O QUE FICOU PARA TRÁS

por Talis Andrade

O passado não tem volta
mais que se tente reviver
um instante o que se sente
a vida não tem reprise
tudo acontece diferente

Nunca mais a mesma luz
o mesmo cheiro
o mesmo gosto
o mesmo som
ou silêncio
a mesma paisagem
os mesmos rostos
nunca mais

Tudo tão distante
neste instante
as lembranças são fotos
fora de foco
sombras
sonhos em preto & branco

O que não pode ser revivescido
termina esquecido

Autopsicografia

 

de Fernando Pessoa

 

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

 

Este célebre poemas de Fernando Pessoa tem inspirado músicas e filmes (veja o curta abaixo) e poesias

 

 

 

 

Colhe o dia, porque és ele

.

Uns, com os olhos postos no passado,
Vêem o que não vêem: outros, fitos
Os mesmos olhos no futuro, vêem
O que não pode ver-se.

Por que tão longe ir pôr o que está perto —
A segurança nossa? Este é o dia,
Esta é a hora, este o momento, isto
É quem somos, e é tudo.

Perene flui a interminável hora
Que nos confessa nulos. No mesmo hausto
Em que vivemos, morreremos. Colhe
O dia, porque és ele.

 

 

Poema de Cris Patos

 

cris patos hoy

 

 

nada é mais certo que a incerteza,
de tudo que sabemos, que somos, que vemos ou que pensamos,
onde habita a verdade?
estaria ela naquilo que os meus olhos vêem?
ou no que minha pele sente? “minha pele”
e o que nesta vida é meu? além desta doce ilusão de existir
de ter, de possuir, de ser, de viver…
de viver achando que se sabe
volto então pros “meus olhos”
foram eles que me disseram que o céu é azul
acaso o céu é azul?
acaso existem estrelas no céu?
pois ouvi dizer que elas já não existem só que a grande distância que nos separa
não permitiu ainda que a notícia chegasse até aqui
e a notícia de nossa morte? já chegou até a gente?
por que o que separa a vida da morte é o tempo
e o tempo é relativo
assim como para nós ainda existem estrelas no céu,
em algum lugar no tempo nós ainda não existimos
e em algum outro já deixamos de existir
por que o que existe para nós é isto, este micro espaço de tempo
perto de toda a grandeza da existência,
e apesar de vivermos achando
nós não somos o que há de mais avançado neste universo
pois a vida não gira em torno do nosso tempo
a vida gira em torno da própria vida
e em algum lugar mais à frente de nosso tempo, talvez no mesmo espaço
a minha vida já não é, e eu já não sou
não há como o presente viajar para o passado
por que o passado é algo que já não existe quando se existe o presente
mas há como o presente viajar para o futuro
fazemos isso o tempo todo
ou o que é a vida se não uma máquina do tempo?
só não podemos fazer isso fora de nosso tempo
ou nos tornamos ultrapassados e deixamos de existir
então o que chegará ao futuro será apenas a luz de nossa existência
assim como chegam até nós a luz das estrelas
que um dia existiram…
nada é mais incerto que a certeza

 

Cris Patos foto e poema

 

O sol na poesia de Nei Duclós

Nei Duclós

AS VEIAS DO CANTO

Creio na morte
não na sua vitória
a poesia está à prova, como o homem
o canto não acaba, se renova
no coração de quem escolhe
a própria fome

Nada muda no sol que o meu corpo não receba
Aberto como um poço para a sede
escrevo duros poemas
na terra que treme
e sacode a caneta

Só o canto fala por si mesmo
escutem seu bater de veias
ele vingará, como as colheitas
cercadas de amor e de firmeza

 

VIAGEM

Perdidos
pegamos as mochilas
e a vida se fez visita

Batemos no ombro da madrugada
e ela espreguiçou-se pelo mundo
com um brilho pequeno
de quem se acaba
Nos lançou beijos cor de barro
e morreu depois de puxar o sol pelos cabelos

Chegamos nos caminhões de estrada
com apertos de mão e palavras
À procura de um vôo
suado e sem retorno

Chegamos sempre ao anoitecer
quando as cidades se armam
com feras de aço e chapas brancas
com chaves que fecham portas de ferro

O futuro nos saudou
mas o passado
sujou nossos abraços

Voltamos sepultados
Estávamos a um passo
da liberdade

 

CARTA AO COMPANHEIRO EXILADO

Aqui, o sol obstinado
ainda banha a folhagem
a chuva nos visita
e deixa o arco-íris quando parte

