EM NOME DOS PAIS

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por Gustavo Krause

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Em nome dos pais,
a natureza submeteria os seres vivos
a um único ritmo:
nascer, crescer, envelhecer e morrer.

Em nome dos pais,
a natureza seria regida por uma lei
com um artigo único:
“os filhos não morrerão antes dos pais”.

Em nome dos pais,
a criança seria eterna,
lambuzada em leite e mel,
de calças curtas, curtindo o desobedecer.

Em nome dos pais,
o rapaz imberbe seria terno,
envolto em rebeldia adolescente,
de sonhos largos, consumindo o amanhecer.

Em nome dos pais,
sua criatura seria um doce anjo.
Sem asas, não voaria para longe.
Caminharia sobre as nuvens da terra.

Em nome dos pais,
não haveria a morte injusta
da flor contida, da estrofe incompleta,
do poema inacabado, da vida por viver.

Em nome dos pais,
não subsistiria, no álbum da família,
a improcedência de um olhar sem brilho,
compondo a saudade do quadro.

Em nome dos pais,
mulher alguma sentiria a dor
da amputação total que é a dor
do “revés do parto”.

Em nome do Pai, dos filhos, dos santos espíritos,
da mão amiga, do verbo solidário,
Marcos Vilaça, pai, Maria, mater dolorosa,
continuam a amar; continuam a continuar

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Gustavo Krause, in livro Cantos & Contos, p. 228
Editora Expressão e Cultura, 2002

RECIFE. Passeio

por Gustavo Krause

Hoje vou poupar o leitor de temas pesados: crise, o blábláblá nosso de todos os dias. Domingo é dia de passeio. Passeio de bicicleta. Bem-vinda a ideia das ciclofaixas.

Semana passada, tomei a decisão: vou ver o Recife por dentro montado no lombo da bicicleta com a força do pé(dal). Um choque. A família inteira, assustada (sou um desastrado, não dirijo e me perco dentro de um shopping Center), ponderou, pediu, apelou com a dramaticidade de quem antecipava as dores da viuvez e da orfandade. Houve até quem dissesse: – Velho, fica na rede e lê o Guia prático, histórico e sentimental do Recife de Gilberto Freyre ou o antológico poema de Carlos Pena filho, Guia prático da cidade do Recife. Negativo. A teimosia ganha na rapidez e perde da sensatez. Disse: “Quem for recifense me siga”.

Tomadas as providências regulamentares e devidamente assumido o comando da bike, comecei a pedalar sob o sol recém-nascido que propagava raios brilhantes do tempo renascido. Em vez de escuro, usei óculos mágicos que, a um só tempo, protege, enxerga o presente e, com lentes poderosas, traz de volta o Recife a que fui apresentado quando completei meu primeiro decênio da vida.

Vacinado por Gilberto Freyre, não me senti “um tanto estrangeiro no Recife de agora”. Contemplei a memória e vi o que quis, pedalando do oeste (Bairro da Jaqueira) para o leste na direção do mar que saúda Boa Viagem?! a quem chega e a quem parte.

Não deixei empalidecer o Recife colorido; não permiti o doloroso martírio de lembrar a ausência de sobrados e casarões que pagaram o preço em nome de “um progresso” sem dó nem piedade do valor da história; despoluí o Capibaribe e revi alegres cardumes brincando na transparência das águas; reencontrei “o Recife marchando na Avenida Guararapes” e me deparei com os “trinta homens sentados” no “festim” do Bar Savoy; parei e descansei no berço da cidade, o Bairro do Recife e lá encontrei, em corpo e alma, Cícero Dias conversando com Francisco Brennand, um belo homem, dono (pois dele é o dom) das belas artes por sobre a raridade dos arrecifes de coral; mirei São José, quase despovoado de “casas cariadas” que explode em multidão no Sábado de “Zé Pereira” sob os acordes do Galo da Madrugada; chego exausto ao meu destino: a praia e respiro no ritmo do vaivém das ondas do mar quando, de repente, sai de dentro de dele u’a mulher, isto mesmo, Recife feminina, morena, tímida, recatada, flagrada no seu banho matinal.

