Não há bombas limpas, homens-hienas dirigentes do mundo

SINTO QUE O MÊS PRESENTE ME ASSASSINA
por Mário Faustino

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Sinto que o mês presente me assassina,
As aves atuais nasceram mudas
E o tempo na verdade tem domínio
Sobre homens nus ao sul das luas curvas.
Sinto que o mês presente me assassina,
Corro despido atrás de um Cristo preso,
Cavalheiro gentil que me abomina
E atrai-me ao despudor da luz esquerda
Ao beco de agonia onde me espreita
A morte espacial que me ilumina.
Sinto que o mês presente me assassina
E o temporal ladrão rouba-me as fêmeas
De apóstolos marujos que me arrastam
Ao longo da corrente onde blasfemas
Gaivotas provam peixes de milagre.
Sinto que o mês presente me assassina,
Há luto nas rosáceas desta aurora,
Há sinos de ironia em cada hora
(Na libra escorpiões pesam-me a sina)
Há panos de imprimir a dura face
À força de suor, de sangue e chaga.
Sinto que o mês presente me assassina,
Os derradeiros astros nascem tortos
E o tempo na verdade tem domínio
Sobre o morto que enterra os próprios mortos.
O tempo na verdade tem domínio
Amém, amém vos digo, tem domínio
E ri do que desfere verbos, dardos
De falso eterno que retornam para
Assassinar-nos num mês assassino.

Ramiro Zardoya

Ramiro Zardoya

POEMAS AOS HOMENS DO NOSSO TEMPO
por Hilda Hilst

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XIV

Não há bombas limpas
Mário Faustino

 

Bombas limpas, disseram? E tu sorris
E eu também. E já nos vemos mortos
Um verniz sobre o corpo, limpos, estáticos,
Mais mortos do que limpos, exato
Nosso corpo de vidro, rígido
À mercê dos teus atos, homem político.
Bombas limpas sobre a carne antiga.
Vitral esplendente e agudo sobre a tarde.
E nós na tarde repensamos mudos
A limpeza fatal sobre nossas cabeças
E tua sábia eloqüência, homens-hienas

Dirigentes do mundo.

Ocupação Hilda Hilst. São Paulo realiza exposição sobre a vida da Poeta que a mídia brasileira escondeu

Reversa Magazine informa: Hilda Hilst recebe exposição com entrada gratuita em São Paulo

A mostra é inspirada na Casal do Sol, antiga chácara da escritora

Se você estará de passagem por São Paulo até o dia 21 de abril, não deixe de conferir a 22º Ocupação do Itaú Cultural, que homenageará a escritora brasileira Hilda Hilst (1930 – 2004).

Hilda Hilst escreveu contos, poemas e peças de teatro. Destacou-se por experimentar diferentes gêneros literários e obter êxito em suas incursões.

No portal em homenagem a escritora, o crítico literário Anatol Rolsenfeld a elogia: “Hilda pertence ao raro grupo de artistas que conseguiu qualidade excepcional em todos os gêneros literários que se propôs – poesia, teatro e ficção”.

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Feita de materiais não sintéticos, a cenografia é inspirada na Casa do Sol – chácara onde Hilda passou grande parte de sua vida, hoje transformada em um espaço de memória e homenagem à escritora.

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De Hilda Hilst um beijo em morse para Carlos Drummond de Andrade

O POETA INVENTA VIAGEM,
RETORNO E MORRE DE SAUDADE
por Hilda Hilst

Se for possível, manda-me dizer:
– É lua cheia. A casa está vazia –
Manda-me dizer, e o paraíso
Há de ficar mais perto, e mais recente
Me há de parecer teu rosto incerto.
Manda-me buscar se tens o dia
Tão longo como a noite. Se é verdade
Que sem mim só vês monotonia.
E se te lembras do brilho das marés
De alguns peixes rosados
Numas águas
E dos meus pés molhados, manda-me dizer:
– É lua nova –
E revestida de luz te volto a ver.

 

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Poema de Carlos Drummond de Andrade
para Hilda Hilst

Abro a folha da manhã
Por entre espécies grã-finas
Emerge de musselinas
Hilda, estrela Aldebarã.

Tanto vestido enfeitado
Cobre e recobre de vez
Sua preclara nudez
Me sinto mui perturbado.

Hilda girando boates
Hilda fazendo chacrinha
Hilda dos outros, não minha
Coração que tanto bates.

Mas chega o Natal
e chama a ordem Hilda.
Não vez que nesses teus giroflês
Esqueces quem tanto te ama?

