Aboio e a pega do boi por Ascenso Ferreira

A PEGA DO BOI
por Ascenso Ferreira

 

A rês tresmalhada
ouviu na quebrada,
soar a toada,
de alguém que aboiou:

— Hô — hô — hô — hô — hô,
Váá!
Meu boi Surubim!
Boi!
Boiato!

E, logo espantada,
sentindo a laçada,
no mato embocou…

Atrás, o vaqueiro,
montando o “Veleiro”
também mergulhou…

Os cascos nas pedras
davam cada risco
que só o corisco
de noite no céu…

Saltaram valados,
subiram oiteiros,
pisaram faxeiros
e mandacarus…

Até que enfim…
No Jatobá
do Catolé,
bem junto a um pé
de oiticoró,
já do Exu
na direção…

— O rabo da bicha reteve na mão!

(Poeiriço danado e dois vultos no chão)

…………………………………

Mas, baixa a poeira,
a res mandingueira
por terra ficou…

E um grito de glória
no espaço vibrou:

— Hô — hô — hô — hô — hô,
Váá!
Meu boi Surubim!
Boi!
Boiato!

 

Ascenso

Ascenso

 

ABOIO DE ASCENSO
por Talis Andrade

.

Delicioso ouvir
Ascenso recitando
Na poesia de Ascenso
o cheiro da terra no cio
a música o ritmo a ginga
o cantar o dançar do povo
o cantochão a poesia em transe
nos improvisos da embolada
do fandango
do coco de roda
e dos maracatus

O vozeirão de Ascenso
agitava as redações
localizadas em local propício
junto às fontes de notícias
Todos os poderes reunidos
em uma promíscua proximidade
Assembléia Legislativa Câmara Municipal
palácios das Princesas e da Justiça
igrejas e casas de meretrício

Deitado em uma imensa rede invisível
armada em uma varanda de ventos alísios
rodeado de mucamas
Ascenso que não era feito de ferro
descansava a malandragem
de jogador de baralho
de tirador de conversa
destilando aguardentia
todos os dias
– Carnavá meu carnavá
tua alegria me consome
chegou o tempo de muié largá os home
chegou o tempo de muié largá os home

O poeta pernambucano Darue Emerson Arruda

Por Antonio Nelson

Olinda é sua fonte de inspiração! A poesia de Darue Emerson Arruda representa frustrações, medos e solidão, alegria, vida ou morte… Desejos ou pensamentos. Ardores e amores. Sexo e sexualidade estão na sua rede social Diário da Carne, onde o autor instiga nossa libido.

As armas
A mulher em seu poder bélico… Em lingerie e salto alto!

poeta

Não vejo sorriso nas pessoas
Vejo uma robótica vida
Intermediária
Vivem por necessidades arbitrárias
Vagas
Mal pagas
Cadê os sorrisos?
Ficou em rostos frios e perdidos
Aprendi a sorrir sem ter motivos, sabe por que?
Porque tudo é lindo
É vivo!

Acesso a cultura
Num país capitalista a música popular brasileira se torna um produto de primeira…
Maracatu
Cavalo Marinho
Pra quê?
Acesso a shows e seu monopólio do dinheiro. ..
Acesso a cultura?
Ah parem com essa história. .. poeta cadê tu?
Poesia para onde foi?
Virou carne de boi…
Quem paga mais é quem tem acesso
Quer mudar a violência e corrupção, a falta de educação?
Indigesto. ..Num Brasil rico de tantos afins!

Dê cultura para o povo. . cansei de ser tratado como bobo!

Pernambuco para inglês ver

Veja, pelos olhos de uma estudante de Universidade de Oxford, blogueira da BBC Brasil, um Pernambuco que uma inglesa ama, e os pernambucanos não amam. E quanto erradas as políticas adotadas para o turismo. E, notadamente, para preservar nossas tradições artísticas e culturais.

