DITADURA DO DIALETO GLOBAL INVADE CULTURA NORDESTINA

por Gilberto Prado
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

“Atirei o pau no ga-to-tô, mas o gato-to-tô, não morreu-rreu-rreu. Dona Chi-cá-cá, admirou-ssé-ssé com o miau, o miau, que o gato deu”…
Quando criança, cantava assim. Soltava uma bela gargalhada infantil (contava minha mãe) após o grito final:
– Miau!!!
Hoje, se o tempo retroagisse, não poderia fazer o mesmo. Os “pacotes” de CDs vindos do Centro-Sul acabaram com o “miau”. Dona Chica-cá agora se admira do “berrô” que o gato deu”.
O pobrezinho do gato deixou de miar. Sequer “berra” feito cabrito. Dá “berrô”. Conforme as crianças que trocaram o carinhoso “mãínha” pelo “mãê”.
Um pouco mais crescido, “empinava papagaio” pelos descampados do então bucólico bairro da Estância.
A vida campestre da querida Estância, no entanto, desapareceu. Foi transformada em “selva de pedra”. O progresso levou seu romantismo. Para complementar, lá não mais se “empina papagaio”.
Uma ditadura dialética jogou meu papagaio fora. Agora “soltam-se pipas”.
Já perto da adolescência, meu pai, presenteou-me com uma bicicleta. Atualmente não mais faria isso.
Dar-me-ia uma “bike”.
E assim a partir dessa ditadura de sotaque, nossa cultura começa a ser agredida. Principalmente depois da televisão. Uma agressão progressiva à nossa Região.
por Gilberto Prado
Estão tirando, por exemplo, o “ó” aberto de Olinda. Na televisão é “Ôlinda”.
Colocaram um “chapeuzinho” no “é” de Petrolina. Os locutores falam diretamente de “Pêtrolina”. Inclusive os nativos.
Mais grave se torna a agressão quando chega a nossa literatura histórica, com o aval de supostos órgãos culturais.
Na homenagem feita ao compositor,  jornalista e radialista Antônio Maria, em trecho do “Frevo Número 2 do Recife”, lê-se: “(…) parece que vejo Valfrido Cebola no passo, Haroldo Matias, Colaço”…
Ora, não é “Haroldo Matias”, como está escrito no monumento sob a (ir)responsabilidade da Prefeitura. Na Rua do Bom Jesus. É Haroldo “Fatia”, apelido do inesquecível radialista Haroldo Praça cuja memória é homenageada pelo autor e desrespeitada pela Fundação de Cultura (?) Cidade do Recife.
No outro lado do Rio, na Praça da República, um monumento consegue, no lugar de homenagear, vilipendiar uma das mais belas obras do poeta Augusto dos Anjos: “As cismas do destino”.
Logo no início.
“Recife. Ponte Buarque de Macedo.
Eu, indo em direção à casa do Agra,
Assombrado com a minha sombra magra,
Pensava no Destino e tinha medo!”
Ora, o poeta paraibano, adepto da temática sobre a morte, nunca se dirigiu essa tal “casa do Agra”. Seu destino era a Casa Agra, funerária famosa existente na Rua do Imperador. Apenas uma preposição – do – tira o sentido da obra.
O equívoco é agravado no fato de estar oficializado por um órgão cujo rótulo é de cultura. Municipal ou Estadual.
Explicando melhor:
O então estudante de Direito Augusto dos Anjos assustou-se com o seu físico (magro), através da sombra. Lembrou que o seu caminho (destino) o levava a uma funerária e ficou com medo. Medo da morte.
Um detalhe:
Considerando o sotaque nordestino, fosse correto o acréscimo da preposição do editor, certamente sulista, o poeta paraibano iria à “casa de Agra”, com “dê-é-dé”, e nunca “à casa do”, com “dê-o-dó”.
Daí, embora levado pelo sentimento, não estranhar o abandono do Cine Teatro do Parque, com tanta história na cultura recifense.
O mais grave é que, a distância, apenas vejo um vereador se movimentando pela preservação do Parque, através de retórica. Nenhum sentido prático.
No outro lado, um silêncio provavelmente estratégico sobre o assunto, por parte dos grupos teatrais.
Principalmente os chamados promotores culturais que falam alto para pedir verbas, algumas desprovidas de lisura. Por isso não deve ser ser boa política irritar os setores públicos, supostamente comprometidos com o mundo das artes.
O poeta Manuel Bandeira, na sua “Evocação do Recife”, exaltava os nomes das ruas do Recife (da Aurora, da União, do Sol…) e o seu temor de uma delas passar a se chamar “Rua Doutor Fulano de Tal”.
Peço licença para ampliar esse temor do poeta com referência ao Parque.
Não duvido se um dia vou ler notícia sobre a implosão do velho teatro para transformá-lo em Igreja Universal de Edir Macedo.

