Marcelino Freire nasceu em Sertânia e Pernambuco não conhece

Pernambuco não conhece seus verdadeiros escritores, principalmente os verdadeiros poetas e romancistas. Para tirar muita gente do anonimato, Urariano Mota acaba de lançar seu “Dicionário Amoroso do Recife”.

Marcelino Freire nasceu em Sertânia, em 1967. Vive em São Paulo desde 1991. Já escreveu vários livros, dentre eles “Angu de Sangue” (2000) e “Contos Negreiros” (2005).

Este dizer, “com orgulho e saudade”, sou de Sertânia, está em todas suas entrevistas.

Marcelino Freire por Ramon Muniz

Marcelino Freire por Ramon Muniz

 

POÉTICAS DA PRECARIEDADE

por Maria Zilda Ferreira Cury

A reflexão sobre os modos de narrar, sobre os limites impostos aos narradores na expressão e na criação de espaços enunciativos para vozes dos pretensamente afásicos sociais confere um sentido profundamente ético à escrita de Marcelino Freire. Como acentua Nízia Villaça falando da ficção produzida no Brasil nas décadas de 1980 e 1990:

Da reflexão sobre os modos de narrar que frequentam a contemporaneidade, sobre o tipo de saber possuído por aquele ou aqueles que narram, seu maior ou menor controle do universo ficcional, sobre a estrutura actancial, a distribuição espacial, a ordem temporal, enfim, sobre a estética do olhar, procuramos inferir que ficções a respeito da subjetividade, a respeito da relação homem/mundo, frequentam esta ou aquela obra (Villaça , 1996, p. 11).

Estéticas da precariedade e da resistência ao esquecimento são marcas da arte contemporânea, lugares discursivos que assumem a precariedade como temática e como modo construtor de suas excêntricas (fora do centro, marginais) enunciações.

A epígrafe escolhida para a abertura deste trabalho, tirada ao romance de Clarice Lispector, por meio da consideração da personagem Macabéa, indicia o espaço literário como local privilegiado de enunciação. A personagem – quase analfabeta, deslocada no espaço da grande metrópole, tão rejeitada na sua invisibilidade social que é definida como alguém que nunca recebera uma carta ou um presente – tem, de alguma forma, acolhimento no espaço de representação da literatura, espaço metalinguisticamente valorizado pelo narrador. A literatura ofereceria essa possibilidade de criação de um espaço onde é sempre o outro que fala. E este outro é aquele que se faz ouvir, mesmo que seja como uma voz transferida, delegada.

Corroborando a premência de reflexão sobre o presente, Giorgio Agamben relativiza a imperiosidade do distanciamento temporal para se falar sobre o contemporâneo, uma vez que “todos os tempos são, para quem deles experimenta contemporaneidade, obscuros” (Agamben, 2009, p. 62-63). E acrescenta: “Ao contrário, o contemporâneo é aquele que percebe o escuro do seu tempo como algo que lhe concerne e não cessa de interpelá-lo, algo que, mais do que toda luz, dirige-se direta e singularmente a ele” (Agamben, 2009, p. 64).

Enunciações da precariedade, precárias na sua fatura e nas suas temáticas, assumindo numa linguagem de restos os riscos de uma linguagem e de um mundo em crise, os trabalhos artísticos de Vik Muniz e Gabriela Gusmão, de Marcelino Freire dirigem perguntas ao sombrio do nosso tempo. Leia mais

BALÉ RALÉ

por Ramiro R. Batista

Para não dizer que não conhecia o trabalho de Marcelino Freire antes de “Balé Ralé”, eu já havia lido o monótono “Os cem menores contos brasileiros do século”, mas que fora apenas organizado por ele. O Nelson de Oliveira, em vários artigos, já vinha fazendo propaganda do “talentoso” Marcelino. E eu sou seguidor das sugestões do Nelson, através das quais venho conhecendo bons escritores contemporâneos sem me frustrar.

