Papa sobre imigrantes: expulsá-los é um ato de guerra

Cidade do Vaticano (RV) – Tensões e conflitos se resolvem com o ‘diálogo’ e o ‘respeito das identidades’. Rejeitar os imigrantes Rohingya, de religião muçulmana, é ‘guerra, significa matar’. Essa foi uma das respostas do Papa Francisco ao participantes do encontro do Movimento Eucarístico Jovem da última sexta-feira (7), no Vaticano. Entre perguntas e respostas, o Papa falou por cerca de 40 minutos também da necessidade de reconhecer a verdadeira paz, contra a paz ‘superficial’ que vem do diabo, um mal pagador que te enrola’.

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O Papa, ao fazer referência à situação dos irmãos Rohingya, disse para se refletir sobre lá onde ‘se respira uma grande diversidade de culturas’. Os Rohingya fogem de onde não conseguem ter a cidadania e nem os direitos fundamentais garantidos. Só na última semana, no Mediterrâneo, foram salvos mais de 2 mil imigrantes, enquanto que na terça-feira (4) da semana passada, 26 foram encontrados mortos e 200 desaparecidos num naufrágio na costa líbica.

“Pensemos àqueles nossos irmãos de Rohingya: foram expulsos de um país e de um outro e de um outro, e vão para o mar… Quando chegam num porto ou numa praia, lhes dão água e alguma coisa pra comer e os expulsam ao mar. Esse é um conflito não resolvido e isso é guerra, isso se chama violência, chama-se matar.”

O Papa também observou que inclusive os conflitos podem nos fazer bem, porque nos fazem entender as diferenças, entender como são as coisas diversas e entender que, se não encontrarmos uma solução que resolva esse conflito, será uma vida de guerra.

“Sobre o tema dos imigrantes e da acolhida, estamos em pleno acordo com a denúncia expressa do Papa Francisco”, disse o Padre Eugenio Bernardini, moderador da Tavola Valdese, depois do apelo do Santo Padre sobre os ‘atos de guerra e de violência homicida’. Ele lembra também que “com a Igreja católica e a Cáritas, desenvolvemos tantas ações de socorro, ajuda e hospitalidade aos migrantes e aos imigrantes, de Lampedusa a Ventimiglia. Não se trata apenas de lançar denúncias, mas de agir concretamente dando o exemplo, até que a Itália e, mais em geral, a Europa deem uma resposta válida e concreta pra esse problema”.

O porta-voz do Centro Italiano de Refugiados, Christopher Hein, considerou “muito importantes as palavras” de Francisco. E acrescentou que “a voz do Papa é importantíssima em toda essa história de respeito ao direito de abrigo e refúgio necessário. A resistência já foi condenada pela Corte Europeia dos direitos do homem, mas vemos essa atitude um pouco em toda a Europa. Invés de aceitar e acolher”, conclui o porta-voz, “erguem-se muros e é expressamente proibido no direito internacional”.

Em plena harmonia com Francisco também está o fundador da União Comunidades Islâmicas Italianas (Ucoii), Roberto Piccardo: com o Papa, “temos uma total solidariedade e uma absoluta comunidade de intenções e de sentimentos”.

Segundo o arcebispo de Florença, Cardeal Giuseppe Betori, abordando o tema da imigração, “trata-se de não limitar os espaços do coração, e nem secar a raiz da fé que alimenta os gestos de caridade”. Uma orientação, enaltece o cardeal, que “deve animar também a acolhida a homens, mulheres e crianças que, imigrantes, se abrigam entre nós, distanciando-se das guerras, da fome, das condições desumanas de vida”.

Essas palavras foram pronunciadas por Dom Betori durante a homilia na Basílica de São Lourenço, que acrescentou: “São todos para acolher como irmãos, porque em cada um deles devemos reconhecer a dignidade de uma pessoa humana”. (AC/Adnkronos)

(from Vatican Radio)

Grécia é o primeiro destino dos refugiados que cruzam o Mediterrâneo

A Grécia foi o ponto de chegada de cerca de 125 mil refugiados e migrantes que arriscaram a vida no Mediterrâneo este ano. Longe de estar preparado para um acolhimento desta dimensão, o governo reúne hoje para tomar medidas de emergência. O Syriza quer mais apoio às redes de solidariedade auto-organizadas que têm dado a resposta mais eficaz no apoio aos refugiados.

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As Nações Unidas estimam que aproximadamente 224.5 mil pessoas atravessaram o Mediterrâneo rumo à Europa. As ilhas gregas foram o ponto de chegada para quase 124.2 mil refugiados e migrantes, a Itália para 98.5 mil, Espanha para 1.7 mil e Malta recebeu 94 pessoas, segundo os dados oficiais destes países.

Até ao início de agosto, o Alto Comissariado da ONU para os Refugiados, presidido pelo português António Guterres, estimava em 2100 o número de mortos e desaparecidos durante as travessias do Mediterrâneo.

A Síria é o ponto de partida e nacionalidade de dois terços dos refugiados que conseguiram chegar à Grécia. Segue-se o Afeganistão (20%) e o Iraque (5%).

O Brasil e os países desenvolvidos: As relações com os Estados Unidos

por Luiz Alberto Moniz Bandeira

 

Gianfranco Uber

Gianfranco Uber

O Brasil, na condição de potência emergente, não pode deixar de manter, tanto quanto possível, as melhores relações econômicas, comerciais e diplomáticas com os países desenvolvidos – com os Estados Unidos e a União Européia, assim como com a China e a Rússia – indispensáveis para o escoamento de sua produção tanto agropastoril quanto manufatureira. Porém, compete com esses países, não somente na medida em que trata de abrir e consolidar mercados na América do Sul, África, Oriente Médio, mas também em seu próprio mercado interno, devido às suas dimensões demográficas e econômicas, com o PIB de US$2.33 trilhões (2012 est.), conforme a paridade do poder de compra, maior que o da França, da ordem de US$2.238 trilhões (2012 est.), e equivalente ao do Reino Unido, a segunda maior economia da União Europeia, com US$2.313 trilhões (2012 est.), abaixo apenas da Alemanha, cuja massa econômica é calculada em US$3.167 trilhões (2012 est.).

Situado no Hemisfério Ocidental, o Brasil tendeu a ter uma espécie de unwritten alliance com os Estados Unidos, de cujo mercado suas exportações de café, durante quase um século, dependeram, até cerca de 60% a 70%. Essa complementariedade econômica muito influiu para que sua política exterior até 1950 quase sempre acompanhasse as linhas traçadas pelo Departamento de Estado. O ex-chanceler Afonso Arinos de Melo Franco, contou em suas memórias, que o senador João Villas Boas, encarregado certa vez de missão internacional, a única instrução dada pelo Itamaraty foi a de “votar de acordo com nossos amigos, os Estados Unidos da América do Norte”.

