O Recife em transe por um Galo

por Manuel Carvalho/ Público/ Portugal

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Há dois dias que o Galo da Madrugada ocupara, imponente, uma das pontes que cruzam o rio Capibaribe e ligam o bairro do Recife ao resto da cidade. Ontem, pela manhã, a majestade dos seus 27 metros de altura e as suas três toneladas conferiam-lhe um ar grandioso mas inocente, como se todos os esforços para a sua construção e instalação não tivessem passado de um capricho pueril. A cada hora que passava, porém, a sua presença começava a fazer cada vez mais sentido. Aos poucos, milhares, dezenas de milhar, centenas de milhar, seguramente mais de um milhão de pessoas começaram a concentra-se à sua volta. Os mais ousados fizeram questão de lhe passar por baixo, de o fotografar de todos os ângulos, de aparecer na fotografia como seu fosse uma figura pública, de o comentar, elogiar, ou de forma velada idolatrar. Outros esperaram ao longe, no recato, como se acumulassem energias para a luta.

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Até que lá para a uma da tarde quente de ontem todos aqueles artifícios explodiram. Lá ao fundo, começa-se a ouvir o barulho de fundo do trio eléctrico do Galo da Madrugada e foi como se um rastilho se tivesse acendido. Primeiro ao longe, a “muvuca” ganha força, contagia as margens da Avenida Guararapes, irrompe pelas paralelas, instala-se nas ruas particulares e o Carnaval toma conta da multidão. Seria assim, sempre assim, nas muitas horas seguintes. A cada passagem de um dos previstos 30 trios eléctricos (camiões transformados em palcos gigantescos, decorados com colunas nas laterais e na parte traseira), as canções repetiam-se e a multidão acentuava o seu transe. “Chegueeei, Recife/Foi a saudade que me trouxe pelo braço…”, “Quando a maré encher/toma banho de canal quando a maré encher”, “Ai que calô, ôôô, ôôô”.

No eixo da avenida uma imponente força policial acentuava a tensão, o clima de risco, como se fosse necessário um outro acelerador da adrenalina. Nos camarotes de gente VIP, prolongavam-se as danças que vinham do pavimento. No asfalto, a multidão foi ficando cada vez mais compacta. Quando os camiões passavam, grupos de homens musculados esticavam uma corda à sua frente para forçar as pessoas a comprimirem-se ainda mais contra os edifícios. Os corpos suados eram forçados a colarem-se, a vontade de seguir uma direcção de pouco valia face à força da corrente humana, que apesar de tudo dançava, cantava, erguia as mãos em gesto de permanente celebração. Como se tivesse entrado em transe provocado pelo calor, pela música debitada em caudais de decibéis que faziam os ouvidos zumbir e o peito baquear.

É difícil imaginar o que uma multidão possuída pelo Carnaval pode sofrer para seguir um trio eléctrico e dançar. Dançar contra a falta de espaço, contra as calcadelas, os empurrões, o desvario dos mais endiabrados pode ser um sacrifício com que se cumpre a promessa do Carnaval.

No meio daquela quase loucura que ajuda a explicar os lados mais irracionais das multidões, porém, havia uma rede invisível que não aparece nos relatos oficiais do Carnaval do Recife. A das centenas de homens e mulheres que se mantinham no meio da loucura com as suas caixas de esferovite cheias de gelo e de cervejas geladas. Ou ainda a teia logística de homens que com caixas de latas e sacos de gelo conseguiam vencer os muros da multidão para as abastecer. Se os foliões merecem o Galo da Madrugada pelo empenho com que o devotam, essa rede de homens e mulheres têm o direito de reclamar para si o heroísmo de lhes tornar o seu dia bem mais suportável.

