Vigília Pascal: Água e fogo em cerimônia simbólica

Celebração central do calendário litúrgico é a mais antiga e importante na Igreja Católica

ressurreicao

A Igreja Católica celebra nas últimas horas deste Sábado Santo e nas primeiras de Domingo de Páscoa o principal e mais antigo momento do ano litúrgico, a Vigília Pascal, assinalando a ressurreição de Jesus.

Esta é uma celebração mais longa do que habitual, em que são proclamadas mais passagens da Bíblia do que as três habitualmente lidas aos domingos, continuando com uma celebração batismal e a comunhão.

A vigília começa com um ritual do fogo e da luz que evoca a ressurreição de Jesus; o círio pascal é abençoado, antes de o presidente da celebração inscrever a primeira e a última letra do alfabeto grego (alfa e ómega), e inserir cinco grãos de incenso, em memória das cinco chagas da crucifixão de Cristo.

A inscrição das letras e do ano no círio são acompanhadas pela recitação da fórmula em latim ‘Christus heri et hodie, Principium et Finis, Alpha et Omega. Ipsius sunt tempora et sæcula. Ipsi gloria et imperium per universa æternitatis sæcula’ (Cristo ontem e hoje, princípio e fim, alfa e ómega. Dele são os tempos e os séculos. A Ele a glória e o poder por todos os séculos, eternamente).

O ‘aleluia’, suprimido no tempo da Quaresma, reaparece em vários momentos da missa como sinal de alegria.

A celebração articula-se em quatro partes: a liturgia da luz ou “lucernário”; a liturgia da Palavra; a liturgia batismal; a liturgia eucarística.

A liturgia da luz consiste na bênção do fogo, na preparação do círio e na proclamação do precónio pascal.

A liturgia da Palavra propõe sete leituras do Antigo Testamento, que recordam “as maravilhas de Deus na história da salvação” e duas do Novo Testamento: o anúncio da Ressurreição segundo os três Evangelhos sinópticos (Marcos, Mateus e Lucas), e a leitura apostólica sobre o Batismo cristão.

A liturgia batismal é parte integrante da celebração, pelo que mesmo quando não há qualquer Batismo, se faz a bênção da fonte batismal e a renovação das promessas.

Do programa ritual consta, ainda, o canto da ladainha dos santos, a bênção da água, a aspersão de toda a assembleia com a água benta e a oração universal.

Cristo e NSenhora

Nesse dia a Igreja toda guarda luto pela morte de Jesus. Neste dia se faz também a comemoração das Dores de Nossa Senhora. É uma celebração que relembra todos os sofrimentos de Nossa Senhora desde o nascimento de Jesus, culminando com a dor infinita à qual se viu exposto o coração de Maria, ao deixar seu divino Filho no sepulcro.

Por maior que seja a solidão que algum coração humano já sentiu, por certo, sequer aproximará do amargor, do infinito abandono que se apossou do coração da mãe do Divino Amor. Na Solene Vigília Pascal da noite será celebrada a Missa da Ressurreição. Essa missa é precedida pela bênção do Fogo Novo e do Círio Pascal, benção da água Batismal e Renovação das Promessas do Batismo.

Todos os fiéis devem levar velas.

Fogo: Sinal da presença de Deus na história, em suas manifestações de salvação. Ligado ao fogo, temos o círio pascal que aceso no fogo novo lembra o Cristo ressuscitado.

Luz: Símbolo da vida. Representa a presença de Cristo que é vida e oferece vida e salvação ao homem. Jesus atravessa as portas da mansão dos mortos, vencendo e trazendo a luz para a humanidade.

Água: Também é sinal da vida que é comunicada ao cristão quando ele renasce pelo batismo para um mundo novo.

Não existe humildade sem humilhação

Neste Domingo de Ramos, que marca o início da Semana Santa, o Papa Francisco presidiu à celebração eucarística na Praça São Pedro, com a participação de milhares de fiéis. A cerimônia teve início com a bênção dos ramos, que recordam a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, seguida da procissão.