A invocação da “amizade tradicional” entre o Brasil e os Estados Unidos, como um estereótipo ideológico, teve como objetivo pautar o funcionamento do sistema de relações internacionais, dentro do Hemisfério, segundo os interesses de Washington. Na realidade, ao longo da história, as relações entre os dois países nunca não foram tão amistosas e tranquilas. No século XIX, o Império do Brasil suspendeu três vezes (1827, 1847 e 1869) as relações diplomáticas com os Estados Unidos, conquanto desde 1848 já lhes destinasse a maior parte de suas exportações, principalmente de café. Já em 1849, o chefe da Legação do Brasil em Washington, Sérgio Teixeira de Macedo, escreveu não acreditar que houvesse “um só país civilizado onde a ideia de provocações e de guerras seja tão popular como nos Estados Unidos”. E comentou que a “democracia”, orgulhosa do seu desenvolvimento, só pen­sava em conquista, intervenção e guerra estrangeira, a preparar, de um lado, a anexação de toda a América do Norte e, do outro, uma política de influência sobre a América do Sul, que se confundia com suserania. Houve momento, no início dos anos 1850, que os dois países quase chegaram à guerra, por causa da Amazônia.

Os Estados Unidos e o Brasil representam as duas maiores massas geográficas e demográficas e, não obstante a enorme assimetria, são as duas maiores potências econômicas do Hemisfério Ocidental. Esse dado cartográfico, se, de um lado, constitui uma fonte de contradições, um fator de tensões latentes e desavenças, e de rivalidade entre os dois países, determina, por outro, certa convergência de interesses e necessidade de cooperação, nos mais diversos setores. O Brasil e os Estados Unidos necessitam, portanto, conservar boas relações e estabelecer entendimentos, quaisquer que sejam as tendências de seus respectivos governos ou atritos econômicos e políticos.

Aos Estados Unidos nunca efetivamente interessou a industrialização do Brasil, sobretudo após haver suplantado a Grã-Bretanha, depois da Primeira Guerra Mundial. O Brasil representava importante mercado para o escoamento de suas manufaturas. Porém, o funcionamento do complexo siderúrgico de Volta Redonda, como empreendimento do próprio Estado, possibilitou a implantação do setor de bens de capital, a expansão das forças produtivas do capitalismo, e as crescentes necessidades do processo de industrialização passaram a condicionar o interesse nacional. Assim, a partir dos anos 1950, o rush dos capitais europeus, os alemães à frente, constituiu quiçá o principal fator, inter alia, que impeliu os Estados Unidos a incrementar os investimentos na indústria brasileira, a fim de não perder o mercado para países europeus, e consolidar sua presença no mercado brasileiro.

Acelerado na década de 1950, o desenvolvimento da indústria, tanto de bens de consumo quanto de meios de produção, deu à economia do Brasil, ao superar o peso da agricultura, características de maturidade capitalista e criou a possibilidade e condições para sua auto-sustentação e autotransformação. Essa mudança qualitativa na estrutura econômica ocorrera, sobretudo, devido‚ a intervenção do Estado, que o presidente Getúlio Vargas, em seus dois governos – 1930-1945 e 1951-1954), havia transformado o Estado em capitalista coletivo real, a fim de impulsar os setores de base da economia. 1951-1954). E o Brasil, necessitando exportar cada vez mais para continuar a importar e a crescer a taxas compatíveis com o seu aumento demográfico, da ordem de quase 3% a.a. na década de 1960, não podia manter suas relações internacionais e sua política exterior atreladas aos interesses dos Estados Unidos.

Daí que a política exterior do Brasil, com os governo de Jânio Quadros (jan. – agosto 1961) e João Goulart (1961-1964) não apenas se afastou da pauta do Departamento de Estado como também se contrapôs às suas diretrizes, ao defender a soberania e a autodeterminação de Cuba, opondo-se à intervenção militar, sob o manto da OEA, para derrubar o regime revolucionário de Fidel Castro. Porém, conforme ressaltou o jornalista Glenn Greenwald, de The Guardian, de Londres, “o governo dos Estados Unidos olha como ameaça aqueles países que nem sempre lhe obedecem. Quanto mais um país desobedecer-lhes, mais será visto como ameaça”. Assim o Brasil afigurou a Washington. Sua política externa independente foi um dos principais fatores que levaram os Estados Unidos a encorajar o golpe de Estado contra o governo constitucional do presidente João Goulart, efetivado em 1° de abril de 1964.

Conforme comentou a professora americana Jan K. Black, sob o governo do presidente Humberto Castelo Branco (1964-1967), instalado com o golpe militar, “o Brasil declarou sua dependência” e transformou-se em “porta-voz” das políticas dos Estados Unidos para a América Latina. O general Juracy Magalhães, como embaixador em Washington e depois Ministro das Relações Exteriores, chegou ao ponto de declarar “o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”. E, com toda a razão, o ex-chanceler Afonso Arinos de Melo Franco lamentou o “atrelamento melancólico” do Brasil à política externa dos Estados Unidos”, durante o governo do marechal Humberto Castelo Branco, que levou as premissas até às suas conclusões mais radicais, “privando o Brasil de qualquer ação própria internacional e destruindo o prestígio que conquistáramos, e tudo para quê? Para nada, a não ser desfigurar nossa fisionomia nacional”.

Incrementar a capacidade industrial do Brasil, no entanto, correspondia aos interesses das Forças Armadas, como fator preponderante do poder nacional. E daí que, desde a ascensão do general Artur da Costa e Silva à presidência da República, o Brasil restabeleceu linhas de política exterior muito similares às dos governos dos presidentes Jânio Quadros e João Goulart. Com toda a razão, no início da década de 1970, o embaixador João Augusto de Araújo Castro, em Washington, declarou que o Brasil devia continuar a opor-se “tenazmente a quaisquer tentativas de contenção, tanto mais quanto é certo que, no limiar e em pleno desenvolvimento econômico, o Brasil seria, dentre todos os países do mundo, mais acentuadamente do que, por exemplo, a Índia, o México, a Argentina e a República Árabe Unida, aquele que mais seria prejudicado pela afirmação de uma política de contenção, ou, em outras palavras, de uma política de congelamento do poder mundial.

O Brasil opôs-se então ao Tratado de Não-Proliferação das Armas Nucleares (TNP), que se baseava, segundo o embaixador Araújo Castro, na “ideia de força e poder e visa ao congelamento desse poder e dessa força”, uma vez que, “em todos estes anos de vigência do TNP, as superpotências não realizaram um esforço sério para chegar a medidas de ‘desarmamento nuclear’ tal como se previa no mesmo tratado”.

