A triste infância de Zila Mamede

SONETO TRISTE
PARA MINHA INFÂNCIA
por Zila Mamede

 

De silêncios me fiz, e de agonia
vi, crescente, meu rosto saturado.
Tudo de mágoa e dor, tudo jazia
nos meus braços de infante degredado.

Culpa não tinha a voz que em mim nascia
pedindo esses desejos – sonho ousado
por onde o meu olhar navegaria
de cores e de anseios penetrado.

Buscava uma beleza antecipada
– a condição mais pura de harmonia
nessa infância de medos tatuada,

querendo-me em beber de inacabada
procura que, em meu ser, superaria
a minha triste infância renegada.

 

zila
A POESIA ABSOLUTA
por Talis Andrade

 

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No corpo a corpo
com a vida
o telefone/bar
/o tango
Zila se ausenta
como quem morre
sob os olhos atentos
da mãe costurando

No corpo a corpo
com a poesia
o exercício da palavra
arado cultivadeira
rompe veios morde chão
rompe campos de salinas
para o plantio de um verbo novo

No corpo a corpo
com a poesia
a colheita da rosa
a rosa de pedra
desencantada
encantada rosa

No corpo a corpo
com a poesia
a esperada presença
de um anjo
um secreto amor
acorde o sono
No corpo a corpo
com a morte
desvelado o véu
de noiva
a face tranqüila
bordada de sombras
para a posse
do sonho oceânico
o mar absoluto
(evi)ternamente
conquistado

No corpo a corpo
com o mar azul
Zila se ausenta
os cabelos de musgo
lavados de espumas
por navegos caminhos
ao célico encontro
de Auta de Souza
e Santa Tereza
irmãs na pureza
no amor místico
que os amores terrenos
ficaram como segredos
de Bandeira e Sanderson
irmãos na poesia

 

O menino Manuel Bandeira, o gordo Antônio Maria, o magro Willy Lewin, uma constelação em tríade na Rua da União

NINGUÉM ME AMA
Antônio Maria
e Fernando Lobo

.

Ninguém me ama, ninguém me quer
Ninguém me chama de meu amor
A vida passa, e eu sem ninguém
E quem me abraça não me quer bem

Vim pela noite tão longa de fracasso em fracasso
E hoje descrente de tudo me resta o cansaço
Cansaço da vida, cansaço de mim
Velhice chegando e eu chegando ao fim

 

 

 Rua da União, n º 263, Recife. Casa do avô de Manuel Bandeira, onde o poeta passou a infância

Rua da União, n º 263, Recife. Casa do avô de Manuel Bandeira, onde o poeta passou a infância

 

RUA DA UNIÃO
J. Gonçalves de Oliveira

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Na rua da União,
criaturas existiram
e existem na direção
intemporal dos espíritos.

Bandeira (Manoel menino),
o gordo Antônio Maria,
o magro Willy Lewin,
uma constelação em tríade.

Entre cantatas de Bach
que Tombinha dedilhava
ao piano familiar,
outra música ansiava.

Aquela de ritmo atávico
no sangue, já imaginada,
do poeta que mais tarde
em belas canções cantava.

Um Essenfelder havia,
sempre aberto e conivente,
sorrindo antecedências
nas mãos de Antônio Maria.

Sensitiva parceria,
Fernando Lobo dizia,
nesse tempo, certo e ancho:
foi coisa de amor eu apronto.

É que ele também sabia
partilhar toda a sintaxe
da coisa amada e eivada
de existências eletivas.

São dessas metamorfoses
lúcidas que sobrevivem
a cidade, sua memória
que nem mesmo o tempo elide.