Disse o Papa que o verdadeiro caminho de Deus é o da humildade e que não há outra estrada de Jesus a não ser essa

 

Pope Francis' mass of Palm Sunday

Pope Francis' mass of Palm Sunday

Pope Francis' mass of Palm Sunday

Pope Francis' mass of Palm Sunday

 

Pope Francis' mass of Palm Sunday

Pope Francis' mass of Palm Sunday

O Papa citou em sua homilía um trecho do hino da Carta aos Filipenses, que diz “Humilhou-Se a Si mesmo”. Para Francisco, esta palavra desvenda o estilo de Deus e do cristão: a humildade.

“Um estilo que nunca deixará de nos surpreender e pôr em crise: jamais nos habituaremos a um Deus humilde! Humilhar-se é, antes de mais nada, o estilo de Deus. Deus humilha-Se para caminhar com o seu povo, para suportar as suas infidelidades.”

O Pontífice acrescenta dizendo que esta Semana que nos leva à Páscoa só será Santa se caminharmos por esta estrada da humilhação de Jesus.

“Nestes dias, ouviremos o desprezo dos chefes do seu povo e as suas intrigas para O fazerem cair. Assistiremos à traição de Judas. Veremos o Senhor ser preso, condenado à morte, flagelado e ultrajado. Ouviremos que Pedro, a “rocha” dos discípulos, O negará três vezes. Ouviremos os gritos da multidão, que pedirá a Sua crucificação. E O veremos coroado de espinhos.”

Francisco prossegue observando que este é o caminho de Deus, o caminho da humildade e que não há outra estrada de Jesus a não ser essa. “Não existe humildade sem humilhação”.

O Santo Padre explica ainda que humildade quer dizer serviço, significa dar espaço a Deus despojando-se de si mesmo, esvaziando-se. “Esta é a maior humilhação.”

O caminho do mundanismo

Francisco frisou que o mundanismo é o caminho contrário ao de Cristo. “O mundanismo oferece-nos o caminho da vaidade, do orgulho, do sucesso. É o outro caminho. O maligno o propôs também a Jesus, durante os quarenta dias no deserto, mas Ele rejeitou-o sem hesitação. Com Cristo, também nós podemos vencer esta tentação, não só nas grandes ocasiões mas também nas circunstâncias ordinárias da vida.”

O Papa deu como exemplo tantos homens e mulheres que cada dia, no silêncio e escondidos, renunciam a si mesmos para servir um familiar doente, um idoso sozinho ou uma pessoa deficiente.

Ao finalizar sua reflexão, o Santo Padre citou a humilhação daquelas pessoas que, por sua conduta fiel ao Evangelho, são discriminadas e perseguidas, definindo-as os mártires de hoje, pois suportam com dignidade insultos e ultrajes para não renegar Jesus.

“Com eles, emboquemos também decididamente esta estrada, com tanto amor por Ele, o nosso Senhor e Salvador. Será o amor a guiar-nos e a dar-nos força e onde Ele estiver, estaremos também nós”, conclui.

Mário de Andrade acordava borboletas tresvairadas entre bofetadas líricas

INSPIRAÇÃO
por Mário de Andrade

.

Onde até na força do verão havia
tempestades de ventos
e frios de crudelíssimo inverno.
Fr. Luís de Sousa

.

São Paulo! comoção de minha vida…
Os meus amores são flores feitas de original…
Arlequial!… Traje de losangos… Cinza e ouro
Luz e bruma… Forno e inverno morno…
Elegâncias sutis sem escândalos, sem ciúmes…
Perfumes de Paris… Arys!
Bofetadas líricas no Trianon… Algodoal!…

São Paulo! comoção de minha vida…
Galicismo a berrar nos desertos da América!

Mário de Andrade

 

A MÁRIO DE ANDRADE
por Paulo Mendes Campos

Não sei que mãos teceram teu silêncio.
Morto. Estás morto. Sonhas morto? Morto.
Espantalho fatal, onde flutuas
Acordas borboletas tresvairadas.