O Pernambuco de Lily Green não é o Pernambuco das autoridades, nem da imprensa e de uma pretensa elite, que sonha com Miami e, se pudesse, iria ao trabalho e ao shopping de helicóptero.

Lily Green, 21 anos

Lily Green, 21 anos

 

Brasil: amor e perplexidade!

por Lily Green

Com o fim da minha estadia no Brasil, encerro também minha participação aqui no blog.

Queria que meu último post levasse aos leitores algo que fosse fruto de minhas próprias experiências, com minha própria opinião e ponto de vista, como fiz durante o tempo em que fui blogueira do Para Inglês Ver.

Não tenho a pretensão de ser especialista em Brasil, portanto, ao invés de tentar fazer um resumo do que é o país, resolvi fazer uma pequena lista com três coisas que aprendi durante esse curto tempo que passei no Brasil.

.

1.Quanto mais colorido, melhor

Lily Green admira o colorido das casas, como nesta rua

Lily Green admira o colorido das casas, como nesta rua

Nunca me cansei de andar pelas ruas com as casas pintadas com diferentes cores. Admiro também o fato das pessoas no Brasil não terem receio de se vestir com roupas de colorido forte e estampados exuberantes. Isso ajuda a espalhar alegria, e foi ótimo passar a conviver com cores vibrantes depois de anos vendo apenas o cinza e preto que predominam na Inglaterra.

 

2. Ser eficiente não é divertido

Torcedores aguardam em fila para comprar ingressos para jogo de futebol

Torcedores aguardam em fila para comprar ingressos para jogo de futebol

Garanto que não digo isso por sarcasmo. Admiro muito a paciência das pessoas que conheci no Brasil. Acho incrível que elas aguentem tantas horas de espera em longas filas, seja por burocracia, ou apenas paradas no trânsito engarrafado. Eu também adquiri essa mentalidade. No final, já não me incomodava em esperar o terceiro ônibus pois os dois primeiros passavam cheios.

Não quero dizer que os brasileiros são passivos, que não se queixam do que pode ser melhorado ou que não se importam com as inconveniências. Mas com eles aprendi que bom humor e tranquilidade ajudam muito a suportar as adversidades.

Acho, entretanto, que por vezes a tolerância é excessiva e acaba fazendo com que problemas graves como a segurança pública não sejam resolvidos, se perpetuem e se agravem. Afinal, ter medo de ser assaltado não pode e não deve ser uma preocupação cotidiana. Existem coisas que não se deve tolerar com tanta paciência.

 

3. O prazer de dançar

O maracatu no interior de Pernambuco, com seu colorido exuberante

O maracatu no interior de Pernambuco, com seu colorido exuberante

Aprendi a dançar maracatu, cavalo-marinho e côco. Adorei todos!

Minhas aulas não se restringiram a aprender somente os passos dessas danças populares. Aprendi que até dentro do mesmo Estado há grandes diferenças culturais e geográficas.

No fértil litoral de Pernambuco, por exemplo, a cana-de-açúcar cresce abundante, se come peixe e macaxeira frita. Em Recife, vi ruas lotadas e ouvi o enorme barulho das buzinas dos carros.

Lily Green (à direita, de camiseta cinza) em uma aula de dança no Recife

Lily Green (à direita, de camiseta cinza) em uma aula de dança no Recife

No interior do Estado andei no meio da rua sem me preocupar. Vi a terra seca pela falta de chuva e o gado no pasto marrom ao lado de estradas com suas retas intermináveis, repletas de caminhões.

Enfim, nesse pouco tempo que passei no país deu para ver que o Brasil é tão diverso que saio com a sensação de que à medida que mais conhecia o lugar mais difícil ficava para mim poder defini-lo.

E acho que é exatamente essa dicotomia o que melhor representa o Brasil para mim.