De qualquer forma, quem lê, pela primeira vez, “Balé Ralé”, seja um leitor exigente ou não, acaba por cair no famoso “ame-o ou deixe-o”. Quando se fala em Marcelino Freire, devemos esquecer adjetivos como “talentoso”, “brilhante”, pois são qualificações “doces” demais. Não conhecia até então a fisionomia do Marcelino e quem não o conhece, é bem capaz de imaginá-lo sendo uma criatura que tem os olhos vermelhos cor-de-sangue, que deve soltar fogo pelas ventas, ou que vomita os textos em forma de agulhas. Mas o Marcelino, apesar da voracidade do que escreve, tem até uma aparência simpática, tanto que, na foto dele no verso do audiolivro “Contos Negreiros”, está parecido com o “Arrigo Barnabé” nos tempos do MPB Shell de 1981.

Ou seja, trocando em miúdos, a escrita de Marcelino em “Balé Ralé” é forte, contundente, visceral, quase um atropelamento, por um caminhão, e daqueles bitrem, e carregado de areia ainda. Começando pela capa do livro: foto de “Os homens de Weerdinge”, do acervo de Drents Museum, que, conforme detalhe numa das orelhas, são múmias que foram encontradas em um pântano, abraçadas, sendo também conhecidas como “o casal gay mais antigo da Holanda”. ‘Tá, mas e o conteúdo? Calma. É que agora que a coisa pega. Marcelino em “Balé Ralé” exibe um estilo de “moleque”, daqueles que só gosta de sentar no fundo da sala de aula para ficar atirando bolinha de papel com o canudo da caneta só para incomodar os colegas e infernizar aquela professora de 60 anos, que voltou a dar aula depois de aposentada.

Senão, o que dizer da inédita defesa de supostos e atuais direitos de um “homossexual fossilizado”: “Sabe aquele homem que encontraram no gelo? Encontraram no gelo da Prússia?… Este homem dava o cu para outros homens. E ninguém – até então – tinha nada a ver com isso.” (in “Homo Erectus”). E o retrato, surpreendente, para não cair no aqui inadequado “comovente”, da louca paixão de um homem (espada) por um travesti: a “Beth Blanchet, meu amor, porra. Juro que deixo você enfiar no meu cu esse pau gostoso. Eu deixo.” (in “Mulheres Trabalhando”). E este indício de algo maléfico, senão hilário: “…Voz de capeta falando no meu ouvido, que é isso? Não, minha senhora. Repito: ninguém manda em mim. Nem o Diabo. Vou pular porque eu quero. Porque eu quero. Vão para o inferno.” (in “A ponte o horizonte”). Ou o retrato fatídico, comum, da origem de muitas prostitutas, ao lembrarem de abusos na infância: “…Meu pai um dia mostrou o pau pra mim, balançou. Eu tinha doze anos, sei lá. Doze anos, nove anos. Mijou olhando para mim, os olhos azuis do meu pai… Desci as unhas roxas pelas coxas do velho, toquei seu umbigo. Fingi um sorriso. Vencerei tudo isso. Era puta ou não era puta, porra?” (in “Phoder”). E não há sentimentalismo, nada é bucólico ou lírico, é para chocar mesmo, até quando uma neta se vê obrigada a cuidar do avô inválido: “Sabe, vovô, eu preciso lhe contar. Ontem, arranjei um homem, vovô. Um homem de verdade, é verdade. Ele chegou, me chamou pra sambar, se esfregou em mim a noite toda. Há tempo meu coração estava precisando. Nunca é tarde,vovô, por que o espanto? Vovô, o pau dele era desse tamanho… Vovô, não é que ele gozou na minha boca.” (in “Vovô”).

Está bem, parei, se não eu acabo contando muita coisa e vou estragar a graça da leitura. Mas não há com que se preocupar, pois em “Balé Ralé”, são “18 improvisos”, como foram denominados os textos. Marcelino Freire é assim mesmo, é avesso a “nhê-nhê-nhê”, é na cara dura mesmo, vias de fato. O linguajar é o linguajar do povo, do povão, que não há frescura, nem fica fazendo imagem para aparecer, dando uma de “bonzinho”, mostrando a educação que não teve. A vida é assim mesmo, não adianta querer se enganar, lendo livros de “estórias da carochinha”.