Pude ver, por inteiro, um banho de mulher: a água escore pelo corpo como se fosse (e é) um batismo profano/ Toma dois caminhos: o rosto e os cabelos/ Olhos entreabertos compõem a máscara do prazer/ A pele fabrica pérolas líquidas/ Os pelos iluminam os tons dados pela natureza/ Uma leve correnteza obedece à lei de gravidade/ Uma pequena cascata salta do pescoço de garça e invade relevos redondos e pontiagudos/ No caminho do dorso, uma ondulação permite intimidades/ De repente, água e corpo se fundem em formas de mulher/ O encontro entre a água e a mulher exalam sensualidade (com a permissão de Iemanjá)/ A sensualidade é o perfume da mulher/ E quando o mar devolve a mulher à terra, vestida com os restos diáfanos do mergulho, o remédio para o pecado da luxúria é rezar, contrito, uma “Ave Maria”, cheia de graça e sal.

São e salvo, quis tocar naquela mulher misteriosa. Era uma visagem. Estava “variando”. Quem sabe, um dos achaques da idade, hipoglicemia, por exemplo?. Fui socorrido com sôfregos goles da mais benta de todas as águas: a água de coco.

Seguido e perseguido pelos cuidadosos afetos da guarda pretoriana – a família –, limitei-me a dizer: – Estou ótimo! E Nada falei sobre o banho da mulher. Quem ia acreditar? Caduquice, ora.

As favelas do Recife na poesia de Gustavo Krause e Sylvio de Oliveira

A DESPASAIGEM
por Sylvio de Oliveira

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(fragmentos)

A água é quente
de muitos verdes
tão cristalina
que os arrecifes
que a contêm
bordam piscinas
que os olhos beijam
e os braços têm
em praias brancas
onde o mar lava
como alimenta
até nos mangues
a vária gente
e cuja fome
tão atrasada
e envelhecida
antes se tece
– não se arrefece –
nos arrecifes
do bom Recife
mas se extravasa
na despaisagem
de nus mocambos
na maré rasa
como a exibir
em seus molambos
os crus despojos
da subgente
sobrevivente

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COMPR(0)MISSOS COM A FAVELA
por Gustavo Krause

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(trechos)

TODA CIDADE TEM A FAVELA QUE MERECE.
TODA FAVELA TEM A CIDADE QUE MERECE.

FAVELA NÃO É CIDADE

N
E
C
E
S
S
I
D
A
D
SÓ E SÓ
S

(…)

O HOMEM É DOENTE, A MULHER É DOENTE.
O MENINO É DOENTE.
É PRECISO TER DÓ

D
O

E
N
T
E

ESTE SER NÃO VIVE O DILEMA HAMLETIANO.
VIVE DO DILEMA

D
O

N
Ã
O

SER

O MOCAMBO NÃO É CASA.
O BARRACO NÃO É ABRIGO.
O SOL É BRASA.
A CHUVA É CASTIGO

(…)

E ENTRE MORTOS E FERIDOS
NÃO SOBRA NEM A BONECA DO MARACATU

RAÇÃO NÃO É COMIDA.

CORPO E CARNE CARCOMIDA.

O ESQUELETO ANDA, FALA, E RI.

SIM, RI.

DO

S
I
R
I

QUE NA VIDA É CAÇA E NA MORTE
CAÇ(A)DOR

ÁGUA SUJA NÃO É BEBIDA.
NÃO HIDRATA, DESIDRATA.

ENGORDA
A
O
S
POUQUINHOS

O PASTO DA LAMA
QUE CLAMA, RECLAMA

O

C
O
R
P
DOS
A
N
J
I
N
H
O
S

HÁ QUEM PENSE (E MUITOS PENSAM)
QUE NESTE MUNDO NÃO VIVE GENTE

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A CIDADE DE GUSTAVO KRAUSE E O HOMURBANO

A CIDADE E O HOMURBANO
por Gustavo Krause

 

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A cidade é feita de casas
e de covas rasas.
A cidade é feita de ruas
e de estátuas nuas.

A cidade é feita de praças
e de fumaças.

A cidade é feita de bares
e de azares.

A cidade é feita de gentes
e de carentes.

A cidade é feita de graças
e de massas.

A cidade é feita de artistas
e de conquistas.

A cidade é feita de inteligências
e de consciências.

A cidade é feita de poesias
e de maresias.

A cidade é feita de amores
e de dores.

A cidade é feita de dezenas de equipamentos,
de centenas de lamentos
e de milhares de sentimentos.

A não-cidade é feita de céus arranhados
e de homurbanos desesperados.

Homurbanos?

