ANTE O ROSTO DE CRISTO

Vitral de igreja

Vitral de igreja

ANTE O ROSTO DE CRISTO
por Marcos Konder Reis

.

Senhor,
Teu rosto ri?
Teu rosto chora?
Nós não sabemos mais nem ri nem chorar,
Porque não olhamos mais a tua face.

Senhor,
O mundo pensa poder esquecer-te
Mas teu rosto luminoso permanece.
Teu rosto de homem,
Teu rosto de Deus.

Teus olhos que compreendem e que exigem,
Teus lábios que beijam e que comandam,
Teu choro que salva,
Teu riso que arrasta,
Teu rosto que é força,
Que deslumbra e é sol da madrugada sem fim nas fronteiras do universo
E é luar nas clarabóias do segredo,
Que entontece e é nebulosa vertigem de gozo eterno;
Que fataliza e é grito de fanfarra…
Ah! Sou um dos fatalizados do teu rosto!

Quero ser teu orador no cume do Everest,
Quero ser teu guerreiro nas planícies sem horizontes,
Quero ser teu mártir no Cruzeiro do Sul,
Mas sempre teu poeta na cidade do mundo.

Teu rosto, Senhor, é um rosto assim:
Faz a gente berrar a maldição
Para todos que não te amam.

E agora, quando vou saltar no trapézio,
Quero, Senhor,
Que teu rosto fique sempre no meu rosto
E é só.

.

A MARCOS KONDER REIS
por Lúcio Cardoso

.

Que espécie de morte, a desejada, a altiva,
a morte acontecida do inocente?
A morte.
Sem leite humano a fervilhar na taça,
sem taça em brinde a levantar.
Sem fel.
As mãos tratadas
de enormes abandonos consentidos.
As mãos.
Deus meu, e todo amanhecer assim
amanhecido. O retorcido cáctus
acontecido.
Quem foi? Por quê? O dia aonde?
Nada adianta. Milhões de areias,
de consentimentos e de fel.
O acontecer.

.

Quando publiquei estes dois poemas em 3/5/2005, no nosso blogue Jornalismo de Cordel, no Comunique-se, fiz o seguinte comentário:

1) Konder, celebrado poeta da Geração de 45, anda esquecido pela crítica. Principalmente depois que Ricardo Oiticica, em sua tese de doutorado “O Instituto Nacional do Livro e as ditaduras – Academia Brasílica dos Rejeitados”, revela que em 1970, o Instituto Nacional do Livro passa a ser dirigido pela escritora Maria Alice Barroso. É quando começa o regime de co-edição com editoras comerciais. Para ser aceito, um livro tinha que passar pela comissão de pareceres, cujos integrantes eram Otávio de Faria, Adonias Filho e Marcos Konder Reis.

2) Segundo Oiticica, examinando as co-edições do INL, podem ser encontradas obras de valor. “Mas isso é secundário quando se vê que a maioria das obras era de acadêmicos da Academia Brasileira de Letras e, entre os vetados pela censura, encontravam-se pessoas da linha de frente da produção literária contemporânea, como João Ubaldo Ribeiro, Clarice Lispector, Sérgio Santana, Luís Carlos Maciel, Jorge Maltner, Moacir Scliar, Paulo Coelho, Helena Parente Cunha e Flávio Moreira da Costa”. In Jornal da PUC-Rio.

És claridade prato de amor deixado à minha porta

TERCEIRO POEMA DE CARNAVAL
por Walmir Ayala

Nublado estou de ti. Os curtos dias
rodam cheios de sombra, e és claridade
prato de amor deixado à minha porta
com plumagem precoce e rude garra.

E me nublas. Promessa anunciada
em meu escuro sonho decepado,
sangue a fluir direto da ferida,
inesperado. Nublas meu gemido.

E a visão que te vejo, anjo nublado,
é como atrás de um vidro estar chovendo
e estares deste lado me cobrindo

com largas mãos os olhos ansiosos
de dor, de tanto à dor andarem dados,
e teres, sem saber, me renovado.

 

Walmir Ayala

Walmir Ayala

 

A WALMIR AYALA
por Lúcio Cardoso

.

Quando Walmir florescer
esta coisa obscura,
este inseto ciente
de sua cor
e de seu fim
– quando o giro disser
este olho de ouro
este cisne
de opala a nadar
– é que o tempo
começa.
Sempre começa o tempo
nesta hora,
sempre
nesta bruma
começa. Tempo
é coisa breve.
Tempo é breve
– coisa por começar.
Se ouço, falo:
Se calo, escuto –
fala o tempo e a bruma.
Existir é recomeçar.

 

De Lúcio Cardoso

Amanhecer

A noite está dentro de mim,
girando no meu sangue.
Sinto latejar na minha boca,
as pupilas cegas da lua.
Sinto as estrelas, como dedos
movendo a solidão em que caminho.
Logo o perfume da poesia
sobe aos meus olhos trêmulos, cerrados,
ouço a música das coisas que acordam
sôbre o corpo negro da terra
e a voz do vento distante
e a voz das palmeiras abertas em raios
e a voz dos rios viajantes.

E a noite está dentro de mim.
Como um pássaro,
meu sonho ergue as asas no coração da sombra.
Ouço a musica das fiôres que tombam,
o tropel das nuvens que passam
e a minha voz que se eleva
como uma prece na planície solitária.

Então sinto a noite fugindo de mim,
sinto a noite fugindo dos homens
e o sol que avança na garupa do mar
e as nuvens curvas que enchem o céu
como grandes corcéis de fogo côr-de-rosa
desaparecendo sugados pela treva.