Eu amo o Brasil, mas, “oxente”, o país me deixa perplexa! (In Público, Portugal)

Recife. E a festa tão ansiada começou

por Manuel Carvalho
Público/ Portugal

Pela manhã, um dos jornais diários do Recife titulava a toda a capa: “Que felicidade”. Raramente uma manchete de um jornal consegue acertar com tanta precisão antes do acontecimento como a do Diário de Pernambuco. Uma fotografia de uma pessoa em pose eufórica, com um gesto algures entre o devaneio e a celebração era apenas uma boa antecipação do que se preparava para acontecer nessa noite no Marco Zero, o epicentro da geografia e, por afinidade, da cultura do Recife e de Pernambuco. Depois do final da tarde, centenas de milhar de pessoas invadiram o bairro antigo para serem felizes, para dançarem como se nunca tivessem dançado, para rirem como se tivessem esperado, para se abraçarem como se despedissem para longas ausências.

rosto carnaval

E difícil descrever o que é o Carnaval no Recife. Por causa dos semblantes, do movimento, da forma como se dança, sem dúvida. Mais ainda por causa da impossibilidade de descrever tantos odores, de queijo coalho na prancha, das espetadas, do suor, da maconha, do esgoto fugaz mas insistente. Ou da música, do som dionisíaco das orquestras de frevo, do estilo forró que sai dos palcos, do maracatu que cruza as ruas ou dos trios ou quartetos de homens tisnados do sol que vêm do interior apenas para tocar numa esquina do carnaval. Como de Bosco, que veio do Lajedo com o seu grupo de bombo, caixa, flauta e pratos para colonizar uma esquina com aquele ritmo irresistível da miscigenação cultural do Brasil. Após tantas dimensões impenetráveis do Carnaval do Pernambuco fica uma certeza: é um dos maiores festivais de World Music do mundo.

Foram quase três horas de concerto no palco grande, no Marco Zero, onde passaram cantores indígenas e anónimos e pernambucanos conceituados como Lenine – Elba Ramalho não é pernambucana de nascimento, mas foi adoptada e por lá passou também. Mas se na sua órbita gravitavam os corpos em movimento de milhares de pessoas, a quintessência do Carnaval recifense passava-se nas ruas do interior do bairro primordial da cidade. Era lá que esse enorme caos controlado melhor se expressava. Grupos de jovens em correria, homens e mulheres de idade provecta, crianças, pretos, brancos, pardos e de todas as outras tonalidades do Brasil, rapazes que carregavam caixas de esferovite com cerveja e outras bebidas frescas, pobres que apanhavam as latas ou as garrafas plásticas do chão, mascarados ou anódinos, o enorme torvelinho do Carnaval fazia ali todo o sentido no seu aparente caos.

E porquê? Porque, talvez, tudo aquilo era colado por uma cultura que todos partilham e um estado de espírito que todos comungam. Uma obrigação voluntária, passe o contra-senso. É difícil entender esse Carnaval porque se nota que se incrustou nas pessoas que, como uma criança com os seus quatro anos que integrava um dos blocos de maracatu, batem nos tambores desde que são o que são. Aos de fora, não há muita oportunidade para perceber tanta música, tanta gente, tanto odor, tanto riso e tanta paixão. O melhor mesmo é seguir o bloco, deixar-se guiar pelo frevo e reconhecer ao menos que aquela é uma festa que sublinha a felicidade e tudo o que há de melhor do género humano.

pífano carnaval

Candice Swanepoel adora maracatu e quer um filho como tu brasileirinho

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Clique na foto para ampliar

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Candice Swanepoel é uma apaixonada da cultura brasileira, e fala fluentemente português. Adora o nosso folclore, inclusive o Maracatu, dança, música e canto do povo, perseguido pelo governo e a justiça de Pernambuco.

Ama tanto o Brasil, tão desamado pelos corruptos cinco poderes, que quer ter um filho brasileiro.

