Por que a morte da estudante Bruna Lino teve total descaso da reitoria da USP e a do estudante Felipe Paiva não?

Estudante do curso de Letras, Bruna Lino, 19 anos, descaso da reitoria com sua morte ficou evidente.

Estudante do curso de Letras, Bruna Lino, 19 anos, descaso da reitoria com sua morte ficou evidente.

A trágica morte da estudante, Bruna Lino, estudante do primeiro ano do curso de Letras da USP, que caiu em um fosso de um prédio em construção próximo ao Paço das Artes, no campus Butantã, não teve a menor atenção por parte da reitoria da USP e do reitor João Grandino Rodas.

A discrepância fica evidente com o fato de que a reitoria se resumiu a dizer que não tinha nenhuma responsabilidade com o local do acidente, mesmo este estando no terreno da universidade. Em nota a reitoria disse, “o prédio onde ocorreu a morte da aluna não pertence à universidade, mas sim ao Instituto Butantã”. A irmã de Bruna, Bárbara, também ressaltou o descaso total e generalizado por parte da instituição, que em tese, deveria zelar pelo bem estar de seus membros. Bárbara destacou, “estamos revoltados com o descaso em relação aos órgãos competentes. Quem é o dono do prédio, o (Instituto) Butantan e a USP? Por ser uma aluna da USP e o prédio ser frequentado por alunos da USP, (a universidade) deveria dar uma satisfação. Eu, como família, pretendo procurar advogado, qualquer tipo de pessoa que possa me auxiliar para encarar esse fato da melhor forma possível. Até agora, ninguém se pronunciou, nenhum responsável pelo prédio entrou em contato comigo. Queremos justiça”. A direção da universidade sequer prestou algum auxílio aos familiares, se limitando a “tirar o corpo fora” sobre o ocorrido.

Em 18 de maio de 2011, o estudante da FEA, Felipe Ramos Paiva, foi assassinado no estacionamento do curso de economia. O caso gerou comoção em toda a comunidade USP, evidentemente, mas de maneira até exagerada da imprensa burguesa e por parte da reitoria da universidade que desde então lançou mão do Convênio da USP com a PM para supostamente garantir mais segurança e evitar novos casos semelhantes. O reitor chegou a dizer em uma entrevista à revista Veja, “e aí o rapaz foi morto com um tiro! Imagine: nós recebemos alunos de 18 anos, de 19, e alguns até menores de idade, para um ambiente assim, onde essas coisas estão acontecendo. Um pai pode pensar: melhor meu filho estudar em uma universidade fraca e mais segura. E dá para entender [esse raciocínio].” O reitor-interventor, aliás, neste caso, nem se pronunciou.

Politicagem

Evidentemente que a reitoria não tem compaixão por nenhum estudante, nem por Felipe Ramos, nem por Bruna e nenhum outro membro da comunidade universitária, mas a morte do estudante da FEA foi politicamente conveniente para reitoria aplicar a sua política de repressão contra o movimento estudantil.

Vale lembrar após a assinatura do Convênio com a PM, a reitoria colocou em prática todo um conjunto de medidas que “visavam” aumentar a segurança no campus. Foram instaladas mais câmeras de segurança, a PM teve livre acesso ao campus, Base Móvel, contratação de três ex-coronéis da PM para comandar a guarda universitária, projeto de iluminação e de construção de cancelas e guaritas “altamente seguras”. Ou seja, toda uma política implantada para evitar novas tragédias. Será que algo semelhante vai acontecer em decorrência do caso da estudante do curso de Letras? Claro que não! Não precisamos nem supor. Isso já aconteceu.

Em dezembro de 2010, um ano de gestão Rodas, o estudante de Filosofia, Samuel de Souza, de 42 anos, morador do CRUSP, faleceu no campus Butantã em condições de negligência de atendimento por parte da universidade. Samuel passou mal de saúde na cidade universitária. Ele desmaiou na Praça do Relógio Solar na manhã de 2 de dezembro, por volta das 9h30, a guarda universitária foi chamada, duas viaturas foram até o local, não socorreram o estudante. O resgate foi chamado e não pode atender, pois não tinha unidades disponíveis. Então o Hospital Universitário foi acionado e não mandou ambulância com a alegação de que as ambulâncias não são feitas para fazer resgate. Detalhe, o Hospital fica a 5 minutos do local.