Tua morte chegou nas folhas secas
Mas nada vi no ventre da noitinha,
Que não interpretei nas alegrias
Tua razão mais bela de acabar.

A noite está coalhada de formigas.
A cruz amarga a fé desesperada.
Há formigas na treva de tua morte
E em mim eram punhais entrefechados.

O simples tempo agora abre a vidraça.
Desarmaram nos campos a barraca.
Chega do canteiro a razão – flor
Para agravar sinais do inevitável.

O silêncio borbulha nos esgotos.
Bebamos o licor de tua morte.
Enquanto se suporta a solidão.
Tua morte foi servida numa salva.

Cisnes feridos franzem meu destino.
Os convivas, as moças, as vitrinas
Não sabem que paraste. Mas eu sofro
O sono vegetal dos passarinhos.

Mas eu sofro. Eu e o morto que conduzo
Vamos sofrer até de manhãzinha.
Vamos velar aflitos sobre a terra
Que desviou o teu olhar das rosas.

 

Francisco Bandeira de Mello e Ariano Suassuna: Em que ponte do Recife se esconde o inimigo

SINTAXE
Francisco Bandeira de Mello

.

Sentir
o eixo
da palavra

sentir
o valor
axial
de tudo

e não
achar
nada

 

Ladyanne Nascimento

Ladyanne Nascimento

ENCONTRO COM CARONTE
por Talis Andrade

.

Na tarde avulsa
Francisco Bandeira de Mello
serenamente caminha
embora esteja acesa
a chama amarela do perigo

Chegou a hora precisa
de salvar Ariano
o imperador da Pedra do Reino
Chegou a hora de salvar o amigo
das mãos do velho Caronte
que amarrou o barco
em uma das mil pontes
do Recife

Na tarde avulsa
o franciscano Francisco
serenamente caminha
O importante
o saber pela intuição
não pelo instinto
Conhecer em que ponte
se esconde o inimigo

 

Fotografia Ladyanne Nascimento

Réquiem sem música de Edna St. Vincent Millay

Réquiem sem música
De Edna St. Vincent Millay
Tradução de Celso Japiassu

.

Não estou resignada em se encerrarem corações amantes no áspero chão.
É assim, e assim será pois sempre foi assim pelos tempos afora: Na escuridão eles partem, os sábios e os gentis. Coroados
de lírios e de louros eles se vão; mas não estou resignada.

Amantes e pensadores estão dentro da terra contigo.
Juntos com a poeira inútil e opaca.
Um pouco do que sentias, do que tu sabias,
Uma fórmula, uma frase permanecem – mas o melhor está perdido.

As respostas rápidas e sábias, o honesto olhar, o riso, o amor, –
Eles se foram. Eles foram alimentar as rosas. Elegante e sinuosa
é a flor. Perfumada é a rosa. Eu sei. Mas não estou de acordo.
Mais preciosa era a luz em teus olhos do que todas as rosas do mundo.

Dentro, dentro, dentro da escuridão da tumba
Suavemente eles se vão, o belo, o terno, o gentil;
Quietamente eles se vão, o inteligente, o sábio, o bravo.
Eu sei. Mas não estou de acordo. E não estou resignada.

millay

 

 

Dirge Without Music

.

I am not resigned to the shutting away of loving hearts in the hard ground.
So it is, and so it will be, for so it has been, time out of mind:
Into the darkness they go, the wise and the lovely. Crowned
With lilies and with laurel they go; but I am not resigned.

Lovers and thinkers, into the earth with you.
Be one with the dull, the indiscriminate dust.
A fragment of what you felt, of what you knew,
A formula, a phrase remains,—but the best is lost.

The answers quick and keen, the honest look, the laughter, the love,—
They are gone. They are gone to feed the roses. Elegant and curled
Is the blossom. Fragrant is the blossom. I know. But I do not approve.
More precious was the light in your eyes than all the roses in the world.