Alpinista, escala morros.
Nadador, atravessa o mar de lama.
Velocista, corre contra o tempo.

O homurbano se move em disputa atlética.

Em busca frenética
de vapores tóxicos,
de rações dietéticas
com sabores cítricos,
de sonhos estéticos
sem formas nítidas,
com esperanças caquéticas
de vitórias exdrúxulas.

O homurbano pára no descanso (u)tópico.
Em recolhimento fóbico
da guerra cósmica.
Em proposta lúdica
de inspiração etílica.
Em impulso erótico
de sexo rápido.
Em sombras típicas
de sono asmático.

 

ponte da boa vista foto restaurada

RECIFE
por Talis Andrade

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(trechos)

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Nascida do encontro das águas
linda Cidade Maurícia
Veneza Brasileira
No turbilhão da Festa da Mocidade
eu não percebia
Vendidos a retalho
os arredores do Recife
os canaviais das fábricas de açúcar
as pastagens das vacarias
as matas os sítios
aterrados os alagados das marés
os novos dias
tornariam realidade
a profecia
de Gilberto Freyre
A cidade ficaria inchada
a pobreza morando ao lado
dos arranha-céus
a pobreza morando ao lado

8

Multiplicaram-se as favelas
Krause construiu as escadarias
as ruas os caminhos dos morros
em parceria com o povo
Multiplicaram-se os carros
o prefeito Antonio Farias
abriu espaços para a passagem
duplicando pontes viadutos
por lugares nunca imaginados

 

 

Clávio Valença, a partir de hoje, o tempo parou

Clávio, doeu demais!
Clávio Valença

Clávio Valença

por Gustavo Krause

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Quarta, 02 de abril, cedinho, renovo o hábito: a leitura dos jornais. No Caderno C do Jornal do Comércio, a manchete – MORRE O ESCRITOR CLÁVIO VALENÇA – apunhala traiçoeiramente o cantinho onde guardo os bons sentimentos.
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Sabia que sua saúde vinha abalada, fazia algum tempo, mas desconhecia o agravamento das últimas semanas; estou farto de saber que a morte é amiga da velhice e chega devagarzinho com os sinais de cansaço, a companhia das dores e as marcas das perdas; e mais, depois de certa idade, o caminho é um vale de lágrimas esculpidas em lápides até que chega a nossa vez.
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A verdade é que não passa uma semana sem que saudades se inscrevam em nossos corações. Ainda bem que a saudade congela o tempo e conserva a lembrança. Clávio, a partir de hoje, o tempo parou, continuamos a nos ver e a querer bem um ao outro.
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Em relação a Clávio, não vale a acrimônia de Machado de Assis: “Está morto: podemos elogiá-lo à vontade”. Dele, não era eu dos mais próximos; cada um no seu canto, mas em cada canto e mesa de bar compartilhada, em jornadas boêmias, projetavam-se luzes interiores que nos faziam fraternos. Virtude dele que tinha, sem querer e sem saber, visgo (de jaca? Podia ser desde que fosse de São Bento do Una).
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Era um visgo de outra natureza e que se revela na dimensão dos dotes espirituais: gentil, cavalheiro, leve e encharcado pelo bem da família Valença que se manifesta na imaginação poderosa, inteligência sensitiva, emocional, sempre pronta para a tirada de humor refinado e uma ironia, acreditem, inofensiva porque jamais dirigida às pessoas.
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Sempre que o encontrava, ao lado da dedicada e amorosa Iana (esta eu conheço desde a adolescência, filha de “seu” Lauro, moça bonita e educada e que fazia parte de um prole numerosa, precocemente, órfãos de mãe), perguntava: “A saúde, como vai?” E vinha a resposta espirituosa: “O doutor liberou uma dose de de uísque, dia sim, dia não, e eu pedi para acumular créditos das doses não tomadas para o fim de semana” (risos). Ou então, porque sempre admirei o estilo da prosa fluente e dos textos saborosos: “Clávio, escreva mais. Dê este prazer aos seus leitores”. Ele respondia com um riso encabulado, mas seguro de que só escreveria quando lhe desse na telha.
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A propósito, foi a poderosa imaginação de Clávio que gerou uma obra surrealista – Dona lili do Grão-Pará – uma biografia desautorizada, amparada numa espécie de realismo mágico da vida boêmia, misturada com histórias anárquicas do universo mundano do Recife onde ele introduziu Lili, personagem inspirada na Lilly do bloco carnavalesco Nem sempre Lily toca flauta, de origem lituana, mas, de fato Lili era uma cidadã do mundo e que se adaptara às circunstâncias da vida profana da zona do meretrício e das aventuras/desventuras das casas da luz vermelha. O livro foi lançado no Pátio São Pedro no dia 25 de janeiro de 2001.
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Em 2010, Clavio lançou o livro de contos Interioranos (Comunigraf Editora). São treze contos de quem sabe contar história fincada nas raízes culturais da vida simples das pequenas localidades, delas, porém, universalizando valores e a crítica social, atributo do grande autor.

