Natal 1959. Surgia uma nova geração de escritores, notadamente poetas

O ENCONTRO COM UM ARTISTA DA PALAVRA

por Manoel Onofre Jr.

 

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Conheci Talis Andrade nos idos de 1959, quando, ainda adolescente, matuto da Serra do Martins, fui morar em Natal a fim de cursar o Clássico no tradicional Atheneu Norte-rio-grandense. Talis, muito jovem, era redator de “A Republica”, diário em que mantinha a coluna “Livros & Escritores”, com a qual agitava a vida literária natalense. Surgia, então, uma nova geração de escritores, notadamente poetas que logo alçaram vôo, tornando-se grandes nomes da literatura Poti-guar. Luís Carlos Guimarães, Myriam Coeli, Augusto Severo Neto, Berilo Wanderley, Deífilo Gurgel, Dorian Gray Caldas, Walflan de Queiroz, Sanderson Negrei-ros e Nei Leandro de Castro. Outros, como Zila Mamede e Newton Navarro, já se haviam firmado, este último não só poeta, mas também contista e cronista.

No meio dessa constelação, eu, na insignificância dos meus 16 anos, alimentava veleidades literárias, sonhava tanto ver em letra de forma os meus vagidos de escrevinhador.

Foi Talis que me lançou como poeta, em sua presti-giosa coluna. Pena que fiquei tão-somente no imaturo poema, que ele, generosamente, acolheu. Minto. Anos depois, escrevi uns arremedos de poesia, dentre os quais “No Recife”, único que não renego. E desde então, tendo enveredado pela ficção e pela pesquisa da cultura regional, desfiz o meu namoro com a musa… De sorte que sou poeta de um poema só. Mas, isto não vem ao caso. Importa dizer que, ainda no começo da década de 60, perdi de vista o poeta e amigo. Soube que ele retornara ao seu Pernambuco de origem. Longos anos se passaram… Até que, recentemente, lendo no jornal “Tribuna do Norte”, de Natal, a coluna de Woden Madruga, tive notícias de Talis, e tanto bastou que eu, proustianamente, reencontrasse todo aquele pequeno mundo da cena literária natalense dos anos sessenta.

Foi muito gratificante saber da vitoriosa trajetória de Talis nas letras, no jornalismo e na publicidade. Logo procu-rei entrar em contacto com ele, e desde então temos mantido um bom intercâmbio cultural.

Mas, não estou aqui para falar do nosso relacio-namento pessoal…

Acabo de ler a sua mais nova coletânea de poemas sob o título “A Partilha do Corpo”. Não é livro de poeta para poeta, como tantos outros por aí afora. Não. Nada de herme-tismo. A linguagem poética simples e clara, ganha em comunicabilidade sem que, todavia, faça concessão de espécie alguma ao gosto do grande público ledor. Aspecto de grande importância, aliás não só neste livro, mas em toda a sua obra poética.

Assim como Manuel Bandeira, Talis Andrade sabe muito bem que “difícil é escrever fácil”. Ele deve torturar-se para obter a expressão exata, prescindindo daquela linguagem cifrada tão cara a certos poetas contemporâneos. O leitor, que se deleita com a leitura, não avalia o esforço do autor para atingir essa simplicidade e clareza.

Outro aspecto digno de especial menção, mas este não apenas de natureza formal: a presença da Morte na temática escolhida pelo autor. Tal qual leit motiv, a Indesejada das Gentes reponta ao longo da série de poemas. É impressio- nante. Em contraposição, o Amor também está presente, sem caráter obsessivo, mais forte bastante para dar sentido à Vida. Eros versus Tanatos…

Na exploração dessa temática, o poeta busca a essência da Vida – desculpem-me se digo “o óbvio ululante”.

A propósito, Rachel de Queiroz cunhou, numa de suas crônicas, uma frase muito do meu agrado: “Literatura só tem importância quando se liga à vida”.

