Recife Cidade Cruel

por Talis Andrade

 

INGRATA PARA OS DA TERRA

No Guia Prático da Cidade do Recife
Canta Carlinhos Manuel João e Joaquim
Joaquim foi esquecido pela cruel cidade
quem vai se lembrar de mim

 

MAKTUB

Cumprirei minha sina
dias santos e profanos
vou escrever poesia
até que chegue a hora
vão me chamar lá no céu
Carlinhos João e Manuel
– Vem em paz irmão
a gente assina teus versos

 

 

 

 

 

João Cabral de Melo Neto e Sanderson Negreiros juntos

A ÁGUA DA AREIA
por João Cabral de Melo Neto

.

Podem a ablução, os muçulmanos,
com areia, se não têm água;
fazem da areia um outro líquido,
eficaz igual no que lava.

A areia pode lavar neles
qualquer espécie de pecado;
na ablução ela flui como a água,
dissolve o mal mais empedrado.

Sanderson Negreiros

Sanderson Negreiros

O NOME
por Sanderson Negreiros

.

7

João Cabral escreve
Com a ponta do lápis
E quando a ponta se quebra
Fornece o milagre

De escrever o contrário
Da existência real.
Das coisas, ele transmite
A sua desistência.

O seu contrário,
O traço anterior
A toda imaginação,
A que dá consciência

De existir além de nós,
de nossa vã existência,
De apalpar o conteúdo
E de só ouvir a voz.

João Cabral escreve
Quase sempre de trás
Para frente como quem
Quer fazer explodir

A matéria prisioneira
Da palavra, João Cabral
Une quaderna e canaviais
À sua face pernambucana

E com ela escreve
A elegia do aveloz.
João Cabral, quando
Não tem matéria exposta,

Expõe sua inteireza
De poeta magro,
Sua dor-de-cabeça
E a constância

De, em Espanha,
Nunca perder-se
Como objeto
De suas tristezas.

João Cabral veste
A infância de roupa
Branca, passada a ferro,
Passada a tempo

De a noite começar.
Depois, retira, peça
Por peça, o que antes,
Vestido, dava idéia

De preocupação.
João Cabral é simples
No que escreve.
E mais: simples

De amar imprevistos
Para essa simplicidade.
Daí, só sabe escrever
Com lápis fino na mão.

Dueto de João Cabral de Melo Neto e Murilo Mendes

GRAFITO PARA IPÓLITA
por Murilo Mendes

.

1
A tarde consumada, Ipólita desponta.

Ipópita, a putain do fim da infância.
Nascera em Juiz de Fora, a família em Ferrara.

Seus passos feminantes fundam o timbre.
Marcha, parece, ao som do gramofone.

A cabeleira-púbis, perturbante.
Os dedos prolongados em estiletes.

Os lábios escandindo a marselhesa
Do sexo. Os dentes mordem a matéria.

O olho meduseu sacode o espaço.
O corpo transmitindo e recebendo

O desejo o chacal a praga o solferino.
Pudesse eu decifrar sua íntima praça!

Expulsa o sol-e-dó, a professora, o ícone
Só de vê-la passar, meu sangue inobre

Desata as rédeas ao cavalo interno

2
Quando tarde a revejo, rio usado,
Já a morte lhe prepara a ferramenta.

Deixa o teatro, a matéria fecal.
Pudesse eu libertar seu corpo (minha cruzada)

Quem sabe, agora redescobre o viso
Da sua primeira estrela, esquartejada.

3
Por ela meus sentidos progrediram.
Por ela fui voyeur antes do tempo.

4
O dia emagreceu. Ipólita desponta.

 

Rio_Paraibuna_Paulista

Cachoeira_do_Paraíbuna

MURILO MENDES E OS RIOS
por João Cabral de Melo Neto

.

Murilo Mendes, cada vez
que de carro cruzava um rio,
com a mão longa, episcopal,
e com certo sorriso ambíguo,

reverente, tirava o chapéu
e entredizia na voz surda:
Guadalete (ou que rio fosse),
o Paraibuna te saluda.

Nunca perguntei onde a linha
entre o de sério e de ironia
do ritual: eu ria amarelo,
como se pode rir na missa.

Explicação daquele rito,
vinte anos depois, aqui tento:
nos rios, cortejava o Rio,
o que, sem lembrar, aqui temos dentro.

 

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Fotografia: Cachoeira, Rio Paraibuna, Serra do Mar

Recife e seus três cantores que são quatro

MINHA TERRA
por Manuel Bandeira

.