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Candice, também famosa pela sua barriguinha negativa, quer um filho da Pátria Amada Brasil

Candice, também famosa pela sua barriguinha negativa, quer um filho da Pátria Amada Brasil

Candice  (Mooi River, 20 de outubro de 1988) é uma modelo sul-africana  e angel da Victoria’s Secret. Candice começou sua carreira aos 15 anos quando foi descoberta numa feira da ladra em sua cidade natal, Mooi River. Foi capa de revistas como a Vogue e a Elle.

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Segundo a revista Forbes, Swanepoel foi em 2010 a 10ª modelo mais bem paga do mundo, com um ganho anual estimado em 3 milhões de dólares.

Em 2011, Candice teve seu grande destaque na Victoria’s Secret, sendo rosto de várias campanhas da empresa e abrindo o desfile da marca, que é assistido por milhões de pessoas no mundo inteiro.

Em 2012 a modelo posou nua para revista “Muse Magazine“, fotografada por Mariano Vivanco.

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Foto de Mario Vivanco

Foto de Mariano Vivanco

“Estupro cultural” proibir maracatu

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Inacreditável, o maracatu que, recentemente (vide link), foi reportagem internacional, vem sendo perseguido pela polícia do governador Eduardo Campos.

Nenhum desses artistas, contratados pelo governo do Estado e prefeituras, para cantar, tocar e dançar no carnaval de Pernambuco, tem o valor artístico-cultural do maracatu.

Informa o maestro Siba: Nesta próxima quarta feira, dia 5 de fevereiro, os Maracatus de Baque Solto de Nazaré da Mata estão intimados a comparecer a uma audiência na sala da Promotoria de Justiça de Pernambuco.

O documento de intimação, ao qual tive acesso, não discrimina o motivo, mas diz-se que tem a ver com a proibição, em plena aplicação na região, dos Maracatus de Baque Solto realizarem festa até o amanhecer do dia.

O assunto rima com o “Carnaval Cinderela” que deve parar às 2 horas [da madrugada], anunciado em breve para o Recife.

Na Mata Norte, a arbitrariedade atinge em cheio uma tradição secular que representa as pessoas mais pobres.
Compartilho a primeira matéria a que tive acesso até agora, que trata do fato acontecido na festa da Cambinda Brasileira, onde estive presente.

Tenho acompanhado muito de perto o problema na região, e posso facilmente classificar o que se passa em Nazaré da Mata e cidades vizinhas como um “Estupro Cultural”.

Siba transcreve a seguinte notícia do blogue de Josué Nogueira:

No Facebook, produtores culturais, artistas e pessoas ligadas às artes denunciam que a Polícia Militar terminou a festa de 96 anos do maracatu Cambinda Brasileira, na madrugada deste domingo (03.02).

Afirmando que cumpriam uma lei que determina o silêncio a partir das 2h, PMs foram até o Engenho Cumbe, em Nazaré da Mata, no meio do canavial, e puseram fim às comemorações.

Símbolo máximo da cultura do corte da cana e sempre explorado pelo marketing do carnaval do estado, o maracatu e seu cortejo real estão sob a mira de uma lei que condena uma manifestação secular cuja tradição é promover a sambada até o dia raiar.

Sobre o assunto a coluna Diario Urbano (Diario) deste domingo traz comentário sobre a tal proibição de shows e eventos culturais depois das 2h da manhã.

Assinada pelo jornalista André Duarte, o texto informa que não há lei alguma sobre o tema e sim um “entendimento” não justificado nem assumido pelo poder público.

A coluna enfoca o carnaval do Recife em cujas novas “regras” está o limite das 2 horas. Mas, como se viu no caso do Maracatu Cambinda Brasileira, a ordem é estadual.

Quer dizer, a secretaria de Defesa Social está seguindo uma política em vigência em Pernambuco – não importam as exceções como o respeito e a preservação das tradições.

É preciso que o estado e o Ministério Público – a quem se atribui a tal determinação – justifique a apresente o embassamento legal para a medida.