Samuel ficou das 10h e 10h05, hora prevista de sua morte, até por volta de 16h30 exposto ao sol e a chuva na praça do Relógio Solar. Um detalhe relevante, Samuel era negro.

Foi um total descaso no atendimento do socorro e depois na remoção do corpo. A morte de Samuel não comoveu a reitoria, não foi discutido e nem implementado um plano para evitar novos casos. Não foram colocadas bases móveis de saúde pelo campus que comporta mais de 40 mil estudantes. O atendimento de saúde não foi descentralizado com unidades de assistência básica com no mínimo enfermeiros trabalhando em locais com grande concentração de pessoas como a FFLCH, Poli, FEA e o CRUSP. Os guardas universitários não foram orientados ou treinados a dar assistência neste tipo de caso. Não houve nenhuma preocupação da reitoria. Por quê? Porque a morte de Samuel não trazia nenhum benefício político para a direção da universidade. Investir numa assistência médica preventiva para estudantes, professores e funcionários não interessa. Mas, garantir a ordem, com a o uso da PM, sim.

A morte da estudante Bruna Lino não vai alterar em nada o funcionamento da USP. Não é do interesse da reitoria evitar acidentes em prédios em obras. Agora, evitar ocupações da reitoria, protestos e “vandalismo”, ah isso sim é importante. In Jornal da USP Livre!

Ditadura de Alckmin. Terrorismo estatal na USP

O governo de Geraldo Alckmin revive, na Universidade de São Paulo, os tempos de chumbo da ditadura militar de 64.

Doze alunos foram retirados, na marra, de uma moradia estudantil ocupada desde 2010 na USP na madrugada do sábado de Zé Pereira.

Os estudantes foram colocados em um ônibus e levados para o 14º Distrito Policial. Entre os presos, uma adolescente de 17 anos e uma grávida de 8 meses. Elas ocupavam o bloco G do Conjunto Residencial (Crusp). Todas as universitárias presas foram obrigadas a ficar nuas no exame em corpo delito por um médico tarado do IML.

O grupo foi surpreendido pela ação de mais de cem policiais iniciada às 5h30 ainda antes do amanhecer. No local, vivem cerca de 45 pessoas, mas a maioria não estava presente durante a manhã domingo de carnaval.

Os doze ocupantes não resistiram fisicamente. Outros estudantes de moradias regulares fizeram menção de impedir a reintegração, e a polícia usou balas de borracha contra os edifícios.

Em dezembro do ano passado, o reitor João Grandino Rodas expulsou seis alunos que participaram dessa ocupação. Segundo a reitoria, eles foram, entre outras coisas, responsabilizados pelos prejuízos causados.

Logo em seguida houve a retomada do Diretório Central Acadêmico ocupado, que servia também de local de reuniões para o movimento. A ação ficou marcada pela violência de um policial contra o estudante Nicolas Menezes.

Os universitários ficaram divididos. Uns defenderam a polícia de Alckmin. Outros contra. Passivamente contra. Quem lutou foi preso e/ou expulso.

Resultado: a USP continua ocupada pela polícia, que espanca, estupra e prende.

Veja

Vídeo de aluna grávida de 8 meses carregada presa pela polícia de Alckmin

Vídeo de aluna estuprada por policial . O nome do policial bandido, psicopata e agressor de mulheres, não foi revelado. Veja a cara dessa alma sebosa.

Vídeo de aluna expulsa da USP. Tais cassações aconteciam na ditadura militar. Nada mudou.

Leia testemunhal de aluna torturada

Manifesto pela Democratização da USP

por Jorge Luiz Souto Maior

No começo deste ano eu estava em Liverpool à procura de um sonho perdido, os Beatles, e me deparei, talvez não por acaso, pois o destino tem razões que a própria razão desconhece, com a dura realidade tratada no Museu Internacional da Escravidão, inaugurado em 2007.