Rio, samba, suor e frenesi

A previsão meteorológica anuncia pancadas de chuva dispersas e suaves durante os dias de Carnaval, o que, ao contrário do que se poderia imaginar, é uma notícia fantástica para os milhões de pessoas que sairão às ruas do Rio para se contorcerem ao som do samba e das velhas marchinhas que se repetem como um mantra durante todo o festejo. Os termômetros registram máximas de 40 graus em vários pontos da cidade, e o sol que anuncia a reta final da canícula fustiga inclemente uma multidão, regada a álcool e com pouca roupa, que se junta em redemoinhos ao redor das batucadas.

Neste ano as novidades são poucas, pois a realização da Copa do Mundo, a partir do próximo mês de junho, já significa uma atração por si só. A cidade está tomada pelos meios de comunicação de todo o planeta, ávidos por mostrarem a idiossincrasia de um país que promete realizar a “Copa das Copas”.

A avenida Marquês de Sapucaí, onde fica o popular sambódromo, desenhado há 30 anos pelo falecido arquiteto brasileiro Oscar Niemeyer, será mais uma vez o cenário de um dos mais emocionantes espetáculos televisivos do planeta. Ao longo dos seus 700 metros de comprimento desfilarão durante as noites de domingo e segunda-feira as doze escolas de samba que competem no chamado Grupo Especial (a “primeira divisão” do Carnaval), em um novo esbanjamento de alegria, ritmo e dinheiro (os estratosféricos orçamentos de uma escola de samba podem superar os 18 milhões de reais).

O obscuro mundo das escolas de samba não esteve isento de polêmicas nas últimas décadas, e sobre ele recai tradicionalmente uma sombra de dúvida a respeito das suas formas de financiamento. Não são poucos os presidentes dessas agremiações que foram vítimas de ajustes de contas ou que acabaram nas capas dos jornais sob graves acusações de envolvimento com negócios turvos, como o narcotráfico e as redes clandestinas do jogo do bicho.

Seja como for, o trigésimo aniversário do sambódromo está sendo celebrado em grande estilo no Rio. As autoridades cariocas estão cientes de que o desfile das escolas projeta uma imagem espetacular da cidade, dando a volta ao mundo com transmissões ao vivo ou gravadas em mais de 150 canais de televisão. O investimento é enorme, mas os benefícios gerados são provavelmente maiores.

“Por aqui passaram muitas histórias, muitas alegrias, muitos acidentes, que também fazem parte do maior espetáculo do planeta, mas certamente também aconteceu muita aprendizagem, já que muitas pessoas que não têm acesso à cultura acabam tendo através do Carnaval”, explica, na avenida, Wilson Neto, coroado como Rei Momo carioca 2014.

Wilson se refere, em certa forma, às 2.500 pessoas que trabalham em tempo integral na Cidade do Samba para construir os carros alegóricos e as fantasias que desfilarão pelo sambódromo. O Carnaval é um negócio em si mesmo, que dá formação e emprego a muita gente humilde e que tem suas próprias leis de oferta e demanda. Por exemplo, quem quiser arrumar ingressos de última hora para o desfile das escolas tem de pagar quantias obscenas no mercado negro.

Até a próxima Quarta-Feira de Cinzas, 492 blocos estão autorizados a desfilarem nas ruas do Rio. Essas charangas conseguem arrastar autênticas marés humanas, como é o caso do tradicional Cordão do Bola Preta, que está acostumado a reunir a mais de 1,5 milhão de pessoas no centro da cidade. Este é o Carnaval de quem não tem interesse ou dinheiro para se deleitar com os ouropéis do sambódromo; um carnaval plebeu e de rua, desterrado durante décadas da agenda oficial e dos guias de turismo, mas que veio ganhando mais protagonismo até se tornar o verdadeiro leitmotiv de quem vem para o Rio querendo esquecer suas agruras.

