Abreu e Lima, Ivan Junqueira e a Igreja Católica

General Abreu e Lima (Galeria de Arte da Assembléia Nacional da Venezuela)

General Abreu e Lima (Galeria de Arte da Assembléia Nacional da Venezuela)

 

Abreu Lima, herói das guerras da independência na América Latina, por sua defesa da liberdade religiosa, o bispo Dom Francisco Cardoso Aires não autorizou seu sepultamento no Campo Santo de Santo Amaro, sendo enterrado no Cemitério dos Ingleses, no Recife, em 1869.

Abreu e Lima presenciou o fuzilamento do pai, padre Roma, em Salvador (Revolução Pernambucana, 1817).

A Igreja Católica continua inquisitorial.

 

Escreve Maria Cecilia Costa Junqueira:
(11 de julho de 2014)
Hoje, na histórica Igreja de Santa Luzia, no centro do Rio, o padre e seus auxiliares foram extremamente deselegantes.

Resolvi pedir à ABL que me auxiliasse a celebrar uma missa de sétimo dia por Ivan [Junqueira], apesar de ele não ser católico praticante, porque os rituais são necessários, sobretudo quando permitem a reunião ou o encontro físico das pessoas, neste nosso mundo de telas, telões, telinhas, comunicações virtuais.

Escolhi a Santa Luzia por ser bela e simples, sem ouros e luxos (Ivan tinha simpatia por ela), e próxima à Academia.

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Alexei Bueno havia me solicitado dizer algumas palavras ao final da cerimônia, por já se encontrar um pouco menos emocionado do que no dia 3 de julho, quando não teve condições de fazer um pronunciamento sobre o amigo que tanto amara.

E eu também queria que familiares e amigos muito queridos lessem alguns dos poemas do livro inédito Essa Música, que será publicado pela Rocco.

Eu não havia conversado sobre isso com o pároco, mas falei durante a missa com o ajudante ou sacristão. Com isso, ao término, o padre permitiu que fossem ditas algumas palavras em homenagem a meu poeta. Só que, quando Alexei começou a falar, o celebrante da missa começou, por sua vez, a se contorcer de nervoso. Estava com pressa, muita pressa, de terminar o cerimonial.

Dei então a palavra a Denise Emmer, que leu um poema extremamente tocante, “Dizer adeus”, e mais nervoso ainda o padre ficou, tendo observado que poderíamos continuar a ler poemas, mas que ele tinha que ir embora, pois tinha um outro compromisso. Resolvi então parar com a leitura e passar imediatamente aos cumprimentos.

Foi a vez do ajudante da missa ficar nervoso, dizendo que tínhamos que nos retirar imediatamente da nave da Igreja, pois haveria uma outra missa às 11 horas. Enfim, eu e todos os presentes, amigos e amigas, admiradores de Ivan, fomos praticamente enxotados da Santa Luzia.

Por essas e outras atitudes desagradáveis, para não dizer grosseiras, a igreja católica perde sem parar fiéis no Brasil… a despeito dos bons ensinamentos do gentil, humílimo, papa Francisco.

Os Thèberge Nóbrega Lago Diniz Junqueira... ou seja, Ivan e Suzana quando menina. Os dois lindos de morrer... Suzana também tem Pimenta nas veias, ah se tem... os homens o sabem muito bem (

Os Thèberge Nóbrega Lago Diniz Junqueira… ou seja, Ivan e Suzana quando menina. Os dois lindos de morrer… Suzana também tem Pimenta nas veias, ah se tem… os homens o sabem muito bem (Foto e legenda de Cecilia Costa)

Mas a senhora Poesia vale uma missa. Tive o prazer de encontrar Paulo Rocco, que me assegurou que Reflexos do Sol-posto e Essa Música serão editados, e “com muito orgulho”. Além de muitos amigos e amigas que não puderam se fazer presentes no dia 3 de julho.

Estou ainda viva, ferida, mas viva. Todo ser humano é único, insubstituível, mas sem dúvida Ivan faz uma falta danada. Agradeço de coração todas as mensagens de solidariedade, pêsames, todo o carinho que me enviaram. A mim e a meu poeta, mais imortal do que nunca. Porque além de sua memória, sua poesia há de ficar para sempre. Disso eu tenho certeza… neste nosso mundo louco de dúvidas, ruídos insanos e incertezas.

Leia mais 

Octávio, meu filho, já está com 23 anos, e Mariana, a neta, com 24. O tempo passa rápido, Lucila. Ivan tomou posse com 66 anos e vai fazer, este ano, 77. Legenda de

Octávio, meu filho, já está com 23 anos, e Mariana, a neta, com 24. O tempo passa rápido, Lucila Nogueira. Ivan tomou posse com 66 anos e vai fazer, este ano, 77. (Legenda de Maria CECILIA COSTA Junqueira)

 

 

 

 

 

 

O que sabemos. Poema inédito de Ivan Junqueira

Um dos poemas que eu queria que tivesse sido lido…

Maria Cecilia Costa Junqueira

 

Ivan Junqueira

Ivan Junqueira

 

O QUE SABEMOS

(poema inédito de Ivan Junqueira)

 

É quase nada o que sabemos
de nós, do que somos, do frêmito
que nos empurra, débeis duendes,
à cena ambígua da existência.