A decisão de fazer o Brasil assinar e ratificar o TNP, com que o presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-2003) reverteu, em 1997-1998), uma diretriz de política exterior, inalterável ao longo de 29 anos, significou congelar o statu quo de 1945, eternizar o domínio das cinco potências nucleares e a legitimar uma ordem internacional, fundada no desequilíbrio de direitos e obrigações dos Estado. Contudo, ao contrário do que o presidente Fernando Henrique Cardoso imaginou e pretendeu, sua iniciativa não fortaleceu a credibilidade do Brasil ante a comunidade internacional e não lhe deu acesso aos foros multilaterais de decisão política. Os Estados Unidos não o convidaram a integrar o G-7 nem lhe apoiaram a pretensão de tornar-se membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, embora, já em 1975, o Brasil propugnasse por uma revisão da Carta de São Francisco, pois, como disse o embaixador Araújo Castro, “não podemos viver eternamente no ano de 1945”.

O Brasil, pelas suas dimensões e sob todos os aspectos, configura-lhes um rival, um adversário, que concorre nos mercados da América do Sul, da África e em outras regiões. Os Estados Unidos nunca aceitaram, realmente, a integração Brasil-Argentina e, consequentemente, a formação do Mercosul, como os ex-presidentes Arturo Alfonsín (Argentina) e José Sarney claramente perceberam. Outrossim, decerto, não se conformaram com o fracasso do projeto para implantar a Área de Livre Comércio das Américas (ALCA), o qual intentam desde 1889 e ainda persistem em implementar, através da Aliança do Pacífico, bloco formado por México, Colômbia, Peru e Chile.

Uma superpotência, com enormes carências, sobretudo de energia, representa, entretanto, um perigo ainda maior, quando está a perder a hegemonia, e não somente pretende mantê-la, como estabelecer o full spectrum dominance, do que quando expandia seu império. Uma superpotência hegemônica não tem aliados, mas vassalos. E ameaças sempre existem, mesmo que possam parecer remotas. As jazidas de pré-sal, descobertas, ao longo do litoral, na Amazônia Azul, despertam os interesses de organismos e estados, como a OTAN, Estados Unidos, Rússia, Reino Unido, França, que têm capacidade de aplicar poder ou exercer pressões sobre o Brasil na região. A IV Frota navega, no Atlântico Sul, coordenada com o United States Africa Command (AFRICOM) com a perpectiva estratégica de médio e longo prazo, a fim de assegurar o fluxo das linhas de comunicações para recursos primários fundamentais ao sistema produtivo dos Estados Unidos. Transcrevi trechos

 

Tio Sam

Mais de 50.000 vidas, todas elas de jovens negros ou mulatos, pobres quase em sua totalidade, que acabam assassinados a cada ano, mais que em todas as guerras em curso no Planeta

Para o Estado somos todos bandidos
Ele existe não para nos defender sem necessidade de matar, mas para “executar”, e se for com tortura, melhor

 

O ambulante Carlos Augusto Braga

O ambulante Carlos Augusto Braga

por Juan Arias/El País/ Espanha

 

Estou há muitos anos neste país que amo, sobretudo suas pessoas. Muitas coisas mudaram desde que aterrissei pela primeira vez no Rio, onde ainda se podia caminhar pela rua e viajar de ônibus sem ter que ficar alerta por medo de ser vítima da violência urbana. O mesmo ocorria em São Paulo.

O Brasil avançou na consciência dos cidadãos e até em riqueza econômica, apesar de uns poucos continuarem crescendo cada vez mais do que a maioria. Há algo, porém, que no Brasil não só não avançou, como também retrocedeu. Por exemplo, no que se refere ao respeito à vida das pessoas.

Eu me pergunto tantas vezes, com dor e até com raiva, por que a vida de uma pessoa vale tão pouco e é esmagada a cada dia como se esmaga uma barata. Esse pouco apreço por ela faz com que nossa polícia, eternamente mal paga e mal preparada, sempre com licença para matar, seja a cada dia mais truculenta e corrupta.

Eu voltei a me perguntar lendo a sangrenta reportagem de minha colega María Martín neste jornal sobre o tiro disparado por um policial na cabeça de um jovem vendedor ambulante, que acabou morto no asfalto de uma rua da rica São Paulo.

Esse policial que atirou sem compaixão no ambulante, como se atira em um coelho no campo, não pensou que aquele jovem vendia suas coisas na rua porque talvez não tenha tido a possibilidade de fazer algo melhor na vida? Que poderia ter sido seu filho ou irmão? Que ele também tinha sonhos e desejo de continuar aproveitando a vida?

Vendo aquelas imagens feitas no lugar do crime pela nossa repórter María meu estômago se revirou de desgosto e a mente, de indignação, enquanto pensava que esses policiais que em vez de nos dar um sentido de segurança e proteção nos incutem a cada dia mais medo.

Uma mancha de sangue na rua onde começaram os distúrbios: MARÍA MARTÍN

Uma mancha de sangue na rua onde começaram os distúrbios: MARÍA MARTÍN

Pensei também que a nossa classe média ajuda os guardiães da ordem a disparar o gatilho da pistola sem tantos remorsos. Fomos nós que cunhamos a terrível frase de que “bandido bom é bandido morto”. E o respeito à vida? “É que eles também não respeitam a nossa”, se contrapõe. Mas isso leva à concepção de que o Estado existe não para nos defender sem necessidade de matar, mas para “executar”, e se for com tortura, melhor. E que todos acabamos sendo vítimas potenciais dessa loucura.

Há países, como os Estados Unidos, onde se um policial poderia ter prendido um criminoso sem lhe tirar a vida e fica comprovado que não o fez porque era mais fácil matá-lo, acaba sendo duramente punido.

É um problema de escala de valores. Quando a vida de um ser humano, criminoso ou santo, deixa de ter valor supremo, todos logo acabamos nos tornando carne de canhão. Nossa vida entra em liquidação, perde seu valor e dignidade.

Tudo isso, no Brasil parece mais evidente pelo fato de que o Estado trata os cidadãos não como pessoas em princípio honradas, mas como potenciais “bandidos”. Em outros países, o Estado parte do pressuposto de que o cidadão é do bem, que não mente, que não engana, que não procura, a princípio, violar a lei.

E é o Estado, se for o caso, que tem de demonstrar que não é assim, que esse cidadão é um delinquente e fraudador, e só então terá de ser punido.

Viram como nós, cidadãos, somos tratados no Brasil quando precisamos comprar algo, quando entramos em um cartório? Todo o papel é pouco para demonstrar que não somos bandidos, sem-vergonha, mentirosos, vigaristas. Nos pedem certificados e mais certificados, assinaturas e mais assinaturas, reconhecimento de firma, e ainda mais, comprovação com presença física de que essa assinatura é autêntica.