Pois bem, este livro está cheio de vida. Não somente – ressalto – da Vida com V maiúsculo, na dimensão filosófica, mas também da própria vida cotidiana, a servidão humana que se lê nas entrelinhas, dado o caráter confessional de quase todos os poemas.

Não me proponho a analisar a obra literária de Talis Andrade, até porque me falta qualificação para tanto. Na verdade, eu ainda teria algumas palavras a dizer sobre “A Partilha do Corpo”, e não poderia deixar de, pelo menos, citar os poemas nele contidos que mais me tocaram. “O Morto” (“…uma calmaria que não é paz”), “Presença” (“…quando descer/ a úmida luz/ da lua”), “Piquenique”, “O Sol de Capricórnio”, “Encantada Natal”, “Noturna Escadaria”, “Um Cavaleiro sem Bandeira”, “Cantar Alheio”, “Jornalismo Investigativo”, “Valsa” (“Eu não lembro/ de nenhum beijo/ nos meus tempos de criança”), “Rua Enluarada”, “Um Céu de Gesso” (“Uma casa não devia impedir/ os olhos avistassem o céu”), “Liação”, “Desencanto”, “Vazio Corpo” (“Cansado corpo/ de quem se contenta/ em ficar à espreita”), “Casamento Compulsório” (“Sexo que se faz/ como um autômato/ com a técnica/ dos profissionais/ a pressa/ de quem bate o ponto”), “Os Tambores da Noite”, “Tamil”, “A Pedra”, “Cego Vôo” (“Em cada um o covarde/ a limpar a face/ do escarro do patrão”), “Sempre o Mesmo Rumo”, “O Suicida” (“…não tem o que/ perder/ senão o corpo/ que sobrou”), “O Cemitério dos Suicidas”, “Partição” (“Os olhos embevecidos/ da beleza da amante/ ofereço para transplante”), “Certeza” (“Os amigos/ deitarão por fim/ comigo/ no mesmo chão”), “A Praça”, “A Cidade” (“Quem se lembra que/ por aqui passava um beco”), “Contida Ternura”, “Da Frigidez”, “Os Velhos Brinquedos Velhos” e “O Último Pedido”. Tantos outros momentos de alta poesia… Não devo, porém, alongar-me. Creio que todo prefácio é uma excrescência.

Que o leitor vá logo ao que mais importa: o encontro com um verdadeiro artista da palavra.

ENTRA, CRISTO, A PORTA DO CORAÇÃO ESTÁ ABERTA!

por Flavio Ricardo Chaves

E lá se vai mais um ano de vida. O que posso dizer é que sou muito grato por tudo que nela aconteceu, enfrentada com muita luta, momentos mágicos, instantes equilibristas para sobreviver.

Conquistei vitórias vista pela ótica do reconhecimento de guerreiro e a dedicação que impregnei na trilha do coração e da alma. Sou grato a minha família, pois sem ela, literalmente, eu não estaria até onde cheguei e sinceramente nada seria.

A felicidade está em mim por estar rodeado do calor humano e a amizade de tantos corações que me querem bem, embora muitos dos que esperei o sim; recebi o não, porém nada doeu, pois lhes ofertei o caminho da ausência, da distância, portanto como ser humano que sou lhes presenteei com o perdão!

Viver é estar a caminho, em busca de uma constante realização não somente minha, mas também levantar gestos e atitudes para o crescimento da humanidade e o fazer a justiça para que todos tenham o direito a hóstia da vida ou ao pão nosso de cada dia.

A vida é bela e digna de ser vivida.

Obrigado, Senhor por tudo, a tua presença no mundo já é tudo em nós.

Pode entrar Jesus que a porta dos nosso corações estão abertas. Amém!

 

FLAVIO RICARDO CHAVES

Poema do amor eterno de Tânia Marinho

Tânia Marinha poema manuscrito
Eu te amei tão profundamente todos os dias e todas as noites.
O meu amor era tão claro como os dias de verão e tão profundo como as águas do rio que cerca minha cidade.
Eu te amei tanto, que meu amor dava para nós dois.
Tentei, de todas as maneiras, fazer que tu me escutasses.
Minhas palavras se chocavam com o mundo frio do teu silêncio.
Hoje, meu coração é cinzento como as águas do mar nas tardes de inverno.