Confira a coluna Diario Urbano:

Continua mal explicada a determinação de encerrar as apresentações do Carnaval do Recife às 2h. Anunciada como resultado de acordo entre órgãos públicos e influenciada por uma suposta recomendação do Ministério Público, a medida falta em detalhes e carece de justificativa consistente. Se, em tese, a prefeitura não teria nenhuma vantagem política em limitar o horário dos shows e desfiles de blocos, ainda cabe explicar o porquê da restrição, que futuramente pode atingir os polos afastados do Marco Zero, sobretudo os da periferia, abrindo um precedente preocupante para um evento que ainda levanta o estandarte democrático. A violência não foi apresentada, até o momento, como motivação para o fechamento dos palcos na alta madrugada.  A única recomendação do Ministério Público que se tem notícia sobre o tema diz respeito às prévias carnavalescas, mas não especifica horários ou locais em que o som deve ser desligado mais cedo. O documento, expedido em dezembro no ano passado, tinha intenção de coibir a poluição sonora e a degradação do patrimônio público no entorno dos desfiles dos blocos, mas não cita o Bairro do Recife ou qualquer outro polo descentralizado da festa. A programação oficial deste ano revela que, na prática, os horários dos shows não mudaram muito em relação ao ano passado, o que deixou a questão ainda mais confusa e esquentou o debate nas redes sociais, onde a festa já é chamada de “carnaval da Cinderela”. O fato é que nenhum integrante do grupo de trabalho responsável pela nova agenda da festa quis passar recibo. Procurada na última sexta-feira, a assessoria da Fundação de Cultura do Recife informou que apenas a Secretaria de Defesa Social (SDS) poderia se manifestar, já que a determinação teria partido de uma reunião sobre o Pacto Pela Vida. Já a SDS repassou a querela para a Polícia Militar, que, por sua vez, alegou que apenas cumpre as deliberações da Prefeitura do Recife e dos órgãos de defesa social que integram o grupo. O Ministério Público não tinha localizado nenhuma recomendação específica sobre limite de horário no carnaval.

 

 

Pernambuco: Maracatu feminino se prepara para o Carnaval

por Ivan Maurício/ O Nordeste.com

Em Nazaré da Mata, a terra dos maracatus, a 65 km de Recife (capital de Pernambuco) mulher não tinha vez. No carnaval, elas só podiam observar a típica dança masculina. Tudo mudou a partir de 2004, quando a Associação das Mulheres de Nazaré da Mata, a Amunam quebrou um tabu e criou o grupo Maracatu Coração Nazareno – o primeiro feminino do gênero no mundo

maracatu feminino

No espaço montando na parte interna da Associação das Mulheres de Nazaré da Mata – Amunam, na Zona da Mata de Pernambuco, elas pintam e bordam ajustando todos os detalhes do maracatu. As roupas coloridas começam pouco a pouco a ganhar forma para ir às ruas nos festejos de momo. O Maracatu de Baque Solto Coração Nazareno é composto especialmente por mulheres, as quais produzem as próprias indumentárias para Carnaval.

Em Nazaré da Mata, a terra dos maracatus, a 65 km de Recife (capital de Pernambuco) mulher não tinha vez. No carnaval, elas só podiam observar a típica dança masculina. Tudo mudou a partir de 2004, quando a Associação das Mulheres de Nazaré da Mata, a Amunam quebrou um tabu e criou o grupo Maracatu Coração Nazareno – o primeiro feminino do gênero no mundo. A estréia oficial foi realizada no ano seguinte no Encontro de Maracatus na Cidade Tabajara em Olinda.

A vez da mulher

De meninas de sete anos a senhoras de setenta anos, mulheres de todas as faixas etárias apresentam a mesma alegria nos encontros para se preparar para as apresentações e garantir a continuidade desse folguedo popular para as novas gerações.

Nas oficinas de arte, elas confeccionam toda a fantasia e adornos para o desfile de maracatu, com predominância da cor rosa nas roupas, no estandarte e até nas perucas. Um dos desafios das mulheres foi confeccionar roupas um pouco mais leves, porque alguns acessórios, como os dos guerreiros dos maracatus costumam pesar até 30 quilos. Elas conseguiram diminuir para 16 kg, sem descaracterizar a vestimenta.