As cores da saudade
abriram a palma
de nossa mão pálida
e a vontade de buscar-te
soltou-se como um raio

Descobrimos que era muito tarde

Agora, que a madrugada se caba
e o sol nos dá na cara
não sabemos o que fazer
com esta ressaca

Batem nas portas e revistam roupas e pacotes
Estamos na praia do naufrágio

Do mar vieram boiando coisas mortas
entre elas
nossos sonhos e emboscadas

 

O DESESPERO É UMA FLOR

O desespero é uma flor
que come carne
e arde no meu peito de pastor

Levei uma surra de navalhas
preso num eterno elevador

Num sanatório de sonho
tenho a mão sangrada
Quero o silêncio
de uma estrada nova e calada

Quero a luz do sol e o fim do nojo
quero maio o ano todo
e a dor como um papel em branco

 

DIGO PARA MIM

Digo para mim: fica tranqüilo
as coisas não são tão terríveis
és um anjo de asas brancas
o sol dessa manhã cinza

Digo para mim: não tema
há muito que te prenderam
estás acostumado ao calabouço
ver o mundo será tão pouco
comparado À solidão que aceitas

Sossega, tudo vem, uma larva no pescoço
um acidente, o amor de quando em pouco

Por isso bebe a água, come a carne
a falta de um almoço não te mata
deixa o tempo engatilhar sua arma

Nasceste para durar pouco
ou não durar nada
mas durar é secundário

Antes de partir
deixarás pegadas na areia
para a memória do vento

 

 

Sonhador ser metade possível e já metade a morrer

por Fagner Moura

 

 

Fagner Moura

Fagner Moura

 

 

 

GOTAS DOMADAS

 

 

.

 
Agora quero ser o sonho de minha vida
a criança na estrada rumo à loucura
a significação mais feia já dita
o que dorme no meio dos que jazem na sepultura.

.

Durante o dia ser amado pela atrocidade
do cometa homem para com o terraço nu;
espanado porém não limpo, amordaçado
feito tomate na sopa; marginal outro dia na cidade.

.

E do passado pertencer para os que dizem
nada dele levar, nem mentiras tampouco saudades
e na sombra do esquecer poder enfim viver,

.

mas ser do ontem como do sonhador ser
metade possível e já metade a morrer
estampado na raiz do outro dia na outra eternidade.

 

 

 

“Dios no murió. Se transformó en dinero”

Entrevista a Giorgio Agamben

Tinyurl
Traducido para Rebelión por Susana Merino
Piero Guccioni

Piero Guccioni

Giorgio Agamben es uno de los más grandes filósofos vivos. Amigo de Pasolini y de Heidegger, es según el Times y Le Monde uno de los diez cerebros más importantes del mundo. Por segundo año consecutivo ha permanecido en Sicilia durante un largo período de vacaciones.

El gobierno de Monti invoca la crisis y el estado de necesidad y parece ser el único camino de salida tanto de la catástrofe financiera como de las indecentes formas que ha tomado el poder en Italia, ¿el enfoque de Monti sería la única salida o podría convertirse contrariamente en un pretexto para imponer serias limitaciones a las libertades democráticas?

“Crisis” y “economía” no se usan hoy en día como conceptos sino como palabras de orden que sirven para imponer y obligar a aceptar medidas y restricciones que la gente no tendría porqué aceptar. “Crisis” significa hoy ¡debes obedecer!” Creo que es muy evidente para todos que la llamada “crisis” viene durando decenios y no es otra cosa que la normalidad con que funciona el capitalismo de nuestro tiempo. Un funcionamiento que no tiene nada de racional.

Para comprender lo que está sucediendo, hay que interpretar al pié de la letra la idea de Walter Benjamin según la cual el capitalismo es ciertamente una religión, es la más feroz, implacable e irracional religión que haya existido jamás porque no conoce ni tregua ni redención. En su nombre se celebra un culto permanente cuya liturgia es el trabajo y su objeto el dinero. Dios no ha muerto, se ha convertido en dinero. La Banca con sus grises funcionarios y sus expertos – ha ocupado el lugar de la iglesia y de sus curas y gobernando el crédito (incluso los créditos estatales, que han abdicado fácilmente su soberanía) manipula y administra la fe – la escasa e incierta fe – que aún le queda a nuestro tiempo. Por otra parte que el capitalismo sea hoy en día una religión, nada lo muestra mejor que el título aparecido en un gran diario nacional hace pocos días: “salvar al Euro a cualquier precio” Ya “salvar” es un concepto religioso pero ¿qué significa “a cualquier precio”? ¿Aún al costo de sacrificar vidas humanas? Solo en una perspectiva religiosa (o mejor dicho seudoreligiosa) se pueden hacer afirmaciones tan paletamente absurdas e inhumanas.