Seleta de Themis Marinho

Hora de paz de Auta de Souza

HORA DE PAZ
por Auta de Souza

.

Como é feliz a hora do descanso!
Quando sinto os meus olhos, manso e manso,
Morrendo para a luz…
Todas as dores da Saudade esqueço,
Junto as mãos sobre o seio e adormeço
Sorrindo para a Cruz…

 

AUTADESOUZA

 

RÉQUIEM PARA OS NEGROS DE ALMA BRANCA
por Talis Andrade

.

Os martelos cantavam
sobre os yunques sonâmbulos
sobre os yankees bêbados
nas barracas de cerveja
da praia de Ponta Negra

Os martelos cantavam
dissonante escala
Cravados sons
a penetrar a carne
Cravados sons
a penetrar a tampa do caixão
de Auta de Souza
a virgem negra

Ao compasso dos martelos
os negros catavam nuvens brancas
nos campos de algodão

 

Berilo Wanderley e Talis Andrade

SONETO DA VINDA
Berilo Wanderley

Vim dar-me a ti. Sinto-te, vez em quando.

Nas sombras dos meus sonhos me acompanhas.

Música dos teus olhos me embalando,

Me fazendo sonhar coisas estranhas.

.

Não venho como estavas esperando.

Venho como sou: pobre, sem façanhas.

Só posso dar-te um coração sangrando

Como o sal das minhas mágoas nas entranhas…

.

Vem, bebe em minha boca os meus soluços!

(Ah! quantas vezes solucei de bruços

sobre a angústia que bóia em meu olhar!)

.

Sei que me vais dizer coisas amigas,

Sei que os teus olhos cantarão cantigas

E os meus, de alegres, vão querer chorar.

foto BERILO


BESTIÁRIO MISTÍCO
por Talis Andrade

(trechos)

2

Neste mundo de mortos-
carregando-o-vivo
Berilo amava os irmãos bichos
criados soltos no quintal
sem marca de ferro e laço

Ossos e gesso
sangue e verniz
os bichos velam
a santa lapinha
resguardando o sono
do Menino Jesus

3

Na sala de visitas
do sobrado das tias
do maravilhado Berilo
os vizinhos vêm espiar
O Menino Jesus
dorme tranqüilo

Na manjedoura
o Menino deitado
nas secas palhinhas
Os sonhos cantados
pelas pastorinhas

Nas ricas mansões
estouram champanhes
Nos mocambos amontoados
nas encostas dos morros
as crianças choram
de frio e fome

Crianças transportadas
do chão de terra batida
de suas casas
para a areia fofa
e o cal
das covas rasas

5

Havia o boi Serapião
cria do mais nobre barro
boneco vendido nas feiras
para múltipla serventia
ex-voto
brinquedo
enfeite
que toda cópia
mesmo a mais grosseira
traz sempre a magia
de atrair o verdadeiro

Do boi Serapião
os chifres em forma de lua
Chifres que vertiam
sêmen e chuva
esparzindo bonança
pelas terras do sertão

6

Havia bichos do bestiário
místico
e exclusivos bichos
vistos nos livros
Bichos reunidos
por ofício e arte
de quem antevia
cada bicho conduz
a alegria o sonho
para quem sabe ser
criança
construindo do nada
um mundo de fantasia
Um mundo encantado
de congadas e reisados
ciranda e pastoril
Um mundo em que
as lavandeirinhas
lavam as roupinhas
do Menino Jesus

7

Um carneiro gigante
exibia na testa
a reluzente estrela
da tentação e da sorte
Um carneiro mágico
do longe Piauí
tudo prometia
Uma chuva de ouro
uma chuva de prata