Down, down, down into the darkness of the grave
Gently they go, the beautiful, the tender, the kind;
Quietly they go, the intelligent, the witty, the brave.
I know. But I do not approve. And I am not resigned

Entrevista inedita con Pedro Lemebel. Del sexo lumpen al amor de madre

ENTREVISTA INEDITA
Una tarde con Pedro Lemebel

 

Imagen - Sebastián Freire

Imagen – Sebastián Freire

En junio de 2012 la Petra recibió en su casa a Facundo R. Soto. El resultado fue una entrevista que no se publicó en ese momento, a la espera de un segundo encuentro que Lemebel fue posponiendo con evasivas y promesas de muchos más detalles jugosos. Aquí, algunas de las perlas de aquella charla que va del sexo lumpen al amor de madre. In Página 12

 

1. Vengo a pedirle una entrevista
Me abrió la puerta un chico alto, moreno y con barba. Pensé que era árabe o brasileño, pero después me enteré de que era peruano. Detrás de él, Pedro. Inclinado como si quisiera espiarme, para ver cómo era, me miraba con la mano en la cabeza. Tenía un gorro, un pañuelo en la garganta y llevaba un pantalón violeta de pana. Hablaba en susurros y se esforzaba para hacerse oír. Me contó que la semana anterior le habían dado de alta después de la operación de laringe. Esa tarde iba a ser el primer día que volvería a comer. Llevé masas secas para tomar el té. Pedro, acercándose, me contó que él y Alfonso (el morocho de barba) no habían almorzado. Eran las cuatro de la tarde. Se metió en la cocina para ver cómo iba el pastel de papas. Pedro abrió el horno. El olor a carne llegó al living, donde yo me había quedado mirando los cuadros. Había cuatro: uno era un collage, con fotos, recortes y escrituras, muy dadaísta. Estaba hecho sobre una cartulina apelmazada por el tiempo, con manchas de humedad, pegado en un cartón enmarcado en vidrio. El que estaba al lado era una serigrafía plateada. Tenía a un hombre con cables en la cabeza. No podía sacarle la mirada a ninguno. Después, descubrí que había otro. Parecía un Liechtenstein auténtico. De hecho se llamaba así, y era el retrato de Liechtenstein, pintado con su técnica y color.

Cuando Pedro volvió al living le pregunté si era un original. Me dijo que no, que era un Liechtenstein pintado por un chileno. Volvió a la cocina y me llamó desde la oscuridad. Me preguntó si quería comer. Le dije que no, que un té estaba bien. Volvió a abrir el horno. Alfonso sacó la fuente y Pedro lo espolvoreó con azúcar. Regresamos al living y nos sentamos en el sillón. Sonaba un disco, en un tocadiscos con púa. Me preguntó por “las chicas”: La Noy, Marlene Wayar, Lohana. No sé cómo sacó el tema de la paranoia de los escritores. Le llamaba “paranoia” a los escritores que persiguen el reconocimiento del público, la crítica y sus compañeros, sin importarle nada. “Lo pierden todo, por el reconocimiento –me dijo–, nadie, a excepción de dos o tres en Chile pueden vivir de la escritura. Ni la Marcela Serrano –ya bajaron sus ventas–, ni siquiera Ricardo Piglia. Acá, la única que puede, creo, es la Isabel (Allende). Yo tampoco tengo el reconocimiento que debería tener, pero eso ya no me importa.” Después cambió de tema: “¿Cómo están las cosas allá? Es arriesgada la Cristina, arriesgada”, repitió sacudiendo la mano y dando carcajadas. Me preguntó por la ley de matrimonio igualitario y la de género, y en qué estado estaba el tema de la despenalización del “fasito”. “Vamos por buen camino, vamos bien.”

Le pregunté si Alfonso era su pareja. Me dijo que no, que era un amigo. Que lo conoció cuando lo esperaba en la puerta de un lugar donde él trabajaba, que caminaban charlando y así se hicieron amigos. “¿O me tengo que coger a todo el mundo?”, me preguntó molesto. Le dije que estaba de acuerdo con lo que decía, que “todavía existía el mito de la loca comehombres, pero que nosotros sabemos que tener sexo es fácil, lo difícil es encontrar amor”.