interioranos

Neste ponto, cedo a palavra aos mestres no assunto. Eis o que disse Garibaldi Otávio: “Ninguém precisa morar em São Bento do Una para entender o mundo. Mas compreenderá bem mais a complexidade da vida humana conhecendo pessoas como as que habitam as páginas deste livro”.

Do Professor Nelson Saldanha: “Sua prosa é fácil e fluente, sua narrativa espontânea e sem maiores complicações. Verossímil, embora não banal, descritiva mas não isenta de psicologia”.

Do grande Raimundo Carrero, vem o testemunho de que Clávio “Não é apenas um pessoa que escreve”. É, segundo ele, um escritor, o escritor não some. Marca. E explica: “Assim tem sido o trabalho deste escritor que se construiu pela reflexão e, para revelá-la, foi em busca da Beleza”.

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Pois é, naquela mesa ele vai faltar e vai doer demais.

Visões d’amor (& amizade) 4

 Alfredo Martirena

Alfredo Martirena

 

 

A vida é um jogo. Mas não gosto de jogos.
Se for para jogar, prefiro viver.
Se for para dedicar meu tempo a alguma coisa,
prefiro um livro, uma conversa, ou escrever.
Ligar para alguém. Ligamos tão pouco.
Hoje temos tão pouco tempo para conversar ao telefone.
Celulares não param de tocar e não param de nos cobrar.
Em algum tempo, não havia celulares, e só havia telefones fixos.
Saímos de casa e ninguém nos achava pelo GPS.
Livros ainda são os melhores companheiros depois dos amigos.
E quando não há amigos por perto, voltamos aos livros.
E os amigos sempre estarão presentes para dividir conosco
o bem mais precioso: seu tempo.

Thereza Rocque da Motta

 

 

O homem deve ter a sua atitude, assumir o seu risco, deve revelar-se. O homem não pode viver na simulação, no embuste, encoberto. O homem tem na vida a sua substância natural e na atitude a sua condição de ser moral. A coisa pura existe dentro de nós: quando você ama, quando você sacrifica sua vida, quando você luta por um ideal, quando você é solidário. Para mim a marca humana mais edificante, mais dominadora e mais fecunda é você tem a possibilidade de ser solidário. Até no crime.

Djalma Aranha Marinho

 

Quando a amizade não é verdadeira, ela não machuca só quando você descobre. Ela machuca todas às vezes que você se lembra dos momentos em que achou que ela fosse verdadeira.

Karina de Aranho Marinho de Andrade Lima 

Karina Andrade

Karina Andrade

 

FIM DE ANO

O Ano Velho, atravessei a nado
Para tudo ou
Para nada.

O Ano Novo vem em ondas
Para o mar ou
Para amar.

O Novo e o Velho, quero juntos,
Sem roupas
Na ilha.

O Novo e o Velho, quero vivos,
Com os corpos horizontais
Em cópula.

Gustavo Krause

o-amor-é-tão

 

DEZ CHAMAMENTOS AO AMIGO

1
Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo. Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
Desejasse

Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.

Te olhei. E há tanto tempo
Entendo que sou terra. Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta

Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento.

Hilda Hilst

 

frase-amigo-e-coisa-pra-se-guardar-debaixo-de-sete-chaves-dentro-do-coracao-amigo-e-coisa-pra-se-milton-nascimento-160762

 

 

 

 

 

Exposição do grafite brasileiro em Berlim

Grafite

O excepcional artista brasileiro e alemão Leonhard Frank Duch informa que Berlim realiza, no próximo dia 30, a Exposição Retratos do Brasil 1869/2013, com uma importante exibição da arte do grafite no Brasil.

A apresentação do grafite brasileiro representou um escândalo em 2012, no Berlin Biennale, mas foi homenageado, no verão de 2013, em Frankfurt am Main, como uma forma inovadora e óbvia de manifestação artística em espaços públicos.