Várias coisas me impressionaram naquele local, sobretudo a menção honrosa feita ao Brasil, como tendo sido o último país das Américas a eliminar a escravidão, embora, até hoje, como bem sabemos, não tenha eliminado o trabalho escravo. Além disso, impressionei-me com um poema refletido no chão, atribuído a um pastor, de nome Martin Niemöller, que foi escrito na Alemanha nos tempos do nazismo, com o seguinte teor:

Quando os nazistas levaram os comunistas,
eu não protestei,
porque, afinal,
eu não era comunista.
Quando eles prenderam os sociais-democratas,
eu não protestei,
porque, afinal,
eu não era social-democrata.
Quando eles levaram os sindicalistas,
eu não protestei,
porque, afinal,
eu não era sindicalista.
Quando levaram os judeus,
eu não protestei,
porque, afinal,
eu não era judeu.
quando eles me levaram,
não havia mais quem protestasse

Quando retornei ao Brasil, estudando um pouco mais o contexto daquele poema, deparei-me com outro, de Bertold Brecht:

Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro
Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário
Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável
Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei
Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo

As pesquisas me conduziram a mais um poema, este produzido no Brasil, de autoria de Eduardo Alves da Costa, que foi elaborado na época da ditadura militar e de onde se extrai a passagem que se tornou célebre na luta democrática instaurada na época do golpe de 64:

Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na Segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

O que essas manifestações têm em comum? Elas se identificam pela poética demonstração de que as supressões da liberdade se “desenvolvem” progressivamente na medida em que encontram espaços para tanto, sendo que estes espaços são criados pela tática do medo.

Tendo por base esse aprendizado histórico, fácil compreender que assistimos na USP, presentemente, uma escalada anti-democrática repressora da liberdade, que avança a partir da estratégia do medo e da desinformação.

Mesmo sem nenhuma pretensão poética, é possível dizer:

Primeiro levaram um sindicalista
E não dissemos nada, pois não somos sindicalizados
Depois levaram, na calada da noite, os aposentados
Não nos importamos, afinal, estamos na ativa
Aí, oficializaram a política da repressão militarizada
E levaram estudantes
Sem entender bem o se passava, não protestamos
Na seqüência, já com armas em punho, levaram mais estudantes
Não reagimos porque não somos mais jovens sonhadores
Então, se conferiram o poder de chamar o golpe de 64 de
Revolução!

Após isso, se sentiram à vontade para assumirem, abertamente, o projeto de privatização do ensino, ameaçando fechar cursos que não se integram às exigências do mercado.

Adotaram, de modo cada vez mais explícito e abrangente, a terceirização, que, como bem sabem, precariza o trabalho e dificulta as resistências por parte dos trabalhadores.

Não se importaram com as reincidentes agressões desferidas por Policiais contra estudantes no seio da Universidade e assumiram postura de que não lhes diz respeito o atentado contra a sede do sindicato dos servidores – o Sintusp (a que ponto chegamos?)

Passaram a levar a ferro e fogo a intolerância contra os contestadores. Fiscalizam, invadem a privacidade, institucionalizam a espionagem.

Instauraram processos administrativos contra os demais diretores do sindicato.

Têm tratado os conflitos, frutos das revoltas de estudantes e servidores contra esse estado de coisas, como meros casos de polícia, pois não se vêem, minimante, constrangidos ao diálogo.

E, claro, não podia faltar, buscaram utilizar os meios de comunicação em massa para destruir moralmente todos que, não podendo ser presos ou descartados, ousam a se posicionar, abertamente, contra a situação posta.

Como se vê, é preciso, urgentemente, revelar que está em curso na Universidade de São Paulo um procedimento típico de regimes ditatoriais, que, inclusive busca justificativas para seus atos na lei, que é vista apenas parcialmente, sem se atentar para o contexto geral do ordenamento jurídico, o qual, vale lembrar, está construído, exatamente, de modo a evitar que em nome da lei se obstruam as liberdades individuais e a eficácia dos direitos sociais, tratados, ambos, na Constituição Federal, como direitos fundamentais.

É necessário ter a exata compreensão do que representa a racionalidade jurídica, fixada na Constituição, posta a partir dos postulados dos Direitos Humanos, integrados ao contexto do pacto de solidariedade, com a exata dimensão de sua representação histórica para o futuro da humanidade, pois sem essa base teórica bastante consolidada e sem as práticas que decorram de sua defesa, corre-se o risco do argumento da legalidade ser retoricamente utilizado a ponto de justificar todo o tipo de barbaridade praticada contra a condição humana, como, aliás, já se verificou em nosso país.

Urge recordar: (Clique aqui)

(…) O Ato Institucional n. 05 foi assinado por várias pessoas, dentre elas, Luís Antônio da Gama e Silva, um dos mentores do texto do Ato, o qual antes de ser nomeado Ministro da Justiça, em 1967, ocupava o cargo de Reitor da Universidade de São Paulo, advindo da Faculdade de Direito, onde atuava como Professor Catedrático de Direito Internacional Privado, em vaga hoje pertencente ao Sr. João Grandino Rodas.