Em uma ocasião, quando comprei um pequeno imóvel em Madri, tudo durou 20 minutos num cartório. Assinamos o contrato de compra e venda. O proprietário me entregou a escritura e as chaves e eu entreguei o cheque da compra. No Brasil nos teríamos perguntado, e se o imóvel foi vendido duas vezes? E se nós dois não estivéssemos nos enganando? E, e, e, e…..! quantos “es” e quantos medos de que no fundo sejamos de verdade uns bandidos que só queremos enganar!

Essa possibilidade de que possamos estar enganando sempre se deve ao fato de que perante as autoridades, ante a polícia, ante o Estado, todos somos sempre vistos como bandidos em potencial. Como me disse um amigo meu, para meu espanto: “É que todos nós, brasileiros, somos todos um pouco bandidos. Se nós podemos enganar, fazemos isso”.

Não acredito. Sempre pensei que até nas sociedades mais violentas e atrasadas as pessoas de bem, honradas, que não desejam enganar são infinitamente mais numerosas do que os bandidos. Do contrário, o mundo inteiro seria há muito tempo um inferno.

É assim no Brasil? Enquanto se continuar pensando e agindo como se a vida humana tivesse menos valor do que um verme e ninguém se espantar quando é sacrificada com violência e sem remorsos, às vezes até por uma insignificância, talvez tenhamos que reconhecer que esse inferno existe também aqui.

Isso é o que recordam as mais de 50.000 vidas, todas elas de jovens negros ou mulatos, pobres quase em sua totalidade, que acabam assassinados a cada ano, mais que em todas as guerras em curso no Planeta. Cada vez que um policial acaba com a vida de uma pessoa na rua, às vezes por uma mesquinharia, continuará sendo alimentada, pela outra parte, a dos cidadãos e dos mesmos bandidos, uma cadeia infernal de desejo de vingança que continuará nos esmagando e humilhando.

Até quando? Irá despertar alguma vez este país de tantas maravilhas, de tantas pessoas fantásticas, com desejo de viver em paz, sem serem tratadas como se fossem todas bandidos, ou continuará deixando atrás de si a cada dia tristes trilhas de sangue e medo ante a impassividade e a impotência do Estado?

Edinaldo, amigo e companheiro de trabalho de Carlos Augusto: M. MARTÍN

Edinaldo, amigo e companheiro de trabalho de Carlos Augusto: M. MARTÍN

Ambulantes, companheiros de Braga, a caminho do aeroporto de Guarulhos para prestar homenagem ao camelô: M. MARTÍN

Ambulantes, companheiros de Braga, a caminho do aeroporto de Guarulhos para prestar homenagem ao camelô: M. MARTÍN


Veja os soldados estaduais da polícia assassina do governador Geraldo Alckmin em ação (T.A.):

SENTIMENTO DEL MONDO. Carlos Drummond de Andrade

sala

 

 

 

Ho soltanto due mani
e il sentimento del mondo,
ma sono pieno di schiavi,
i miei ricordi scorrono
e il corpo transige
nella confluenza dell’amore.

Quando mi alzerò, il cielo
sarà morto e saccheggiato,
io stesso sarò morto,
morto il mio desiderio, morto
il pantano senza accordi.

I compagni non hanno detto
che c’era una guerra
e che era necessario
portare fuoco e viveri.
Mi sento disperso,
anteriore a frontiere,
umilmente vi chiedo
che mi perdoniate.

Quando i corpi passeranno
io resterò solo solo
capeggiando la memoria
della guardia, della vedova e del microscopista
che abitavano la baracca
e non furono ritrovati
all’albeggiare

quest’albeggiare
più notte della notte.

 

 
In lingua originale:

SENTIMENTO DO MUNDO

Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo,
mas estou cheio de escravos,
minhas lembranças escorrem
e o corpo transige
na confluência do amor.

Quando me levantar, o céu
estará morto e saqueado,
eu mesmo estarei morto,
morto meu desejo, morto
o pântano sem acordes.

Os camaradas não disseram
que havia uma guerra
e era necessário
trazer fogo e alimento.
Sinto-me disperso,
anterior a fronteiras,
humildemente vos peço
que me perdoeis.

Quando os corpos passarem,
eu ficarei sozinho
desfiando a recordação
do sineiro, da viúva e do microscopista
que habitavam a barraca
e não foram encontrados
ao amanhecer

esse amanhecer
mais noite que a noite.

 

 
Traduzione dal Portoghese di Antonio Tabucchi.

cda

Carlos Drummond de Andrade è il più importante poeta brasiliano del Ventesimo secolo.

 

Boletim Sentimental da Guerra no Recife

por Mauro Mota

 

mauro-mota
Meninas, tristes meninas,
de mão em mão hoje andais.
Sois autênticas heroínas
da guerra, sem ter rivais.
Lutastes na frente interna
com bravura e destemor.
À vitória aliada destes
o sangue do vosso amor.
Por recônditas feridas,
não ganhastes as medalhas,
terminadas as batalhas
de glórias incompreendidas.
Éreis tão boas pequenas.
Éreis pequenas tão boas!
De várias nuanças morenas,
ó filhas de Pernambuco,
da Paraíba e Alagoas.

Tínheis de quinze a vinte anos,
tipos de colegiais,
diante dos americanos,
dos garbosos oficiais,
do segundo time vasto
dos fuzileiros navais
prontos a entregar a vida
para conseguir a paz,
varrer da face do mundo
regimes ditatoriais
e democratizar todas
as terras continentais
a começar pelo sexo
das meninas nacionais.

Iniciou-se então a fase
de convocação e treino
todos os dias na Base.
Ah! com que pressa aprendíeis,
só pela conversa quase!
Dentro de menos de um mês
sabíeis falar inglês.

E os presentes? Os presentes
eram vossa tentação.
Coisas que causavam aqui
inveja e admiração:
bolsas plásticas, a blusa
de alvas rendas do Havaí,
bicicletas “made in USA”,
verdes óculos “Ray Ban”.
Era um presente de noite
e outro dado de manhã,
verdadeiras maravilhas
da indústria de Tio Sam.

E as promessas? As promessas
eram vossa sedução.
acreditáveis que elas
não eram mentira, não.
Um “Frazer” no aniversário,
passeios de “Constellation”,
num pulo alcançar Miami,
almoçar na Casa Branca,
descer a Quinta Avenida,
fazer “piquet” pela Broadway
ver a “première” no Cine
junto dos artistas, com
eles todos na platéia.
Ouvir na “Opera House”,
numa noite Toscanini,
na outra noite Lili Pons.

Com tanto “it” e juventude
podíeis testes ganhar,
ser estrelas de Hollywood,
ciúmes de Hedy Lamarr.

Ah! bom tempo em que corríeis,
“pés descalços, braços nus,
atrás das asas ligeiras
das borboletas azuis”.
Ó prematuras mulheres,
fostes, na velocidade
dos “jeeps”, às “garconières”
da Praia da Piedade.

Quase que se rebentavam
vossos úteros infantis
quando veio o telegrama
da tomada de Paris.