La crisis económica que amenaza con convulsionar a buena parte de los estados europeos ¿se puede generalizar como una crisis de toda la modernidad?

La crisis que está atravesando Europa no tiene que ver tanto con un problema económico como se quiere hacer creer sino ante todo una crisis de la relación con el pasado. El conocimiento del pasado es el único camino de acceso al presente. Es buscando entender el presente que los hombres – por lo menos los europeos – se sienten obligados a interrogar al pasado. He precisado “nosotros los europeos” porque me parece, admitiendo que la palabra Europa tenga sentido, como parece hoy en día evidente, ese sentido no puede ser ni político, ni religioso y tanto menos económico pero consiste en que el hombre europeo – a diferencia por ejemplo de los asiáticos y de los americanos, para quienes la historia y el pasado tienen un significado totalmente diferente – puede acceder a su verdad solamente a través de una confrontación con el pasado, solo haciendo cuentas con su historia. El pasado no es tan solo un patrimonio de bienes y de tradiciones, de recuerdos y saberes sino sobre todo un componente antropológico esencial del hombre europeo, que puede acceder al presente solo mirando lo que le ha ido sucediendo. De la especial relación que tienen los países europeos (Italia y desde luego Sicilia son desde este punto de vista ejemplares) con sus ciudades, con sus obras de arte, con su paisaje: no se trata de conservar bienes más o menos valiosos, pero exteriores y accesibles: esta es en cuestión la verdadera realidad europea, su indiscutible supervivencia. Por eso destruyendo el paisaje italiano con el hormigón de las autopistas y la alta velocidad, los especuladores no se privan de ganar pero destruyen nuestra propia identidad. La misma expresión “bienes culturales” es engañosa, porque sugiere que se trata de unos bienes entre otros, que pueden ser aprovechados económicamente y hasta vendidos, como si se pudiera liquidar y poner en venta la propia identidad.

Hace muchos años un filósofo que era además un alto funcionario de la naciente Europa, Alexandre Kojève sostenía que el homo sapiens había llegado al final de su historia y que no tenía ante sí más que dos posibilidades: el acceso a una animalidad posthistórica (encarnado en la american way of life) o el esnobismo (encarnado de los japoneses) que continuan celebrando su ceremonia del té, vacías pero con un significado histórico. Entre unos EEUU integralmente reanimalizados y un Japón que se mantiene humano solo a través de renunciar a todo contenido histórico, Europa podría ofrecer la alternativa de una cultura que se mantiene humana y vital aún después del fin de la historia, porque es capaz de enfrentarse a su propia historia en su totalidad para desde allí alcanzar una nueva vida.

Su obra más destacada Homo Sacer investiga sobre la relación del poder político y la nuda vida y pone en evidencia las dificultades presentes en ambos términos, ¿Cuál es el punto de posible intermediación entre ambos polos?

Lo que me han demostrado mis investigaciones es que el poder soberano se fundamenta desde sus comienzos en la separación entre nuda vida (la vida biológica que en Grecia tenía lugar en la casa) y la vida políticamente calificada (que se desarrollaba en la ciudad). La nuda vida se halla excluida de la política y al mismo tiempo incluida y capturada por la propia exclusión: en este sentido la nuda vida es el fundamento negativo del poder. Esta separación alcanza su forma extrema en la biopolítica moderna. Lo que sucedió en los estados totalitarios del novecientos y que es el poder (ya sea a través de la ciencia) que decide en última instancia qué es una vida humana y qué no lo es. Por el contrario sucede que se piensa en una política de las formas vitales, es decir en una vida que no pueda separarse de su forma, es decir que nunca más sea nuda vida.

El fastidio, por usar un eufemismo, con que el hombre común enfrenta a la política ¿está vinculado a las específicas condiciones italianas o es de algún modo inevitable?