O terso esplendor
de tantos tesouros
não possuía
nenhum valor

Para Berilo
a riqueza consistia
em sua coleção de discos
de música antiga
os livros de versos
uma garrafa de vinho
para uma conversa amiga

8

A fortuna vem da poesia
a ventura das coisas simples
os meninos cercando o palhaço
por uma entrada no circo
o gáudio de um filme de Carlitos
os namorados de mãos dadas
ao som da retreta na praça
a terna amizade da cachorra Baleia
lambendo o rosto de Berilo
o eterno rosto de menino
violentado pela visão do mundo

Newton Navarro bêbado irmão virou nome de ponte

A CADEIRA
por Newton Navarro

.

O alto corpo se curva,

Quebram-se as linhas

E partidas formas lentas

Se debruçam.

Do vivo traço que era, de pé,

Como haste, erguido,

Em três planos se dispersa.

Vivo olhos, agudamente,

Percorrem a sala sem lume…

Dois seios pulsam, solenes.

As mãos uma flor seguram

Suspensa sobre o regaço.

E o sexo e a flor se ocultam

No sem espaço da curvas.

Pernas suspendem ligeiras,

Os pés, e as alpargatas

Caem no vazio onde foram

Sólidas raízes do corpo

Que a cadeira despedaça.

E na sombra

Sem movimento,

Todo o corpo adormecido

Sobre o corpo da cadeira

Mulher de amor ausente,

Talha na sombra envolvente

Vivo relevo de carne

Inútil sobre a madeira.

 

navarro

 

INCELÊNCIA PARA NEWTON NAVARRO
por Talis Andrade

No bar fazia presença
o mago Newton Navarro
a pintar tudo que via
retardando no que podia
o milagre da vida
com as cores fortes
do sangue e do vinho

Navarro tinha um parceiro
que numa madrugada de chope
veio pedir a palavra
pelos mortos do Alecrim
mas ninguém quis ouvir
e Navarro ainda chora
de Albimar o triste fim

Albimar bêbado irmão
exaltava os mortos de cada dia
anti-heróis vitimados
por coisas sem valia
uma facada no beco
pelo amor de Maria
um tiro no escuro
quando pulavam o muro

Soldados do ramerrão
nadando contra a maré
correndo na contramão
os corpos apodrecendo
na fria pedra do morgue

Defuntos sem nome
incelência e velas
vão penar no outro mundo
tanto quanto aqui na terra
vão penar no outro mundo
tanto quanto aqui na terra

 

Ponte_de_Natal_Newton_Navarro

Natal, Ponte Newton Navarro

Natal, Ponte Newton Navarro

Newton Navarro pintor, poeta, cronista, jornalista, virou nome de ponte. Uma bela e merecida homenagem. Bendita a cidade que consagra seus poetas e artistas

 

 

EVOCAÇÃO DE NATAL. A ronda da noite de Djalma Maranhão

EVOCAÇÃO DE NATAL
por Djalma Maranhão

DJALMA MARANHAO 2
(Trechos de Poema escrito no exílio)

Não te esquecerei, Natal!
Os olhos do sol transpondo as dunas,
Iluminando a cidade
Que dormiu embalada
Pelo sussurro das águas do Potengi.

(…)

Não te esquecerei, Natal!
No lirismo de teus poetas;
O quase bárbaro Itajubá
E o quase gênio Otoniel
E também o alucinado Milton Siqueira.
Jorge Fernandes esbanjando poesia
Na mesa de um bar
Era a imagem viva de um Verlaine.

(…)

Não te esquecerei, Natal!
A vocação libertária do teu povo,
A pregação caudilhesca de Zé da Penha,
Alguns políticos enganando o povo,
Que um dia ganhará conscientização.

(…)

Anoto para o futuro as lutas de hoje
Dos jovens sacerdotes
Plasmados por Dom Eugênio e Dom Nivaldo,
Para os duros embates sociais
Na fidelidade às Encíclicas de João XXIII,
Herdeiros do sacrifício de Frei Miguelinho.