2. Las tres más fuertes
Después me contó que lo más fuerte que le pasó en la vida era lo que estaba viviendo en ese momento: la operación del cáncer en la garganta. “Es el segundo cáncer que me sale en el mismo lugar.” Después de la primera operación, el médico le pidió que no siguiera tomando alcohol, y él continuó tomando. Cuando el médico le preguntó cuánto bebía, ¿dos o tres copas de vino, por día?, Pedro asintió con la cabeza, pero en el fondo respondía: ¡tres botellas! Me preguntó si los escritores en la Argentina eran de hacer culto a la bebida. No alcancé a responderle que él se respondió: “No, eso es muy de los americanos”.

La otra cosa más fuerte, la muerte de su madre. Me dijo que desde que murió la mamá tomaba una pastilla para dormir y asimismo dormía sólo cuatro horas. Preguntó de pronto por qué había menos lesbianas, o si era que no hacían pública su homosexualidad. Me dijo que una amiga torta le había dicho que era porque los gays eran hombres y que también respondían al patriarcado hegemónico. Pedro dijo y ahora me repitió que era porque eran más cagonas.

Y la tercera, haber conocido el amor. Me dijo que fue hace poco, el año pasado, que hasta el momento tenía disociado el sexo del amor. Que estaba acostumbrado a tener sexo en lugares lumpen, debajo de un puente, en baños; siempre rápido y a escondidas, mi niño. “Yo no estaba acostumbrado al amor, ni hacerlo en una cama de rosas”, me dijo mirando el techo. El año pasado, Pedro estaba saliendo con un chico de Valparaíso que tenía 38 años y pintaba cuadros. Las veces que él fue a su casa fueron un desastre. Tenían que andar escondiéndose. El chico no quería que su familia se enterara de que andaba con otro hombre. Caminaban por calles poco transitadas, tenían que viajar en taxi, y cuando veían gente se cruzaban de calle, porque Pedro es una figura conocida en Chile. Tuvieron la mala suerte de toparse de frente con la hermana de su novio, y fue un momento de tensión. En lo sexual también eran un desastre. El chico quería sexo y Pedro, amor. Su novio empezó a ir a un psiquiatra, que le dijo que no era gay. Hasta ahí llegaron. Pedro no quiso volver a verlo. “Pero yo siempre fui un enamoradizo, pero esto fue otra cosa.”

3. Secretos en la infancia
Me contó que cuando él era chico vivió en un barrio alemán, en las afueras de Santiago. En su cuadra vivían los hijos de los mapuches y los obreros. Recordó a un grupo de chicos más grande que él jugando a la pelota. El que perdía tenía que hacerle la paja a otro, del equipo ganador. El juego iba creciendo y el que perdía tenía que darle un beso en la pija al otro. El no se enganchaba en ese juego porque –me dijo– los chicos con los que él jugaba eran más chicos. En silencio miraba cómo jugaban los más grandes. Le pregunté si él, después, cuando creció, pudo jugar como los otros chicos. Me dijo que sí, pero que las cosas que hacía las guardaba en secreto, mientras que los demás chicos lo contaban. “Las cosas ahora son taaaan diferentes de como eran antes… Antes, las mujeres no se la chupaban a sus maridos, ni lo hacían por atrás; para eso estábamos nosotrxs. Ahora todo cambió tanto… En una época, había teteras en la Biblioteca Nacional, en uno o dos lugares más y nada más. Pero Chile nunca se caracterizó por eso, como Buenos Aires.” Me preguntó si seguían existiendo las teteras de Constitución, las de los subtes, las de los McDonald’s. “Acá todo es muy distinto, ¿sabes? –me dijo–, ya casi ni hay taxis boys en la Plaza de Almas, como antes. Ahora todo es por Internet. Y si llamás a un taxi, de los que se ofrecen por Internet, no podés ni hablar dos palabras con ellos. ¿Sabés una cosa, mi niño? Los hombres no aman a las mujeres.” ¿Las quieren como madres?, le pregunté. “Los hombres aman a otros hombres, no a ellas. Por eso ellas sufren tanto y siempre están reclamando que los maridos las quieran. Porque no las quieren de verdad… Los hombres no aman a las mujeres”, volvió a decirme, y pensé en ir al baño para anotar la frase.