Um mudança que dividiu os artistas: os pixadores ilegais e radicais, que atuam principalmente com os personagens (PixOs) na cidade, e os grafiteiros agora reconhecidos, que transmitem principalmente suas mensagens com pinturas murais.

Grafite desenvolvido nas principais cidades do Brasil, especialmente a partir de meados da década de 1980 após o fim da ditadura militar, informa o noticiário oficial da exposição. Não é verdade. Gustavo Krause, prefeito do Recife, fez uma exposição de rua em outdoors, aberta e livre, inclusive espaços em branco para qualquer artista anônimo apresentar sua arte, livre de qualquer tipo de censura, notadamente política.

Krause nunca foi um intelectual enclausurado em uma torre de marfim. Gosta do cheiro do povo e sempre defendeu as artes, notadamente os artistas populares, a maioria seus amigos. Uma defesa e patrocínio que se estendiam pela valorização dos costumes do povo. Desde os campos de pelada à valorização de clubes e troças, e foi assim que cresceu o Galo da Madrugada, hoje internacionalmente conhecido.

Diz o noticiário da Exposição alemã: Personagens de casas e muros, como liberdade de expressão e de protesto foram o início. Enquanto isso, a cena do grafite brasileiro é particularmente diversa, vital e particular, de exclusiva qualidade artística.

“Pioneira do crescente reconhecimento mundial, a linguagem visual excepcional do grafite que, normalmente, opera aqui em arte de rua. Em contraste com os pixadores, os grafiteiros trabalham hoje em sua maioria de forma legal, e agem como intermediários sociais, tais Stadtverschönerer no país”.

Constanze Musterer apresenta a história do grafite brasileiro e vários Graffiti-Künstler/-innen com foco na região Nordeste do Brasil em sua apresentação. Examina a mudança do papel das Graffiti-Künstler/-innen.

Constanze Musterer estudou história da arte, religião e psicologia na Universidade Livre de Berlim. Historiadora da arte contemporânea, ela está particularmente interessada nos movimentos de países não europeus, especialmente na América Latina e na África, principalmente, a arte pública e a arte política. De 2010 a 2012 viveu em Recife, onde trabalhou no Museu Murillo La Greca como curadora e pesquisadora da arte contemporânea e da cultura tradicional no nordeste do Brasil.

Mais informações: www.diskurskunst-berlin.de

“Kulturtransfers #6 – Afro-Brasil – Porträtfotografie in Brasilien 1869/2013“

bis 30. März 2014

Di – So 14 – 18 Uhr

ifa-Galerie Berlin, Linienstraße 139/140, 10115 Berlin

www.ifa.de

Weitere Informationen:

Dr. Barbara Barsch, Tel. 030.284491.10, Fax 030.284491.30, barsch@ifa.de

Lágrimas de Pierrô

por Gustavo Krause

Gustavo-Krause

 

 

Quarta-feira de cinzas é um dia triste. Devia amanhecer sempre sob chuva torrencial para lavar corpos e almas que se entregaram aos apelos mundanos do carnaval. É dia de ressaca orgânica da viagem ao êxtase da fantasia e, na tradição cristã, é o momento de elevação espiritual porque simboliza a fragilidade da vida. Assim, cessada a chuva, seria celebrado o encontro do sol interior com o sol da natureza.

Como não brinco o carnaval na terça-feira gorda (acredite quem quiser), começo a quarta de cinzas, bem cedo, com os pensamentos em caminhada pelo Parque da Jaqueira. Este ano, na entrada que fica do lado da Av. Rui Barbosa, dei de cara com um resto de carnaval: o pierrô encolhido no banco da praça, abraçando as próprias pernas que davam sustentação à cabeça.

Ele chorava copiosamente. O primeiro impulso foi respeitar a solidão da tristeza; o segundo impulso foi consolar aquela alma penada que, supus, estava de coração partido por causa de uma colombina. Aquela lágrima desenhada no rosto triste do pierrô, cristalizada como um pingente, se transformara numa catarata de sentimentos incontidos.

Cedi à convicção de que o pierrô, personagem herdado da commedia dell´arte do teatro popular italiano, sofria da cornice universal da traição amorosa. No entanto, estranhei as cores da fantasia: o preto e o branco deram lugar ao verde/amarelo.