(…)

Não te esquecerei, Natal!
A velha Simôa,
Mais imoral que uma antologia de Bocage,
Chico Santeiro, O Aleijadinho potiguar,
Esculpindo os seus bonecos de madeira,
Com uma ponta de canivete.

(…)

Não te esquecerei, Natal!
Encontro os teus pescadores no Ano do Centenário,
Com a mesma audácia dos irmãos Polinésios,
Numa jangada de velas esfarrapadas,
Levando a mensagem do Potengi a Baia Guanabara.

(…)

Água de coco com aguardente,
Era e continua sendo o melhor uísque nacional.
E o menestrel escravo Fabião das Queimadas,
Que libertou a si e a própria mãe,
Ganhando dinheiro, cantando e tocando rabeca.

(…)

Não te esquecerei, Natal!
A revolução liberal de 1930,
Meu batismo nas lutas sociais.
Fanfarras agitando, agitando,
Muitos discursos, poucos tiros.

(…)

A voz do fogo do seus tribunos,
Ontem, contra o colonialismo,
Hoje frente ao imperialismo.

Não te esquecerei, Natal!

A RONDA DA NOITE DE DJALMA MARANHÃO
por Talis Andrade

.

Estreladas noites Djalma passava
pel’A República dirigindo um jipão
que parecia um trator. O velho jipão
dos tempos da Grande Guerra
subia descia morros
dançava na areia fofa
das ruas que Djalma mandava ladrear.

O jipão seguia ziguezagueando
por desalinhadas ruas
ladeadas de casinhas de presépio.
Casinhas que a lua alumiava.
Ruas que exibiam os mistérios da noite
como uma mulher mostra os encantos
exclusivamente para o amante.
Ruas em que Djalma mandava levantar
postes de iluminação.

Djalma conhecia as quinas
as curvas das ruas estreitas.
Nos becos e botecos
saltava para um trago.
Djalma conhecia os moradores
as cantorias os amores
as aventuras dos pescadores.
Djalma bêbedo da paisagem
– o encantamento das dunas
estendendo o mar
transformado em areia.
Djalma bêbedo de saudade de Natal
contava histórias de quando preso
nas masmorras de Getúlio
parecendo previa carregadas nuvens
fechariam o tempo fechariam as casas.

Djalma levou consigo a saudade
para a escuridão do cárcere.
A evocação no exílio
lhe consumiu o coração.

Djalma voltou para Natal
dentro de um caixão.

 

Noite de Natal de Vinicius, Graça Graúna, Juliana Stefani, Bandeira, Drummond, Adélia Prado, Talis Andrade e Ascenso

Natividade, 1969, óleo sobre tela, de  Aldemir Martins (1922-2006)

Natividade, 1969, óleo sobre tela, de
Aldemir Martins (1922-2006)

 

 

NATAL 
Vinicius de Moraes

De repente o sol raiou
E o galo cocoricou:
— Cristo nasceu!

O boi, no campo perdido
Soltou um longo mugido:
— Aonde? Aonde?

Com seu balido tremido
Ligeiro diz o cordeiro:
— Em Belém! Em Belém!

Eis senão quando, num zurro
Se ouve a risada do burro:
— Foi sim que eu estava lá!

E o papagaio que é gira
Pôs-se a falar: — É mentira!

Os bichos de pena, em bando
Reclamaram protestando.
O pombal todo arrulhava:
— Cruz credo! Cruz credo!

Brava
A arara a gritar começa:
— Mentira! Arara. Ora essa!

— Cristo nasceu! canta o galo.
— Aonde? pergunta o boi.

— Num estábulo! — o cavalo
Contente rincha onde foi.

Bale o cordeiro também:
— Em Belém! Mé! Em Belém!

E os bichos todos pegaram
O papagaio caturra
E de raiva lhe aplicaram
Uma grandíssima surra.