Creo que hoy estamos frente a un fenómeno nuevo que va más allá del desencanto y de la recíproca desconfianza entre los ciudadanos y el poder y que abarca todo el planeta. Lo que se está produciendo es una transformación radical de las categorías con las que estábamos acostumbrados a pensar la política. El nuevo orden del poder mundial se basa en un modelo de gobernabilidad que se define democrático, pero que nada tiene que ver con lo que este término significaba en Atenas. Que este modelo sea, desde el punto de vista del poder, más económico y funcional lo prueba el que haya sido adoptado hasta por los regímenes que hasta no hace muchos años eran dictaduras. Es mucho más fácil manipular la opinión de la gente a través de los medios y la televisión que tener que imponer permanentemente cada decisión por medio de la violencia. Las formas políticas que conocíamos – el estado nacional, la soberanía, la participación democrática, los partidos políticos, el derecho internacional – han llegado al final de su historia. Permanecen en la vida como formas vacuas, pero la política actual tiene la forma de una “economía” es decir un gobierno de las cosas y de los hombres. Lo que nos resta es pensar integramente, desde el principio lo que hasta ahora hemos definido con la expresión, por otra parte poco clara, de “vida política”

El estado de excepción que usted ha vinculado al concepto de soberanía parece asumir hoy en día el carácter de normalidad, pero los ciudadanos permanecen perdidos ante la incertidumbre en la que viven cotidianamente ¿es posible atenuar esta sensación?

Vivimos desde hace décadas en un estado de excepción, que se ha convertido en regla, como sucede en la economía, la crisis es la condición normal. El estado de excepción que debería hallarse limitado en el tiempo – es en cambio hoy el modelo normal de gobierno y esto en los mismos estados que se llaman democráticos. Pocos saben que las normas de seguridad introducidas luego del 11 de setiembre (en Italia ya habían sido establecidas durante los años de plomo) son peores que las vigentes durante el fascismo. Y los crímenes contra la humanidad cometidos durante el nazismo fueron posibles debido al hecho de que Hitler había asumido el poder y proclamado un estado de excepción que nunca fue revocado. Y él sin embargo no tenía las mismas posibilidades de control (datos biométricos, telecámaras, celulares, tarjetas de crédito) propias de los estados contemporáneos. Se diría que hoy el Estado considera que cada ciudadano es un terrorista virtual. Esto no hace otra cosa que deteriorar y volver imposible la participación en la política que debe definir a la democracia, Una ciudad cuyas plazas y cuyas calles están controladas mediante telecámaras no puede ser un lugar público: es una cárcel.

¿Podemos plantearle una pregunta sobre la conferencia que pronunció en Sicilia? Algunos han llegado a la conclusión de que ha sido un homenaje a Piero Guccioni, a una amistad de tanto tiempo, otros han visto una orientación de cómo huir del jaque mate al que se halla encadenado el arte contemporáneo

Piero Guccioni

Piero Guccioni

Es verdad se trataba de un homenaje a Piero Guccioni y a Scicli, una pequeña ciudad en la que residen algunos de los más importantes pintores vivos. La situación del arte es actual y posiblemente el mejor lugar para comprender la crisis de la relación con el pasado del que hemos hablado. El único lugar en donde puede vivir el pasado es el presente y si el presente deja de sentir vivo al propio pasado, el museo y el arte, que son las figuras eminentes de aquel pasado se convierten en lugares problemáticos. En una sociedad que ya no sabe qué hacer con su pasado, el arte se encuentra atrapado entre el Escila del museo y el Caribdis de la mercantilización (1) Y a menudo como en los templos del absurdo como lo son los museos de arte contemporáneo, ambas cosas coinciden. Duchamp ha sido probablemente el primero en darse cuenta del callejón sin salida en que se había encerrado el arte. ¿Qué es lo que inventa Duchamp con el ready-made? Toma cualquier objeto usual por ejemplo un urinario e introduciéndolo en un museo lo obliga a presentarse como una obra de arte. Naturalmente – luego del breve instante en que dura el efecto de la extrañeza y de la sorpresa – en realidad nada agrega a su presencia: no la obra porque se trata de un objeto usual, cualquier objeto producido industrialmente, ni la obra artística por no existe en modo alguno “poiesis”, producción – y menos aún artista, sino que como filósofo o crítico o como amaba decir Duchamp, “uno que respira” un simple ser vivo. En todo caso es cierto que él no pretendía producir una obra de arte sino desbloquear el camino del arte, encerrado entre el museo y la mercantilización. Como sabéis lo que sucedió en cambio es que una clase, aún activa, de hábiles especuladores transformó el ready-made en obra de arte. Y el llamado arte contemporáneo no hace sino repetir el gesto de Duchamp llenando de no-obras y de performances a los museos que no son otra cosa que órganos del mercado destinados a acelerar la circulación de mercaderías que como el dinero, han llegado a un estado de liquidez y quieren seguir valiendo como obras. Esta es la contradicción del arte contemporáneo: abolir la obra y además pretender un precio.