De onde viemos? Para onde vamos?
Quem nos moldou à sua esplêndida
imagem, se a mão não lhe vemos?
Será mesmo que o fez, consciente

do risco que estava correndo,
da imperdoável imprudência
de dar sopro ao ser cujo empenho
é do deus que o criou ir além,

acuá-lo nas sarças e brenhas
do espírito que, com desdém,
dele duvida e nunca o entende
como algo avesso à estrita ciência?

Quem somos nós? Por que, violentos,
em nossa orgíaca estridência,
não nos curvamos ao silêncio
que pulsa nas sombras de um templo?

Por que nos coube essa doença
de sermos assim tão efêmeros
entre duas datas extremas:
a da morte e a do nascimento?

Pergunto-me às vezes se o engenho
de que, solertes, nos valemos
para negar com veemência
o mistério que nos transcende

não terá sido o tal veneno
que nos fez beber a serpente
a mesma que, pérfida, engendra
a queda com que se abre o Gênesis?

Perguntas sem resposta ou senso,
cinzas que se espalham ao vento,
restos mortais de um frio poente
que nos lançou no esquecimento,

no anódino vaivém de um pêndulo,
à margem daquele supremo
momento para além do tempo
em que ninguém nos mede ou prende.

Não somos nada, e ao nosso exemplo
não cabe pagar nem um cêntimo,
que é o que vale, aliás, nosso sêmen.
É apenas isto o que sabemos.

 

 

Ivan Junqueira e

Ivan Junqueira e Maria Cecilia Costa Junqueira

Ivan Junqueira, prêmios recebidos

Adeus Ivan Junqueira (1934 – 2014)

DOM QUIXOTE

 

Ivan Junqueira

Ivan Junqueira

Vai a passo Dom Quixote
em seu magro Rocinante.
Sancho Pança o segue a trote
pela Mancha calcinante.
Tudo é pedra, arbusto seco,
erva má, ermas masetas.
Não se escuta nem o eco
do vento a ranger nas gretas.
O que buscam o fidalgo
e o seu álacre escudeiro?
Peripécias, duelos, algo
que lhes recorde o cordeiro
quando abriu os sete selos
e fez soar as trombetas?
Buscam o quê? O que fê-los
ir tão longe em suas bestas?
Pois esse Alonso Quijano,
ao deixar a sua aldeia,
só buscava – áspero engano –
exumar o que, na teia
de suas tontas leituras,
eram duendes, hierofantes,
castelos, leões, armaduras,
dulcinéias, nigromantes
e uma Espanha onde a justiça,
há tanto um tíbio sol posto,
fosse um bem que só na liça
pudesse ser recomposto.
Mas do triste cavaleiro
era tanto o desatino
que na cuia de um barbeiro
vira o elmo de Mambrino,
nas ovelhas ao relento,
uma tropa de meliantes,
e nos moinhos de vento,
uns desgrenhados gigantes.
Dom Quixote nunca via
o que aos seus pares narrava,
pois que só lia e mais lia,
e ao ler é que se encantava.
E assim do texto as imagens
saltavam – bruscas centelhas –
no amarelo das paisagens,
no ocre encardido das telhas.
Foi quando então, claro e fundo,
percebeu que o que ia vendo
nada tinha com o mundo
sobre o qual andara lendo.

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Ilusão e realidade,
heroísmo e covardia,
sensualismo e castidade,
prosa pedestre e poesia
– eis os pólos do conflito
que somente se harmoniza
no humor de um cáustico dito
que nos fustiga e eletriza.
E o que redime o manchego
não é tanto aquilo que ama,
e sim o dom de si mesmo
no amor que doa a uma dama,
sem nenhuma recompensa
que não seja a do fracasso
ou da estrita indiferença
de quem sequer viu-lhe um traço.
De fala mansa e discreta,
que ao calar é que se escuta,
seu percurso é a linha reta
entre o que tomba e o que luta.
Vai a passo Dom Quixote,
ya el pie en el estribo.
A morte agora é seu mote.
Vai a sós. Vai só consigo.