 

YES
Graça Graúna

Yes,
natal
que é natal
tem que ter estrela
bem no topo da árvore,
de preferência, banhada
de purpurina. Enfeites, efeitos
grifes, beijinhos, velas, guardanapos,
CDs, framboesas, cartões de crédito, postais
e poemas que não falem do absurdo presépio
sob o viaduto
em construção

 

POEMA DE NATAL
Juliana Stefani

Dorme,
que a fome passa
e se não passa
Grita
que a palavra mata
na dúvida
de quem cala
Dorme.
que a ceia que provas
é a fome da espera

Dorme.
que não és tato.
Não és faro.
És o olhar do menino
na poça d’água
… Um reflexo de Natal
Pode estar também na vidraça
onde arqueias com o dedo: “Felicidade”.
Dorme,
que do outro lado, na rua
quem lê
lê ao avesso
e se vai.

 

CANTO DE NATAL 
Manuel Bandeira

.
O nosso menino
Nasceu em Belém.
Nasceu tão-somente
Para querer bem.

Nasceu sobre as palhas
O nosso menino.
Mas a mãe sabia
Que ele era divino.

Vem para sofrer
A morte na cruz,
O nosso menino.
Seu nome é Jesus.

Por nós ele aceita
O humano destino:
Louvemos a glória
De Jesus menino.

 

NATAL
Carlos Drummond de Andrade

.
Menino, peço-te a graça
de não fazer mais poema
de Natal.
Uns dois ou três, inda passa…
Industrializar o tema,
eis o mal.

 

ORFANDADE
Adélia Prado

“Meu Deus,
me dê cinco anos.
Me dê um pé de fedegoso com formiga preta,
me dê um Natal e sua véspera,
o ressonar das pessoas no quartinho.
Me dê a negrinha Fia pra eu brincar,
me dê uma noite pra eu dormir com minha mãe.
Me dê minha mãe, alegria sã e medo remediável,
me dá a mão, me cura de ser grande.
Ó meu Deus, meu pai,
meu pai.”

 

MISSA DO GALO
Talis Andrade

Tocam os sinos
de Belém alegrando
fandangos e marujadas
Pela televisão
o Papa reza a Missa do Galo
a chamar o dia
afugentando a madrugada

Tocam os sinos de Belém
consagrados sinos
fundidos com ligaduras
de ouro cobre mercúrio
estanho ferro e chumbo
Nos quatro cantos do mundo
o povo canta esperando um prodígio

o Anjo que não vem

Em todos os recantos da cidade
espocam fogos de artifício
espocam os champanhes
Em todos os recantos da cidade
tocam os sinos de Belém

eu sem ninguém

 

A FESTA
Ascenso Ferreira

.
O altar armado da igreja à porta,
Tão lindo como nunca vi,
Cheirava a cravos, cheirava a rosas,
Cheirava a flor do bogari…

As barraquinhas adornadas
Com lanternas de muitas cores,
Vendiam coisas cheias de odores:
Broas, pastéis, doces, geladas,
Jinjibirra, abacaxis…

Um pouco abaixo o cosmorama,
Onde espantado a gente via,
Quadros de guerras encarniçadas,
Vistas de terras encantadas,
– Terras de Oropa, França e Bahia…

A gente ia pro carrossel,
Nos seus cavalos esquipar!
O realejo triste gemia,
Mas, dentro em nós quanta alegria.
E, quando o carrossel se ia,
Ai! que tristeza de matar!

Ganhava a gente roupas novas,
Novo sapato, novo chapéu,
E tudo, nossos pais compravam,
Com um carinho especial;
Nada de Papais Noéis!
Nada de árvores de Natal!

Sinos tocavam dentro da noite,
Fogos subiam riscando o céu!
Jesus brilha de luz num halo
– “Meia-noite canta o galo
Dizendo: – Cristo nasceu!”

