Antipetismo e ódio de classe

A partir das figuras do escravo e do dependente, formou-se entre nós uma massa a quem se nega o estatuto de “gente”

 

negro criança racismo

por Maria Eduarda Mota Rocha/ El País/ Espanha

 

Bastou o resultado do primeiro turno das eleições ser divulgado e, mais uma vez, os insultos aos “nordestinos miseráveis analfabetos” eleitores de Dilma Rousseff pipocaram nas redes sociais. Enquanto isso, na grande imprensa, FHC reproduzia o preconceito em sua versão mais douta e sutil, associando o voto ao PT aos “menos informados” que, por “coincidência”, são os mais pobres.

Na raiz do problema, uma velha tradição brasileira: a ausência de um arcabouço moral universalizado capaz de impor como dever o respeito a todos os seres humanos, em sua dignidade fundamental. Os “nordestinos miseráveis analfabetos” são a versão mais recente do que Jessé Souza chamou de “ralé brasileira”. Ele mostra como, a partir das figuras do escravo e do dependente, formou-se entre nós uma massa a quem se nega o estatuto de “gente”.

No caso em questão, a dignidade desses tipos sociais é duplamente negada. Primeiro, contesta-se o seu direito à manifestação mais superficial de cidadania que é o voto. Eleitores tão desinformados não deveriam votar, está implícito. Mas esta primeira recusa está fundamentada em outra, muito mais profunda, que é a do direito ao reconhecimento social já mencionado.

Ao fim e ao cabo, o que está em jogo é a grita contra a quebra do monopólio de recursos vitais para a reprodução das elites e para a manutenção do tipo obsceno de desigualdade que existe entre nós. Afinal, os governos petistas empreenderam uma política de valorização do salário mínimo e de distribuição de renda, o que fez cair a desigualdade econômica de modo contínuo, embora em ritmo mais lento nos últimos anos. A PEC das domésticas veio colocar mais lenha na fogueira porque, ao regular este tipo de trabalho, atacou o mais claro resquício da escravidão no país, uma relação que não tinha sequer uma jornada estabelecida.

Mas foi sobretudo a democratização do acesso à universidade que feriu os brios das elites nacionais, porque afetou diretamente um dos mecanismos mais importantes para a sua reprodução: o acesso exclusivo ao ensino superior. As novas universidades, a política de cotas, a expansão das vagas convergiram para fazer muitas famílias verem um de seus membros chegar pela primeira vez a este nível de escolaridade.

Para piorar a situação dos preconceituosos, já partir de 2006 as políticas inclusivas do Governo provocaram uma mudança da base eleitoral do PT, das classes médias mais escolarizadas para as classes populares, como mostrou André Singer. Eles acertam quando identificam a composição social do voto petista. Mas seu preconceito não os deixa ver que os pobres tem boas razões para isso, mesmo que o Governo tenha deixado intocados tantos outros monopólios, como o da própria mídia que agora o ataca, e que tenha se paralisado no último mandato em áreas tão importantes como a política cultural.

A corrupção é a cortina de fumaça para muitos – mas não para todos – dos que repudiam o PT neste momento. A trajetória do partido faz os escândalos que o envolvem soarem mais fétidos do que os demais, porque ele começou a conquista do poder pelo legislativo, chamando para si a função de fiscal do executivo, desde a redemocratização. Agora, a pecha de “paladino da ética” é usada contra ele. Mas, todos sabemos (mesmo que a grande mídia e os eleitores do PSDB façam questão de esquecer) que a relação viciada entre o legislativo e o executivo é constitutiva da política brasileira.

Tendo campanhas absurdamente caras, o Brasil vê chegar ao poder partidos comprometidos com grandes empresas e congressistas que votam por interesse, e não por convicção. Entretanto, por que os tantos indignados com a corrupção não defendem a reforma política que podia mudar esse estado de coisas? Porque a moralização do debate é uma forma de evitar sua politização. Politização que, aliás, avançou muito pouco durante o governo petista, o que agora pode lhe custar o Planalto. Os jovens pobres parecem ver suas conquistas como meramente pessoais, cedendo diante da ideia de meritocracia e esquecendo os fatores estruturais e a ausência de políticas públicas que explicam porque as gerações anteriores não tiveram as mesmas oportunidades. Por isso, a onda conservadora pode crescer ainda mais.

Maria Eduarda Mota Rocha é pesquisadora e professora da Universidade Federal de Pernambuco

“Una humilde propuesta”, Jonathan Swift. Ponga un pobre (asado) en su mesa

Se trata de una sátira de fuerte contenido social bajo la apariencia de una estrambótica propuesta para acabar con los pobres

 

Se trata de un breve panfleto (ahora que parece estar de moda esta modalidad) en la que el escritor se disfraza de estadista y ensayista para “liberar” a la Irlanda de la época del gran mal que suponen los pobres y su prole.

Huelga decir que se trató de una obra polémica, achacada de ostentar mal gusto, y que leída hoy en día, algo que no se sabe si es bueno o malo, todavía levantaría ampollas en muchos, siempre y cuando se entendiera de manera correcta y no interpretada bajo lecturas superficiales, que a la larga además sirven para destapar la ideología subyacente en muchos casos.