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Neste ano, uma conhecida marca de preservativos decidiu redobrar a aposta no que já é por si só uma das festas mais libertinas do planeta, instalando uma cápsula flutuante em que os casais poderão dar rédea solta ao seu ardor carnal sobre milhares de almas embaladas por samba, suor e frenesi. [Transcrevi trechos]

Recife. E a festa tão ansiada começou

por Manuel Carvalho
Público/ Portugal

Pela manhã, um dos jornais diários do Recife titulava a toda a capa: “Que felicidade”. Raramente uma manchete de um jornal consegue acertar com tanta precisão antes do acontecimento como a do Diário de Pernambuco. Uma fotografia de uma pessoa em pose eufórica, com um gesto algures entre o devaneio e a celebração era apenas uma boa antecipação do que se preparava para acontecer nessa noite no Marco Zero, o epicentro da geografia e, por afinidade, da cultura do Recife e de Pernambuco. Depois do final da tarde, centenas de milhar de pessoas invadiram o bairro antigo para serem felizes, para dançarem como se nunca tivessem dançado, para rirem como se tivessem esperado, para se abraçarem como se despedissem para longas ausências.

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E difícil descrever o que é o Carnaval no Recife. Por causa dos semblantes, do movimento, da forma como se dança, sem dúvida. Mais ainda por causa da impossibilidade de descrever tantos odores, de queijo coalho na prancha, das espetadas, do suor, da maconha, do esgoto fugaz mas insistente. Ou da música, do som dionisíaco das orquestras de frevo, do estilo forró que sai dos palcos, do maracatu que cruza as ruas ou dos trios ou quartetos de homens tisnados do sol que vêm do interior apenas para tocar numa esquina do carnaval. Como de Bosco, que veio do Lajedo com o seu grupo de bombo, caixa, flauta e pratos para colonizar uma esquina com aquele ritmo irresistível da miscigenação cultural do Brasil. Após tantas dimensões impenetráveis do Carnaval do Pernambuco fica uma certeza: é um dos maiores festivais de World Music do mundo.

Foram quase três horas de concerto no palco grande, no Marco Zero, onde passaram cantores indígenas e anónimos e pernambucanos conceituados como Lenine – Elba Ramalho não é pernambucana de nascimento, mas foi adoptada e por lá passou também. Mas se na sua órbita gravitavam os corpos em movimento de milhares de pessoas, a quintessência do Carnaval recifense passava-se nas ruas do interior do bairro primordial da cidade. Era lá que esse enorme caos controlado melhor se expressava. Grupos de jovens em correria, homens e mulheres de idade provecta, crianças, pretos, brancos, pardos e de todas as outras tonalidades do Brasil, rapazes que carregavam caixas de esferovite com cerveja e outras bebidas frescas, pobres que apanhavam as latas ou as garrafas plásticas do chão, mascarados ou anódinos, o enorme torvelinho do Carnaval fazia ali todo o sentido no seu aparente caos.

E porquê? Porque, talvez, tudo aquilo era colado por uma cultura que todos partilham e um estado de espírito que todos comungam. Uma obrigação voluntária, passe o contra-senso. É difícil entender esse Carnaval porque se nota que se incrustou nas pessoas que, como uma criança com os seus quatro anos que integrava um dos blocos de maracatu, batem nos tambores desde que são o que são. Aos de fora, não há muita oportunidade para perceber tanta música, tanta gente, tanto odor, tanto riso e tanta paixão. O melhor mesmo é seguir o bloco, deixar-se guiar pelo frevo e reconhecer ao menos que aquela é uma festa que sublinha a felicidade e tudo o que há de melhor do género humano.

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Crueldade pernambucana: “Patrimonio Vivo” só tem valor quando morre

O Frevo é um Patrimônio Imaterial da Humanidade. Mas em Pernambuco só é cantado e dançado no Carnaval.
As secretarias estadual e municipais de Cultura promovem shows todos os finais de semana, mas riscam o Frevo da programação.
Os donos dos grandes e_ventos estão interessados em gastar. O bom tem que ser caro. Com essa visão capitalista estão destruindo o nosso rico patrimônio artístico-cultural.
Ninguém toca mais Capiba, Nelson Ferreira, Antonio Maria, Edson Rodrigues, inesquecíveis nomes da música brasileira.
Outro eterno, Duda, Patrimonio Vivo de Pernambuco, dá o seguinte testemunhal
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Duda