Desacordo português

por Woden Madruga

língua

João Pereira Coutinho é um jornalista e escritor português que escreve, semana sim semana não, na Folha de S. Paulo. Tem espaço reservado também no Correio da Manhã, de Lisboa, um dos mais importantes jornais de Portugal. Tenho-o entre os meus cronistas preferidos. Escreve sobre tudo. Ou quase. De Shakespeare a futebol passando por Woody Allen, Saramago, Nelson Rodrigues, Darcy Ribeiro, Elias Canetti, Mário de Andrade, Lula. Na pauta: literatura, cinema, política, gastronomia. As coisas que acontecem no mundo vistas pela sua ótica crítica, polêmica às vezes, e com pitadas de fina ironia. Aqui e acolá, sarcástico. Leitura agradável, do saber e do sabor de ser bom jornalista. Algumas de suas crônicas estão reunidas no livro “Av. Paulista”, publicado pela Editora Record, em 2009, ocupando um lugarzinho bem à vista na minha estante.

Esta semana, foi terça-feira, ele  escreveu sobre o complicadíssimo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, invenção de acadêmicos que não pegou, tantas vezes adiada a sua aplicação. Era para entrar em vigor em todos os países de língua portuguesa em 2009. Não foi. Pegue adiamentos. Portugal não quer nem ouvir falar desse “acordo”. Basta ler os seus jornais ou os livros de seus escritores. Lá vale a ortografia antiga, como deveria valer aqui também. Por estes brasis já tem até  dicionários com a “nova ortografia”. Mas a sua obrigatoriedade foi adiada mais uma vez. Tem um decreto assinado pela presidente Dilma, transferindo  a coisa para 2016.

Bom, o assunto foi o tema da última coluna de João Pereira Coutinho, cujo título já diz tudo. Ou quase: “O aborto ortográfico”. Deveria ser lido por todos aqueles que gostam e são fiéis ao falar de nossa gente. Transcreverei algumas passagens do artigo, que começa assim:

– O acordo ortográfico é conhecido em Portugal como um aborto ortográfico. Difícil discordar dos meus compatriotas. Basta olhar em volta. Imprensa. Televisões. Documentos oficiais. Correspondência privada.

– Antes do acordo, havia um razoável consenso sobre a forma de escrever português. Depois do acordo, surgiram três “escolas” de pensamento. Existem aqueles que respeitam o novo acordo. Existem aqueles que não respeitam o novo acordo e permanecem fiéis à antiga ortografia.

– E depois existem aqueles que estão de acordo com o acordo e em desacordo com o acordo, escrevendo a mesma palavra de duas formas distintas, consoante o estado de espírito – e às vezes na mesma página.

– Disse três “escolas”? Peço desculpas. Pensando melhor, existem quatro. Nos últimos tempos, tenho notado que também existem portugueses que escrevem de acordo com um acordo imaginário, que obviamente só existe na cabeça deles.

Adiante, João Pereira Coutinho ressalta:

– Felizmente, não estou sozinho nestas observações: Pedro Correia acaba de publicar em Portugal “Vogais e Consoantes Politicamente Incorrectas do Acordo Ortográfico” (Guerra & Paz, 159 págs). Atenção, editores brasileiros: o livro é imperdível.”

E por aí vai o JPC. Seu artigo merece ser lido por inteiro. Precisa ser lido. É uma crítica perfeita a essa imposição e empostação acadêmica, empurrada pela goela abaixo dos patrícios brasileiros, portugueses, angolanos, cabo-verdenses, moçambicanos. Mais a gente de Timor-Leste, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, todos falando e escrevendo seu português com sotaques e cacoetes legítimos  e deliciosos. Às vezes, engraçados.

Carlos Peixoto, diretor de redação de TN, acaba de chegar de uma viagem por Portugal, o que ele faz quase todos os anos. Gentilíssimo, me trouxe de Lisboa o último livro  de Antonio Tabucchi (aliás, edição póstuma), escritor italiano que traduziu Fernando Pessoa, levando a sua poesia para a Itália. Título do livro “Viagens e outras viagens”, com o selo da Editora D.Quixote, tradução de Maria da Piedade Ferreira, a companheira do escritor.