Então Hilda, que é sab(ilda)
Manda sua arma secreta:
um beijo em morse ao poeta.
Mas não me tapeias, Hilda.

Esclareçamos o assunto.
Nada de beijo postal
No Distrito Federal
o beijo é na boca e junto.

 

 

García Lorca e Hilda Hilst

E DEPOIS
Federico García Lorca
(Tradução de Talis Andrade)
.

Os labirintos
que o tempo cria
se desvanecem

(Permanece
o deserto)

O coração
fonte do desejo
se desvanece

(Permanece
o deserto)

A ilusão da aurora
e os beijos
se desvanecem

Só permanece
o deserto
Um ondulado
deserto

 

A FEDERICO GARCÍA LORCA
Hilda Hilst

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Companheiro, morto desassombrado, rosácea ensolarada
Quem senão eu, te cantará primeiro. Quem, senão eu
Pontilhada de chagas, eu que tanto te amei, eu
Que bebi na tua boca a fúria de umas águas
Eu, que mastiguei tuas conquistas e que depois chorei
Porque dizias: “amor de mis entrañas, viva muerte”.
Ah, se soubesses como ficou difícil a Poesia.
Triste garganta o nosso tempo, TRISTE TRISTE.
E mais um tempo, nem será lícito ao poeta ter memória
E cantar de repente:
“os arados van e vên
dende a Santiago a Belén”

Os cardos, companheiro, a aspereza, o luto
A tua morte outra vez, a nossa morte, assim o mundo:
Deglutindo a palavra cada vez e cada vez mais fundo.
Que dor de te saber tão morto. Alguns dirão:
Mas está vivo, não vês? Está vivo! Se todos o celebram
Se tu cantas! ESTÁS MORTO. Sabes por quê?
“El passado se pone
su coraza de hierro
y tapa sus oídos
con algodón del viento.
Nunca podrá arrancársele
un secreto.”

E o futuro é de sangue, de aço, de vaidade. E vermelhos
Azuis, brancos e amarelos hão de gritar: morte aos poetas!
Morte a todos aqueles de lúcidas artérias, tatuados
De infância, o plexo aberto, exposto aos lobos. Irmão.
Companheiro. Que dor de te saber tão morto.

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Visões d’amor (& amizade) 4

 Alfredo Martirena

Alfredo Martirena

 

 

A vida é um jogo. Mas não gosto de jogos.
Se for para jogar, prefiro viver.
Se for para dedicar meu tempo a alguma coisa,
prefiro um livro, uma conversa, ou escrever.
Ligar para alguém. Ligamos tão pouco.
Hoje temos tão pouco tempo para conversar ao telefone.
Celulares não param de tocar e não param de nos cobrar.
Em algum tempo, não havia celulares, e só havia telefones fixos.
Saímos de casa e ninguém nos achava pelo GPS.
Livros ainda são os melhores companheiros depois dos amigos.
E quando não há amigos por perto, voltamos aos livros.
E os amigos sempre estarão presentes para dividir conosco
o bem mais precioso: seu tempo.

Thereza Rocque da Motta

 

 

O homem deve ter a sua atitude, assumir o seu risco, deve revelar-se. O homem não pode viver na simulação, no embuste, encoberto. O homem tem na vida a sua substância natural e na atitude a sua condição de ser moral. A coisa pura existe dentro de nós: quando você ama, quando você sacrifica sua vida, quando você luta por um ideal, quando você é solidário. Para mim a marca humana mais edificante, mais dominadora e mais fecunda é você tem a possibilidade de ser solidário. Até no crime.

Djalma Aranha Marinho

 

Quando a amizade não é verdadeira, ela não machuca só quando você descobre. Ela machuca todas às vezes que você se lembra dos momentos em que achou que ela fosse verdadeira.

Karina de Aranho Marinho de Andrade Lima 

Karina Andrade

Karina Andrade

 

FIM DE ANO

O Ano Velho, atravessei a nado
Para tudo ou
Para nada.

O Ano Novo vem em ondas
Para o mar ou
Para amar.

O Novo e o Velho, quero juntos,
Sem roupas
Na ilha.

O Novo e o Velho, quero vivos,
Com os corpos horizontais
Em cópula.

Gustavo Krause

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DEZ CHAMAMENTOS AO AMIGO

1
Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo. Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
Desejasse

Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.

Te olhei. E há tanto tempo
Entendo que sou terra. Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta

Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento.

Hilda Hilst

 

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