O gaúcho João Gilberto Noll é quem apresenta “Balé Ralé” e parece ter feito um esforço enorme para qualificar uma obra tão difícil: “…Entre São Paulo e Pernambuco evoluem as criaturas de um país periférico -, prostitutas, travestis, crianças usufruídas sexualmente por gente muito próxima, mães que distribuem os filhos, um filho bailarino a levitar acima das possibilidades dos charcos tropicais… ” se é que tal livro de humor rítmico e dançante, trate de vitimizações, conclui.

Agora, se o leitor gosta de ler livrinhos para fugir da realidade, esquecer dos problemas reais, e viver num mundo de conto de fadas, então não irá gostar de “Balé Ralé”, e como indicação mesmo são os livros de “Barbara Cartland”, os romances de “Sabrina”, auto-ajuda e, claro, televisão, muita televisão, principalmente, as ótimas novelas da globo, pois lá ninguém fala palavrão para putear os outros, como a gente costuma ouvir todos os dias em todos os lugares.

Recentemente, trocando idéias com a escritora Eliana de Freitas (Oculta – Uma sentença masculina – de 2006), que conheceu pessoalmente o Marcelino Freire, chegou a dizer: “Marcelino tem um poder de persuasão tamanho que é capaz de vender qualquer coisa, até terrenos na lua… O evento era para falar da reforma ortográfica e o Marcelino declarou que era contra a reforma, mudou de assunto e começou a falar sobre si e sua obra”. Eu, particularmente, gostei demais do estilo do Marcelino e já estou lendo “Contos Negreiros”.

 

 

 

O HOMUS ERECTUS

por Marcelino Freire

 

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Sabe o Homem que encontraram no gelo?
Encontraram no gelo da Prússia? Enrolado?
Os arqueólogos encontraram no gelo gelado da Prússia?
Perto das colinas calcáreas da Prússia?
O Homem feito um feto gelado, com sua vara de pesca?

Sabe o Homem que encontraram? Com seu machado de pedra?
O Homem que tinha cabeleira intacta? A arcada dentária?
O Homem meio macaco? Funerário? Fossilizado na encosta que o engoliu? No tempo perdido? Você viu?

Tetravô dos mamíferos do Brasil? O Homem vestígio?
O Homem engolido pela terra primitiva? Da Era Quaternária, não sei? Secundária?
Que caçava avestruz sem plumas? Caçava o cervo turfeiras? Javali e mastedonte?
Ia aos mares fisgar celacanto? Rinoceronte?
Sabe deste Homem?

Irmão do Homem de Piltdown?
Primo do Homem de Neandertal?
Do velho Cro-Magnon?
Do Homem de Mauer? Dos Incas, até?
Dos Filhos do Sol?
Das tribos da Guiné?

O Homem de 100 mil anos antes de nossa era? Ou mais? Um milhão de eras?

Homem com mandíbula de chimpanzé?
Parecido o mais terrível dos répteis carnívoros do Cretáceo?
Um mistério maior que este mistério?
Navegador de jacaré? Não sabe?

Homem desenterrado por acaso? Pelos viajantes, por acaso?
Pela Paleontologia, não sabe?
Visto nas costelas frias da Prússia, repito? Prússia renana, vá saber lá o que é isso?
O Homem ressuscitado, você viu na TV?

De ossos miúdos? Esmiuçados?
Abertos para estudo? À visitação nos museus americanos?
Como uma múmia sem roupa?
Quase?

Flagrada como se estivesse dormindo nas profundezas do mundo oceânico?
O Homem embrionário?
Das origens cavernosas da Humanidade?

Sabe este Homem, não sabe?

Pintado nas cavernas da Dordonha?

Mesolítico?
Nômade?
Perdido?

Este Homem dava o cu para outros homens.
E ninguém, até então, tinha nada a ver com isso.

 

 

 

O conto Homo Erectus saiu do livro BaléRalé, de Marcelino Freire.