Pois bem, já que estamos papeando sobre acordos, desacordos e abortos ortográficos, vale destacar aqui, a ressalva que a D. Quixote faz na ficha catalográfica do livro: “Por vontade expressa dos herdeiros do autor, a tradução respeita a ortografia anterior ao actual acordo”.

Aliás, nessas viagens de Antonio Tabucchi pelo mundo há uns desvios e paragens pelo Brasil. Como diria aquele meu amigo paraibano, de Cuité, “pense” num livro gostoso de ler, este do Tabucchi.

 

Coloquei o mapa como provocação. Sou pelo acordo. Admiro e sou amigo de Woden Madruga, que considero o maior cronista do Brasil da atualidade. Outro grande jornalista que é contra: Moacir Japiassu, que escreveu os principais romances sobre as “revoluções” brasileiras no século passado: a de 30, Concerto para Paixão e Desatino; e a de 64, Quando Alegre Partiste.

Curiosamente, Woden, que tem mais de meio século de crônicas diárias, teima em não publicar nenhum livro.

Janistraquis exige cadeia para assassinos do idioma

Moacir Japiassu

E vivemos partindo, ela de mim

E eu dela, enquanto breves vão-se os anos

Para a grande partida que há no fim.

(Vinicius de Moraes in Soneto de Carnaval)

 

 

 

O considerado Youssef Ibrahim, ilustre jurisconsulto, nosso correspondente no Vale do Paraíba, envia de um de seus escritórios às margens da Via Dutra:

Na hora do almoço eu ouvia a Rádio Jovem Pan AM quando um oficial PM, encarregado do comando da operação de resgate das vítimas do desabamento do prédio em São Bernardo do Campo, me solta as seguintes pérolas:

“Prédio que veio a colapsar”… e “andares que colapsaram”.

 

Ai, ai… O verbo colapsar, segundo pesquisei, ainda não tem registro na linguagem culta, mas agora, neste país em que o MEC distribui livro que “ensina” que “nóis vai e nóis pesca o peixe e nóis frita o peixe e óia o gato, e depois nóis come o peixe” é forma que não deve ser corrigida pelos professores, sob pena de traumatizar o aluno com preconceito linguístico (que cazzo será esse treco?); é de se pensar em incorporar o verbo aos manuais de Língua Portuguesa, né não?

 

Alarmado, Janistraquis gaguejou como Heródoto Barbeiro:

“Data venia, doutor Youssef, porém acho que em vez de se incorporar o verbo colapsar aos manuais, melhor seria incorporar os, digamos, usuários, às Casas de Correção espalhadas pelo país, as quais vivem ermas de assassinos do idioma.”

 

Por conta

O considerado Agenor Carvalho de Miranda, professor paulistano, envia o parágrafo inicial de artigo publicado naFolha:

SÃO PAULO – Como estou até agora respondendo a e-mails indignados por conta de minha coluna de domingo, em que procurei mostrar que a noção de alma encerra vários problemas, acho oportuno desfazer alguns equívocos mais comuns.

Miranda reprovou:

“Não é possível que um intelectual tão íntimo de almas e miasmas cometa o mesmo erro de focas e cretinos em geral! A criatura responde a e-mails indignados por conta da coluna! Refiro-me a Hélio Schwartsman, autor do lamentável texto intitulado Fé e ciência, do jornal de 15/2, que se mete a entender de tudo mas ainda não sabe a diferença entre por conta e por causa. Deveria aprender isso antes de ‘desfazer alguns equívocos mais comuns.'”

Janistraquis também não deixou barato:

“E Schwartsman é um desses que os publicitários chamam de ‘formadores de opinião’… É ou não é de lascar?!?!?!”

De membros

O considerado Hugo Caldas, amigo de infância em João Pessoa, naquele tempo em que os ministros de Estado eram pessoas decentes, pois Hugo, hoje professor de inglês no Recife, envia esta chamada de primeira página doJornal do Commercio de 15/2:

“Dilma Rousseff vai trocar cinco membros”

Hugo achou muitíssimo estranho:

“Dois braços e duas pernas perfazem quatro membros.

Qual seria o quinto? A não ser que… melhor deixar pra lá!”

 

(Transcrevi trechos)