Pregando lantejoulas e outros adereços, elas discutem as chamadas “loas”, composições poéticas geralmente curtas, que levam o público a refletir por meio de versos sobre cidadania, gênero e violência. O canto entoado no carnaval expressa a memória local influenciada pela cultura africana.

“O Maracatu Coração Nazareno é umas das formas que a Amunam encontrou para levar a delicadeza, a leveza, feminilidade e a fortaleza da mulher a um ambiente masculino”, afirma a coordenadora Eliane Rodrigues. “É uma forma de elas se tornarem agentes culturais e também de contribuir com o orçamento doméstico, confeccionando indumentárias ou com os cachês das apresentações artísticas”.

UMA NOITE DE MARACATU NA MATA

por MANUEL CARVALHO

Foto Dayvid Saborido

Foto Dayvid Saborido

 Marcos Michael/Reuters

Marcos Michael/Reuters

A princípio de forma tímida, depois com cada vez maior nitidez, um barulho de fundo vai-se impondo na noite de Nazaré da Mata e releva para segundo plano os versos do coco cantado no palco pelos mestres emboladores Zé Sebastião e Papa Cupim. Uns metros acima, o maracatu de Tracunhaém prepara-se para entrar em cena, os seus cabocos de lança parecem já possuídos pelo demónio e a corte já está rendida a uns passos de dança indiferentes à falta de ritmo da música de uma trompete, uma trompa e uma boa dezena de bombos. Genilson, o Rei-Amor do maracatu, mentor, mestre, chefe, dirigente, organizador do seu “batalhão”, vai cumprimentado os curiosos à sua volta, manda posicionar os caboclos de lança, organiza a corte, situa o estandarte, orienta os reis e toda aquela fanfarra de cor, música e loucura desce rua abaixo em direcção ao palco.

É difícil descrever o que é o maracatu sem o conhecer a fundo e sem o experimentar ano após ano, carnaval após carnaval. Para um estreante, define-se como uma algazarra festiva, hedonista e caótica, com uma marca cultural muito mais próxima das heranças dos escravos das senzalas do que dos legados europeus das casas grandes. No centro do maracatu estão os reis e a rainha, que empunha uma boneca negra, a Calanga, que invoca o vudu e o candomblé. À sua volta dança a corte, uma dezena de mulheres de várias idades com vestidos compridos que fazem rodopiar com passos de dança. Atrás segue o porta-estandarte, os músicos e, finalmente, a defender todo o grupo estão os caboclos de lança, com as suas cabeleiras de fitas brilhantes, as suas golas onde chegam a caber 66 mil missangas e lantejoulas, os seus chocalhos e as suas lanças decoradas.

Habituados ao maracatu, as poucas centenas de pessoas que aguardavam o grupo de Tracunhaém pouco alteraram a sua pose. A maioria sentava-se no muro ou nas escadas do anfiteatro, outros encostavam-se às carracas da cerveja e assim continuaram quando o troar dos tambores e a agitação demoníaca dos caboclos irrompeu pelo espaço. Não admira. Em Nazaré da Mata há mais de 30 grupos que envolvem umas mil pessoas. Por toda a zona da mata de Pernambuco (a zona de transição entre o Litoral e o Agreste, que por sua vez prenuncia o Sertão), o maracatu é uma tradição sólida, animada pelos cortadores da cana, pelas pessoas simples dos bairros, mas cada vez mais sustentada pelas novas gerações que aí vêm um forte símbolo da sua identidade nordestina.