Aposentadoria Forçada. Maestro Duda reclama da falta de convites para se apresentar

por Camila Souza

Já faz tempo que o arranjador e compositor José Ursicino da Silva, o Maestro Duda, abandonou o convívio diário com os instrumentos. “Já não dá mais vontade. São tantas as injustiças com a nossa cultura”, confessa. A maior delas, com o frevo, acredita o músico. “O formato do carnaval restringiu as grandes orquestras do gênero aos palcos. Saímos das ruas. Nos afastamos do público. E tocar durante o ano é ainda mais difícil. Depois de fevereiro, me apresentei uma única vez no Recife em 2013”, revela. Em 2014, ele fará apenas dois show durante o carnaval: no domingo, na Lagoa do Araçá, e na terça, no Ibura, além de reger uma música do orquestrão, no encerramento, no Marco Zero.
Na contramão da agenda, Duda conserva a mente criativa em ritmo frenético, ao lado da mulher, dona Mida, “a razão de tudo”. Há pouco, fez o arranjo de um frevo-canção inédito de Alceu Valença, Beija-flor apaixonado, gravado em dueto com Fafá de Belém.
Desenhou a versão de Qui nem jiló, gravada por Zeca Pagodinho no CD Minha metade, de Maciel Melo. “Eu ainda tenho muito gás”, garante. Os 78 anos recém-completados em dezembro – deles, 70 foram dedicados à música – trazem na bagagem prêmios e incursões em gêneros variados. Compôs choros gravados por Severino Araújo e sambas cantados por Jamelão, além de musicar peças de teatros, como Um americano no Recife, dirigida por Graça Melo.
O frevo veio como uma vocação. “Estava no meu sangue”, acredita. Ainda menino, em Goiana, Duda tomou gosto pela música. O pai, Lídio Pereira da Silva, era baterista da Banda Saboeira, uma das mais antigas em atividade no mundo. De tanto ouvi-lo, traçou passos parecidos. Aos oito anos, escolheu o sax horn para dominar. “Era o instrumento mais fácil. Eu queria tocar de qualquer jeito.” Aos 12, escreveu o primeiro frevo, Furacão. “Por incrível que pareça, não consigo lembrar dele. Já tentei encontrá-lo, mas nada. Só me recordo de tê-lo chamado assim porque era o nome de um filme em cartaz no Cine Polytheama na época”, conta.
Três anos depois, já no Recife, o maestro ingressou na Jazz Band Acadêmica. A partir daí, foi uma escalada de sucessos. Tocou nas orquestras das rádios Tamandaré e Jornal do Commercio, até conseguir uma vaga na Sinfônica do Recife. Precisou aprender oboé e corne inglês durante aulas na Universidade Federal de Pernambuco.
“Foi quando eu amadureci o dom. Até então, eu era um autodidata, curioso. Depois da OSR, passei a ver a música com outros olhos”, conta. Em pouco tempo, Duda se tornou arranjador da orquestra. E, mais tarde, um dos maiores de todos os tempos no que diz respeito ao frevo.
Há mais de 30 anos, o músico esteve envolvido, ao lado de Carlos Fernando, no projeto
que revolucionou o gênero, o Asas da América. Muitas das músicas nascidas tinham seu dedo. “Nós mudamos a história do frevo. Demos uma outra roupagem. E é ela que está nas ruas até hoje. Não houve qualquer renovação. E não é por que não surgiram novas músicas. É porque não existe divulgação”. Ele recorda uma canção de Dudu do Acordeom, Baile celestial, cujo arranjo assina. “A faixa foi uma das vitoriosas do I Festival de Frevo da Humanidade (em 2013). No entanto, dificilmente, ‘você’ ouvirá. As rádios não tocam. Assim é impossível renovar”, arremata.
Depoimentos
Considero Maestro Duda um gênio. É uma das pessoas responsáveis por manter viva a alma de um povo. Possivelmente, neste segundo semestre, lançaremos o filme Sete corações, com direção de Andrea Ferraz. E Duda é um desses corações. Para mim, ele tem o poder de fazer uma coisa bela, emocionante e simples. Ele tem esse poder. Sou fã incondicional. Sempre que possível, eu o plagio”
– Spok
Maestro Duda é um dos maiores nomes do frevo. É extremamente competente. Desde que comecei a pesquisar e compor frevo, tomei nota de vários artistas. O nome dele é um dos primeiros. Ele é referência para todo mundo. Tive a sorte de tê-lo como arranjador da música Baile celestial, o que contribuiu para a música ser uma das vitoriosas do I Festival de Frevo da Humanidade”
– Dudu do Acordeom
É uma das referências vivas que ainda temos no nosso carnaval. Precisamos valorizá-lo não somente pelo que ele fez no passado, mas pelo que ele continua fazendo até hoje pelo frevo. Além de ser um megamaestro, é uma pessoa de coração generoso. Nunca fez a música pernambucana para si. Ele, acima de tudo, quis mostrar seus passos e sua arte. Só somou para a gente”
– Almir Rouche
Patrimônio Vivo
Em 2010, o Maestro Duda foi agraciado com o título de Patrimônio Vivo de Pernambuco. Desde então, recebe uma bolsa vitalícia no valor de R$ 1021,72. Como tem feito poucas apresentações, o auxílio governamental é a principal fonte de renda do músico, além de uma aposentadoria de R$ 724.