 

 

—-

Seleta de Sandra Santos

 

 

De Ivan Junqueira

E se eu disser
.
.
E se eu disser que te amo – assim, de cara,
sem mais delonga ou tímidos rodeios,
sem nem saber se a confissão te enfara
ou se te apraz o emprego de tais meios?
E se eu disser que sonho com teus seios,
teu ventre, tuas coxas, tua clara
maneira de sorrir, os lábios cheios
da luz que escorre de uma estrela rara?
E se eu disser que à noite não consigo
sequer adormecer porque me agarro
à imagem que de ti em vão persigo?
Pois eis que o digo, amor. E logo esbarro
em tua ausência – essa lâmina exata
que me penetra e fere e sangra e mata.
.
Ilustração Leonor Fini, Los Grilletes

“Não há modernidade se não se recorre à lição do passado”

Entrevista de Ivan Junqueira: a ordem secreta da poesia

 

– Qualquer poeta autêntico, por menor que seja, sempre cria uma linguagem, ainda que não a transgrida, ou melhor, não transgrida o sistema da língua.

– A crítica literária, pelo menos como a entendo, é uma forma de criação paralela. Se não o for, não será crítica, mas simples exercício de vivissecção cadavérica. É nesse sentido que a crítica universitária se resume amiúde num desastre e, não raro, em pedantaria erudita.

– É nesse sentido que endosso um crítico como Wilson Martins quando investe contra o sucesso literário de escritores como Jorge Amado ou o alcance filosófico de “pensadores” como Alceu Amoroso Lima, dois monstruosos equívocos de nossa literatura. Serve assim a crítica para despertar no leitor o interesse por essa ou aquela obra, mas nunca para induzi-lo a partilhar da opinião do crítico.

– É bom lembrar aqui que fomos colonizados por europeus, ainda que da pior espécie, e que nossas raízes, como de resto as de toda a América Latina, são europeias: portuguesas, espanholas, francesas, holandesas, alemãs, inglesas. E foram essas tradições, essas ideias e esses valores que nos geraram, nos criaram, nos enriqueceram, até sermos o que hoje somos. O que herdamos no âmbito cultural não nos veio dos guaranis nem dos africanos, mas dos europeus, a começar pela língua, que é portuguesa, e não sem razão toda a América Hispânica fala uma única língua, o castelhano. Caso contrário, nós, brasileiros, estaríamos falando tupi-guarani (como chegou a pretender Oswald de Andrade, aliás) ou qualquer dialeto nagô. Nossos valores culturais são também europeus (e, mais remotamente, latinos), como europeus, em suas trágicas origens, foram também nossos costumes calcados na transigência e na tolerância. E europeia é, ainda, a religião que prevalece no país. Não pretendo aqui negar a influência da cultura negra, mas o fato é que ela se restringe a áreas diminutas de nosso território intelectual. Quanto à influência indígena, praticamente inexiste. Incluir o candomblé como “notável fonte de êxtases” é desconhecer a alma da sociedade brasileira.

– Oswald, como Mário de Andrade – mas este, além de conhecimento artístico e talento polimórfico, tinha dignidade literária -, foi antes um animador, um “palhaço da burguesia”, como ele próprio se chamou, um bufão bem nutrido e endinheirado que a história, à qual ele e os demais modernistas jamais deram a menor importância, haverá de reduzir às proporções que lhe cabem.

– O transplante da estrutura ideogramática da escrita chinesa para a nossa língua é o mesmo que pretender implantar o chifre de um rinoceronte na testa de uma girafa. Os concretistas incidem nessa tolice de contrariar – ou mesmo assassinar – a índole da língua, de uma língua que, queiramos ou não, só é nossa por ser portuguesa. O “make it new” da poesia concreta não o faz nem novo nem velho simplesmente porque não faz nada: promove apenas um tumulto babélico no qual se confundem e se atropelam recursos que são específicos de outras técnicas artísticas.

– O Surrealismo, por recorrer às realidades e manifestações oníricas que subjazem no inconsciente, foi e será sempre uma poderosa vertente do pensamento poético, pois suas imagens pertencem a uma linguagem metalógica, ou seja, à linguagem que é própria da poesia. O que não se pode é deixar que esse fluxo tenha comando autônomo, como acontece na escrita automática, e aqui voltamos àquela sábia observação de Huidobro. O que diferencia basicamente o Surrealismo francês daquele que se irradiou pela América Latina é que este último não foi programático, e chego mesmo a arriscar aqui que, em suas origens, ele se confunde às vezes com o realismo fantástico, que é fenômeno literário tipicamente latino-americano.

– Até mesmo um poeta engajado como Pablo Neruda – esse grande mau poeta, como dele diz Juan Ramón Jiménez -, foi, em certo sentido, profundamente surrealista, como o foram alguns outros. É que esses poetas, além do influxo que receberam da literatura francesa que então se escrevia, tiveram um contato muito forte com a literatura de sua própria língua, em particular com a poesia de García Lorca, que, digam o que disserem, jamais renunciou inteiramente às suas fontes surrealistas. E digo, enfim e afinal: enquanto houver incursão ao subconsciente no afã de decifrar os abismos da alma humana, haverá sempre, não um programa, mas uma prática surrealista que se confunde com a busca das raízes da própria vida.

(Transcrevi fragmentos). Entrevista concedida a Floriano Martins. Leia