Hoje tudo broma, falsete,
Não sendo para admirar,
Que o rádio diga sobre o presepe,
Jesus estava up-to-date
E Nossa Senhora very kar…

Minha filhinha, Papai Noel,
É uma figura tragicômica!
Não te iludas com seus enredos
Pois que no meio de seus brinquedos,
Virá um dia a bomba atômica!
……………………………………..

O altar armado da igreja à porta,
Tão lindo como nunca vi,
Cheirava a cravos, cheirava a rosas,
Cheirava a flor do bogari.

 

No dia da Poesia

por Woden Madruga

 

DIA-DA-POESIA

 

Hoje, 14 de março, antevéspera de lua cheia, comemora-se o Dia Nacional da Poesia. Vejo que nesta terra de Poti mais rimada há festas programadas ao gosto estadual e municipal. “Rio Grande do Norte, capital Natal: em cada esquina um poeta, em cada rua um jornal”. Isso era no começo do século que passou. Hoje, há poucos jornais. Contando nos dedos, três. Agora, poeta são muitos. Não somente nas esquinas – disputando o espaço com os camelôs (há camelôs poetas, sim, tantos como há poetas ambulantes, ambula aqui, ambula acolá) – , mas eles também são vistos nos canteiros centrais, espaços públicos onde, às vezes, se joga lixo, tão ao gosto do natalense. Isso sem contar que os poetas agora avançaram mais no tempo e ocupam a internet povoando os blogues. Como tem poeta em blogue! Mas com pouca poesia…

O Dia Nacional da Poesia existe por conta de Castro Alves. Mas o  grande baiano (“Boa-noite, Maria! É tarde… é tarde… / Não me apertes assim contra o teu seio. // Boa-noite!… E tu dizes – Boa-noite./ Mas não digas assim por entre beijos… / Mas não me digas descobrindo o peito, / – Mar de amor onde vagam meus beijos.”) nunca é lembrado, nunca é  recitado (“Oh! Eu quero viver, beber perfumes/ Na flor silvestre que embalsama os ares;/ Ver minh’alma adejar pelo infinito,/ Qual branca vela n’amplidão dos mares.”). Aqui e acolá quando é tempo de carnaval, a tevê desfilando por Salvador, mostra um trio elétrico contornado a Praça Castro Alves (“A praça! A praça é do povo/ Como o céu é do condor/ É o antro onde a liberdade / Cria águias em seu calor.”) Será que nas escolas o poeta, que começou a fazer versos na escola aos 14, 15 anos, é ensinado?

O poeta que nasceu no sertão da Bahia (14 de março de 1847), viveu apenas 24 anos. Viveu intensamente. Morreu em Salvador (depois de muito viver e muito amar em Recife, Rio de Janeiro e São Paulo), no dia 6 de julho de 1871 (“Morrer… quando este mundo é um paraíso,/ E a alma um cisne de douradas plumas:/ Não! o seio da amante é um lago virgem…/ Quero boiar à tona das espumas. / Vem! formosa mulher – camélia pálida,/ Que banharam de prantos as alvoradas. / Minh’alma é a borboleta, que espaneja / O pó das asas lúcidas, douradas…”)

Não, ninguém hoje mais ler nem cita Castro Alves, o poeta abolicionista, pregador da liberdade e amante apaixonado, o poeta do romantismo, autor teatral, o escritor, o tradutor de Vitor Hugo, de Lamartine, de Byron, de Alfred de Musset (“Deus! ó Deus! onde estás que não respondes? / Em que mundo, em que’ estrela tu t’escondes / Embuçado nos céus?”). Não ninguém “ouve” Castro Alves.  E Jorge Fernandes, natalense, xaria das ruas Santo Antônio e Vigário Bartolomeu, que tomou cachacinha com Mário de Andrade escoltado por Luís da Câmara Cascudo, também ainda é lembrado?  (“A luz elétrica do meu tempo / Vinha com  a lua-cheia… / Cantavam dentro de mim / Todos os trovadores do passado… / Os olhos que amaram os trovadores / Esquecidos / Eram de novo lembrados / Nas canções dentro de mim…”).

