Carlos Pena Filho e Joaquim Cardozo na estação de águas do Rio Capibaribe

MENINA
por Joaquim Cardozo

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Os teus olhos de água,
Olhos frios e longos,
Esta noite penetraram.
Esta noite me envolveram.

Bem querida madrugada…

Olhos de sombra, olhos de tarde
Trazem miragens de meninas…
Bundas que parecem rosas.

Sob o caminho de muitas luas
O teu corpo floresceu.

 

The Cat of La Mediterranee by Balthus

 

GUIA PRÁTICO DA CIDADE DO RECIFE
por Carlos Pena Filho

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(fragmentos)

(…) vieram de longe as águas
que aqui no Recife estão,
já começaram areia e pedra
lá bem perto do sertão
e é por isso, talvez,
que escuras e tristes são.
Porém não foi só tristeza
sua peregrinação,
em seu trajeto tiveram
a farta satisfação
de dar de beber a secos
homens, cavalos e bois
e em seu incerto caminho
ainda viram depois
os sítios cheios de sombra,
onde dorme o sonho espesso
do poeta Joaquim que foi
fazer uma estação de águas
nos olhos do seu amor
e trouxe nos seus, acesos,
os cajueiros em flor.

 

Ilustração Window Balthus galeria aqui 

a menina e o gato, o gato e a menina

por Nina Rizzi

 

 

Gato

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1.
se eu fosse um gato
o silêncio habitava
meus gestos
precisos

[uma menina olha
corre e acaricia]

que importa a metafísica
o ranger dos dentes
se eu durmo o dia inteiro

2.
não é preguiça
lá fora faz chuva
arde a lua

[a menina quer
passear
não pode gostar
de estar só
porque não conhece
o lugar do mapa]

mas gato tem que levantar
lamber o leite derramado

 

—-

Tela Leonor Fini

 

A menina Jasmim perfumando a casa

-flor_de_jasmim

No vôo da Gol, no dia 10 de novembro, com destino para Porto Alegre, conheci Jasmin Amaral, uma menina de 3 ou 4 anos. Viajava com o avô para um transplante de rim, num hospital de Porto Alegre (Santa Casa?). Jasmim não entendia das demoras que existem nessas ocasiões (espera para embarcar, para descer do avião, para esperar as malas, as caixas com os medicamentos, o aparelho de hemodiálise, nada disso) O avô entendia disso tudo e segurava o coração e as ideias em cada mão.

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Peguei minha pequena bagagem antes e fui ao encontro do meu rumo. Prometi ao avô que rezaria pela Jasmim e que pediria a Deus pela saúde dela, como se eu tivesse alguma autoridade e intimidade com Deus.
_ Jasmim Amaral, Jasmim Amaral. O avô repetiu duas vezes e ficou aliviado.
Quem pensa que eu estive sozinha na Feira do Livro de Porto Alegre, não sabe que entre foto e foto, stand e stand de livros, abraços de amigos e leitores, esse nome virou prece para mim.

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Hoje, domingo, uma pausa para as perguntas que fazem fila na minha cabeça. O que será da Jasmim e do seu avô? O que será de toda a família de Jasmim? Essas perguntas chamam outras perguntas, o que também é um qualidade de prece. Este domingo tem nome de flor e sobrenome que deriva do amor. E lá vou eu perfumando a casa e renovando o valor de cada coisa que me toca. Tudo é jasmim e tudo é amaral.