Ingênuas meninas grávidas,
o que é que fostes fazer?
Apertai bem os vestidos
pra família não saber.
Que os indiscretos vizinhos
vos percam também de vista.
Saístes do pediatra
para o ginecologista.

“Babies” saxonizados,
que só mamam vitaminas,
são vossos “babies”, meninas,
em vários cantos gerados,
mas “mapples” dos automóveis,
no interior das cantinas,
da praia na branca areia,
em noites sem lua cheia.

Meninas, tristes meninas,
vossos dramas recordai,
quando eles no armistício,
vos disseram “Good bye”.
Ouvireis a vida toda
a ressonância do choro
dos vossos filhos sem pai.

 

Ucrania: ¿la primera “guerra de granos y cereales” del siglo XXI?

A Ucrânia tornou-se independente em 1991. O país é um estado unitário composto por 24 oblasts (províncias), uma república autônoma (Crimeia) e duas cidades com estatuto especial: Kiev, a capital e maior cidade, e Sevastopol, que abriga a Frota do Mar Negro da Rússia sob um contrato de leasing. Desde a dissolução da União Soviética, o país continua a manter o segundo maior exército da Europa, depois da Rússia. O país é o lar de 44,6 milhões de pessoas, 77,8% dos quais são ucranianos étnicos, com minorias de russos (17%), bielorrussos e romenos.

 

BAJO LA LUPA

por Alfredo Jalife-Rahme

 

Ciudadanos pro rusos marcharon ayer en Donetsk, Ucrania

Ciudadanos pro rusos marcharon ayer en Donetsk, Ucrania

 

Mucha tinta se ha desparramado sobre la guerra del gas que infligió Rusia a la Unión Europea (UE) a través de Ucrania, por donde pasa 60 por ciento de las exportaciones gaseras de Moscú al viejo continente, de las cuales la tercera parte son destinadas a Alemania.La misma Ucrania en sus nuevos tres conspicuos componentes –la parte occidental eurófila, la parte oriental rusófila y la exquisitamente sensible península de Crimea, que busca incorporarse a Rusia– depende del 60% de su importación del aún insuperable gas estatal ruso. Ucrania posee 39 millones de millones (trillones en anglosajón) de pies cúbicos en reservas de gas natural que aún no explota: ¡la cuarta parte de las reservas probadas mundiales!

Chevron –la omnipotente trasnacional estadunidense asesorada por la ex asesora de Seguridad Nacional del ex presidente Baby Bush que se despachó con la cuchara grande en el “México neoliberal itamita”– firmó con el fallido trapecista y saltimbanqui, el defenestrado presidente Viktor Yanukovich, un acuerdo por 10 mil millones de dólares para explotar el polémico shale gas (esquisto/lutita/grisú). Según los analistas, el problema radica en que la mayor parte de las reservas de shale gas se encuentran en la parte oriental rusófila de Ucrania.

Al unísono de su exquisita ubicación geoestratégica, la gran riqueza de las dos Ucranias y Crimea lleva a la colisión de los respectivos intereses de EEUU/OTAN/UE frente a Rusia, lo cual se manifiesta sensiblemente con los granos/cereales y el gas natural: en sus múltiples facetas de tránsito, importación desde Rusia y su futura explotación del shale gas por Chevron, Shell y Exxon Mobil. Un aspecto que no ha sido abordado lo constituye la primera guerra de granos del siglo XXI que se escenifica en Ucrania: tercera potencia exportadora de granos detrás de Estados Unidos y Argentina.

Se pudiera aducir que se escenifican otras guerras de los granos y cereales en forma subrepticia tanto en Sudán como en Argentina. Sudán, el otrora país más extenso y granero legendario de África, ha sido balcanizado en dos pedazos con la emergencia de Sudán del Sur, pletórico en petróleo, lo cual ha favorecido la agenda de Estados Unidos e Israel, de lo que poco se publicita a escala mundial.

Argentina –potencia de granos/cereales desde inicios del siglo XX– sufre una brutal guerra multidimensional, específicamente, en su muy vulnerable sector financiero que controla la dupla anglosajona (Estados Unidos y Gran Bretaña), que tiene en la mira a la Patagonia: el máximo granero sudamericano, además de ser su principal zona de reservas de petróleo y gas. Uno de los aspectos que se encuentran detrás de la exquisita ubicación estratégica de la península de Crimea radica en sus puertos, desde donde Ucrania, uno de los máximos productores de maíz y trigo del mundo, exporta sus granos y cereales, que le reditúan una sustancial parte de su PIB.

Según cifras del gobierno ucraniano (what ever that means), más del 50% de la economía de Crimea depende de la producción de alimentos y de sus industrias de distribución. El procesamiento de alimentos constituye un importante segmento de la economía de Ucrania y uno de cada cuatro trabajadores está empleado en la agricultura o en la silvicultura. Ucrania representa el granero de Rusia y de Europa debido a su negro suelo fértil (chernozem) y a sus pletóricas cosechas de granos (trigo, cebada, centeno, avena, girasol, remolacha, etcétera).

Según el World fact book de la CIA, Ucrania producía 25% de las exportaciones agrícolas de la ex URSS, mientras que en el presente exporta una sustancial cantidad de granos, lo cual se reflejó en el disparo de su cotización durante la delicada crisis del cambio de régimen fondomonetarista en Kiev y la respuesta rusa en Crimea. Las exportaciones agrícolas de Ucrania están dirigidas en 20% a Rusia, 17% a la UE, 7% a China, 6% a Turquía y 4% a Estados Unidos.

The Financial Times (Canasta de promesas en Ucrania, 17/12/12) rememora que “se libraron guerras entre Rusia, Polonia y el imperio otomano para controlar el valioso chernozem de Ucrania. En 2011, Ucrania tuvo una cosecha récord de 57 millones de toneladas, por lo que las adecuadas inversiones y la tecnología moderna de agricultura podría duplicar su producción de granos en la próxima década, según el BERD (Banco de Reconstrucción y Desarrollo de Europa).

Varias de las seis trasnacionales del cártel anglosajón que controlan los granos y cereales –entre ellas Cargill, ADM y Bunge, al unísono de las procesadoras Nestlé y Kraft– han invertido miles de millones de dólares en la pasada década en Ucrania debido a su enorme potencial agrícola. También hacen cola en el chernozem las temibles Monsanto y DuPont Pioneer. Hoy Ucrania obtiene 12 mil millones de dólares de sus exportaciones de granos/cereales y parte de su controvertida asociación mercantil con la UE, lo cual supuestamente detonó la crisis gubernamental en Kiev, versa sobre las exportaciones de granos/cereales al Medio Oriente y África, donde la crisis alimentaria fue el detonador de las revoluciones árabes.