1) N.de T. Escila y Caribdis son dos monstruos marinos de la mitología griega situados en orillas opuestas de un estrecho canal de agua, tan cerca que los marineros intentando evitar a Caribdis pasarían muy cerca de Escila y viceversa.

O país das torres medonhas

por Milton Hatoum

Bacia do Pina, a ameaça de um novo Recife de altas torres sem povo

Bacia do Pina, a ameaça de um novo Recife de altas torres sem povo

Há pouco tempo, quando passei por Natal, mal pude reconhecer a Baixa Ribeira, que eu havia visitado nos anos 1970. Nas duas últimas décadas, construíram-se torres em volta desse bairro antigo, um dos mais belos de Natal. Isso aconteceu em outras cidades litorâneas: Maceió, Recife, Salvador, Rio, Fortaleza, Vitória… Santos é mais um exemplo de total desfiguração arquitetônica, mas há torres e fortalezas por toda a parte, até em pacatas cidades do interior.

Hoje mesmo, na capital paulista, a paisagem do entorno das casas modernistas projetadas por Gregori Warchavchik está ameaçada pela construção de um edifício-torre.

Há menos de vinte anos, um arquiteto teve a ideia luminosa de construir uma torre de 125 metros perto do Masp. O colosso arquitetônico – uma ideia felizmente abandonada – foi apelidado de “pirocão”, mas esse lindo apelido nada tem a ver com a metáfora de um ato inventivo, como sugeriu o poeta Gottfried Benn ao dizer que a “palavra é o falo do espírito”. O “pirocão” apenas traduz o péssimo gosto verbal (e gestual) de certos arquitetos megalômanos.

Na verdade, sentimos horror à memória urbana. Casas e edifícios históricos de municípios e capitais brasileiros foram e estão sendo desfigurados ou destruídos; somos impotentes diante da avidez de algumas construtoras, que demolem a arquitetura histórica e erguem torres de 40 andares. Mas essas barbaridades não seriam praticadas sem a cumplicidade (às vezes secreta) de funcionários públicos e políticos. Alguns bairros de São Paulo, se forem adensados com a construção de novos edifícios-torres, vão parar de vez.

Mas há também pequenas barbáries, de grande alcance simbólico. Cinemas que faziam parte da história cultural das cidades brasileiras foram demolidos. Vários tornaram-se sedes de bancos, e outros, horrorosos templos religiosos, que nem mesmo o diabo ousaria visitar.

Casas onde viveram poetas, artistas e escritores também foram destruídas. A casa do poeta Thiago de Mello – um dos raros projetos de Lucio Costa na Amazônia – está ameaçada pela ampliação de um porto. Na cidade alagoana de Viçosa, a casa onde morou Graciliano Ramos foi demolida e deu lugar a um condomínio, cuja fachada dispensa comentários. Agora só falta derrubar a igreja Matriz da cidade, onde Graciliano escreveu boa parte de uma obra-prima da literatura brasileira: S. Bernardo.

O escritor e crítico de cinema Paulo Emílio Sales Gomes assinalou que o descaso em relação à nossa História mais antiga está ligado a um profundo e inconsciente horror ao passado: ódio à miséria social do nosso passado e à opressão colonial. Ele usou uma expressão certeira ao dizer que “as decadências prematuras são doenças do subdesenvolvimento”. Hoje, a opressão é de outra ordem, mas essas doenças persistem: basta ver os projetos de habitação popular, onde os pobres são arrebanhados em abrigos vergonhosos. No Brasil, a moradia popular é o avesso de uma vida digna.

Na crônica Os Arranha-Céus no Rio Não Fazem Bela Figura”, Manuel Bandeira escreveu: “O arranha-céu é uma fatalidade econômica, não é criação artística. Tudo o que se pode fazer é meter a ridículo os snobes que inscrevem o arranha-céu como cláusula de modernidade Quem manda construir arranha-céus está se ninando para as artes, modernistas ou não. Quer é dinheiro”.

O grande poeta publicou essa crônica em 1928, quando a natureza do Rio ainda era soberana e estava longe de ser ameaçada pela proliferação de edifícios-torre ou pirocões pós-modernos, que nada têm de artístico. Dane-se a história das nossas cidades: na sanha devastadora do urbanismo bárbaro, só o céu é o limite.

A beleza roubada. Cinzentando o azul do rio e o verde dos manguesais

A beleza roubada. Cinzentando o azul do rio e o verde dos manguezais na Bacia do Pina. Clique na foto para ampliar