um discurso rancoroso a respeito dos chamados fakes (ou, como alguns preferem grafar “feiques”).

O que esse discurso enviesado sobre as assinaturas supostamente “falsas” me sugere é aquela velha atitude de nomear condutas e comportamentos sob a batuta clássica do bom x mau, ou, em outras palavras, do certo x errado, ou ainda do feio x belo. Mas em vez de cairmos logo nesse juízo de valor simplista e redutor (usar um fake é certo ou errado?), não seria mais interessante pensar a respeito desse fenômeno que ultrapassa segmentos de ação e esferas de comunicação e que reflete a pluralidade do ser?

Pensando a respeito, é fácil constatar que nem se trata de um fenômeno novo assim, embora o termo em si esteja atrelado às novas mídias e ao advento da internet, sem dúvida. O que pensar dos pseudônimos que permeiam diferentes e ilustres casos na literatura e no jornalismo? No Ceará, nos fins do século XIX, no divertido movimento literário conhecido como “Padaria Espiritual”, era regra ter uma outra alcunha, o que fez Antônio Sales assinar como Moacyr Jurema e Adolfo Caminha como Félix Guanabarino, por exemplo, nos textos que ocupavam as páginas do periódico “O Pão”. Aqui em Natal, falando ainda de periódicos, o jornal O Parafuso, que circulou de 1916 a 1917, trazia como redatores nomes como Dr. Seboso e K-Tispero. O nosso Carlão de Souza, pouco tempo atrás, por meio de sua prosa jornalística, transformou-se temporariamente em Linda Baptista e o reconhecido Nei Leandro de Castro já foi Neil e Nathália em algumas ocasiões/publicações…

E o que dizer dos apelidos, nomeações particulares, geralmente restritas aos círculos familiares e de amizade, cujos laços de afetividade não podem ser ditos pelos nomes convencionais? O poeta visual Falves Silva, tomando outro exemplo na cultura potiguar, registrou isso casualmente, quando escreveu o artigo “Quem diria? Falves Silva conheceu Cazuza”, ao indicar a maneira pela qual ele era chamado àquela época em que frequentava a banca do primeiro sebista da cidade (aliás, também conhecido por um apelido): o poeta em processo, quem diria, também é Fransquim!

Pseudônimos, apelidos, fakes, todos me parecem indicar que, para além das dicotomizações (de tradição socrático-platônica, aliás), o ser não cabe numa persona só. Por isso, somos máscaras, conforme o estar sendo. E poderíamos passar o dia pensando em outros casos, de Fernando Pessoa e seus heterônimos aos alter egos de Bukowski (com seu Chinaski) ou Fante (com seu Bandini) etc. etc… Insistir em julgar o mundo sob as lentes de polarizações que aprisionam o humano numa essência una e natural é fechar os olhos para toda essa diversidade que se manifesta em todas as esferas, artísticas ou não.

Quem discorre muito bem sobre isso, no âmbito da reflexão acadêmica, é Michel Maffesoli (que, aliás, vem a Natal em setembro), quando propõe a lógica da “identificação” no lugar da defasada lógica da “identidade”. Cito: “(…) a lógica da identificação põe em cena “pessoas” de máscaras variáveis, que são tributárias do ou dos sistemas emblemáticos com que se identificam” (MAFFESOLI, M. “No fundo das aparências”. Tradução de Bertha Gurovitz. 3 ed. Petrópolis, SP: Vozes, 2005).

Escritores, grafiteiros, professores, internautas, donas de casa, leitores do Substantivo Plural, vários são os tipos que mostram, de fato, como somos vários e como exercemos nossa variedade por meio de pseudônimos, apelidos, fakes. Circulamos por diferentes campos de ação e traçamos diferentes relações de pertencimento com determinados grupos e comunidades. Negar essa polifonia e insistir em rotular esse fenômeno sob o par “verdade x mentira” é negar a complexidade da vida e do mundo, vasto mundo.

Talis Andrade: Também adorei. Os dois romancistas brasileiros que mais admiro também podem ser citados por Celina Muniz.

Moacir Japiassu tem um auto-ego: Janistraquis. Urariano Mota, na internet, sempre aparece com o nome Frederico Jimeralto.

 

Mineirices

por Cristina Moreno de Castro

 

Cláudia Silva Ferreira , por Dani Brito, blogue Olga

Cláudia Silva Ferreira , por Dani Brito, blogue Olga

 

Hoje neguei minha condição de estranha

Recolhi-me no estereótipo do Estado:

Um cheiro de pão de queijo me perseguia

Meu pensamento era só massa polvilhada.

Além disso, tranquei os dentes (raiva?)

Emudecida, desconfiada, cismada.

Típica Belôrizonte do tempo da tuberculose.

Parei de falar para refletir na vida.

Filosófica, depressiva, romântica.

Típica Lagoa idealizada.

Matutei, como diz o outro.

Cabocla, negra, cafuza.

Confusamente outra.

Ou acordo amanhã estranha

(inquieta, feliz, tagarela)

e volto a fazê-los rir

– escondendo tristeza de nascimento.

Ou estou transmutada mineira

Até que me agüentem e eu sustente.

Por quanto tempo, não sei.

De Hans Magnus Enzensberger

O OUTRO

Alguém ri
preocupa-se
segura meu rosto com pele e pelo sob o céu
deixa rolar palavras da minha boca
alguém que tem dinheiro e medo e um passaporte
que briga e ama
alguém se move
alguém estrebucha

mas não eu
Eu sou o outro
que não ri
que não tem rosto sob o céu
nem palavras na boca
que é desconhecido de si e de mim
não eu: o outro: sempre o outro
que não vence nem é vencido
que não se preocupa
que não se move

o outro
indiferente a si
do qual não sei
do qual ninguém sabe quem é
que não se move
esse sou eu


Tradução Kurt Scharf/Armindo Trevisan