El fundamental atractivo de Ucrania para su incrustación al mercantilismo europeo contempla(ba) su entronización como la canasta de pan y carne de Europa mediante una mayor laxitud para la renta y/o compraventa de sus terrenos fértiles. Anna Vidot considera que la escalada en Ucrania puede tener un impacto significativo en los mercados globales de granos ya que la región del Mar Negro es una de las más importantes encrucijadas de producción y exportación de granos: Ucrania sola produce la misma cantidad de trigo que Australia. La escalada en Crimea llevó al alza del petróleo, el oro y los granos (un 40%).

El Departamento de Agricultura de Estados Unidos estima que Ucrania abastece 16% del total global de maíz y trigo, cuyo mayor transporte pasa por el exquisitamente súper estratégico puerto de Sebastopol (Crimea), sede de la flota rusa en el Mar Negro. Sin contar las abundantes reservas marítimas de gas natural en la parte de Crimea en el Mar Negro, lo real es que la balcanización de facto de las dos Ucranias y Crimea conlleva como corolario la fractura catastral también de sus reservas de shale gas y de sus granos/cereales. Los cruces geopolíticos de los hidrocarburos con los granos/cereales suelen ser trágicos.

Los horrores de la guerra en palabras

“No hay nada glorioso en la muerte de un joven en el frente, sea del bando que sea”, plantea el autor bosnio Velibor Colic, que aun en el horroroso recuento de la guerra de los Balcanes en los noventa encuentra una ventana donde hacer entrar la humanidad y hasta el humor

Colic se alistó en el ejército bosnio, pero desertó

Colic se alistó en el ejército bosnio, pero desertó

 

Por Por Silvina Friera


“¿Se paga peaje cuando no se tienen más que recuerdos como equipaje?” Esta acuciante pregunta la plantea un sobreviviente de la lucha encarnizada y homicida de los Balcanes en los años ’90, consciente de la dificultad radical de expresar los sentimientos de quienes se han salvado del “sangriento festín” al que él, como tantos otros, estaba convidado desde hace tiempo. “No hay nada glorioso en la muerte de un joven en el frente, sea del bando que sea”, se lee en la última parte de Los bosnios (Periférica) primer libro del escritor bosnio Velibor Colic, un artefacto bello y doloroso, próximo a los recursos de la ficción, con evocaciones breves que podrían camuflarse en el ropaje “mítico”, es decir, rozar el cuento de hadas, a veces la plegaria o la poesía, otras relatos brevísimos de vidas truncadas. Pero, como aclara el narrador, “todo es verídico, por desgracia”. Un texto que es un eslabón más de la cadena en la que se podrían inscribir Walter Benjamin, Primo Levi y también Ivo Andric, el único autor yugoslavo que obtuvo el Premio Nobel de Literatura. Se suele aconsejar que para tratar cuestiones tan extremas, en la compleja frontera de lo indecible, conviene esperar pacientemente, dejar reposar esa experiencia. Que la escritura inmediata, en “caliente”, pegada a los acontecimientos, además de contraproducente, no se traduce en resultados mínimamente adecuados. Que es indispensable cierta distancia temporal para escribir. Cualquier tipo de manual o de instrucciones están concebidos para ser transgredidos. Y éste parece ser el caso del narrador bosnio.

Colic nació en 1964 en la pequeña ciudad de Modrièa (Bosnia). Se alistó en el ejército bosnio, pero no pudo soportar lo que vieron sus ojos. En su primer libro, publicado en Francia en 1994, donde actualmente reside, dos años después de los hechos vividos, cuenta el incidente que lo convirtió en “desertor”. A los prisioneros serbios se los obligaba a tender las manos entre sí, y se las ataban con alambre de espino. “Resulta que pasé cerca de un hombrecillo mal afeitado, con uniforme del ejército federal, que estaba agachado, y con las manos sujetas, junto al canal que bordea la carretera de Garevac, cerca de Modrièa. Con voz suplicante, me llamó y me pidió que le abriera el bolsillo superior izquierdo de su chaqueta. Así lo hice, y encontré en él la fotografía de dos niños (un niño ya de una cierta edad y una niñita más pequeña). Le deslicé entre sus dedos ensangrentados, di vuelta y me marché. En el dorso de la foto ponía: ‘¡Papá, vuelve!’.” En julio de 1992, un grupo de entre dos y mil tres mil bosnios de la región de Posavina fue encerrado en el campo Slavonski Brod. El escritor estaba entre aquellos desdichados. En una nota al pie del capítulo sobre este campo “de la derrota y la vergüenza”, el autor revela que, aprovechando una violenta tormenta que estalló el tercer día de su cautiverio, el 13 de julio, consiguió saltar el muro de aquel estadio transformado en campo y llegar hasta Zagreb. Al día siguiente, el campo fue desmantelado de modo inevitable: los serbios lo bombardearon. “Ninguno de los que habíamos conseguido salvar la vida gracias a algún milagro, ni tampoco aquellos que murieron en aquella guerra demente, tenemos muchas posibilidades de volver un día a ‘nuestro’ lado del Sava. Nos marchamos con miedo y precipitación, emprendimos las vías celestes o ‘imperiales’ que llevan a la muerte y el exilio.”

Los bosnios, que empieza con una plegaria, “Ave María, gratia plena…”, está dividido en tres partes –“Hombres”, “Ciudades” y “Alambradas”– más una sección final: “¿Post scriptum o post mortem (carta a un amigo muerto)?”. En la primera parte, emerge una voz colectiva, un “nosotros” que va desgranando las atrocidades cometidas para que las víctimas no queden confinadas en la infamia del anonimato. En “Hombres” hay nombres, aunque el lector pronto crea asistir a una especie de cementerio en continuado, cadáveres y más cadáveres apilados en el decurso de las páginas. Acaso no sea pertinente preguntarse, emulando a Adorno, si es posible la poesía luego de la guerra en los Balcanes, con 98 mil muertos, un millón de desplazados y una limpieza étnica sistemática; números aproximados que poco y nada dicen. Los números no hablan; verdad de Perogrullo que no viene mal, más allá de la obviedad, apuntar. Los muertos tampoco hablan, por eso Colic elige adoptar una voz que se parece al del narrador oral que articula relatos a través de testimonios, de testigos que completan parcialmente fragmentos brevísimos de historias espeluznantes. Como la historia de Adem –Adán, el primer hombre–, que caminaba encorvado como el filo de una hoz. Vivía en una casucha de adobe junto con su madre, hasta que los serbios se ensañaron con su joroba. “Por primera vez en su vida, Adem estaba erguido. Estaba de pie contra la pared de su casa natal, empalado en una estaca. Le habían roto la columna vertebral para enderezarla.”