Mestre Genilson subiria ao palco a declamar as suas sambadas (cada quadra dura 30 segundos ou pouco mais e nesse tempo o maracatu pára e o grupo escuta), e por uma hora a alteração entre a poesia popular e o ritmo desvairado do maracatu e dos caboclos continuaria. Estamos a um mês do Carnaval de Recife, que fica a 70 quilómetros, e os preparativos para a grande festa que reúne milhares de grupos de maracatu, sejam de baque solto de raiz rural (caso do de Tracunhaém) ou de baque virado (mais urbano, ritmado e dançável) estão já em grande velocidade. Nesses grandes momentos, os membros do maracatu têm de praticar abstinência sexual durante sete dias antes dos desfiles e quando envergarem a gola que pesa dezenas de quilos poderão beber um pouco de azougue, bebida energética que, segundo dizem, chega a levar pólvora.

Após os versos, o caos furioso dos caboclos, das danças, da exuberância colorida das golas e dos vestidos, o grupo prepara-se para terminar a sessão. Estão suados, as golas custam a acarretar, os movimentos desatinados custam energia. Nazaré da Mata despede-se deles sem grande clamor. Algumas famílias preparam a retirada, alguns homens despedem-se do maracatu imitando o devaneio dos gestos dos caboclos. Em breve, o Coco Popular de Aliança, liderado pela sua estrela, o mestre Biu do Coco, tomaria conta dos acontecimentos. A hora era de fazer a festa e de dançar e os nordestinos sabem como muito poucos em todo o mundo a fórmula ideal para o conseguir.

Ouça o som do Maracatu nas imagens de Nelson Garrido.

 Encontro de Maracatus em Nazaré da Mata (vídeo)
maracatu

Antonio Maria

Bola no fotógrafo
.
por Urariano Mota
Antonio Maria

Antonio Maria

A memória da gente anda muito esquecida. Quase ninguém lembrou os 88 anos do nascimento de Antonio Maria. Se em toda a grande e média imprensa nada se disse, não foi por falta da importância de um certo Antonio Maria, que se apresentava como “cardisplicente”, mistura de doente do coração com displicente. E tanta coisa havia e há para falar sobre ele!

Nascido no Recife em 17 de março de 1921, se apenas fosse compositor, deveria ter merecido registros e especiais no rádio, na televisão e nos jornais. Autor de 62 músicas, de canções eternas como Frevo número 1, Ninguém me ama, Manhã de carnaval, Menino grande, Suas mãos, O amor e a rosa, Valsa de uma cidade, e, de passagem, digamos assim, autor desta vã promessa, “nunca mais vou fazer o que o meu coração pedir, nunca mais ouvir o que o meu coração mandar”, haveria muito o que falar sobre esse compositor de letras que são a ternura em quintessência.

Num coluna de revistas de curiosidades e fofocas, poderia ser dito que foi marido de Danuza Leão, roubada por ele do seu patrão, o grande jornalista Samuel Wainer. E que, ao receber o troco mais adiante, ficando só, morreu de fossa e de amor, em uma madrugada três e cinco, talvez. Que feio, grande e gordo, conquistava mulheres pelo poder da lábia e da inteligência. Que foi ameaçado por Sérgio Porto (sim, o Stanislaw), por ter servido de conselheiro sentimental a uma namorada de Sérgio. E que ao se apresentar como Carlos Heitor Cony a uma madame, levou-a para a cama, para depois contar ao verdadeiro Heitor, “Cony, você broxou”. 

Mas ele poderia ter sido lembrado, reverenciado, e lido principalmente por suas crônicas, que estão entre as maiores e melhores já escritas no Brasil. Suas crônicas, quase dizia, suas mãos, misturam humor, crueldade e lirismo, a depender dos dias e da sua vida, que não eram iguais, para ele ou para ninguém. Como neste perfil arguto de Aracy de Almeida: 