Por ocasião do afastamento temporário de Gama e Silva, a Reitoria, depois de curto tempo nas mãos de Mário Guimarães Ferri, afastado por questões médicas, acabou sendo assumida pelo professor Hélio Lourenço de Oliveira, o qual, por não apoiar o regime militar, foi aposentado compulsoriamente. O Reitor nomeado, em sua substituição, foi o professor da Faculdade de Direito, Alfredo Buzaid, que, posteriormente, por nomeação de General Emílio Garrastazu Médici, galgou o posto de Ministro da Justiça, tendo sido nomeado, para Reitor, o professor Miguel Reale, também oriundo da Faculdade de Direito.

Não se pode conceber como mero descuido, portanto, ter a atual Direção da USP nominado de “Revolução” o golpe de 64, ainda mais se considerarmos que o Reitor, em sua atuação na Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, de 1995 a 2002, acompanhado de outros dois membros, dentre eles o General Oswaldo Pereira Gomes, “votou contra a culpabilidade do Estado pela morte e desaparecimento de vários presos políticos”, sendo que a declaração de culpa nestes casos (onze, no total) foi adotada pela maioria dos demais integrantes da Comissão (quatro), conforme denúncia feita por Carlos Lungarzo, membro da Anistia Internacional.

Concretamente, sem uma reação consciente e esclarecida ao que se apresenta na atualidade da Universidade de São Paulo, exigindo-se a reversão do quadro, com a imediata retirada dos processos administrativos contra servidores e alunos, a readmissão do sindicalista Brandão, o cancelamento do convênio feito entre a Administração da Universidade e a Polícia Militar (que instaurou a lógica da repressão militarizada no Campus), a realocação imediata dos desalojados do CRUSP e a convocação de uma estatuinte para a institucionalização de procedimentos verdadeiramente democráticos na Universidade, iniciando-se pela eleição democrática para Reitor e atingindo a construção de um projeto de uma Universidade verdadeiramente pública, com o fim do Vestibular, a eliminação das Fundações de direito privado e demais cursos pagos, o fim da segregação entre servidores e professores, a derrubada de todos os muros que separam a Universidade da sociedade etc., corre-se o risco de ao acordamos pela manhã nos depararmos com um novo Ato Institucional publicado no Diário Oficial.

Importante ressaltar que muitos dos processos administrativos instaurados contra servidores e alunos têm por base um Decreto de 1972, que prevê, dentre outros atos puníveis, a prática de atitudes que atentem contra a moral.

É por isso, ademais, que a intolerância verificada presentemente na USP a todos diz respeito. Não cabe o argumento de que não se tem nada com isso, por que, afinal, não se está a ela integrado, pois, como traduzem os poemas supra, primeiro fazem aqui, depois, por aí. O caso do Pinheirinho, no qual se utilizou a mesma logística para a retirada dos estudantes que no final do ano passado ocupavam o prédio da Reitoria, reflete exatamente isso, sendo oportuno destacar que se avizinha situação semelhante na comunidade San Remo, situada ao lado da própria Universidade de São Paulo. Aliás, recentemente foi aprovada no Conselho Universitário uma leva de contratação de professores temporários, deixando-se clara a política de diminuição do poder da classe dos professores que vem por aí.

É por tudo isso que a presente reação, com o lançamento do Manifesto pela Democratização da USP, que tem o propósito de impedir que uma tal realidade, cujo processo já se iniciou no seio da Universidade, não volte a atingir a toda a sociedade, representa a mais singela homenagem que se pode prestar aos parentes e amigos dos cidadãos brasileiros que sofreram danos irreparáveis por todos aqueles (e não, genérica e impessoalmente, regime ditatorial) que legitimaram a ditadura e com ela pactuaram, além de constituir a fórmula mínima de respeito à luta que esses cidadãos implementaram por todos nós.

É certo que muitas pessoas não querem perceber a gravidade do momento, seja por se beneficiarem dele, seja por puro comodismo. A questão é: até quando poderão se calar? E mais ainda: se já não será tarde demais quando quiserem se manifestar?

Para esses últimos, que precisam sair do mundo dos sonhos, vale, ainda, o recado há muito deixado por Rosa Luxemburgo:

“Quem não se move não sente as correntes que o prende.”

(Transcrevi trechos)