E um outro coestaduano ilustre, José Bezerra Gomes, seridoense de Currais Novos? Será que nas escolas daqueles sertões, uma professora (pode ser professor), um dia, abra um livrinho para recitar para seus alunos o seu poema de nome sugestivo, “Mealheiro”? (“Meu avô/ a camisa por cima da ceroula/ no mourão/ da porteira do curral/ de pau-a-pique/ cheirando a estrume. // Contando os bezerros/ novos/ das vacas paridas // Minha avó/ no santuário da capela/ o rosário de contas/ de capim santo/ nas mãos devotas. (…) A barra das madrugadas / o aboio dos tangerinos// As alpregatas/ do meu avô/ arrastando/ nas lajes dos alpendres/ do mundo/ de minha infância.”).

E tem outro poeta, agora pernambucano, que consta do meu cadastro dos não esquecidos: Ascenso Ferreira. Conheci aqui em Natal, entre os becos e ruas estreitas da Ribeira, guiado por Veríssimo de Melo, começo da década de 60. É da mesma geração de Jorge Fernandes, pouco mais moço do que José Bezerra Gomes. Já se foram. Mas a  poesia de cada um, não. De Ascenso, gosto muito do poema Sertão, que me lembra Queimadas de Baixo.

“Sertão! – Jatobá! / Sertão! – Cabrobó! / – Cabrobó!/ – Ouricuri!/ – Exu!/ Exu! // Lá vem o vaqueiro pelos atalhos, tangendo as reses para os currais…// Blém… blém… blém… cantam os chocalhos/ dos tristes bodes patriarcais. // E os guizos fininhos das ovelhas ternas: / dlim… dlim… dlim… // E o sino da igreja velha: / bão… bão… bão… // O sol vermelho como um tição.”

Eis o meu quarteto de poetas no Dia da Poesia. Representam bem todos os poetas.

Na Capitania
A Capitania das Artes faz festa para celebrar a Poesia. Logo cedo, coisa das 8 horas, o prefeito  Carlos Eduardo e o presidente Dácio Galvão recebem seus convidados, poetas e escritores, para um café Poesia & Prosa. Haverá homenagem ao grande Moacyr Cirne, cujo nome será dado a um dos Centros de Artes e Esportes Unificados (CEUs), projeto conveniado entre Ministério da Cultura e Prefeitura. O de Moacyr fica no bairro Lago Azul, na zona Norte.

Em seguida serão lançados os editais dos concursos Othoniel Menezes (Poesia), Ensaio Etnográfico (Câmara Cascudo) e Ensaio Literário (Moacyr Cirne).

Emenda-se com o lançamento do livro “A Poesia e o Poema no Rio Grande do Norte”, de Moacyr Cirne, reedição do Sebo Vermelho, Projeto Nação Potiguar.

Mesa Literária 
Ainda na programação da Capitania das Artes, duas mesas literárias: a primeira, 9 horas, sobre o tema “A Poesia vista pelos olhos da Poesia”, por conta do poeta carioca Eucanaã Ferraz, professor de Literatura da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Prêmio Alphonsus Guimaraens da Biblioteca Nacional, doutor em Vinícius de Moraes.

A segunda mesa (10 horas), “Da crítica à Poesia Experimental”, tem como mediador o sebista e editor Abimael Silva. Palestrantes: Falves Silva, Anchieta Fernandes e Muirakitan de Macedo. Em seguida, intervenções poéticas.

Chuva

Natal amanheceu quinta-feira debaixo de chuva. Que beleza! Chove em todas as regiões do Estado. Mais no Oeste e no Seridó. A maior chuva foi em Carnaúba dos Dantas, 42 milímetros; Acari, 40. São informações da Emparn até coisa das 9 horas. Deve ter tido mais chuvas no andar do dia.

Dozinho
Partiu Dozinho para os carnavais celestiais. Compositor, letrista, músico, boêmio, papo delicioso. Bela figura de gente. Saudades.