De Leo Lobos: Três mulheres, um piano, um gato e uma tormenta

A Alexandra Keim

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É difícil ser um pássaro
e voar contra a tormenta
melhor é como um gato estar
sempre atento às brasas
cerca da chaminé
e escutar
sempre atento escutar
três línguas diferentes falarem
um idioma fascinante
misterioso e conhecido
ouvir e ir em sua música
em suas luzes e próprias
e universais sombras
fotografar
por um só segundo
fotografar com os olhos seus perfis
de ser possível
flutuar
dentro
da sala
como
um pássaro
na
tormenta

Poesia: Leo Lobos

Ilustração: Leonor Fini

.

Stella Leonardos e Cruz e Sousa

 

 

CÁRCERE DAS ALMAS

por Cruz e Sousa

.

Ah! Toda a Alma num cárcere anda presa,
soluçando nas trevas, entre as grades
do calabouço olhando imensidades,
mares, estrelas, tardes, natureza.

Tudo se veste de uma igual grandeza
quando a alma entre grilhões as liberdades
sonha e sonhando, as imortalidades
rasga no etéreo Espaço da Pureza.

Ó almas presas, mudas e fechadas
nas prisões colossais e abandonadas,
da Dor no calabouço, atroz, funéreo!

Nesses silêncios solitários, graves,
que chaveiro do Céu possui as chaves
para abrir-vos as portas do Mistério?!

 

Alma de vermelho, Leonor Fini

Alma de vermelho, Leonor Fini

.

 

EXERCÍCIO SOBRE “O EMPAREDADO”
(PROSA POÉTICA DE CRUZ E SOUSA)

por Stella Leonardos

.

Quem nega que essas pedras emparedam
– tantas e tantas pedras cumuladas –
são cúmulos de céus apedrejados,
asas de astros partidos que se empedram?

Entre as penas do pássaro apresado
e cada pedra posta sobre pedra
repercute teu solo negregado.

Com tal ritmo, metal, sonoridade,
que consegues romper paredes pétreas,
que gravas na prisão a sombra grave
de um pássaro apenado e te libertas.

a menina e o gato, o gato e a menina

por Nina Rizzi

 

 

Gato

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1.
se eu fosse um gato
o silêncio habitava
meus gestos
precisos

[uma menina olha
corre e acaricia]

que importa a metafísica
o ranger dos dentes
se eu durmo o dia inteiro

2.
não é preguiça
lá fora faz chuva
arde a lua

[a menina quer
passear
não pode gostar
de estar só
porque não conhece
o lugar do mapa]

mas gato tem que levantar
lamber o leite derramado

 

—-

Tela Leonor Fini

 

De Ivan Junqueira

E se eu disser
.
.
E se eu disser que te amo – assim, de cara,
sem mais delonga ou tímidos rodeios,
sem nem saber se a confissão te enfara
ou se te apraz o emprego de tais meios?
E se eu disser que sonho com teus seios,
teu ventre, tuas coxas, tua clara
maneira de sorrir, os lábios cheios
da luz que escorre de uma estrela rara?
E se eu disser que à noite não consigo
sequer adormecer porque me agarro
à imagem que de ti em vão persigo?
Pois eis que o digo, amor. E logo esbarro
em tua ausência – essa lâmina exata
que me penetra e fere e sangra e mata.
.
Ilustração Leonor Fini, Los Grilletes

De Dade Amorim

Intervalos de abrir a poesia

Intervalos

entre uma e outra tarefa

misturam alegria

terra presa nos sapatos

e às vezes uma surpresa inesperada.

Caem frutos maduros sobre as mãos abertas

pingos de chuva

olhares e intenções

ao longo das estradas do futuro.

Abre-se o vento pelas portas

e a pele regenerada de carícias

pode se abrir ao amor

nos intervalos entre uma e outra

das incontáveis tarefas de um dia.

Tela de Leonor Fini

O REECONTRO

por Talis Andrade

(trechos)

A mulher tropeça
pela casa
desarrumando/arrumando
antigos baús
A velha mania
de guardar suvenires
recortes de jornais
retratos cartas
servia de remanso
quando estava à beira
de um ataque de pânico

A mulher perambula
pelas salas
temendo entrar no quarto
onde o homem se tranca
tragando o silêncio
de cada cigarro
o silêncio exercitado
na solidão do cárcere


Ilustração Leonor Fini, Sultanes