4. El almuerzo desnudo
Le pregunté si pensaba que existía una literatura gay. Me miró como fulminándome, se quedó un rato atravesándome con sus rayos. “Ese es un pensamiento falocéntrico, machista, pensar que hay una sola literatura y que gira alrededor de lo que esa persona cree que es literatura. Hay tantas literaturas, mi niño, como peluquerías para mujeres, y gays que salieron de la peluquería. Hay literatura para gays y literatura hecha por gays. ¿Por qué negarlo?” Mientras Alfonso ponía la mesa frente a la ventana, Pedro y yo llevábamos las sillas de la otra mesa. En el pequeño patio había dos columnas de yeso con plantas. Las plantas estaban ordenadas, muy prolijas, formando un semicírculo. Adentro, el piso de parquet brillaba. La mesa tenía un camino tejido al crochet. Me pareció que estaba sentado en la casa de mi abuela. Pedro se sentó enfrente de mí. Apareció Alfonso con un tenedor. “Nooo, ése no. Tráeme otro”, gritó Pedro como una loca histérica. El chico se fue y volvió con otro tenedor. El pastel de papa largaba humo. No era de carne roja, porque Pedro no come carne roja, sino de pavo. Todavía no podía tomar agua, “porque el esfuerzo de las cuerdas vocales con el agua es otro”, me dijo. Alfonso le trajo jugo. “Es más espeso, y hago menos esfuerzo para tragarlo”, me explicó. “Tampoco puedo tomar té, pero estamos pensando en comprar un vaporizador para fumar marihuana, porque si no puedo tomar agua menos voy a poder fumar. Es imposible. ¿Sabés lo que más me duele de todo esto? Que no puedo beber.”

–¿Y qué te da la bebida que la extrañás tanto? –le pregunté.

–Intensidad… Intensidad. Lo que me falta es intensidad.

Seguía hablando en susurros. Comía con ganas.

–Qué bueno es comer.

Cazuza, A via-crúcis do corpo

A VIA-CRÚCIS DO CORPO
por Cazuza

 

O homem pode ter suas fêmeas
Mulheres podem ter seus machos
Tudo é possível no amor
Só não volta a infância perdida
Só não nos livramos de morrer à toa

O amor pode não ter ciúme
A dor pode ser disfarçada
Mas a via-crúcis do corpo
Já foi há muito traçada

Meu Deus, estamos abandonados
E só nos resta matar
Meu Deus, como a vida é amarga
E doce como chocolate

Será que eu tenho um destino?
Não quero ter a vida pronta
Como um plano de trabalho
Como um sorvete de menta

Matei, mataria mil vezes
E mil vezes não me arrependeria
Quem mata por amor tem perdão
Porque o amor é a morte

A comida na mesa
Os vasos de jasmim
O corpo do ser amado
Enterrado no jardim

Deus, por que não me procuras?
Tenho sempre que ir a ti
Deus, estamos cansados
Está tudo desequilibrado

Meu crime é um crime comum
Minha infância está perdida
Não há nada demais em matar
O escroto que não te ama

A via-crúcis do corpo
O mundo caminha assim
A via-crúcis da alma
Essa nunca vai ter fim

 

Cazuza

 

RÉQUIEM PARA CAZUZA
por Talis Andrade

 

Cazuza se foi para a Grande Viagem
Certeira flecha atravessou-lhe o coração
o incidido coração de pajem
Certeira flecha atravessou-lhe o coração
de pássaro

O belo corpo amado pelos erômenos
o corpo desejado pelas ninfetas
cobriram de cravos brancos
e crisântemos
O corpo devorado pelas dores do mundo
encerraram em um esquife de chumbo

