Improviso de Manuel Bandeira para Vinicius de Moraes

SONETO DO AMOR TOTAL
por Vinicius de Moraes

.

Amo-te tanto, meu amor… não cante
O humano coração com mais verdade…
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade

Amo-te afim, de um calmo amor prestante,
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente,
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim muito amiúde,
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.

 

poetas

IMPROVISO
de Manuel Bandeira

.

Marcus Vinícius
Cruz de Moraes
Eu não sabia
Que no teu nome
Tu carregavas
A tua Cruz
De fogo e lavas
Mas não sabia
Que fosses Marcus
Marcus Vinícius
Cruz de Moraes
(Melo também)
De Cruz a Cruz
Eu te saúdo!

 

 

—-
Vários livros publicam o primeiro nome Marcus Vinitius da Cruz e Mello Moraes.

O poetinha, quando tinha nove anos, fez a mudança em cartório. E o tabelião, a devida anotação: “Leia-se Vinicius de Moraes”.

O poema de Bandeira foi sacanagem de amigo, como foi o apelido “Poetinha”, nas farras com Antonio Maria.

Portanto, o nome artístico e oficial é um só: Eternamente Vinicius de Moraes (T.A.)

Carlos Drummond de Andrade canta Manuel Bandeira

POÉTICA
Manuel Bandeira

.

Estou farto do lirismo comedido
do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente protocolo e manifestações de apreço ao Sr. Diretor

Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo

Abaixo os puristas

Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis

Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo.
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes maneiras de agradar as mulheres, etc.

Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbados
O lirismo difícil e pungente dos bêbados
O lirismo dos clowns de Shakespeare

– Não quero saber do lirismo que não é libertação.

manuel_bandeira_violao
ODE NO CINQÜENTENÁRIO DO POETA BRASILEIRO
de Carlos Drummond de Andrade

.

Esse incessante morrer
que nos teus versos encontro
é tua vida, poeta,
e por ele te comunicas
com o mundo em que te esvais.

Debruço-me em teus poemas
e neles percebo as ilhas
em que nem tu nem nós habitamos
(ou jamais habitaremos)
e nessas ilhas me banho
num sol que não é dos trópicos,
numa água que não é das fontes
mas que ambos refletem a imagem
de um mundo amoroso e patético.

Tua violenta ternura,
tua infinita polícia,
tua trágica existência
no entanto sem nenhum sulco
exterior – salvo tuas rugas,
tua gravidade simples,
a acidez e o carinho simples
que desbordam em teus retratos,
que capturo em teus poemas,
são razões por que te amamos
e por que nos fazes sofrer…
Certamente não sabias
que nos fazes sofrer…

(…)

Não é o canto da andorinha, debruçada nos telhados da Lapa,
anunciando que tua vida passou à toa, à toa.
Não é o médico mandando exclusivamente tocar um tango argentino,
diante da escavação no pulmão esquerdo e do pulmão direito infiltrado.
Não são os carvoeirinhos raquíticos voltando encarapitados nos burros velhos.
Não são os mortos do Recife dormindo profundamente na noite.
Nem é tua vida, nem a vida do major veterano da guerra do Paraguai,

(…)

és tu mesmo, é tua poesia,
tua pungente, inefável poesia,
ferindo as almas, sob a aparência balsâmica,
queimando as almas, fogo celeste, ao visita-las;
é o fenômeno poético, de que te constituíste o misterioso portador

(…)

Que o poeta nos encaminhe e nos proteja
e que seu canto confidencial ressoe para consolo de muitos e esperança de todos,
os delicados e os oprimidos, acima das profissões e dos vãos disfarces do homem.
Que o poeta Manuel Bandeira escute este apelo de um homem humilde.