Pierrô e Colombina, por Antonio Gomide

Pierrô e Colombina, por Antonio Gomide

Fui direto ao ponto: – Por que tanto choro e tanto sofrimento, amigo pierrô? Você já sabia o fim do enredo: arlequim se aproveitaria de sua ingenuidade, de sua crença na bondade humana, e a colombina já era. – Não choro por colombina – balbuciou, sem levantar a cabeça, e entre soluços, completou – choro pela pátria amada, Brasil.

Surpresa! Refeito, argumentei que contivesse aquela angústia contagiante. – O Brasil, florão da América, é hoje uma das dez maiores economias do mundo; moeda estável; 40 milhões de brasileiros incorporados ao mercado de consumo; as instituições democráticas funcionando livremente e…

Senti que ele não queria ouvir e desatou a falar. – Choro pela impunidade. A sabedoria popular tem razão: nada como dias atrás de outros e um Toffoli no meio. E o que dizer da teoria da chavasca que desquadrilha a quadrilha e abre alas para o bloco dos sujos passar? Tem mais: o cara que tem cara de artista de cinema mudo, contracenando, em terreno lodoso, com outro canastrão que mais parece galã de novela mexicana, liquidam a esperança do “Moleiro de Sans-Souci” segundo a qual “ainda existem juízes em Berlim”.

Tentei contra-argumentar, mas o pierrô não interrompeu a catarse. – Que economia? A do pibinho? Atrás dos emergentes, do Chile, do Peru, da Colômbia? O Brasil do 85º lugar no IDH? O Brasil da segunda pior distribuição de renda em ranking da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE)? O Brasil de baixíssima produtividade que compromete a capacidade de competir no mercado globalizado? O Brasil cujo Estado monstruoso nós carregamos nas costas e nos devolve ineficiência generalizada na prestação de serviços? O Brasil da infraestrutura estrangulada? Da contabilidade maquiada? Das contas externas desequilibradas?

O Pierrô fez uma pausa para respirar, aí aproveitei. – Houve grandes avanços: a redução de taxa de mortalidade infantil, o aumento da expectativa de vida, universalização do ensino… Fui interrompido abruptamente. – Choro pelos 50 mil mortos por homicídio doloso todo ano e, por favor, não me venha falar em educação: segundo o Relatório de Capital Humano do Fórum Econômico Mundial, o Brasil ocupa o 88º lugar entre 122 países e, na qualidade do ensino de matemática e ciência, tem o 15º pior desempenho do mundo. Na avaliação do relatório PISA, entre 65 países, o Brasil obteve o 55º lugar em leitura, 58º em matemática e 59º em ciências. Sem falar no silencioso e perverso analfabetismo funcional: muita gente sabe ler, chega a ter diploma, mas não entende o que lê.

Concluí: seria inútil o esforço para aliviar a dor patriótica do Pierrô. Sugeri uma saída amigável e poética: – Vamos “tomar vermute com amendoim” como receitava Noel Rosa em “Pierrô Apaixonado” para “romper a esfera dos astros”, proposta de Manuel Bandeira em “A Canção das Lágrimas de Pierrot”. Ele aceitou. – Seu nome? – Apenas, pierrô .

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Publicado por blogflaviochaves

SACRILÉGIO. TOCARAM SAMBA NO ROCK RIO

O Globo nomeia o Rio de Janeiro de “Cidade do Rock” hoje. Bem feito. Chamou certo. O Rio é ex Cidade Maravilhosa. E ex Cidade do Samba. A promoção da cultura estrangeira, finalmente, conquistou os cariocas.

Outros projetos dos colonizadores, via Globo e demais redes de televisão, também estão vitoriosos. É o Brasil dos festivais de rock, funk e jazz.

A cultura brasileira foi pro brejo. Lembro que Gustavo Krause, quando governador de Pernambuco, patrocinou uma exibição do frevo em Miami, em um Congresso de Turismo, Hotelaria e Agentes de Viagem. Fiz a propaganda dessa brasilidade.

O dinheiro da cultura dos governos municipais, estaduais e federal não paga mais festival de música brasileira. Frevo, samba, baião, coco, ciranda, modinha e choro viraram coisa de índio, coisa de negro.

Tanto que um negro cantou samba no Rock in Rio. Ele está perdoado. É um excêntrico forasteiro.

“Stevie Wonder conquista o público cantando até samba”. Verdadeiro milagre

Stevie Wonder no Rock in Rio