Saí menino de minha terra.
Passei trinta anos longe dela.
De vez em quando me diziam:
Sua terra está completamente mudada,
Tem avenidas, arranha-céus…
É hoje uma bonita cidade!

Meu coração ficava pequenino.

Revi afinal o meu Recife.
Está de fato completamente mudado.
Tem avenidas, arranha-céus.
É hoje uma bonita cidade.

Diabo leve que pôs bonita a minha terra!

 

 

Recife Vlademir Barbosa da Costa

 

MANUEL, JOÃO E JOAQUIM
por Carlos Pena Filho

.

 

(trechos)

Hoje a cidade possui
os seus cantores que podem
ser resumidos assim:
Manuel, João e Joaquim.
No Jardim Treze de Maio,
Manuel vai ficar plantado,
para sempre e mais um dia,
sereno, bustificado,
pois quem da terra se ausenta
deve assim ser castigado.
Dali não poderá ver
a casa do avô
e nem a rua da Aurora,
nem o mar, nem a sereia
e nem o boi morto na cheia
desse rio escuro e triste,
de lama podre no fundo
e baronesas na face,
que vem, modorra e preguiça,
parando pelas Campinas
e escorregando nos montes,
até este sítio claro,
onde cobriram seu leito
de pedra, ferro e cimento
organizados em pontes.

 

Fotografia: Wlademir Barbosa da Costa

Faca que corta a tua glote e todo o gasto do teu gesto

UMA FACA SÓ LÂMINA
OU
SERVENTIA DAS IDÉIAS FIXAS
por João Cabral de Melo Neto

.

(trechos)

F
Quer seja aquela bala
ou outra qualquer imagem,
seja mesmo um relógio
a ferida que guarde,

ou ainda uma faca
que só tivesse lâmina,
de todas as imagens
a mais voraz e gráfica,

ninguém do próprio corpo
poderá retirá-la,
não importa se é bala
nem se é relógio ou faca,

nem importa qual seja
a raça dessa lâmina:
faca mansa de mesa,
feroz pernambucana.

E se não a retira
quem sofre sua rapina,
menos pode arrancá-la
nenhuma mão vizinha.

Não pode contra ela
a inteira medicina
de facas numerais
e aritméticas pinças.

Nem ainda a polícia
com seus cirurgiões
e até nem mesmo o tempo
com os seus algodões.

E nem a mão de quem
sem o saber plantou
bala, relógio ou faca,
imagens de furor.

 

João Cabral de Melo Neto

João Cabral de Melo Neto

 

À ESCOLA DAS FACAS
a João Cabral
por Francisco Bandeira de Mello

.

A escolha das facas
(e faca pernambucana,
pontiaguda, só lâmina)
dá-lhe direito a um título
que nenhuma escola.
Face à faca escolhida
não de côrte mas de corte
mas de mote não de glosa
(esta se perde no longo
ou logro que se estende
em teorias e retóricas)
faca que corta a tua glote
e todo o gasto do teu gesto
mais que brilha na mesa
imensa de jacarandá e pratas
serve à simples cintura
de uma fome específica.
Faca, enfim, que fica bem mais
própria à palmatória mestra
que à mostra de palmas nas escolas.

 

 

Da presença da luz em João Cabral de Melo Neto e Joaquim Cardozo

 

.

DA PRESENÇA INVISÍVEL
de Joaquim Cardozo

.

Através do quadro iluminado da janela
Olho as grandes nuvens que chegaram do Oriente
E me lembro dos homens que seriam meus amigos
Se eu tivesse nascido em Cingapura.

E aqueles que estiveram comigo nas horas concluídas
Ainda impressionam o ar
— Todos eles perderam-se no mar.

Agora, na praia deserta estou sozinho
— Caminho
Com os pés descalços na areia.

Nesta tarde morta o perfume das almas
Invade as enseadas, estende-se sobre os rios, paira sobre as colinas
— A Natureza assume a precária presença de um sonho;
Um trem corre sereno na planície dos homens ausentes;
Do fundo de minha memória sobe um canto de guitarras confusas;
Sinto correr de minha boca um rio de sombra,
A sombra contínua e suave da Noite.

 

joaquim_cardozo

Joaquim Cardozo

Joaquim Cardozo e o Rio Capibaribe

Joaquim Cardozo e o Rio Capibaribe

A LUZ EM JOAQUIM CARDOZO
por João Cabral de Melo Neto

.

Escrever de Joaquim Cardozo
só pode quem conhece
aquela luz Velásquez
de onde nasceu e de que escreve.