Al gitano Ibro, que pese a ser musulmán se negó a huir de la ciudad natal del escritor cuando los soldados serbios entraron, le cortaron el cuello, como a su mujer y a su hijo. Como en “tiempos de los turcos”, plantaron las cabezas sobre las estacas de la empalizada que rodeaba su casa. Alma era una niña de siete años que vivía de la caridad brutal y voluble, de los borrachos a los que vendían flores. La bala de un francotirador la mató. La muerte sorprendió a Simo con los ojos abiertos de par en par. “A la pregunta habitual que le había hecho un oficial del Ejército Federal, si era serbio leal o no, Simo había respondido: ‘Soy serbio, en efecto, pero Bosnia es mi patria’. No era culpable de nada más.” Tanto horror seguido, narrado con una precisión quirúrgica, poniendo el acento en el verbo y prescindiendo de la adjetivación para generar un estado de vacilación persistente –lo verídico es tan excesivo, un hiperrealismo elevado a la enésima potencia que deviene absurdo o imposible–, resultaría insoportable. Para contar la tragedia en los Balcanes, esa zona de alta heterogeneidad y mescolanza con sus reyertas ancestrales, es indispensable el desvío a través del humor. El aire que suministra una dosis exacta de comicidad para continuar respirando, viviendo, leyendo. El escritor lo consigue insertando misceláneas protagonizadas por Huso y Haso, personajes populares de los chistes bosnios.

En “Ciudades” explora la agonía y la ruina de tantos sitios desaparecidos de la faz de la tierra, como el pueblo de Grapska. “El cementerio en el que reposaban los ‘bienaventurados’ que habían tenido la suerte de morir de muerte natural tampoco se salvó”, confirma el narrador cuya literalidad, fenómeno extraño, no es ironía. Por más paradójico que suene, en esas ciudades devastadas, sólo los cementerios son nuevos. Los habitantes entierran a sus seres queridos en lugares absurdos, en los parques públicos, en los jardines de sus propias casas, donde pueden. “No hay tiempo para ceremonias y lágrimas. Se cavan siempre dos o tres fosas por adelantado. Por los muertos venideros.” Los bosnios no es un libro de “respuestas” ni el equivalente bélico de la autoayuda. El dedo en la llaga que mete Colic en su debut literario –ojalá se traduzca pronto la elogiada Sarajevo ómnibus, su última obra, publicada por Gallimard– podría condensarse en esta frase-interrogante: “No importa, quememos, aniquilemos, más tarde encontraremos buenas razones para haber actuado de ese modo. Al fin y al cabo, ¿no nos han enseñado las guerras precedentes que, al final de un conflicto, los vencedores consiguen siempre justificarlo todo?”

«Do aceitar normais as notícias de guerra»

Papa Francisco

Guernica, Picasso. Os sofrimentos provocados pela guerra. O célebre quadro retrata o bombardeio da Cidade de Guernica, Espanha, pelas tropas de Hitler, a pedido de Franco

Guernica, Picasso. Os sofrimentos provocados pela guerra. O célebre quadro retrata o bombardeio da Cidade de Guernica, Espanha, pelas tropas de Hitler, a pedido de Franco. Crique na tela para ampliar

Escandalizar-se por um milhão de mortos da primeira guerra mundial tem pouco sentido se não nos escandalizarmos também pelos mortos nas tantas pequenas guerras de hoje. E são guerras que fazem morrer de fome muitíssimas crianças nos campos de refugiados, enquanto os mercadores de armas festejam. Foi um apelo a não permanecermos indiferentes diante dos conflitos que continuam a ensanguentar o planeta que o Pontífice lançou na missa celebrada na manhã de terça-feira 25 de Fevereiro na capela da Casa de Santa Marta.

A inspiração foi-lhe sugerida pelas duas leituras da liturgia, tiradas da carta de Tiago (4, 1-10) e do Evangelho de Marcos (9, 30-37). Exactamente o trecho evangélico, explicou o Pontífice, faz-nos reflectir particularmente. Nele narra-se que os discípulos «discutiam» e até «contendiam publicamente. E faziam-no para esclarecer quem fosse o maior entre eles: por ambição». E dado que «um ou dois deles queriam ser os maiores, discutiram: eis o litígio». Assim, disse o Pontífice, «o seu coração afastou-se». Os discípulos tinham «os corações distantes» e «quando os corações se afastam nasce a guerra». É esta precisamente a essência da «catequese que hoje o apóstolo Tiago nos oferece», disse o Papa, formulando esta pergunta directa na sua carta: «Meus irmãos, de onde vêm as guerras e os litígios que estão no meio de vós?».

«De onde vêm as guerras, litígios que estão no meio de vós? Não vêm porventura das vossas paixões que fazem guerra?», questiona-se Tiago. Sim, respondeu o Papa, a guerra nasce «dentro». Porque «as guerras, o ódio, a inimizade não se compram no mercado. Estão aqui, no coração». E recordou que «quando éramos crianças e nos explicavam no catecismo a história de Caim e Abel, todos ficávamos escandalizados: ele matou o seu irmão, não se pode tolerar!». E no entanto «hoje muitos milhões se matam entre irmãos, entre si. Mas estamos habituados!».

A paixão – disse o Pontífice – leva-nos à guerra, ao espírito do mundo». «Habitualmente, diante de um conflito, encontramo-nos numa situação curiosa», que nos impele a «continuar a altercar a fim de o resolver, com uma linguagem de guerra». Ao contrário, deveria prevalecer «a linguagem da paz». E quais são as consequências? O Papa respondeu: «Pensai nas crianças famintas nos campos de refugiados: pensai só nisto! É o fruto da guerra!». E acrescentou: «E se quiserdes, pensai nos grandes salões, nas festas que fazem aqueles que são os donos das indústrias de armas, que fabricam as armas». Portanto, as consequências da guerra por por um lado são «a criança doente, faminta num campo de refugiados», e por outro «as grandes festas» e a vida confortável que levam os fabricantes de armas.

«Mas o que acontece nos nossos corações?», questionou-se o Papa. «O conselho que nos dá o apóstolo – disse – é muito simples: aproximai-vos de Deus e Ele aproximar-se-á de vós». Um conselho que se refere a cada um, porque «este espírito de guerra que nos afasta de Deus, não está só longe de nós» mas «também da nossa casa», como demonstram, por exemplo, «as muitas famílias destruídas porque a mãe e o pai não conseguem encontrar o caminho da paz e preferem a guerra, fazer causa».

Eis o convite do Papa Francisco a «rezar pela paz». Rezar e seguir a exortação do apóstolo Tiago a reconhecer a «própria miséria», e desta miséria, advertiu o Papa, «vêm as guerras nas famílias, nos bairros, em todos os lugares».

Segundo o Papa, o que deve fazer hoje – hoje, 25 de Fevereiro – um cristão face a tantas guerras «deve, como escreve Tiago, humilhar-se diante do Senhor»; deve «chorar, fazer luto, humilhar-se». O Pontífice concluiu a sua meditação sobre a paz com uma invocação ao Senhor para que nos faça «entender isto» salvando-nos «do aceitar normais as notícias de guerra».