Este breve libro lo que pretende, de ahí su fuerza trasgresora, es mostrar sin delicadezas ni ambages, el pensamiento dominante y su actitud ante las clases desfavorecidas. Para ello inventa un mecanismo, y como bien dice su título completo (para impedir que los hijos de los pobres de Irlanda sean una carga para sus padres o para el país), es apartar de la faz de la tierra a los niños que nacen en un entorno desfavorecido y que por lo tanto las sociedades no pueden recoger beneficios de ellos.

Utilizando fórmulas, estadísticas, números y teorías supuestamente validadas, llegará a la conclusión de que la solución es utilizar un pequeño número para criar y fecundar y el resto serán “donados” a familias adineradas para que les cuiden convenientemente para poder ser convertidos en manjares, es decir, cocinarlos y utilizarlos como alimento. En este aspecto, en el que se toma muchas “molestias” a la hora de explicarlo, es uno de los momentos en que plasma su lapidario humor negro y que entronca con una de las obras a las que más se asemeja, “Del asesinato considerado como una de las bellas artes” de Thomas de Quincey.

Para aquellos que en una primera lectura crean ambigua la posición de Swift, el libro está trufado de varios ejemplos de la situación que se vive en esos momentos en Irlanda. Valgan como ejemplos el inicio de la obra en el que dibuja la situación del país “plagada de mendigos”; la situación laboral (“los terratenientes, quienes, como ya han chupado la sangre a la mayoría de los padres”); la moral, en este caso relacionado con el trato a las mujeres y la ” predisposición a golpearlas o patearlas (práctica que es muy frecuente)” y por encima de todo la larga enumeración de políticas posibles y razonables por las que se podrían optar pero que no parece que vayan a ser llevadas a cabo por los poderes.

O brasileiro sofre, “menos Luiza, que está no Canadá”

O Brasil possui 16,267 milhões de miseráveis – quase a população do Chile. Destes, 5,7 milhões moram em domicílios com rendimento de R$ 1 a R$ 39 mensais.

Somados aos 4,8 milhões que não têm nenhuma renda, são 10,5 milhões de pessoas, o equivalente à população do estado do Paraná, vivendo com até R$ 39 por mês.

O Censo de 2010 aponta 4 milhões de domicílios miseráveis no País: 1,62 milhão deles sem renda, e outros 1,19 mil, com renda de R$ 1 a R$ 39.

Um servidor da Presidência utilizou o perfil oficial da Secretaria de Imprensa no Twitter para reproduzir uma piada sobre o tucano José Serra e foi exonerado.

A paródia indicada pelo perfil oficial fazia uma brincadeira com um tema que virou febre na internet – em vídeo de venda de apartamentos na Paraíba, um homem apresentava o empreendimento e dizia que toda a família estava ali, “menos Luiza, que está no Canadá”.

A partir daí, milhares de usuários do microblog fizeram piadas sobre “Luiza, que está no Canadá” – ela tem 17 anos, fazia intercâmbio no país e é filha do homem do anúncio, o colunista social Gerardo Rabello. Na tarde de ontem, o perfil da secretaria no microblog indicou um link para um texto, com o comentário: “Com a volta da Luiza, quem tá indo para o Canadá é o Serra…”.

O texto divulgado pela Presidência, publicado pelo Piauí Herald, site humorístico da revista Piauí, dizia que “após anunciar que não vai disputar a Prefeitura de São Paulo”, o tucano teria dito: “Vou para o Canadá”.

QUANTOS BRASILEIROS PODEM ESTUDAR NO EXTERIOR? 

Quem melhor divulgou o efeito Luiza foi a imprensa estrangeira.

Una frase de anuncio, ‘Menos Luiza, que está en Canadá’, revoluciona Brasil

¿Cuál es el precio de la fama en la era de las redes sociales? Pues depende. A veces, es gratis. A veces, te pilla desprevenido y puede no requerir ni de tu participación. A Luiza, estudiante brasileña de 17 años, una desmedida popularidad le abordó en Canadá cuando ya estaba expandida por lo largo y ancho de su país de origen. Todo por un anuncio, todo por una mención de su padre a su nombre y su paradero, por una frase tonta que podría incluso acabar forzando la dimisión de un cargo público.

Una inmobiliaria eligió al columnista Gerardo Rebello, que suele escribir crónica social de la jet set brasileña, para que reuniera a toda su familia y elogiara a la empresa, que ofrece “el nuevo hogar de la sociedad paraibana (del estado brasileño de Paraiba donde residen)”, pese a que se trate de apartamentos que cuestan entre 300.000 y 500.000 euros. Tal vez por esa condición de familia rica se dispararon las bromas después de que el buen hombre dijera: “Por eso he reunido aquí a toda mi familia, menos Luiza, que está en Canadá”. No todas las familias brasileñas pueden permitirse que su hija vaya a estudiar a Canadá, con lo cual la frase quedó un poco presuntuosa.