O esquife selado inumaram
em um jazigo de concreto
indestrutível impenetrável abrigo

O belo corpo tocado
por milhares de fãs
O corpo desfrutado
nos camarins
O corpo adorado
nos palcos e camarotes
O corpo sangrado
nos botequins
jaz prisioneiro
em um canteiro
de lixo atômico

Cazuza se foi
O coração de anjo
cortado em pedaços
Diante de tanta festa
nem parece a morte veio
armada de arco e flecha
Diante de tanta festa
nem parece a morte veio
roubar as maçãs de ouro
da juventude em flor

 

 

Clarice Lispector e Ferreira Gullar

 

MEU POETA JORNALISTA

.

Não te amo mais
Estarei mentindo dizendo que
Ainda te quero como sempre quis
Tenho certeza que
Nada foi em vão
Sinto dentro de mim que
Você não significa nada
Não poderia dizer mais que
Alimento um grande amor
Sinto cada vez mais que
Já te esqueci!
E jamais usarei a frase
Eu te amo!
Sinto, mas tenho que dizer a verdade
É tarde demais…

 


Esta poesia é para ser lida de baixo para cima.

A autoria continua desconhecida, embora circule pela internete com a assinatura de Clarice Lispector.

Apesar de não ter escrito versos, Clarice Lispector publicou crônicas e contos que parecem poemas em prosa.

O importante é lembrar Clarice.

Clarice Lispector © Bluma Wainer

 

MORTE DE CLARICE LISPECTOR
por Ferreira Gullar

.

Enquanto te enterravam no cemitério judeu
de S. Francisco Xavier
(e o clarão de teu olhar soterrado
resistindo ainda)
o táxi corria comigo à borda da Lagoa
na direção do Botafogo
E as pedras e as nuvens e as árvores
no vento
mostravam alegremente
que não dependem de nós

Versos de Cris Massarelli

Prossigo para o alvo
Filipenses 3:13

Que a nossa escolha
seja atirar-se no que está
em nossa frente a começar
pelo dia chamado hoje!

Quase

Ainda pior que a convicção do não,
a incerteza do talvez
a desilusão de um quase.

É um quase que incomoda,
que entristece,
que mata
trazendo tudo
que poderia ter sido
e não foi.

 

massa 2

Há momentos na vida
não é necessário mostrar a beleza aos cegos
e nem dizer a verdade aos surdos.

Não convença as pessoas com grandes palavras,
mas as surpreenda com pequenas atitudes

 

Eu sigo sorrindo,
mesmo que às vezes chore.

Estou sorrindo agora.
Sim, eu sou estranha,
mas querem saber?
Eu amo ser.

massa 3

 

A paixão grita
Mas o medo do amor
me deixou surda.

 

Muitos vão te olhar te julgar … deixe estar!
Você sabe o quanto é grande seu coração
e conhece os motivos que te fazem chorar

 

roça cris

Não tenho medo da morte
Meu medo
depender de algo
que me daria razão
pra viver.

 

Todo dia morro um pouco,
e faço meu próprio enterro.

 

estrada massa

Preciso seguir em frente,
é claro que preciso,
mas aonde quero chegar?

 

Texto e fotografias in Facebook

Cris Massarelli

Cris Massarelli

Oh morta, tão gelada é sua pele
Ordeno que a vida se congele!
E espere o frescor da sua veste
Oh ninfa sepulcral do cemitério
Não ha nada mais frio que o seu semblante
A brancura que envolve-a de mistério
Parece deslizar aos rios de Dante.
Trazendo todo inferno de Sodoma
Ondas de lava em fogo, calmarias
Que gritam como monstros na redoma
Em um estado típico de coma
Onde eu enterro os ossos das poesias
Velando o seu aroma

Cris flores

Quando Deus está no jardim
As flores florescem
Mesmo quando não é primavera!

Cris nao foge

Não foge,
Não se esconda,
esconder é o princípio do fim,
não se feches tanto assim.