La crisis en Ucrania

La locura de la intromisión imperial
Josetxo Ezcurra1

 

 

Traducido para Rebelión por Germán Leyens

 

En 2004 Hungría se unió a la UE, esperando calles de oro. En su lugar, cuatro años después en 2008 Hungría se endeudó con el FMI. El rock en vídeo del grupo húngaro Mouksa Underground resume el resultado en Hungría actual de haber caído en manos de la UE y del FMI.

 

La canción trata de los resultados decepcionantes de caer en manos de la UE y del FMI, y en Hungría los resultados no son ciertamente alentadores. El título es “Desilusión con el cambio de sistema”. El texto es el siguiente:

 

Desde hace unos veinte años

Hemos estado esperando la buena vida

Para el ciudadano común

En lugar de riqueza tenemos pobreza

Explotación ilimitada

Esto es el gran cambio de sistema

Esto es lo que esperabais

No hay vivienda No hay alimento No hay trabajo

Pero eso es lo que nos habían prometido que no pasaría

Los de arriba

Nos devoran

 

Los pobres sufren todos los días.

Esto es el gran cambio de sistema

Esto es lo que esperabais

 

(Repetir)

 

¿Cuándo habrá un cambio verdadero?

¿Cuándo habrá un mundo digno de vivir?

Habrá la solución decisiva

Cuando este sistema económico sea abandonado para siempre

Esto es el gran cambio de sistema

 

Esto es lo que esperabais

 

(Repetir)

 

No hay ninguna solución que no sea revolución

 

Si tal vez los estudiantes de Kiev hubieran escuchado al grupo de rock húngaro en lugar de a las ONG de Washington, comprenderían lo que significa ser saqueado por Occidente, y Ucrania no estaría en el caos y orientada hacia la destrucción.

Como la secretaria de Estado adjunta Victoria Nuland dejó en claro en su discurso de diciembre pasado y en la grabación filtrada de su conversación con el embajador de EE.UU. en Kiev, EE.UU. gastó 5.000 millones de dólares de dólares del contribuyente preparando un golpe en Ucrania que derribó al gobierno democrático elegido.

 

El que se trató de un golpe es subrayado también por las obvias mentiras públicas que Obama ha expresado sobre la situación, culpando, por supuesto, al gobierno derrocado, y por la tergiversación de los eventos en Ucrania por los medios prostituidos de la prensa de EE.UU. y Europa. El único motivo para distorsionar los eventos es apoyar el golpe y encubrir la mano de Washington.

 

No cabe ninguna duda de que el golpe es una acción estratégica de Washington para debilitar Rusia. Washington trató de capturar Ucrania en 2004 con la “Revolución Naranja” que financió, pero fracasó. Ucrania formó parte de Rusia durante 200 años antes de recibir la independencia en los años noventa. Las provincias orientales y meridionales de Ucrania son áreas rusas que fueron agregadas a Ucrania en los años cincuenta por la dirigencia soviética a fin de diluir la influencia de los elementos nazis en Ucrania occidental que habían combatido por Adolf Hitler contra la Unión Soviética durante la Segunda Guerra Mundial.

 

La pérdida de Ucrania a manos de la UE y la OTAN significaría la pérdida de la base naval rusa en el Mar Negro y la pérdida de muchas industrias militares. Si Rusia aceptara una derrota estratégica semejante, significaría que Rusia se habría sometido a la hegemonía de Washington.

 

Sea cual sea el camino que emprenda el gobierno ruso, la población rusa de Ucrania oriental y meridional no aceptará la opresión por ultranacionalistas y neonazis ucranianos.

 

La hostilidad que ya se ha mostrado hacia la población rusa puede ser vista en la destrucción por ucranianos del monumento a las tropas rusas que expulsaron las divisiones de Hitler de Ucrania en la Segunda Guerra Mundial y la destrucción del monumento al general ruso Kutuzov, cuyas tácticas destruyeron el Gran Ejército de Napoleón y llevaron a la caída de Napoleón.

 

La cuestión del momento es si Washington cometió un error de cálculo y perdió el control del golpe a manos de los elementos neonazis que parecen haber arrebatado el control a los moderados en Kiev pagados por Washington, o si los neoconservadores en Washington habían estado trabajando con los neonazis durante años. Max Blumenthal dice esto último.

 

Los moderados ciertamente han perdido el control. No pueden proteger monumentos públicos, y se ven obligados a adelantarse a los neonazis legislando el programa neonazi. El parlamento ucraniano cautivo ha introducido medidas para prohibir todo uso oficial del lenguaje ruso. Esto, por supuesto, es inaceptable en las provincias rusas.

 

Como señalé en un artículo anterior, el propio parlamento ucraniano es responsable por la destrucción de la democracia en Ucrania. Sus acciones inconstitucionales y antidemocráticas han allanado el camino para los neonazis que ahora tienen el precedente de tratar a los moderados de la misma manera cómo los moderados trataron al gobierno elegido y ocultar su ilegalidad con acusaciones de crímenes y mandatos de arresto. Actualmente el ilegalmente depuesto presidente Yanukovych está en fuga. ¿Estará mañana en fuga el actual presidente, Oleksander Turchinov, puesto en su cargo por los moderados, no por el pueblo? Si una elección democrática no aseguró la legitimidad del presidente

Yanukovych, ¿cómo asegurará la legitimidad de Turchinov un retazo de parlamento?

 

Qué puede responder Turchinov si los neonazis le plantean la pregunta de Lenin a Kerensky: “¿Quién te eligió?”

 

Si Washington ha perdido el control del golpe y es incapaz de restaurar el control a los moderados que ha alineado con la UE y la OTAN, una guerra parecería inevitable. No cabe duda que las provincias rusas buscarían y obtendrían la protección de Rusia. No se sabe si Rusia iría más lejos y derrocaría a los neonazis en Ucrania occidental. Si Washington, que parece haber posicionado fuerzas militares en la región, suministraría la fuerza militar a los moderados para derrotar a los neonazis también está por ver, así como la reacción de Rusia.

 

En un artículo anterior describí la situación como “Sonámbulos de Nuevo”, una analogía con cómo los errores de cálculo resultaron en la Primera Guerra Mundial.

 

Todo el mundo debería estar alarmado ante la imprudente e irresponsable intromisión de Washington en Ucrania. Al crear una amenaza estratégica directa para Rusia, el demente hegémono en Washington ha urdido un enfrentamiento de Grandes Potencias y creado el riesgo de destrucción del mundo.

 

Paul Craig Roberts es un economista norteamericano, autor, columnista, antiguo adjunto al Secretario del Tesoro y autor del libro “ The Failure of Laissez Faire Capitalism”, entre otros.