A luz que das várzeas da Várzea
onde nasceu, redonda,
vem até o ex-Cais de Santa Rita
que viveu: luz redoma,

luz espaço, luz que se veste,
leve como uma rede,
e clara, até quando preside
o cemitério e a sede.

 

 

 

 

O Relógio

de João Cabral de Melo Neto

 

1.

Ao redor da vida do homem
há certas caixas de vidro,
dentro das quais, como em jaula,
se ouve palpitar um bicho.

Se são jaulas não é certo;
mais perto estão das gaiolas
ao menos, pelo tamanho
e quadradiço de forma.

Uma vezes, tais gaiolas
vão penduradas nos muros;
outras vezes, mais privadas,
vão num bolso, num dos pulsos.

Mas onde esteja: a gaiola
será de pássaro ou pássara:
é alada a palpitação,
a saltação que ela guarda;

e de pássaro cantor,
não pássaro de plumagem:
pois delas se emite um canto
de uma tal continuidade

que continua cantando
se deixa de ouvi-lo a gente:
como a gente às vezes canta
para sentir-se existente.

2.

O que eles cantam, se pássaros,
é diferente de todos:
cantam numa linha baixa,
com voz de pássaro rouco;

desconhecem as variantes
e o estilo numeroso
dos pássaros que sabemos,
estejam presos ou soltos;

têm sempre o mesmo compasso
horizontal e monótono,
e nunca, em nenhum momento,
variam de repertório:

dir-se-ia que não importa
a nenhum ser escutado.
Assim, que não são artistas
nem artesãos, mas operários

para quem tudo o que cantam
é simplesmente trabalho,
trabalho rotina, em série,
impessoal, não assinado,

de operário que executa
seu martelo regular
proibido (ou sem querer)
do mínimo variar.

3.

A mão daquele martelo
nunca muda de compasso.
Mas tão igual sem fadiga,
mal deve ser de operário;

ela é por demais precisa
para não ser mão de máquina,
a máquina independente
de operação operária.

De máquina, mas movida
por uma força qualquer
que a move passando nela,
regular, sem decrescer:

quem sabe se algum monjolo
ou antiga roda de água
que vai rodando, passiva,
graçar a um fluido que a passa;

que fluido é ninguém vê:
da água não mostra os senões:
além de igual, é contínuo,
sem marés, sem estações.

E porque tampouco cabe,
por isso, pensar que é o vento,
há de ser um outro fluido
que a move: quem sabe, o tempo.

4.

Quando por algum motivo
a roda de água se rompe,
outra máquina se escuta:
agora, de dentro do homem;

outra máquina de dentro,
imediata, a reveza,
soando nas veias, no fundo
de poça no corpo, imersa.

Então se sente que o som
da máquina, ora interior,
nada possui de passivo,
de roda de água: é motor;

se descobre nele o afogo
de quem, ao fazer, se esforça,
e que êle, dentro, afinal,
revela vontade própria,

incapaz, agora, dentro,
de ainda disfarçar que nasce
daquela bomba motor
(coração, noutra linguagem)

que, sem nenhum coração,
vive a esgotar, gôta a gôta,
o que o homem, de reserva,
possa ter na íntima poça.


UM BAOBÁ NO RECIFE

de João Cabral de Melo Neto

Nina Rizzi e um baobá no Recife

1. Recife. Campo das Princesas.
Lá tropecei com um baobá
crescido em frente das janelas
do Governador que sempre há.

Aqui, mais feliz pode ter
úmidos que ignora o Sahel;
dá-se em copudas folhas verdes
que dão nossas sombras de mel.

Faz de jaqueiras, cajazeiras,
se preciso, de catedral;
faz de mangueiras, faz da sombra
que adoça o nosso litoral.

2. Na parte nobre do Recife,
onde seu rebento pegou,
vive, ignorado do Recife,
de quem vai ver Governador.

Destes nenhum pensou (se o viu)
que na África ele é cemitério:
se no tronco desse baobá
enterrasse os poetas de perto,

criaria, ao alcance do ouvido,
senado sem voto e discreto:
onde o sim valesse silêncio,
e o não, sussurrar de ossos secos.

O futebol brasileiro evocado da Europa

por João Cabral de Melo Neto


O futebol brasileiro evocado da Europa

A bola não é a inimiga
como o touro, numa corrida;
e, embora seja um utensílio
caseiro e que se usa sem risco,
não é o utensílio impessoal,
sempre manso, de gesto usual:
é um utensílio semivivo,
de reações próprias como bicho
e que, como bicho, é mister
(mais que bicho, como mulher)
usar com malícia e atenção
dando aos pés astúcias de mão.