Antonio Maria

Bola no fotógrafo
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por Urariano Mota
Antonio Maria

Antonio Maria

A memória da gente anda muito esquecida. Quase ninguém lembrou os 88 anos do nascimento de Antonio Maria. Se em toda a grande e média imprensa nada se disse, não foi por falta da importância de um certo Antonio Maria, que se apresentava como “cardisplicente”, mistura de doente do coração com displicente. E tanta coisa havia e há para falar sobre ele!

Nascido no Recife em 17 de março de 1921, se apenas fosse compositor, deveria ter merecido registros e especiais no rádio, na televisão e nos jornais. Autor de 62 músicas, de canções eternas como Frevo número 1, Ninguém me ama, Manhã de carnaval, Menino grande, Suas mãos, O amor e a rosa, Valsa de uma cidade, e, de passagem, digamos assim, autor desta vã promessa, “nunca mais vou fazer o que o meu coração pedir, nunca mais ouvir o que o meu coração mandar”, haveria muito o que falar sobre esse compositor de letras que são a ternura em quintessência.

Num coluna de revistas de curiosidades e fofocas, poderia ser dito que foi marido de Danuza Leão, roubada por ele do seu patrão, o grande jornalista Samuel Wainer. E que, ao receber o troco mais adiante, ficando só, morreu de fossa e de amor, em uma madrugada três e cinco, talvez. Que feio, grande e gordo, conquistava mulheres pelo poder da lábia e da inteligência. Que foi ameaçado por Sérgio Porto (sim, o Stanislaw), por ter servido de conselheiro sentimental a uma namorada de Sérgio. E que ao se apresentar como Carlos Heitor Cony a uma madame, levou-a para a cama, para depois contar ao verdadeiro Heitor, “Cony, você broxou”. 

Mas ele poderia ter sido lembrado, reverenciado, e lido principalmente por suas crônicas, que estão entre as maiores e melhores já escritas no Brasil. Suas crônicas, quase dizia, suas mãos, misturam humor, crueldade e lirismo, a depender dos dias e da sua vida, que não eram iguais, para ele ou para ninguém. Como neste perfil arguto de Aracy de Almeida: 