 

 

DITADURA DO DIALETO GLOBAL INVADE CULTURA NORDESTINA

por Gilberto Prado
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

“Atirei o pau no ga-to-tô, mas o gato-to-tô, não morreu-rreu-rreu. Dona Chi-cá-cá, admirou-ssé-ssé com o miau, o miau, que o gato deu”…
Quando criança, cantava assim. Soltava uma bela gargalhada infantil (contava minha mãe) após o grito final:
– Miau!!!
Hoje, se o tempo retroagisse, não poderia fazer o mesmo. Os “pacotes” de CDs vindos do Centro-Sul acabaram com o “miau”. Dona Chica-cá agora se admira do “berrô” que o gato deu”.
O pobrezinho do gato deixou de miar. Sequer “berra” feito cabrito. Dá “berrô”. Conforme as crianças que trocaram o carinhoso “mãínha” pelo “mãê”.
Um pouco mais crescido, “empinava papagaio” pelos descampados do então bucólico bairro da Estância.
A vida campestre da querida Estância, no entanto, desapareceu. Foi transformada em “selva de pedra”. O progresso levou seu romantismo. Para complementar, lá não mais se “empina papagaio”.
Uma ditadura dialética jogou meu papagaio fora. Agora “soltam-se pipas”.
Já perto da adolescência, meu pai, presenteou-me com uma bicicleta. Atualmente não mais faria isso.
Dar-me-ia uma “bike”.
E assim a partir dessa ditadura de sotaque, nossa cultura começa a ser agredida. Principalmente depois da televisão. Uma agressão progressiva à nossa Região.
por Gilberto Prado
Estão tirando, por exemplo, o “ó” aberto de Olinda. Na televisão é “Ôlinda”.
Colocaram um “chapeuzinho” no “é” de Petrolina. Os locutores falam diretamente de “Pêtrolina”. Inclusive os nativos.
Mais grave se torna a agressão quando chega a nossa literatura histórica, com o aval de supostos órgãos culturais.
Na homenagem feita ao compositor,  jornalista e radialista Antônio Maria, em trecho do “Frevo Número 2 do Recife”, lê-se: “(…) parece que vejo Valfrido Cebola no passo, Haroldo Matias, Colaço”…
Ora, não é “Haroldo Matias”, como está escrito no monumento sob a (ir)responsabilidade da Prefeitura. Na Rua do Bom Jesus. É Haroldo “Fatia”, apelido do inesquecível radialista Haroldo Praça cuja memória é homenageada pelo autor e desrespeitada pela Fundação de Cultura (?) Cidade do Recife.
No outro lado do Rio, na Praça da República, um monumento consegue, no lugar de homenagear, vilipendiar uma das mais belas obras do poeta Augusto dos Anjos: “As cismas do destino”.
Logo no início.
“Recife. Ponte Buarque de Macedo.
Eu, indo em direção à casa do Agra,
Assombrado com a minha sombra magra,
Pensava no Destino e tinha medo!”
Ora, o poeta paraibano, adepto da temática sobre a morte, nunca se dirigiu essa tal “casa do Agra”. Seu destino era a Casa Agra, funerária famosa existente na Rua do Imperador. Apenas uma preposição – do – tira o sentido da obra.
O equívoco é agravado no fato de estar oficializado por um órgão cujo rótulo é de cultura. Municipal ou Estadual.
Explicando melhor:
O então estudante de Direito Augusto dos Anjos assustou-se com o seu físico (magro), através da sombra. Lembrou que o seu caminho (destino) o levava a uma funerária e ficou com medo. Medo da morte.
Um detalhe:
Considerando o sotaque nordestino, fosse correto o acréscimo da preposição do editor, certamente sulista, o poeta paraibano iria à “casa de Agra”, com “dê-é-dé”, e nunca “à casa do”, com “dê-o-dó”.
Daí, embora levado pelo sentimento, não estranhar o abandono do Cine Teatro do Parque, com tanta história na cultura recifense.
O mais grave é que, a distância, apenas vejo um vereador se movimentando pela preservação do Parque, através de retórica. Nenhum sentido prático.
No outro lado, um silêncio provavelmente estratégico sobre o assunto, por parte dos grupos teatrais.
Principalmente os chamados promotores culturais que falam alto para pedir verbas, algumas desprovidas de lisura. Por isso não deve ser ser boa política irritar os setores públicos, supostamente comprometidos com o mundo das artes.
O poeta Manuel Bandeira, na sua “Evocação do Recife”, exaltava os nomes das ruas do Recife (da Aurora, da União, do Sol…) e o seu temor de uma delas passar a se chamar “Rua Doutor Fulano de Tal”.
Peço licença para ampliar esse temor do poeta com referência ao Parque.
Não duvido se um dia vou ler notícia sobre a implosão do velho teatro para transformá-lo em Igreja Universal de Edir Macedo.

Vou-me embora pra Pasárgada

de Manuel Bandeira

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconsequente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada


Veja vídeo. Com recital do poeta