“Não é bonita, sabe disso e não luta contra isso. Não usa, no rosto, baton, rouge ou qualquer coisa, que não seja água e sabão. Ultimamente corta o cabelo de um jeito que a torna muito parecida com Castro Alves… Faz de cada música um caso pessoal e entrega-se às canções do seu repertório como quem se dá um destino. Não sabe chorar e não se lembra de quando chorou pela última vez. Mas a quota de amargura que traz no coração, extravasa nos versos tristes de Noel: `Quem é que já sofreu mais do que eu?/ Quem é que já me viu chorar?/ Sofrer foi o prazer que Deus me deu´… e vai por aí, sem saber para onde, ao frio da noite, na espera de cada sol, quando o sono chega, dá-lhe a mão e a leva para casa”

Ou aqui, dias antes de morrer:

“Há poucos minutos, em meu quarto, na mais completa escuridão, a carência era tanta que tive de escolher entre morrer e escrever estas coisas. Qualquer das escolhas seria desprezível. Preferi esta (escrever), uma opção igualmente piegas, igualmente pífia e sentimental, menos espalhafatosa, porém. A morte, mesmo em combate, é burlesca…

Só há uma vantagem na solidão: poder ir ao banheiro com a porta aberta. Mas isto é muito pouco, para quem não tem sequer a coragem de abrir a camisa e mostrar a ferida”.

E por fim aqui, nestas considerações sobre o sono:

“** Ah, que intensos ciúmes, no passado e no futuro, sobre a nudez da amada que dorme! Só você a viu, só você a verá assim tão bela!

** Nas mulheres que dormem vestidas há sempre, por menor que seja, um sentimento de desconfiança.

** A amada tem sob os cílios a sombra suave das nuvens.

** Seu sossego é o de quem vai ser flor, após o último vício e a última esperança.

** Um homem e uma mulher jamais deveriam dormir ao mesmo tempo, embora invariavelmente juntos, para que não perdessem, um no outro, o primeiro carinho de que desperta.

** Mas, já que é isso impossível, que ao menos chova, a noite inteira, sobre os telhados dos amantes”

A boa memória conta que Antonio Maria exclamava no rádio, ao ver um jogador chutar fora do gol: Bola no fotógrafo!.Nesse último 17 de março, para a mídia que não o lembrou, também vale dizer: bola no fotógrafo.
(Publicado no Literário)
 

Frevos de Antonio Maria

am 1

Ai, ai, saudade
Saudade tão grande
Saudade que eu sinto
Do Clube dos Pás, dos Vassouras
Passistas traçando tesouras
Nas ruas repletos de lá
Batidas de bumbo
São maracatus retardados ‘
Que voltam pra casa cansados
Com seus estandartes pro ar
Quando eu me lembro
O Recife tá longe
A saudade é tão grande
Eu até me embaraço
Parece que eu vejo
O Haroldo Matias no passo
Valfrido e Cebola, Colasso
Recife tá perto de mim
Saudade que eu tenho

São maracatus retardados
Que voltam pra casa cansados
Com seus estandartes pro ar

 

.

 

antonio-maria

.

Ai que saudade vem do meu Recife
Da minha gente que ficou por lá
Quando eu pensava, chorava, falava
Dizia bobagem, marcava viagem
Mas não resolvia se ia
Vou-me embora
Vou-me embora
Vou-me embora
Pra láMas tem que ser depressa
Tem que ser pra já
Eu quero sem demora
O que ficou por lá
Vou ver a Rua Nova,
Imperatriz, Imperador
Vou ver, se possível
Meu amor.
.
.
3
Alexandre Nix:  Antonio chutava corações – normalmente o próprio

Alexandre Nix:
Antonio chutava corações – normalmente o próprio

.
.
Sou do Recife com orgulho e com saudade
Sou do Recife com vontade de chorar
O rio passa levando barcaça pro alto mar
E em mim não passa essa vontade de voltarRecife mandou me chamarCapiba e Zumba a essa hora onde é que estão
Inês e Rosa em que reinado reinarão
Ascenso me mande um cartão
Rua antiga da Harmonia
Da Amizade, da Saudade, da União
São lembranças noite e dia
Nelson Ferreira toque aquela introdução.
.