“Não é bonita, sabe disso e não luta contra isso. Não usa, no rosto, baton, rouge ou qualquer coisa, que não seja água e sabão. Ultimamente corta o cabelo de um jeito que a torna muito parecida com Castro Alves… Faz de cada música um caso pessoal e entrega-se às canções do seu repertório como quem se dá um destino. Não sabe chorar e não se lembra de quando chorou pela última vez. Mas a quota de amargura que traz no coração, extravasa nos versos tristes de Noel: `Quem é que já sofreu mais do que eu?/ Quem é que já me viu chorar?/ Sofrer foi o prazer que Deus me deu´… e vai por aí, sem saber para onde, ao frio da noite, na espera de cada sol, quando o sono chega, dá-lhe a mão e a leva para casa”

Ou aqui, dias antes de morrer:

“Há poucos minutos, em meu quarto, na mais completa escuridão, a carência era tanta que tive de escolher entre morrer e escrever estas coisas. Qualquer das escolhas seria desprezível. Preferi esta (escrever), uma opção igualmente piegas, igualmente pífia e sentimental, menos espalhafatosa, porém. A morte, mesmo em combate, é burlesca…

Só há uma vantagem na solidão: poder ir ao banheiro com a porta aberta. Mas isto é muito pouco, para quem não tem sequer a coragem de abrir a camisa e mostrar a ferida”.

E por fim aqui, nestas considerações sobre o sono:

“** Ah, que intensos ciúmes, no passado e no futuro, sobre a nudez da amada que dorme! Só você a viu, só você a verá assim tão bela!

** Nas mulheres que dormem vestidas há sempre, por menor que seja, um sentimento de desconfiança.

** A amada tem sob os cílios a sombra suave das nuvens.

** Seu sossego é o de quem vai ser flor, após o último vício e a última esperança.

** Um homem e uma mulher jamais deveriam dormir ao mesmo tempo, embora invariavelmente juntos, para que não perdessem, um no outro, o primeiro carinho de que desperta.

** Mas, já que é isso impossível, que ao menos chova, a noite inteira, sobre os telhados dos amantes”

A boa memória conta que Antonio Maria exclamava no rádio, ao ver um jogador chutar fora do gol: Bola no fotógrafo!.Nesse último 17 de março, para a mídia que não o lembrou, também vale dizer: bola no fotógrafo.
(Publicado no Literário)
 

Frevos de Antonio Maria

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Ai, ai, saudade
Saudade tão grande
Saudade que eu sinto
Do Clube dos Pás, dos Vassouras
Passistas traçando tesouras
Nas ruas repletos de lá
Batidas de bumbo
São maracatus retardados ‘
Que voltam pra casa cansados
Com seus estandartes pro ar
Quando eu me lembro
O Recife tá longe
A saudade é tão grande
Eu até me embaraço
Parece que eu vejo
O Haroldo Matias no passo
Valfrido e Cebola, Colasso
Recife tá perto de mim
Saudade que eu tenho

São maracatus retardados
Que voltam pra casa cansados
Com seus estandartes pro ar

 

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Ai que saudade vem do meu Recife
Da minha gente que ficou por lá
Quando eu pensava, chorava, falava
Dizia bobagem, marcava viagem
Mas não resolvia se ia
Vou-me embora
Vou-me embora
Vou-me embora
Pra láMas tem que ser depressa
Tem que ser pra já
Eu quero sem demora
O que ficou por lá
Vou ver a Rua Nova,
Imperatriz, Imperador
Vou ver, se possível
Meu amor.
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Alexandre Nix:  Antonio chutava corações – normalmente o próprio

Alexandre Nix:
Antonio chutava corações – normalmente o próprio

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Sou do Recife com orgulho e com saudade
Sou do Recife com vontade de chorar
O rio passa levando barcaça pro alto mar
E em mim não passa essa vontade de voltarRecife mandou me chamarCapiba e Zumba a essa hora onde é que estão
Inês e Rosa em que reinado reinarão
Ascenso me mande um cartão
Rua antiga da Harmonia
Da Amizade, da Saudade, da União
São lembranças noite e dia
Nelson Ferreira toque aquela introdução.
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